O Brasil é um país de dimensões continentais, com vastas riquezas naturais e uma posição geopolítica estratégica. No entanto, a pergunta que poucos se fazem é: estamos preparados para um conflito severo? A resposta, infelizmente, é um retumbante "não". E o motivo principal é a dependência excessiva de equipamentos estrangeiros, o sucateamento das Forças Armadas e a falta de estoques estratégicos de guerra.
Diferente de países como Türkiye, Índia, Coréia do Sul e Israel, que investiram em sua indústria de defesa e hoje colhem os frutos, o Brasil continua dependente de peças e munição importadas. Isso significa que, em caso de uma crise internacional ou embargos, nossas Forças Armadas podem ficar rapidamente sem suprimentos essenciais.
O exemplo recente da Ucrânia é emblemático: o país só conseguiu resistir à invasão russa graças ao apoio maciço de potências ocidentais. Se o Brasil estivesse em uma situação semelhante, quem nos garantiria apoio? O histórico das relações internacionais mostra que confiar apenas na boa vontade de aliados é um erro fatal.
Além disso, a falta de uma estratégia nacional clara deixa o país vulnerável. O Brasil tem projetos promissores, como o programa Gripen e o submarino de propulsão nuclear da classe Álvaro Alberto, mas sem um planejamento contínuo e investimentos adequados, essas iniciativas podem acabar sendo insuficientes.
Burocracia e Visão de Curto Prazo
Outro problema grave é a burocracia que sufoca a Base Industrial de Defesa (BID). Empresas nacionais têm dificuldades para obter financiamento e exportar seus produtos devido a regulamentações ultrapassadas e falta de apoio governamental. Enquanto isso, países como Türkiye e Índia criam mecanismos de incentivo e fomento para fortalecer suas indústrias de defesa.
Nos últimos anos, o Brasil perdeu diversas oportunidades estratégicas de desenvolver tecnologia própria. Projetos importantes foram descontinuados ou sofreram atrasos por falta de prioridade política. O programa FX-2, por exemplo, deveria já ter entregue quase todas aeronaves previstas no primeiro lote, garantindo uma frota de caças modernos para a FAB.
Outro exemplo é o projeto do blindado Guarani, que sofre com aquisições em ritmo lento, reduzindo o impacto positivo para o Exército e a indústria nacional. Enquanto isso, países vizinhos, como a Colômbia e o Chile, buscam modernizar suas forças armadas com maior agilidade.
A Necessidade de Estoques Estratégicos
Além da dependência de fornecedores externos, o Brasil também não possui estoques adequados de munição e equipamentos essenciais para sustentar um conflito prolongado. Relatórios recentes apontaram que a FAB, por exemplo, opera com um número reduzido de mísseis ar-ar, e o Exército sofre com a falta de munição de artilharia. Isso significa que, em caso de guerra, poderíamos ficar sem meios de defesa em questão de dias.
A situação da Marinha também é preocupante. Nossa força de superfície e seus navios de escolta, essenciais para a defesa marítima e proteção da costa, está defasada e envelhecida. O programa das Fragatas Classe Tamandaré representa um avanço, mas a quantidade prevista ainda é insuficiente para cobrir toda a extensão do litoral brasileiro.
O Que Precisa Ser Feito?
O Brasil precisa urgentemente:
- Investir na Base Industrial de Defesa (BID): Criar políticas de fomento para a indústria de defesa, investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento, estabelecer parcerias internacionais e programas conjuntos de desenvolvimento, garantindo financiamento e desburocratizando a exportação.
- Garantir Estoques Estratégicos: Criar um plano de aquisição e armazenamento de munições, combustíveis e equipamentos essenciais para mantenimento de meios e capacidades operativas e de combate.
- Acelerar Projetos Críticos: Priorizar a modernização da força de blindados, aviação de combate, meios de superfície (escoltas) e sistemas de defesa antiaérea, reduzindo os atrasos e garantindo uma capacidade real de dissuasão.
- Fortalecer a Produção Nacional: Criar mecanismos para aumentar a produção de armamentos e munição em solo nacional, evitando a dependência de importados.
- Expandir a Força Naval e Aérea: Garantir a continuidade dos programas de modernização da Marinha e da Força Aérea, incluindo a aquisição de mais fragatas, submarinos e aeronaves de transporte, patrulha marítima e caças.
- Criar um Programa Nacional de Defesa Integrada: Estabelecer um planejamento estratégico de longo prazo, semelhante ao que países como a França e a Türkiye adotaram, garantindo estabilidade nos investimentos em defesa, facilitando a aquisição de meios e estabelecendo uma maior integração e comunalidade entre as forças.
Se o Brasil deseja ser levado a sério no cenário internacional e garantir sua soberania, precisa urgentemente mudar sua política de defesa. O mundo está em constante transformação, e aqueles que não se preparam ficam à mercê dos acontecimentos. Não podemos continuar apostando na ilusão de que "o Brasil é um país pacífico e ninguém nos ameaça". A história mostra que os países que não investem em defesa pagam um preço alto no futuro. O Brasil ainda tem tempo para reverter esse cenário, mas precisa agir agora.
por Angelo Nicolaci
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