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sábado, 30 de maio de 2020

“NENHUM ALÍVIO POSSÍVEL, ATÉ A EXTINÇÃO!”*: UMA HISTÓRIA DA DIVISÃO AZUL

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No ano de 1936 eclodiu a Guerra Civil Espanhola, um sangrento conflito no qual a urbana e progressista Segunda República Espanhola lutou contra os carlistas, aristocráticos e conservadores Nacionalistas (ou Falangistas), muitos de orientação fascista, liderados pelo general Francisco Franco, que venceu o conflito no início de 1939 e governou o país com mão de ferro até sua morte, em novembro de 1975.

A esmagadora vitória dos Nacionalistas só foi possível por causa da fundamental ajuda da Alemanha Nazista e da Itália Fascista, que colaboraram com armas, suprimentos e tropas, destacando a “Legião Condor” da Luftwaffe (Força Aérea Alemã) e o “Corpo Truppe Volontarie” (Corpo de Tropas Voluntárias) italiana, forças altamente treinadas e preparadas para lutar contra as tropas Republicanas, muitas delas formadas de voluntários.

Logo após o fim da Guerra Civil, teve início a Segunda Guerra Mundial, onde inicialmente Alemanha e Itália inicialmente lutaram contra Inglaterra e França, tornando-se mundial com a entrada do Japão e dos Estados Unidos em 1941. Nesse mesmo ano a Alemanha viola um tratado de não-agressão contra a União Soviética e invade a mesma no dia 22 de agosto.

Como uma forma de “recompensar” a ajuda dada pela Alemanha para a vitória dos Nacionalistas, o general Franco permitiu que um grupo de voluntários se incorporassem ao Exército Alemão, enviando uma proposta diretamente a Adolf Hitler. Hitler aprovou a proposta no dia 24 de junho e determinou que os voluntários espanhóis fossem enviados para o Teatro de Operações soviético, que nesse momento dava início a Operação Barbarossa.

FORMAÇÃO DA DIVISÃO

Inicialmente a proposta era de se enviar cerca de quatro mil soldados, mas devido ao grande número de pessoas que se voluntariaram nos primeiros dias o governo espanhol percebeu que poderia ser formada uma divisão reforçada, com mais de 18 mil homens, com cerca de dois mil oficiais e o restante praças e soldados. Mais da metade dos voluntários eram militares de carreira do Exército Espanhol, complementado com falangistas veteranos da Guerra Civil e estudantes das diversas universidades espanholas.

O Brasão da "Divisão Azul"
Como os soldados não podiam utilizar o uniforme do exército espanhol, porque oficialmente a Espanha havia declarado uma posição de neutralidade no conflito, foi adotado um uniforme que abrangia as boinas vermelhas dos carlistas, as calças de cor caqui usadas na época da Guerra Civil e as camisas azuis dos falangistas, por esse motivo a tropa foi apelidada de “Divisão Azul”. Este singular uniforme foi utilizado apenas durante o treinamento na Espanha; na Rússia os soldados usaram o uniforme verde-cinza padrão do Exército Alemão (Heer), ligeiramente modificado para mostrar na parte superior da manga direita a palavra “España” e as cores nacionais espanholas.

Um pequeno contingente de aviadores falangistas também se voluntariou e formaram a “Esquadrilha Azul” (15. Spanische Staffel, incorporada inicialmente ao JG 27 e depois ao JG 51), a qual, a bordo de aeronaves Messerschmitt Bf 109 e Focke-Wulf Fw 190 foi creditada com 156 vitórias contra aviões soviéticos.
Caça Messerschmitt Bf 109F-2 da "Esquadrilha Azul", 15.(span.)/Jagdgeschwader 51, durante o inverno de 1942/1943.



 O general Augustin Muñoz Grandes
Franco designou para o comando da divisão o general Agustín Muñoz Grandes, um de seus mais fiéis aliados e que na década de 1960 viria a se tornar Vice-Presidente do Governo Espanhol.

DESLOCAMENTO PARA A RÚSSIA E INÍCIO DAS OPERAÇÕES

Em 13 de julho de 1941 saiu de Madri para Grafenwöhr na Baviera, Alemanha, o primeiro trem de voluntários para passar cinco semanas de instrução. O corpo formado por estes voluntários ganhou a denominação de “250. Einheit Spanischer Freiwilliger” (250ª Unidade de Voluntários Espanhóis, em tradução livre), Divisão de Infantaria, e foi dividido inicialmente em quatro regimentos, como era padrão no exército espanhol. Para se adequar à organização padrão do exército alemão, um dos regimentos foi eliminado, e seus efetivos foram distribuídos nos três restantes.

Os regimentos tomaram o nome das três cidades espanholas de onde procedia a maioria dos voluntários: Barcelona, Valência e Sevilha. Cada regimento tinha três batalhões, formados por quatro companhias cada um, assim como um regimento de artilharia dotado de três baterias de 150 mm e de uma bateria reserva pesada como reforço. Além disso, canhões antitanque reforçavam o fogo da artilharia.

Seguindo ordens dadas pessoalmente por Hitler, a nova divisão foi incorporada ao 16º Exército Alemão, integrante do poderoso Grupo de Exércitos Centro, formado por cinco exércitos e 42 divisões, com a missão de tomar a capital da União Soviética, Moscou. Em 20 de agosto, após fazer o juramento (que foi modificado especialmente para mencionar a luta contra o comunismo), a Divisão Azul foi enviada à frente russa. Foi transportada por trem a Suwalki, na Polônia, de onde tiveram de continuar a pé. Depois de avançar até Smolensk, se dispersou no Cerco de Leningrado (hoje São Petersburgo) e iniciou as ações contra o Exército russo.
 
Soldados da "Divisão Azul em combate durante o rigoroso inverno russo de 1942/1943. (Reprodução Internet)


A Divisão Azul sofreu pesadas perdas na batalha em Leningrado, devido tanto ao combate quanto à ação do rigoroso inverno russo, com temperaturas entre -30 a -50ºC. A partir de maio de 1942 começaram a chegar da Espanha mais tropas para cobrir as baixas e substituir os feridos. Um total de 45.482 voluntários serviram na Frente Oriental, muitos deles condecorados por bravura tanto pelo exército espanhol quanto pelo alemão, inclusive o próprio Adolf Hitler criou, em janeiro de 1944, uma medalha exclusiva para os combatentes da Divisão Azul, a “Medalha da Divisão Azul”, entregue aos homens que se dedicaram na luta contra o Exército Vermelho.

“KRASNY BOR”, DISSOLUÇÃO, “LEGIÃO AZUL” E A “SS 101”

Entre os dias 10 e 13 de fevereiro de 1943 cerca de 6 mil espanhóis equipados com armamento leve enfrentaram quatro divisões soviéticas, com cerca de 45 mil soldados, apoiados por artilharia pesada e cerca de 100 tanques, na “Batalha de Krasny Bor”, na região sul de Leningrado. O Exército Vermelho estava disposto a destruir os espanhóis através de um grande ataque em forma de pinça, mas encontraram uma forte defesa da Divisão Azul, que suportou o pesado fogo soviético de sete ataques, e a despeito de ter sofrido mais de 4 mil baixas, repeliu as forças russas que perderam entre 11.000 e 14.000 homens, que encerraram a ofensiva no setor.
 
Plano soviético para a Operação "Polyarnaya Zvezda" ("Estrela Polar") que culminou na Batalha de Krasny Bor, vencida pelos espanhóis. (Reprodução Wikipedia)

Após a Batalha de Krasny Bor a divisão permaneceu guarnecendo sua posição, mas as pesadas baixas forçaram os alemães a mandarem suas próprias tropas para substituírem os espanhóis, tal fato coincidindo com a mudança no comando da divisão, que foi designada ao general Emilio Esteban Infantes, pois o general Agustín Muñoz Grandes era contrário à retirada. Eventualmente os Aliados e a Igreja Católica começaram a exercer pressão sobre Franco para que retirasse as tropas voluntárias. As negociações iniciadas por ele, no fim de 1943, foram concluídas com uma ordem de repatriação gradual em 10 de outubro.
 
O general Emilio Esteban Infantes. (Reprodução Internet)
Alguns soldados espanhóis se recusaram a retornar, pois queriam continuar na luta contra os soviéticos e o comunismo, então Franco permitiu não-oficialmente que um pequeno grupo de cerca de 3.000 homens permanecessem, formando a “Legião Azul”, ainda integrada ao Exército Alemão, que lutou até março de 1944, quando Franco ordenou o retorno de todos.

Todavia alguns membros (cerca de 140 homens) não obedeceram a ordem de Franco e foram incorporados a diversas unidades da Waffen-SS (as tropas de combate diretamente ligadas a Hitler e ao Partido Nazista), destacando-se a “SS 101. Spanische Freiwilligen Kompanie” (101ª Companhia de Voluntários Espanhóis), alguns membros, como parte da 11ª Divisão voluntária Nordland dos SS Panzergrenadier e sob o comando do SS-Haupsturmführer Miguel Ezquerra, lutaram até o final da guerra, na Batalha de Berlim, em 1945.

O número de perdas da Divisão Azul contabiliza 4.954 mortos e 8.700 feridos. Além disso, as forças russas fizeram 372 prisioneiros dessa divisão, da Legião Azul ou dos voluntários da SS 101. Desses, 286 foram mantidos em cativeiro até 1954, quando voltaram para a Espanha no dia 02 de abril de 1954.

OS PORTUGUESES DA DIVISÃO AZUL

Nem todos os integrantes da Divisão Azul eram espanhóis. Um grupo de cerca de 150 a 200 voluntários portugueses (algumas fontes falam em até mil homens!) foram autorizados pelo Presidente de Portugal, Antônio de Oliveira Salazar a se juntarem a Divisão Azul, também com o mesmo objetivo de lutar contra o comunismo. Portugal, assim como a Espanha, também se declarou neutro com o início do conflito, mesmo o governo português tendo uma aliança história com a Inglaterra.

Os portugueses lutaram ao lado dos espanhóis no Teatro de Operações russo e muitos não retornaram, mortos ou capturados. Alguns homens, quando da ordem de retorno da divisão à Espanha, continuaram nas fileiras da Wehrmacht, mas o número exato é desconhecido, pois existem poucos relatos precisos sobre a participação dos portugueses na guerra.

O LEGADO DA DIVISÃO AZUL

Apesar da Divisão Azul ter lutado apoiando um regime totalitário e brutal como foi o Nazismo, os seus 46 mil membros totais cumpriram o seu dever com honra e bravura, dada a complexidade da missão, das péssimas condições climáticas e do terreno, além da força e do tamanho do Exército russo, que praticamente engoliu a Wermacht, que deu marcha a ré até Berlim.
 
"Medalha da Divisão Azul", concedida pessoalmente por Adolf Hitler 
aos membros da divisão que lutaram na Rússia. (Reprodução Wikipedia)
Mesmo assim é de ressaltar que mais de 75 anos depois de sua missão nas estepes russas, ainda há de se destacar a valorosa participação de espanhóis e portugueses, que lutara, a despeito de muitas adversidades, contra um poderoso inimigo e, como no caso da Batalha de Krasny Bor, onde membros da divisão lutaram contra um inimigo quase dez vezes maior, que conseguiram sobreviver e defenderem a sua honra e valor.






Monumento aos membros da "Divisão Azul" mortos na Campanha da Rússia, em Madri. (Reprodução Wikipedia)


ORDEM DE BATALHA DA DIVISÃO AZUL (250º DIVISÃO DE INFANTARIA)






Julho de 1941:

262º, 263º e 269º Regimento de Infantaria (Granadeiros)
250º Regimento de Artilharia (04 batalhões + 01 reforço)
250º Batalhão “Panzerjäger” (Caça-Tanques)
250º Batalhão de Reconhecimento
250º Batalhão “Feldersatz” (Substitutos)
250º Batalhão de Engenharia
250º Batalhão de Sinaleiros
Esquadrão de Suprimento

Setembro de 1943:

262º, 263º e 269º Regimento de Infantaria (Granadeiros)
250º Regimento de Artilharia (04 batalhões + 01 reforço)
250º Batalhão “Panzerjäger” (Caça-Tanques)
250º Batalhão de Reconhecimento
250º Batalhão de Engenharia
250º Batalhão de Sinaleiros
Esquadrão de Suprimento

* O Lema da Divisão Azul. Original em espanhol: “Sin relevo posible, hasta la extinción.

FOTO DE CAPA: Pintura retratado a "Divisão Azul" em combate próximo a Krasny Bór, em 1943.(Reprodução Internet)

Com informações retiradas da Wikipedia.


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Por Luiz Reis, Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar, fotógrafo amador. Brasiliense com alma paulista, reside em Fortaleza-CE. Luiz colaborou com o Canal Arte da Guerra e o Blog Velho General e atua esporadicamente nos blogs da Trilogia Forças de Defesa, também fazendo parte da equipe de articulistas do GBN Defense. Presta consultoria sobre História da Aviação, Aviação Militar e Comercial. Contato: [email protected]



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O NORDESTE E O ‘TRAMPOLIM DA VITÓRIA” DA II GUERRA MUNDIAL

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Em 1941 a Europa já estava em guerra por dois anos, sendo que no final do mesmo ano o conflito iria se tornar mundial com as entradas do Japão e dos Estados Unidos. O Brasil ainda mantinha uma posição política de neutralidade, pois a ditadura de Getúlio Vargas exercia uma posição ambígua sobre qual posicionamento iria tomar em caso de se entrar em guerra, ora oscilando para o lado do Eixo (devido a orientação de cunho fascista do regime varguista), ora para os recém-formados Aliados (pois os Estados Unidos deram prévio suporte financeiro e tecnológico para a construção da primeira siderúrgica brasileira, a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional).

No ano seguinte, mais precisamente em agosto de 1942, com os ataques de submarinos alemães e italianos em nossa costa, com o afundamento de vários navios, Vargas tomou uma decisão e no dia 22 declarou guerra contra as forças do Eixo. A partir desse momento, iniciaram-se negociações para que o Nordeste brasileiro fosse utilizado pelos Estados Unidos como rota para o transporte de vitais suprimentos e o translado de aeronaves rumo ao Teatro de Operações europeu.

Do resultado dessas negociações, o Brasil permitiu que os Estados Unidos construíssem ou ampliassem bases aéreas e navais na costa brasileira, com uma maior intensidade no Nordeste brasileiro, onde as cidades de Fortaleza, Natal e Recife recebessem forças da então USAAF (Força Aérea do Exército dos Estados Unidos) e da USN (Marinha de Guerra dos Estados Unidos). Com esse acordo, a recém-criada FAB (Força Aérea Brasileira) passou a receber várias aeronaves de origem norte-americana, no acordo chamado de “Lend-Lease”, nos quais o Brasil recebeu mais de 330 milhões de dólares (valores da época) de equipamentos militares de vários tipos, como exemplos os treinadores Fairchild PT-19, North American AT-6, bombardeiros Douglas B-18, patrulheiros Consolidated Catalina e caças Curtiss P-36 e P-40, dentre outros.

“PARNAMIRIM FIELD”

Com esse acordo, várias bases foram construídas, sendo a maior de todas o “Parnamirim Field” (Campo Parnamirim) situado nas proximidades de Natal, no Rio Grande do Norte. Quando da época de sua construção foi a maior base norte-americana fora do seu território, só superado no final do conflito com a construção do gigantesco “North Field”, em Tinian, nas Ilhas Marianas, Oceano Pacífico, para atacar o Japão com os poderosos Boeing B-29. A base de Parnamirim era utilizada para patrulha de aeronaves da USN e USAAF no vasto Oceano Atlântico quanto como ponto de apoio de aeronaves em translado para a Europa e África.
 
A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial (Foto: Tok de História.

Por causa do Parnamirim Field, milhares de aeronaves e toneladas de suprimentos atravessaram o Oceano Atlântico colaborando para o esforço de guerra contra o Eixo, sendo fundamental para a vitória, tanto que os norte-americanos apelidaram a base como um dos vértices de um grande triângulo unindo a Europa, o Nordeste brasileiro e a África do Norte, então recém-conquistada das força ítalo-germânicas do Marechal Erwin Rommel (Afrika Korps), esse triângulo sendo chamado por eles de “Trampolim da Vitória”.

Por causa da presença norte-americana, a cidade de Natal que contava com cerca de 40 mil habitantes, praticamente dobrou de tamanho, com cerca de 80 mil em 1945. Diversos costumes, modos, práticas e até a linguagem foram incorporados pelos natalenses até os dias de hoje. Era comum pousos e decolagens diariamente num intervalo de três minutos. Muitas aeronaves participantes de missões decisivas para os Aliados como os Boeing B-17 e os Consolidated B-24 passaram por Natal, cruzando o Nordeste a média altura e pelo interior, para evitar serem vistos por submarinos do Eixo.

A grande importância da base foi ressaltada no dia 28 de janeiro de 1943, quando o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt visitou a base em companhia do presidente Vargas, conhecendo suas instalações e realizando a “Conferência de Potengi”, dentre outras coisas, definindo a formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e garantindo recursos para a consolidação da recém-inaugurada CSN.
 
O B-24D 42-40617 "Jose Carioca" passou por Natal em rota para a África do Norte, foi abatido durante a "Operação Tidal Wave" próximo a Ploiești, Romênia, no dia 01/08/1943, com a morte de toda a tripulação.

Com o fim da guerra, no ano de 1945, a base ainda permaneceu sob controle dos norte-americanos, somente sendo entregue para o governo brasileiro e para a FAB no ano seguinte. Hoje o campo forma a Base Aérea de Natal (BANT – Ala 10) da Força Aérea Brasileira (FAB), a base se situando atualmente na cidade de Paramirim-RN, que foi emancipada de Natal em 1958.

“PICI” E “COCOROTE FIELD”

A cidade de Fortaleza, capital do Ceará, também participou ativamente do esforço de guerra, com a cessão de bases para os norte-americanos operarem aeronaves de patrulha contra os submarinos inimigos. Ocasionalmente também recebiam aeronaves em translado dos Estados Unidos para a Europa. Um grande contingente de militares norte-americanos também ocupou a cidade, também modificando costumes e tradições.
 
Marinheiros da US Navy manuseando cargas de profundidade no dia 28/12/1943 em Pici Field, Fortaleza. Ao fundo um bimotor de patrulha Lockheed PV-1 Ventura. (Foto: Tok de História)

A primeira base a ser construída e ocupada pelos EUA foi chamada de “Pici Field” ou “Base do Pici”, inaugurada em março de 1942. A origem do nome “Pici” até hoje é controversa, mas provavelmente se deve ao antigo nome do sítio aonde a base foi construída (Sítio do Pecy). Essa base inicialmente apoiou os dirigíveis de observação da USN (os chamados ‘Blimps”), posteriormente sendo construída uma grande pista de pouso de aeronaves.

Posteriormente foi construída uma grande avenida (atualmente a Avenida Carneiro de Mendonça) ligando a Base do Pici a segunda base ocupada pelos norte-americanos, o “Cocorote Field” ou “Base do Cocorote” (o nome “Cocorote” é um acrônimo da expressão “Coco Route” que significa “Rota do Cocó”, hoje um parque ecológico). Atualmente a Base do Cocorote é o Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza.

A pista de pouso do Pici foi utilizada pelos norte-americanos até o ano de 1944, quando foi abandonada e com a expansão demográfica da cidade de Fortaleza, muitos imóveis tomaram a região, formando o bairro do Pici. Outra parte da antiga base forma um dos Campus da Universidade federal do Ceará – UFC e em outra parte foram construídas grandes avenidas, igrejas e mercados. Algumas casamatas deixadas pelos norte-americanos ainda existem e servem de moradia para algumas pessoas.

“IBURA FIELD” E A SEDE DA QUARTA FROTA

Em Recife, capital do estado de Pernambuco, a Segunda Guerra também influenciou e quebrou a rotina de uma das maiores cidades do Brasil na época, com cerca de 400 mil habitantes, pois também houve a ocupação de forças norte-americanas, que construíram e ampliaram ainda em 1942 um espaço situado próximo a praia de Boa Viagem, chamando-o de “Ibura Field” (Campo Ibura), no qual abrigou aeronaves de patrulha de longa distância como por exemplo os Consolidated PB4Y-1 Liberator, variante naval do famoso bombardeiro B-24.

Campo do Ibura (Ibura Field). À esquerda da pista 15/33 a Base da FAB. À direita da Pista 15/33 a Base da USN e USAAF. Ao fundo, a praia de Boa Viagem. Data: 03/05/1943. (Reprodução Facebook)

Além disso, Recife também sediou a Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos, onde durante a guerra a USN coordenava a luta antissubmarina e aeronaval na região. O prédio da Quarta Frota situava-se no centro da cidade, com alguns outros escritórios na região do Cais do Porto. Também foram construídos hospitais de campanha para apoiar os feridos do front africano, centro de treinamentos e estruturação da defesa antiaérea por toda a costa, fato também ocorrido em Natal e Fortaleza. Para estruturar a defesa em caso de uma possível invasão do Eixo na região, foi criada uma rádio, a Rádio Pina, que foi mantida no ar pela Marinha do Brasil até 1992.

Após o final da guerra, os norte-americanos entregaram aos brasileiros o campo Ibura, que foi reestruturado e transformado no que hoje é o Aeroporto Internacional dos Guararapes. Os prédios que a USN ocupou ainda existem e hoje são sedes de vários escritórios dos governos estadual e federal. Assim como Natal e Fortaleza, a presença dos militares dos EUA mudou e revolucionou diversos costumes, vestuários, tradições e até o vocabulário dos habitantes.

O “TRAMPOLIM” HOJE E SEMPRE

Atualmente, após 75 anos do final da Segunda Guerra Mundial, poucas lembranças restam da passagem desses militares norte-americanos em solo nordestino. Outras cidades do Nordeste e também do Norte do Brasil receberam militares norte-americanos, como em Salvador-BA e Belém-PA, mas as mudanças e os efeitos foram bem maiores em Natal, Fortaleza e Recife do que nas demais.

O principal legado que essa presença deixou foi de demonstrar uma maior liberdade às pessoas, ainda presas a um tradicionalismo com resquícios de costumes ainda do século 19. As mulheres passaram a viver uma maior liberdade de expressão e até mesmo sexual (como o caso das “Garotas Coca-Cola”, nos quais mulheres saíam com os norte-americanos em troca da vil bebida, e de outras coisas, como chicletes e chocolates), uma forma de antecipar as benéficas mudanças que viriam para elas nos anos seguintes.
 
Reprodução do álbum de um marinheiro que passou por Natal durante a Segunda Guerra Mundial mostrando seu dia-a-dia na cidade, longe de parecer que estava a serviço de uma guerra. (Foto: Augusto Maranhão/G1)

Precisamos preservar o que ainda existe, como a bela e exuberante Base Aérea de Fortaleza, com arquitetura única e hoje a mercê de um futuro nebuloso, já que a mesma está praticamente desativada. Temos que relembrar esse louco período que o mundo viveu como um período em que o mundo mudou e até hoje vivemos determinadas consequências dessas mudanças, tanto no cunho político quanto no cunho social e econômico.

FOTO DE CAPA: Os Presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Vargas (ao fundo) em Natal, em janeiro de 1943, durante a "Conferência do Potengi". (Foto: Acervo Fundação Rampa)

Com informações retiradas dos sites "Fortaleza Nobre", "Tok de História" e da Wikipedia.


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Por Luiz Reis, Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar, fotógrafo amador. Brasiliense com alma paulista, reside em Fortaleza-CE. Luiz colaborou com o Canal Arte da Guerra e o Blog Velho General e atua esporadicamente nos blogs da Trilogia Forças de Defesa, também fazendo parte da equipe de articulistas do GBN Defense. Presta consultoria sobre História da Aviação, Aviação Militar e Comercial. Contato: [email protected]



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