"As grandes transformações da guerra raramente são reconhecidas enquanto acontecem. Quase sempre, suas lições só são compreendidas quando o conflito já terminou", Angelo Nicolaci
A história militar demonstra que as grandes transformações no modo de combater raramente são percebidas no instante em que surgem. Em muitos casos, uma nova tecnologia aparece inicialmente como uma evolução incremental, limitada pelas doutrinas existentes e pela forma como os comandantes interpretam o ambiente operacional de sua época. Somente quando essas tecnologias passam a ser empregadas em larga escala é que revelam sua verdadeira dimensão estratégica e obrigam as instituições militares a revisarem conceitos que, durante décadas, pareciam consolidados.
A aviação militar oferece um dos exemplos mais conhecidos desse processo. Durante a Primeira Guerra Mundial, as aeronaves eram vistas inicialmente como ferramentas auxiliares destinadas principalmente ao reconhecimento do campo de batalha. Poucos anos depois, a evolução dos motores, das estruturas aeronáuticas e das doutrinas de emprego transformaria o poder aéreo em um dos principais elementos da guerra moderna. O mesmo ocorreu com os blindados, que passaram de uma tentativa experimental de superar a guerra de trincheiras para se tornarem o núcleo das operações de manobra no século XX.
O radar seguiu trajetória semelhante. Desenvolvido inicialmente como uma ferramenta de detecção, tornou-se posteriormente um elemento essencial para a construção de redes de defesa aérea, controle do espaço marítimo e integração entre sensores e sistemas de armas. Em todos esses casos, a tecnologia isolada não foi responsável pela mudança. A transformação ocorreu quando as forças militares compreenderam como integrar essas capacidades a novos conceitos operacionais. Esse padrão histórico ajuda a compreender o momento atual.
Os sistemas de aeronaves remotamente pilotadas (SARPs), popularmente conhecidos como drones, deixaram de representar apenas uma capacidade complementar de vigilância e reconhecimento para assumir papel central na guerra contemporânea. Mais do que introduzir uma nova categoria de equipamento, eles alteraram a relação entre tecnologia, informação, custo operacional e poder de combate.
A guerra moderna passou a depender cada vez mais da capacidade de observar o campo de batalha em tempo real, processar informações rapidamente e transformar dados em decisões operacionais. Nesse ambiente, os drones tornaram-se uma ferramenta capaz de conectar sensores, centros de comando e sistemas de armas, reduzindo o intervalo entre identificar uma ameaça e responder a ela.
Essa mudança foi acelerada pela convergência entre diferentes áreas tecnológicas. A evolução da eletrônica embarcada, a miniaturização de sensores, o avanço dos sistemas de comunicação, a inteligência artificial e a disponibilidade de componentes originalmente desenvolvidos para o mercado civil permitiram que plataformas relativamente simples passassem a executar missões que antes dependiam de sistemas muito mais complexos e dispendiosos. O resultado foi uma alteração profunda na lógica tradicional da superioridade militar.
Durante grande parte do século XX, a vantagem no campo de batalha esteve associada principalmente à posse de plataformas mais sofisticadas, caras e tecnologicamente superiores. Aeronaves de combate, navios de guerra, veículos blindados e sistemas de mísseis representavam investimentos elevados, cuja capacidade de dissuasão estava diretamente relacionada ao nível de tecnologia embarcada, ao alcance operacional e à complexidade necessária para sua operação e sustentação.
A disseminação dos sistemas remotamente pilotados introduziu uma nova variável nessa equação estratégica ao reduzir parte da assimetria existente entre grandes plataformas convencionais e capacidades de menor custo. Embora não substituam os meios militares tradicionais, os drones ampliaram significativamente a capacidade de atores estatais e não estatais produzirem efeitos relevantes no campo de batalha ao explorar uma combinação de baixo custo, disponibilidade, quantidade e operação em rede.
Essa característica alterou a relação entre custo e efeito militar. Sistemas relativamente baratos, quando empregados de forma coordenada e conectados a redes de inteligência, vigilância, reconhecimento e comando e controle, passaram a ser capazes de impor desafios significativos a estruturas muito mais caras e sofisticadas. Em determinados cenários, essa dinâmica demonstrou potencial para modificar o equilíbrio de forças, obrigando forças armadas tradicionalmente organizadas em torno de plataformas de alto valor agregado a revisarem conceitos e doutrinas de emprego, proteção e seus programas de modernização.
Nesse novo ambiente, a vantagem militar deixou de depender exclusivamente da posse de sistemas tecnologicamente superiores e passou a envolver também a capacidade de adaptar, atualizar e integrar continuamente essas capacidades diante da evolução do ambiente operacional.
A revolução silenciosa dos sistemas remotamente pilotados
A transformação provocada pelos drones não ocorreu de forma repentina. Ela foi construída progressivamente a partir da evolução de diferentes tecnologias e da experiência acumulada em conflitos ocorridos nas últimas décadas.
Inicialmente empregados principalmente pelos Estados Unidos em missões de inteligência e vigilância no Oriente Médio, os sistemas remotamente pilotados demonstraram sua utilidade ao permitir que forças militares acompanhassem áreas extensas, obtivessem informações em tempo real e reduzissem a exposição de seus operadores a ambientes de alto risco.
Com o passar dos anos, porém, essas plataformas evoluíram para além da função de observação. O desenvolvimento de sensores mais precisos, sistemas de comunicação mais seguros e armamentos miniaturizados permitiu que drones passassem a desempenhar missões ofensivas, ampliando sua relevância estratégica.
Os conflitos recentes aceleraram esse processo.
A guerra entre Azerbaijão e Armênia em 2020 demonstrou o impacto que sistemas remotamente pilotados poderiam produzir contra forças convencionais. A utilização combinada de drones de reconhecimento, munições vagantes e sistemas de guerra eletrônica mostrou que a integração entre diferentes capacidades poderia alterar rapidamente a dinâmica de um conflito.
A guerra na Ucrânia iniciada em 2022, ampliou ainda mais essa percepção. O conflito transformou-se em um ambiente de experimentação permanente, onde drones comerciais adaptados, sistemas militares especializados, munições vagantes e soluções de inteligência artificial passaram a coexistir no mesmo espaço operacional.
O aspecto mais relevante dessa experiência não está apenas no emprego dos drones, mas na velocidade com que as adaptações ocorrem.
Uma nova tática desenvolvida no campo de batalha pode ser observada, analisada e modificada em poucas semanas. Equipamentos são adaptados, softwares são atualizados e novos métodos de emprego surgem constantemente. Essa dinâmica contrasta com os ciclos tradicionais de desenvolvimento militar, normalmente medidos em anos ou décadas.
A consequência estratégica dessa mudança é profunda. A capacidade de aprender e adaptar-se passou a ser um componente essencial do poder militar.
O tempo como fator estratégico e o desafio brasileiro
A velocidade com que os sistemas remotamente pilotados evoluem expôs uma das maiores limitações dos modelos tradicionais de planejamento militar: a diferença entre o tempo necessário para desenvolver uma capacidade e o tempo necessário para que uma ameaça se transforme.
Durante boa parte do século XX, os ciclos de desenvolvimento de defesa eram compatíveis com a evolução tecnológica disponível. Um novo sistema de armas permanecia relevante durante longos períodos porque as mudanças no ambiente operacional ocorriam de forma gradual. Dessa maneira, era possível planejar programas de aquisição com horizontes de décadas, estabelecendo requisitos técnicos que permaneceriam válidos durante grande parte do ciclo de vida do equipamento.
Esse cenário mudou, a inovação tecnológica passou a ocorrer em ritmo acelerado, impulsionada não apenas pelos investimentos tradicionais da indústria de defesa, mas também pelo avanço do setor civil. Processadores, sensores, softwares, inteligência artificial, sistemas de comunicação e tecnologias de processamento de dados evoluem em ciclos muito mais curtos do que aqueles utilizados historicamente pelos programas militares.
Essa diferença criou um novo desafio para as forças armadas: a necessidade de conciliar a estabilidade necessária ao planejamento estratégico com a flexibilidade exigida por um ambiente tecnológico em constante transformação.
O desenvolvimento de uma aeronave de combate, um submarino ou uma fragata continua sendo um processo complexo, indispensável e de longo prazo. Essas plataformas representam instrumentos fundamentais de soberania e dissuasão, exigindo décadas de planejamento, investimento e sustentação logística. Entretanto, ao lado dessas capacidades tradicionais, cresce a necessidade de incorporar sistemas capazes de evoluir rapidamente, receber atualizações frequentes e responder às mudanças observadas no campo de batalha.
A guerra dos drones evidenciou essa nova realidade.
O valor de um sistema remotamente pilotado não está apenas em suas características físicas, mas também na capacidade de atualização de seus sensores, softwares, algoritmos e métodos de emprego. Um equipamento considerado avançado hoje pode perder parte de sua efetividade diante de uma nova tecnologia de detecção, interferência ou neutralização desenvolvida poucos meses depois. Essa dinâmica modifica a própria ideia de superioridade tecnológica.
No passado, possuir o equipamento mais avançado representava uma vantagem relativamente estável. Atualmente, essa vantagem depende da capacidade de manter um ciclo permanente de inovação, testes, aprendizado e adaptação. O diferencial estratégico passa a estar menos relacionado à posse de uma solução definitiva e mais associado à capacidade institucional de evoluir continuamente.
Essa característica pode ser observada claramente na guerra da Ucrânia. O emprego de drones demonstrou que não existe uma solução única capaz de garantir superioridade permanente. Sistemas de guerra eletrônica podem degradar determinados modelos de comunicação, mas rapidamente surgem alternativas baseadas em novas frequências, navegação diferenciada ou maior autonomia embarcada. Drones inicialmente desenvolvidos para reconhecimento passam a receber novas funções ofensivas. Pequenas adaptações realizadas no teatro de operações podem gerar efeitos significativos.
O conflito tornou evidente que a inovação militar deixou de ser um processo exclusivamente conduzido por centros de pesquisa e grandes empresas. Ela passou a envolver também unidades operacionais, equipes de manutenção, usuários finais e uma rede ampla de atores capazes de transformar rapidamente uma necessidade identificada no campo de batalha em uma solução prática. E essa realidade apresenta uma reflexão importante para o Brasil.
O Brasil diante da nova lógica da guerra
O Brasil possui características particulares quando analisado sob a perspectiva da transformação tecnológica militar. O país mantém dimensões continentais, extensas fronteiras terrestres, uma grande área marítima sob responsabilidade nacional e uma infraestrutura estratégica distribuída por diferentes regiões. Esse cenário exige capacidades de vigilância, monitoramento, comando e resposta capazes de lidar com ameaças diversificadas.
Ao mesmo tempo, o país possui uma Base Industrial de Defesa (BID) com competências acumuladas em diferentes áreas tecnológicas. Ao contrário de uma visão recorrente de que o Brasil estaria apenas acompanhando passivamente as transformações internacionais, observa-se que empresas nacionais vêm desenvolvendo soluções alinhadas às demandas do ambiente operacional contemporâneo.
O desafio brasileiro não está relacionado à inexistência de conhecimento tecnológico. O Brasil possui instituições de pesquisa, universidades, centros tecnológicos militares e empresas capazes de atuar em segmentos críticos para a guerra moderna. A questão central está em transformar essas competências dispersas em capacidades integradas, capazes de responder de maneira coordenada às necessidades estratégicas das Forças Armadas.
Essa diferença entre tecnologia disponível e capacidade operacional é fundamental. Uma força militar não se torna mais eficiente simplesmente porque possui equipamentos modernos. O valor de uma tecnologia depende de sua integração com doutrina, treinamento, organização, infraestrutura, logística, recursos humanos e sistemas de comando e controle.
Essa percepção é particularmente relevante quando se analisa a defesa contra sistemas remotamente pilotados. A ameaça representada pelos drones não pode ser enfrentada por um único equipamento. Não existe um "sistema mágico" capaz de resolver todos os cenários. A neutralização de uma ameaça aérea de baixa assinatura exige uma arquitetura composta por diferentes camadas, envolvendo detecção, identificação, acompanhamento, decisão e engajamento.
Um radar pode identificar uma aproximação suspeita, mas dependerá de sensores complementares para confirmar a natureza do alvo. Um sistema de guerra eletrônica pode interferir em determinados tipos de comunicação, mas sua efetividade dependerá do conhecimento sobre o comportamento da ameaça. Um sistema de defesa cinética poderá neutralizar um alvo específico, mas precisará estar integrado a uma rede capaz de fornecer informações precisas e em tempo adequado.
A defesa anti-SARP, portanto, representa um exemplo claro de como a guerra contemporânea passou a exigir integração sistêmica. É nesse ponto que a discussão deixa de ser exclusivamente sobre drones e passa a envolver um tema mais amplo: a capacidade do país construir um ecossistema nacional de inovação em defesa.
Uma Base Industrial de Defesa em transformação
Nos últimos anos, a indústria brasileira de defesa ampliou sua participação em segmentos tecnológicos diretamente relacionados ao novo ambiente operacional. Essa evolução não ocorreu apenas no desenvolvimento de plataformas, mas também em áreas consideradas essenciais para a guerra em rede, como sensores, processamento de dados, comunicações seguras, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle.
Empresas brasileiras passaram a desenvolver soluções que, quando analisadas em conjunto, demonstram a existência de competências complementares dentro do país.
A Omnisys consolidou sua atuação no desenvolvimento de radares tridimensionais e sistemas associados ao monitoramento do espaço aéreo. Esses sistemas representam um componente essencial para ampliar a consciência situacional e permitir a detecção de ameaças de menor assinatura.
A Atech desenvolveu experiência em sistemas de comando e controle, integração de informações e gerenciamento de ambientes operacionais complexos, áreas fundamentais para uma arquitetura em que múltiplos sensores e sistemas precisam atuar de forma coordenada.
A IACIT ampliou sua atuação em tecnologias de vigilância, monitoramento do espectro eletromagnético e guerra eletrônica, segmentos diretamente relacionados à identificação e neutralização de ameaças modernas.
A SIATT desenvolve sistemas inteligentes voltados ao setor de defesa, ampliando a capacidade nacional em tecnologias de alta complexidade.
A ARES atua na integração de sistemas de armas, sensores e plataformas terrestres, contribuindo para a evolução da capacidade de combate mecanizado e da consciência situacional.
No campo dos sistemas remotamente pilotados, empresas como a XMobots e a ADTECH-SD representam a evolução nacional no desenvolvimento de aeronaves não tripuladas destinadas a missões de inteligência, vigilância e reconhecimento, demonstrando que o Brasil possui capacidade de projetar e produzir plataformas adaptadas às suas necessidades operacionais.
Essas iniciativas não devem ser observadas apenas como produtos individuais, elas representam competências tecnológicas que podem, quando integradas, formar uma arquitetura nacional de defesa capaz de responder aos desafios impostos pelos novos cenários de conflito.
A construção dessa capacidade, entretanto, exige mais do que desenvolvimento industrial. Ela depende de uma visão estratégica capaz de aproximar Forças Armadas, indústria, universidades e centros de pesquisa, permitindo que conhecimento seja transformado em soluções operacionais com maior velocidade. É justamente nesse ponto que o estudo do Capitão Matheus de Aguiar Vallim Muniz ganha relevância. ("DEFESA ANTI-SARP: DESAFIOS E RESPOSTAS PARA A DEFESA
ANTIAÉREA DIANTE DA TÉCNICA DE ENXAME DE DRONES").
O trabalho não apenas aborda uma necessidade específica do Exército Brasileiro. Ele apresenta uma mudança de percepção sobre como capacidades militares devem ser construídas em um ambiente marcado pela rápida evolução tecnológica.
Da tecnologia à capacidade de defesa: o desafio da integração
O desenvolvimento de novas tecnologias sempre foi uma condição necessária para a evolução do poder militar, mas a história demonstra que tecnologia, isoladamente, raramente determina o resultado de um conflito. A vantagem surge quando uma inovação é incorporada a uma estrutura capaz de explorá-la plenamente, transformando uma ferramenta técnica em capacidade operacional.
Essa diferença explica por que algumas tecnologias revolucionárias demoraram anos para produzir seus efeitos estratégicos. O avião, o radar, o míssil guiado e os sistemas espaciais não alteraram a guerra apenas porque existiam, mas porque foram acompanhados por mudanças doutrinárias, organizacionais e humanas que permitiram seu emprego de maneira integrada. O mesmo ocorre atualmente com os sistemas remotamente pilotados.
O debate sobre drones frequentemente concentra-se nas características técnicas das plataformas: autonomia, alcance, carga útil, sensores embarcados ou capacidade de ataque. Esses aspectos são relevantes, mas representam apenas uma parte do problema. A verdadeira questão militar está relacionada à forma como esses sistemas serão incorporados ao conjunto de capacidades de uma força.
Um drone empregado no ambiente moderno precisa estar conectado a uma rede mais ampla, capaz de transformar informações coletadas no campo de batalha em decisões rápidas e coordenadas. Isso envolve sensores, sistemas de comunicação, estruturas de comando e controle, doutrina de emprego, treinamento especializado e capacidade logística para manter o sistema disponível. A guerra contemporânea tornou-se progressivamente dependente da integração entre diferentes domínios.
Um sensor terrestre pode fornecer informações essenciais para uma aeronave remotamente pilotada. Um radar pode complementar a identificação realizada por um sistema eletro-óptico. Uma plataforma de inteligência pode alimentar um centro de comando, que por sua vez coordena uma resposta por meio de sistemas de defesa aérea ou guerra eletrônica.
Nesse ambiente, a eficiência de cada componente depende diretamente de sua capacidade de operar dentro de uma arquitetura maior. É justamente essa lógica que torna a defesa contra sistemas remotamente pilotados um dos maiores desafios atuais das forças armadas.
A ameaça dos drones e a necessidade de uma abordagem sistêmica
Durante muito tempo, a defesa aérea foi estruturada principalmente para enfrentar ameaças convencionais, como aeronaves tripuladas e mísseis de maior porte. Esses sistemas possuem características que permitem sua detecção por meios tradicionais: maior assinatura radar, padrões de voo previsíveis e custos operacionais elevados, os drones alteraram esse cenário.
Muitos sistemas remotamente pilotados apresentam pequenas dimensões, baixa assinatura eletrônica e podem operar em altitudes reduzidas, tornando sua detecção mais complexa. Além disso, a possibilidade de emprego em grandes quantidades cria um desafio adicional, pois uma força de defesa precisa lidar não apenas com a presença de uma ameaça, mas com a possibilidade de saturação de seus sistemas. Essa característica muda completamente a lógica do planejamento defensivo.
Um sistema projetado para neutralizar uma aeronave convencional de alto valor pode não ser economicamente adequado contra dezenas ou centenas de drones de baixo custo. A relação entre o custo da ameaça e o custo da resposta passa a ser um fator estratégico, por essa razão, a defesa anti-SARP exige uma combinação de diferentes capacidades.
A primeira camada envolve a detecção e identificação. Radares especializados, sensores eletro-ópticos, sistemas de inteligência eletrônica e outras tecnologias precisam trabalhar de forma complementar para criar consciência situacional suficiente.
A segunda camada envolve o acompanhamento e a tomada de decisão. Uma ameaça identificada precisa ser classificada rapidamente, considerando sua trajetória, comportamento, origem e potencial risco.
A terceira camada envolve a neutralização. Dependendo do cenário, isso pode ocorrer por meios eletrônicos, interrompendo enlaces de comunicação ou navegação, ou por meios cinéticos, utilizando sistemas capazes de destruir fisicamente o alvo.
Essa arquitetura demonstra que a defesa contra drones não é uma questão exclusivamente tecnológica. Ela envolve processos, pessoas e organização. É justamente essa percepção que aparece no Trabalho de Conclusão de Curso - EsAO do Capitão Matheus de Aguiar Vallim Muniz.
O reflexo de uma mudança institucional
O estudo desenvolvido pelo Capitão Muniz, apresentado na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército Brasileiro, possui relevância justamente porque ultrapassa uma abordagem puramente técnica sobre sistemas anti-SARP.
Seu trabalho analisa a implantação dessa capacidade sob uma perspectiva mais ampla, considerando que uma força militar não se torna preparada para uma nova ameaça simplesmente pela aquisição de equipamentos.
A pesquisa utiliza como referência o modelo DOTMLPF-I, metodologia amplamente empregada no planejamento de capacidades militares, que considera oito dimensões fundamentais: doutrina, organização, adestramento, material, liderança, pessoal, infraestrutura e interoperabilidade. A escolha desse modelo revela uma compreensão importante sobre a natureza do problema.
Uma capacidade militar não nasce no momento em que um equipamento é entregue a uma unidade operacional. Ela começa a existir quando todos os elementos necessários para seu emprego funcionam de maneira integrada.
Um sistema anti-SARP pode possuir tecnologia avançada, mas sua efetividade dependerá da existência de operadores treinados, procedimentos definidos, estruturas de comando adequadas, manutenção eficiente, integração com outros sistemas e uma doutrina clara de emprego. Essa abordagem aproxima o debate brasileiro da discussão realizada pelas principais forças armadas do mundo.
Países que enfrentam diretamente os desafios impostos pelos drones têm percebido que não existe uma solução única. A resposta passa pela criação de ecossistemas capazes de combinar diferentes tecnologias e atualizar continuamente seus métodos de emprego.
O aspecto mais relevante do estudo, portanto, não está apenas na análise da defesa anti-SARP, mas na percepção de que a guerra moderna exige uma mudança na forma como capacidades militares são desenvolvidas.
A distância entre inovação e incorporação operacional
O Brasil possui uma característica que representa tanto uma vantagem quanto um desafio. O Brasil conta com uma Base Industrial de Defesa diversificada, capaz de desenvolver tecnologias críticas em diferentes segmentos. Entretanto, transformar conhecimento em capacidade militar operacional exige superar uma série de obstáculos relacionados ao planejamento, financiamento, aquisição e sustentação dos sistemas. Esse desafio não é exclusivo brasileiro.
Mesmo grandes potências militares enfrentam dificuldades para acompanhar a velocidade da inovação tecnológica. A diferença está na capacidade de criar mecanismos mais ágeis para testar, adaptar e incorporar soluções. No caso dos drones, essa necessidade torna-se ainda mais evidente.
A velocidade do desenvolvimento tecnológico exige modelos capazes de aproximar usuários finais, indústria e centros de pesquisa. A experiência observada em conflitos recentes demonstra que muitas soluções eficazes surgem da interação direta entre quem opera no campo de batalha e quem desenvolve tecnologia. Esse modelo reduz o tempo entre identificar uma necessidade e produzir uma resposta.
Para o Brasil, essa integração representa uma oportunidade estratégica. A existência de empresas nacionais com competências complementares permite construir soluções adaptadas às características do país, evitando uma dependência absoluta de fornecedores externos e fortalecendo a autonomia tecnológica nacional.
A questão central passa a ser como organizar essas capacidades dentro de uma visão de longo prazo.
O desafio brasileiro: transformar percepção em capacidade estratégica
O Brasil já percorreu uma etapa fundamental desse processo ao reconhecer que os sistemas remotamente pilotados representam uma mudança relevante no ambiente operacional. Estudos como o Trabalho de Conclusão de Curso do Capitão Matheus de Aguiar Vallim Muniz demonstram que o tema deixou de ser uma discussão exclusivamente tecnológica e passou a integrar o planejamento de capacidades do Exército Brasileiro. A questão que se apresenta agora está relacionada ao ritmo dessa transformação.
A história militar demonstra que muitas forças armadas identificaram corretamente novas tendências de combate, mas encontraram dificuldades para convertê-las em capacidades efetivas dentro do tempo necessário. Entre compreender uma ameaça e estruturar uma resposta existe um intervalo decisivo, no qual decisões estratégicas, investimentos, desenvolvimento tecnológico e adaptação doutrinária determinam se um país estará preparado ou apenas reagirá diante de uma nova realidade já consolidada. No caso da guerra dos drones, esse intervalo tornou-se ainda mais reduzido.
O país possui uma base tecnológica construída ao longo de décadas, com empresas, centros de pesquisa e instituições militares que desenvolveram competências em áreas diretamente relacionadas ao novo ambiente operacional. A existência dessas capacidades permite que o Brasil não seja apenas um consumidor de soluções externas, mas tenha condições de participar ativamente da construção de respostas próprias. Entretanto, o fator decisivo será a capacidade de conectar esses diferentes conhecimentos dentro de uma visão estratégica comum.
A defesa contra sistemas remotamente pilotados representa apenas um dos exemplos de uma transformação mais ampla. A mesma lógica será aplicada a áreas como guerra eletrônica, inteligência artificial, sistemas autônomos, defesa cibernética e integração de informações em tempo real. Em todos esses campos, a vantagem não estará apenas na tecnologia disponível, mas na capacidade de incorporá-la de maneira eficiente ao poder militar.
A guerra dos drones, portanto, não deve ser interpretada apenas como uma mudança no emprego de aeronaves não tripuladas. Ela representa uma transição para um ambiente operacional no qual velocidade de adaptação, domínio da informação e capacidade de inovação passam a ter papel central na construção da superioridade militar.
O Brasil possui os elementos necessários para participar dessa transformação. O desafio será garantir que conhecimento, indústria e capacidade operacional evoluam no mesmo ritmo em que a guerra continua mudando. Porque no século XXI a maior vulnerabilidade de uma força militar não será apenas possuir equipamentos ultrapassados, mas permanecer presa a modelos de pensamento que pertencem a uma realidade que já deixou de existir.
por Angelo Nicolaci
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