quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Brasil deve devolver o El Cristiano? Então é preciso discutir também a Canhoneira Anhambaí

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A discussão sobre uma eventual devolução ao Paraguai do canhão El Cristiano, preservado no Brasil desde a Guerra do Paraguai, ganhou força nos últimos anos e costuma ser apresentada a partir de um argumento aparentemente simples: trata-se de um patrimônio paraguaio capturado durante o conflito e, portanto, deveria retornar ao país de origem.

O problema começa quando essa lógica é analisada para além de uma única peça de artilharia. Se o princípio é que patrimônios militares capturados durante a guerra devem ser devolvidos aos seus países de origem, então a regra precisa valer para os dois lados. E é justamente nesse ponto que aparece uma história que raramente ocupa espaço no debate: a da Canhoneira Anhambaí, embarcação da Armada Imperial Brasileira capturada por forças paraguaias em janeiro de 1865 e cujos remanescentes permanecem preservados no Paraguai.

A questão, portanto, não deveria ser simplesmente se o Brasil deve ou não devolver o El Cristiano. Antes disso, seria necessário estabelecer qual princípio histórico e patrimonial está sendo aplicado. Afinal, seria no mínimo curioso construir uma política de restituição de troféus da Guerra do Paraguai que funcionasse em apenas uma direção.

Um troféu de guerra brasileiro

O El Cristiano chegou ao Brasil como consequência direta da Guerra do Paraguai. Fundido no Paraguai e empregado como peça de artilharia durante o conflito, o canhão foi capturado pelas forças brasileiras e posteriormente trazido para o Brasil.

Desde então, passou a integrar a memória material da guerra e a própria história militar brasileira. Sua presença em território brasileiro não decorre de uma compra, de uma negociação comercial ou de uma transferência realizada em tempos de paz. É resultado direto de um conflito militar ocorrido no século XIX.

Esse aspecto é fundamental para compreender a controvérsia. A captura de equipamentos, armamentos, embarcações e outros materiais pertencentes ao adversário era uma consequência comum dos conflitos daquele período. Esses objetos posteriormente se transformaram em testemunhos materiais das guerras das quais participaram.

Por isso, uma eventual devolução do El Cristiano não pode ser justificada apenas pelo fato do canhão ter sido originalmente produzido no Paraguai. Se esse critério fosse suficiente, seria necessário reexaminar uma quantidade muito maior de patrimônios militares espalhados por diferentes países como consequência de guerras passadas.

O valor histórico do El Cristiano para o Paraguai é evidente e não precisa ser diminuído para que se reconheça também seu significado para o Brasil. A questão é saber se esse valor deve automaticamente se sobrepor ao contexto histórico que levou a peça ao território brasileiro.

E, sobretudo, se esse será realmente o critério adotado, ele precisa ser aplicado de maneira coerente. 

É aí que entra a Anhambaí

A história da Anhambaí oferece justamente o contraponto que falta nessa discussão. A embarcação pertencia à Armada Imperial Brasileira e estava empregada na campanha de Mato Grosso quando o conflito chegou à região. Em janeiro de 1865, após a invasão paraguaia e os combates na área, a canhoneira foi perseguida por forças navais paraguaias e acabou capturada.

A partir daquele momento, a trajetória da embarcação mudou de bandeira. Incorporada à força naval paraguaia, a antiga canhoneira brasileira continuou sendo empregada durante a guerra. Sua história não terminou com a captura: ela passou a integrar o próprio esforço de guerra do país que a havia tomado.

Em 1869, diante do avanço das forças brasileiras, os paraguaios incendiaram e afundaram diversas embarcações para impedir que fossem capturadas. Entre elas estava a antiga Anhambaí.

Décadas depois, seus remanescentes foram recuperados e passaram a integrar o conjunto histórico de Vapor Cué, no Paraguai, onde permanecem preservados como parte da memória da Guerra do Paraguai.

A situação é, portanto, bastante clara sob o ponto de vista histórico: assim como o El Cristiano, a Anhambaí mudou de mãos em consequência direta da guerra. A diferença é que, neste caso, estamos falando de um meio militar brasileiro capturado pelo adversário e posteriormente incorporado à força naval paraguaia.

Se a origem do bem e sua captura durante o conflito são suficientes para justificar a restituição do El Cristiano, fica difícil explicar por que o mesmo raciocínio não poderia ser aplicado à Anhambaí.

O problema de uma restituição unilateral

É aqui que a discussão sobre o El Cristiano ganha uma dimensão maior. Uma decisão brasileira de devolver o canhão não envolveria apenas uma peça histórica. Ela poderia estabelecer um precedente para a interpretação de patrimônios militares capturados durante a Guerra do Paraguai, criando a expectativa de que esses bens deveriam retornar aos seus países de origem.

Se esse for o entendimento, o Brasil teria todo o direito de levar a mesma questão a Assunção. E não seria necessário recorrer a uma retórica de confronto. Bastaria aplicar exatamente o princípio defendido para o El Cristiano: um patrimônio militar capturado durante a guerra deveria retornar ao país ao qual pertencia originalmenteNesse caso, a Anhambaí inevitavelmente entraria na conversa.

Não se trata de propor uma negociação simplista nos moldes de “devolvemos o canhão se vocês devolverem o navio”. A questão é justamente evitar que a história seja transformada em uma contabilidade seletiva de troféus.

Se Brasil e Paraguai desejam reabrir o debate sobre o destino dos patrimônios materiais produzidos pela Guerra do Paraguai, o assunto precisa ser tratado de forma bilateral e com critérios que possam ser aplicados aos dois países.

Caso contrário, corre-se o risco de criar uma curiosa modalidade de restituição histórica na qual um lado devolve seus troféus enquanto o outro conserva os seus.

O patrimônio também pertence à história

Existe ainda um argumento importante em favor da permanência do El Cristiano no Brasil: sua importância histórica não desaparece porque a peça possui origem paraguaia.

O canhão está no Brasil há mais de um século e meio porque foi capturado em um conflito que marcou profundamente a formação política e militar da região. Ele é, portanto, também um documento material da história brasileira.

A mesma lógica pode ser aplicada à Anhambaí. Sua presença em Vapor Cué não apaga sua origem brasileira. Pelo contrário, o navio, ou aquilo que restou dele, conta uma história que envolve diretamente os dois países.

É justamente por isso que uma eventual discussão sobre restituição deveria levar em consideração não apenas a propriedade original de cada objeto, mas também seu percurso histórico, seu significado para os dois países e a forma como esses patrimônios foram preservados ao longo de mais de 150 anos.

Há espaço, inclusive, para cooperação histórica e patrimonial entre Brasil e Paraguai. O que não parece razoável é estabelecer que apenas um dos lados precisa rever o destino de seus troféus de guerra.

O Brasil deveria devolver o El Cristiano?

Nossa posição é contrária a uma devolução. O El Cristiano faz parte da história da Guerra do Paraguai e da memória militar brasileira. Sua presença no Brasil é consequência direta do conflito e da vitória da Tríplice Aliança, ao custo de muito sangue e vidas brasileiras, e não de uma apropriação ocorrida posteriormente em período de paz.

Se o Paraguai deseja discutir a restituição da peça, o Brasil pode e deve participar desse debate. Mas, ao fazê-lo, precisa colocar sobre a mesa também os patrimônios brasileiros capturados durante a guerra. E a Anhambaí é o exemplo mais evidente.

Não seria coerente defender que um troféu de guerra deve retornar ao país de origem, e ao mesmo tempo considerar encerrada a discussão quando o patrimônio originalmente brasileiro está preservado do outro lado da fronteira. A história, afinal, não pode ser seletiva conforme a conveniência do momento.

Se o El Cristiano deve voltar ao Paraguai porque foi capturado durante a guerra, então o Brasil tem uma pergunta perfeitamente legítima a fazer: e a Anhambaí?

Se a resposta for que os patrimônios de guerra devem permanecer onde foram preservados por mais de 150 anos, há um argumento sólido para que o El Cristiano continue no Brasil.

Se, ao contrário, a regra for que esses patrimônios devem retornar aos seus países de origem, então a discussão precisa começar nos dois lados da fronteira.

E, nesse caso, o Brasil não deveria apenas aceitar discutir a devolução do El Cristiano. Deveria também exigir que o Paraguai discutisse a devolução da Anhambaí.

Porque, quando se decide reabrir a história, é preciso estar preparado para ler todos os capítulos, inclusive aqueles que não são tão convenientes.

Afinal, princípio histórico não pode funcionar como via de mão única. Se a tese é devolver aquilo que foi capturado durante a guerra, então que se abra o inventário completo, não apenas a página que interessa aos paraguaios. O Brasil pode discutir o destino do El Cristiano, sem problema algum. Mas, antes de entregar qualquer coisa, talvez seja conveniente perguntar a Assunção se está disposta a aplicar a mesma régua à Anhambaí. Porque, se a história será reaberta, seria deselegante consultar apenas os troféus do lado brasileiro e esquecer aqueles que ficaram do outro lado da fronteira, no Paraguai.


Por Angelo Nicolaci


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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Cascavel Nova Geração entra na reta final de testes de durabilidade

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Centro de Avaliações do Exército concluiu nova etapa de ensaios em asfalto; próximo passo será a avaliação em pista “off-road”, antes da conclusão da campanha de testes

O desenvolvimento da Viatura Blindada de Reconhecimento Cascavel Nova Geração (VBR Cascavel NG) avança para fase final. O Centro de Avaliações do Exército (CAEx) concluiu uma nova etapa da campanha de ensaios de durabilidade do blindado, realizada entre os dias 17 e 21 de agosto no Campo de Provas da Marambaia, no Rio de Janeiro (RJ).

A atividade concentrou-se na avaliação da viatura durante a rodagem em asfalto, uma etapa fundamental para a coleta de dados sobre o comportamento do veículo e seus sistemas em condições de operação prolongada.

Mais do que simplesmente acumular quilômetros, os ensaios têm como objetivo acompanhar o funcionamento da viatura e gerar informações técnicas que permitam avaliar aspectos como desempenho, confiabilidade e robustez do material. Os dados obtidos ao longo da campanha serão determinantes para validar o comportamento do Cascavel NG antes da conclusão de sua fase de desenvolvimento e avaliação.

Próxima etapa será em “Off-Road”

Após uma extensa campanha de testes, o Projeto Cascavel NG entra agora em sua reta final. O próximo desafio será a avaliação de durabilidade na pista “off-road”, cuja conclusão está prevista para o início de setembro.

Essa fase deverá submeter a viatura a condições ainda mais severas, permitindo verificar o desempenho dos sistemas e componentes diante das exigências características da operação militar fora de estradas pavimentadas.

Para o Exército Brasileiro, cada etapa representa a produção de conhecimento técnico essencial não apenas para o projeto, mas também para a futura operação do blindado. A campanha de ensaios permite identificar o comportamento da plataforma em diferentes condições e reunir informações que contribuirão para a avaliação dos meios empregados pela tropa.

A aproximação da conclusão dos testes de durabilidade marca, assim, um momento importante para o Cascavel Nova Geração, projeto que busca garantir a evolução de uma das mais tradicionais plataformas blindadas do Exército Brasileiro e preparar o caminho para a próxima etapa de sua trajetória.


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O que é uma fragata no século XXI? A evolução do conceito de navio-escolta diante das novas ameaças

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Durante décadas, a imagem de uma fragata esteve associada a um navio de guerra capaz de acompanhar uma força naval, proteger seus principais meios e enfrentar ameaças aéreas, de superfície e submarinas. No século XXI, porém, essa função tornou-se significativamente mais complexa. A evolução tecnológica ampliou o espectro de ameaças e transformou o ambiente marítimo em um espaço no qual submarinos, mísseis antinavio, aeronaves não tripuladas, veículos de superfície não tripulados, guerra eletrônica, munições vagantes e ataques coordenados podem atuar simultaneamente.

Nesse cenário, avaliar uma fragata apenas pela quantidade de armas que transporta oferece uma visão incompleta de sua capacidade. A questão central passou a ser quanto ela consegue contribuir para a proteção e a liberdade de ação de uma força naval. Uma escolta não existe apenas para sobreviver individualmente, mas para ampliar a capacidade de sobrevivência dos demais meios, detectando ameaças, compartilhando informações, coordenando respostas e empregando seus próprios sistemas quando necessário.

Essa distinção entre autodefesa e proteção da força tem consequências diretas sobre o projeto de uma escolta. Um navio pode possuir sistemas suficientes para impedir que determinada ameaça atinja sua própria estrutura e ainda assim, oferecer contribuição limitada para a defesa de outros meios. Quando integrado a uma força naval, portanto, é necessário avaliar não apenas o que seus sensores e armamentos conseguem fazer, mas a distância na qual conseguem detectar, acompanhar e enfrentar uma ameaça e quanto essas informações podem ser compartilhadas com os demais componentes da força.

Sensores e defesa em camadas

A guerra antissubmarino é um dos exemplos mais claros dessa diferença. O sonar de casco constitui um recurso importante para a detecção submarina nas proximidades do navio, mas sua capacidade não equivale à proporcionada por uma arquitetura que também disponha de sonar rebocado. Este último pode ampliar a área de busca e explorar diferentes condições acústicas, aumentando as possibilidades de detecção e acompanhamento de contatos.

A importância dessa capacidade está diretamente relacionada à missão da escolta. Um submarino não precisa atacar a própria fragata para cumprir sua missão; pode permanecer oculto e buscar um alvo de maior valor dentro da força, como um navio-aeródromo, uma unidade de comando ou um meio logístico. Por isso, a guerra antissubmarino precisa ser pensada como proteção do conjunto, e não apenas como defesa individual do navio que transporta os sensores.

O mesmo princípio se aplica à defesa aérea. Sistemas de defesa de ponto são fundamentais para proteger o próprio navio contra aeronaves, mísseis e outros vetores, mas uma escolta destinada a operar junto a uma força naval pode assumir uma responsabilidade muito mais ampla. Para isso, precisa contar com sensores capazes de acompanhar múltiplos alvos, sistemas de comando e controle que permitam compartilhar informações e armamentos com alcance compatível com a missão de proteger outros meios.

A diferença entre autodefesa e defesa de área, portanto, não está apenas no alcance de um míssil. Ela envolve toda a arquitetura do navio, desde a capacidade de detecção e processamento até a possibilidade de distribuir informações e coordenar o emprego dos diferentes sistemas de armas.

Essa necessidade tornou-se ainda mais evidente com a disseminação dos sistemas não tripulados. A experiência recente da guerra na Ucrânia mostrou como drones relativamente baratos podem ser empregados para reconhecimento, aquisição de alvos e ataque, criando uma relação de custo assimétrica para quem precisa se defender. Quando diferentes vetores são empregados simultaneamente, a ameaça pode evoluir rapidamente de um problema de detecção para um problema de saturação.

No ambiente marítimo, uma força pode ser observada por aeronaves não tripuladas, atacada por veículos de superfície não tripulados e submetida simultaneamente a guerra eletrônica e mísseis convencionais. A resposta, portanto, não pode depender de um único sistema.

A fragata moderna precisa operar como parte de uma rede na qual radares, sensores eletro-ópticos, sonares, sistemas de guerra eletrônica e enlaces de dados trabalhem de forma integrada. Detectar uma ameaça é apenas a primeira etapa. A informação precisa ser processada, compartilhada e transformada em uma decisão dentro de um intervalo de tempo compatível com a velocidade do ataque.

Também não existe necessariamente uma única resposta para cada ameaça. Dependendo da situação, a neutralização pode ocorrer por meio de guerra eletrônica, sistemas de curto alcance, canhões, mísseis ou pela combinação de diferentes recursos. Essa capacidade de empregar respostas proporcionais ao tipo de ameaça é especialmente importante diante da proliferação de drones e de outros sistemas de baixo custo.

É nesse contexto que ganha importância o conceito de defesa em camadas, no qual diferentes sensores e armas atuam de forma complementar para aumentar a possibilidade de detectar e neutralizar uma ameaça antes que ela alcance o alvo protegido.

O tamanho também importa, mas não sozinho

Essa arquitetura está diretamente relacionada ao projeto físico da plataforma. Deslocamento, por si só, não determina a capacidade de combate de um navio. Um meio maior não é automaticamente superior apenas por possuir maior porte. Entretanto, uma plataforma com maior margem de deslocamento pode oferecer vantagens importantes para acomodar sensores, armamentos, sistemas de geração e distribuição de energia, armazenamento de munições, equipamentos de guerra eletrônica e estruturas necessárias para futuras modernizações.

Essa última característica tornou-se especialmente relevante. Um navio de guerra pode permanecer em serviço por três décadas ou mais, período durante o qual os sistemas instalados originalmente provavelmente serão substituídos, atualizados ou complementados. Uma plataforma projetada sem margem de crescimento pode atingir seus limites físicos antes mesmo de chegar ao fim de sua vida útil.

Por isso, as arquiteturas abertas, a disponibilidade de energia, a capacidade de processamento e o espaço reservado para novos equipamentos passaram a ser elementos tão importantes quanto os sistemas instalados no momento da entrada em serviço. O objetivo é permitir que o navio acompanhe a evolução tecnológica sem exigir grandes alterações estruturais a cada novo ciclo de modernização.

Nesse sentido, com nossa experiência acompanhando o campo operacional, trazemos uma questão fundamental no debate: qual capacidade realmente se espera de uma escolta quando ela deixa de ser analisada isoladamente e passa a ser empregada dentro de uma força naval?

A resposta não está apenas na ficha técnica. Um navio pode apresentar números expressivos de armamento e sensores, e ainda assim encontrar limitações quando submetido às condições reais de uma operação complexa. O desempenho depende da integração dos sistemas, da doutrina, do treinamento da tripulação e da capacidade de utilizar esses recursos sob as condições para as quais foram projetados.

Por isso, existe uma diferença importante entre afirmar que determinado equipamento possui determinada capacidade e demonstrar, por meio de exercícios e avaliações, que o conjunto consegue entregar esse desempenho em ambiente operacional.

Tecnologia precisa ser acompanhada por pessoas

A evolução tecnológica também modificou o papel da tripulação. A automação permite reduzir o número de militares necessários para determinadas funções, mas aumenta a complexidade dos sistemas que precisam ser monitorados e empregados. Sensores mais sofisticados, redes de dados, sistemas automatizados e diferentes camadas de defesa exigem profissionais preparados para interpretar informações e tomar decisões em intervalos cada vez menores.

Uma fragata moderna, portanto, não é apenas uma plataforma de armas. É um sistema complexo operado por pessoas, e sua eficiência depende da combinação entre tecnologia, doutrina, treinamento e experiência.

Isso significa que a modernização de uma Marinha não ocorre simplesmente quando um novo navio é incorporado. Ela se consolida quando a instituição consegue integrar plataforma, sensores, armas, inteligência, comando e controle, logística, treinamento e pessoal dentro de uma capacidade operacional coerente.

O que isso significa para o Brasil

Essa discussão é particularmente importante para a futura composição da Esquadra brasileira. Antes de escolher uma nova plataforma, o Brasil precisa definir qual papel pretende atribuir às suas escoltas.

Se a prioridade for presença marítima, patrulha e emprego em missões de menor intensidade, determinados requisitos podem ser suficientes. Se a mesma plataforma tiver de proteger grupos-tarefa, enfrentar submarinos, contribuir para a defesa aérea de outros navios e operar diante de ataques coordenados por drones e mísseis, a exigência será significativamente maior.

A dimensão da Amazônia Azul torna essa escolha ainda mais complexa. O Brasil possui uma extensa área marítima, recursos energéticos, infraestrutura submarina, rotas comerciais e outros ativos estratégicos que dependem da segurança do ambiente marítimo. Isso exige quantidade suficiente de meios para garantir presença, mas também plataformas capazes de operar em cenários de maior intensidade.

Por isso, a futura composição da Esquadra tende a exigir complementaridade entre diferentes categorias de navios. Escoltas de porte intermediário podem oferecer volume, disponibilidade e presença em diferentes áreas, enquanto plataformas maiores podem concentrar capacidades mais sofisticadas de guerra antissubmarino, defesa aérea, guerra eletrônica, comando e controle e operação em ambientes saturados.

Não se trata de escolher entre quantidade e qualidade, mas de distribuir capacidades dentro de uma força equilibrada. A grande transformação da guerra naval contemporânea está justamente no fato de que nenhum navio combate sozinho. Uma fragata precisa estar conectada a aeronaves, helicópteros, submarinos, outros navios, sistemas de vigilância e, cada vez mais, veículos não tripulados. Sua eficiência será determinada não apenas pelo que consegue realizar individualmente, mas pela capacidade de ampliar a consciência situacional e o poder de combate de toda a força.

É essa integração que redefine o conceito moderno de escolta. Mais do que acompanhar outro navio, a escolta precisa contribuir para criar uma camada de proteção capaz de detectar, acompanhar e enfrentar ameaças antes que elas alcancem os meios de maior valor.

Para o Brasil, essa discussão precisa começar antes da próxima geração de navios chegar ao horizonte de substituição. A classe Tamandaré representa uma etapa importante na reconstrução da capacidade de escolta da Marinha, mas a experiência adquirida com seu desenvolvimento e emprego deve servir também para definir os requisitos das futuras plataformas.

A questão, portanto, não é apenas qual será o próximo navio da Esquadra, mas qual capacidade a Marinha do Brasil pretende possuir nas próximas décadas. A resposta deverá considerar não apenas armamento e deslocamento, mas sensores, defesa em camadas, guerra antissubmarino, guerra eletrônica, sistemas não tripulados, comando e controle, capacidade de modernização e integração com toda a força naval.

É a partir dessa visão que será possível transformar a próxima geração de escoltas em uma capacidade efetivamente preparada para o ambiente marítimo que o Brasil encontrará nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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Avibras Aeroco e Exército avançam na certificação do Míssil Tático de Cruzeiro

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A capacidade brasileira de desenvolver e produzir mísseis de longo alcance avançou mais uma etapa nesta quarta-feira (26), com a realização do novo ensaio do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), desenvolvido pela Avibras Aeroco em parceria com o Exército Brasileiro. O lançamento ocorreu no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia no Rio de Janeiro, dentro do processo de certificação do sistema.

Segundo a Avibras Aeroco, os objetivos estabelecidos para o ensaio foram integralmente atingidos. A atividade reuniu equipes da empresa e do Exército e envolveu diferentes organizações responsáveis pelo desenvolvimento, avaliação e condução dos programas estratégicos da Força, entre elas o Escritório de Projetos do Exército (EPEx), a Diretoria de Fabricação (DF), o Instituto Militar de Engenharia (IME), o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e o próprio CAEx.

O resultado representa mais do que uma nova demonstração do MTC. O ensaio faz parte de uma sequência destinada a avaliar e certificar o sistema antes de sua transformação em capacidade operacional, colocando novamente em evidência uma competência tecnológica que o Brasil levou décadas para desenvolver.

O MTC amplia as capacidades do ASTROS

Integrado ao Sistema de Artilharia ASTROS, o MTC possui alcance declarado de até 300 quilômetros e acrescenta ao sistema uma capacidade de ataque de precisão em profundidade que vai além do emprego tradicional de foguetes de artilharia.

A combinação entre alcance, precisão e mobilidade é um dos principais elementos dessa capacidade. O ASTROS permite que seus meios sejam deslocados, empregados e reposicionados, reduzindo o tempo de exposição das unidades lançadoras. Com o MTC, essa característica passa a estar associada à possibilidade de produzir efeitos a centenas de quilômetros de distância.

A relevância desse conceito aumentou diante da transformação observada nos conflitos recentes. O emprego intensivo de drones, sensores e sistemas de reconhecimento tornou o campo de batalha mais transparente e reduziu a margem para unidades de artilharia permanecerem por períodos prolongados em posições conhecidas.

A experiência da guerra na Ucrânia mostrou que alcance e poder de fogo precisam estar associados à mobilidade, dispersão, aquisição de alvos, consciência situacional e capacidade de operar dentro de uma rede de comando e controle. Nesse contexto, o MTC amplia as opções disponíveis ao Exército, permitindo que uma plataforma terrestre móvel seja empregada para produzir efeitos em maior profundidade.

Seu potencial, portanto, não está apenas no alcance da munição, mas na possibilidade de integrá-la a uma arquitetura de reconhecimento e ataque capaz de conectar sensores, inteligência e sistemas de armas.

O ensaio é parte de um processo maior

É importante diferenciar o sucesso de um ensaio da existência de uma capacidade operacional plenamente disponível. O lançamento realizado na Restinga da Marambaia representa uma etapa bem-sucedida, mas o MTC ainda precisa concluir o processo de certificação e cumprir as demais fases necessárias para sua adoção e produção.

Essa etapa é particularmente importante porque um sistema dessa complexidade exige competências que vão muito além da fabricação do míssil. Propulsão, navegação, controle, eletrônica, integração, instrumentação e avaliação fazem parte de uma cadeia tecnológica que precisa ser mantida ao longo de todo o ciclo de vida do sistema.

A participação conjunta das estruturas técnicas do Exército e da indústria permite justamente acumular conhecimento durante os ensaios e transformar os resultados obtidos em aperfeiçoamentos para o sistema. Esse processo também fortalece a capacidade nacional de desenvolver, testar e certificar tecnologias de defesa de maior complexidade.

Para o Brasil, essa competência possui valor estratégico próprio. Poucos países conseguem dominar integralmente as etapas necessárias para desenvolver e colocar em serviço um míssil de cruzeiro, e a perda desse conhecimento exigiria tempo e investimentos consideráveis para ser reconstruída.

A retomada da Avibras ganha importância

A evolução do MTC ocorre ainda durante um momento decisivo para a Avibras Aeroco, que busca consolidar a retomada de suas atividades depois de atravessar um dos períodos mais difíceis de sua história.

Em junho deste ano, a empresa anunciou a retomada da produção industrial e a preparação de novos projetos no segmento de mísseis. A continuidade do MTC, nesse contexto, representa uma oportunidade para recuperar não apenas linhas de produção, mas também competências técnicas e industriais acumuladas ao longo de décadas.

Esse aspecto é especialmente relevante porque uma empresa estratégica de defesa não pode ser avaliada apenas por sua capacidade instalada. Parte considerável de seu patrimônio está no conhecimento de seus profissionais, nos processos industriais, na rede de fornecedores e na experiência adquirida durante o desenvolvimento e a avaliação de sistemas complexos.

A crise enfrentada pela antiga Avibras colocou justamente esse patrimônio em risco. A retomada do programa do MTC demonstra que parte dessa capacidade permanece disponível e pode voltar a ser empregada em projetos de interesse direto do Estado brasileiro.

O desafio agora é garantir continuidade

O principal risco para o programa não está mais apenas na capacidade tecnológica de desenvolver o MTC, mas na possibilidade de interromper o ciclo antes que o sistema se transforme em uma capacidade militar sustentável.

O Brasil possui histórico de programas que alcançaram resultados tecnológicos relevantes, mas enfrentaram dificuldades para avançar para produção continuada, aquisição em escala e evolução das versões posteriores. Para o MTC, a conclusão da certificação precisa ser acompanhada por uma estratégia capaz de garantir produção, manutenção, treinamento e desenvolvimento de novas gerações. Essa continuidade também será necessária para que o míssil acompanhe a evolução do próprio campo de batalha.

Um sistema de longo alcance terá seu potencial ampliado quando estiver integrado a drones, sensores, inteligência, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle capazes de fornecer informações precisas para o emprego da arma. O desenvolvimento do MTC, portanto, precisa caminhar junto com a evolução da arquitetura de combate do ASTROS e das capacidades de aquisição de alvos do Exército.

A questão é particularmente importante porque o valor estratégico de uma arma de longo alcance não está somente na capacidade de atingir determinado alcance. Ele depende da existência de uma cadeia operacional capaz de detectar, identificar, priorizar e transmitir informações sobre alvos com velocidade e precisão suficientes para que o sistema de armas possa produzir o efeito desejado.

Leitura estratégica

O novo ensaio do MTC ocorre em um momento no qual as principais forças militares vêm ampliando suas capacidades de ataque em profundidade e investindo na integração entre sensores, sistemas não tripulados, inteligência e armas de precisão. Para o Brasil, manter essa competência significa preservar uma opção estratégica que dificilmente poderia ser obtida rapidamente caso fosse perdida.

A evolução do programa também precisa ser considerada dentro da recuperação da própria Avibras Aeroco. A empresa concentra conhecimentos que ultrapassam o MTC e que podem sustentar futuras gerações de mísseis e outros sistemas de armas. Por isso, a continuidade dos projetos estratégicos deve ser entendida como parte da política de preservação da Base Industrial de Defesa, e não apenas como uma questão contratual entre empresa e Força.

O ensaio de 26 de agosto mostra que o programa continua avançando, mas seu resultado mais importante ainda está por vir. Será necessário concluir a certificação, transformar o MTC em sistema operacional, garantir produção e assegurar que a indústria tenha condições de evoluir a tecnologia.

O Brasil já demonstrou que possui conhecimento para desenvolver um míssil de cruzeiro de longo alcance. O desafio agora é garantir que esse conhecimento se transforme em capacidade militar permanente e que a indústria responsável por desenvolvê-la tenha condições de continuar produzindo e evoluindo essa tecnologia nas próximas décadas.


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Brasil e Türkiye elevam a relação de defesa a um novo patamar: o telefonema entre Lula e Erdoğan e o que está por trás da aproximação

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A ligação telefônica entre o presidente Lula e o presidente da Türkiye, Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, representa mais do que um movimento diplomático entre Brasília e Ancara. A defesa ocupou posição central na conversa, acompanhada pela decisão de criar um Conselho Estratégico bilateral, em nível de vice-presidentes, e pelo envio de uma delegação brasileira à Türkiye, liderada pelos ministros da Defesa e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Lula afirmou que o Brasil pretende ampliar os investimentos em defesa e manifestou interesse em fomentar parcerias entre empresas brasileiras e turcas. Os dois presidentes também destacaram a ratificação do Acordo de Cooperação em Indústria de Defesa, criando uma base jurídica para ampliar projetos conjuntos, intercâmbio tecnológico e participação industrial.

O movimento, entretanto, não começou agora. A conversa presidencial representa a elevação política de uma aproximação que vem sendo construída há anos e que, em 2026, passou a apresentar sinais mais concretos nos campos jurídico, militar e industrial.

De um acordo de 2022 a uma agenda concreta

Brasil e Türkiye assinaram o Acordo de Cooperação em Indústria de Defesa em 25 de março de 2022. O instrumento estabelece possibilidades de cooperação em pesquisa, desenvolvimento, produção, aquisição, modernização e manutenção de produtos e serviços de defesa, criando as bases para projetos conjuntos e intercâmbio de conhecimentos e tecnologias.

No Brasil, o acordo avançou pelo processo legislativo e foi aprovado pelo Congresso em 2025. Em junho de 2026, a Türkiye também ratificou o instrumento, completando uma etapa importante para sua consolidação bilateral.

A relevância desse processo está em criar condições para que a cooperação ultrapasse declarações políticas e contatos empresariais isolados. O acordo permite estruturar projetos envolvendo empresas, instituições de pesquisa e Forças Armadas, além de abrir espaço para desenvolvimento, produção, modernização e suporte de sistemas. Essa base jurídica começa agora a encontrar demandas concretas.

O Exército já avalia capacidades turcas

Um dos sinais mais importantes dessa evolução ocorreu antes mesmo da conversa entre Lula e Erdoğan.

Em 29 de julho, durante o Apronto Operacional da Operação Membeca 2026, o GBN Defense participou da coletiva de imprensa com o Comandante do Exército. Na ocasião, ao abordar a aproximação com a indústria de defesa turca, o comandante revelou que existiam conversas avançadas envolvendo sistemas não tripulados de Categoria 3, segmento no qual estão plataformas de maior porte e capacidade, como o Bayraktar desenvolvido pela indústria turca, além de sistemas de ataque.

A declaração mostrou que a relação já havia ultrapassado o campo das intenções. Existiam tratativas relacionadas a capacidades específicas de interesse do Exército Brasileiro.

O segmento de sistemas não tripulados é particularmente relevante nesse contexto. A guerra contemporânea demonstrou como drones podem assumir funções de inteligência, vigilância, reconhecimento, aquisição de alvos e emprego de armamentos, enquanto a integração dessas plataformas com sensores, sistemas de comando e controle e outros vetores amplia sua utilidade operacional.

A Türkiye tornou-se uma referência justamente nesse campo, desenvolvendo uma indústria capaz de produzir diferentes categorias de aeronaves não tripuladas e empregá-las em operações reais. Para o Brasil, essa experiência pode contribuir para acelerar o desenvolvimento de capacidades próprias, desde que a cooperação seja estruturada para gerar participação nacional.

O potencial vai muito além dos drones

Reduzir a aproximação Brasil–Türkiye aos sistemas não tripulados seria, entretanto, limitar significativamente seu potencial. A indústria turca desenvolveu competências em veículos blindados, mísseis, sensores, guerra eletrônica, comando e controle, sistemas navais e defesa antiaérea. São áreas que coincidem com diferentes necessidades de modernização das Forças Armadas brasileiras.

O campo naval merece atenção especial. A Türkiye possui soluções destinadas à defesa de plataformas e instalações contra diferentes ameaças aéreas, incluindo sistemas de defesa de ponto que combinam sensores, comando e controle e armamentos de curto alcance. Algumas dessas capacidades já despertam interesse na Marinha do Brasil e podem representar uma frente adicional de cooperação.

A possibilidade mais interessante, entretanto, não está necessariamente na aquisição de uma solução pronta. Existe espaço para avaliar integração de tecnologias turcas com sistemas brasileiros, participação da Base Industrial de Defesa e, quando houver viabilidade, produção e desenvolvimento local.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos veículos blindados e aos sistemas não tripulados. A oportunidade está em identificar onde as competências brasileiras e turcas podem ser combinadas para produzir capacidades que atendam às necessidades dos dois países e tenham potencial de exportação.

A complementaridade entre as duas indústrias

Brasil e Türkiye possuem bases industriais de defesa com características diferentes e, justamente por isso, potencialmente complementares. O Brasil acumulou competências relevantes em aeronaves, sistemas de transporte, radares, veículos militares, mísseis, sistemas eletrônicos e construção naval. A Türkiye, por sua vez, construiu uma indústria fortemente orientada para autonomia tecnológica, produção em escala e exportação, alcançando posições relevantes em drones, veículos blindados, mísseis e sistemas navais. Essa complementaridade pode permitir que a relação seja estruturada além do modelo tradicional de fornecedor e comprador.

Para o Brasil, isso é particularmente importante. A Base Industrial de Defesa possui empresas e tecnologias relevantes, mas enfrenta dificuldades recorrentes relacionadas à escala de produção, previsibilidade orçamentária e continuidade dos programas. Parcerias internacionais capazes de gerar desenvolvimento conjunto, produção local e acesso a mercados externos podem ajudar a reduzir parte dessas limitações.

Uma aquisição estrangeira resolve uma necessidade operacional. Um programa conjunto pode criar conhecimento, cadeia produtiva, capacidade de manutenção, domínio tecnológico e possibilidade de evolução do sistema ao longo de sua vida útil. É essa segunda dimensão que deveria orientar a nova fase da relação.

Uma agenda construída ao longo dos anos

Essa aproximação também possui uma história dentro do próprio ambiente de defesa brasileiro. Desde 2017, o GBN Defense, por meio de seu editor Angelo Nicolaci, acompanha e fomenta a aproximação entre Brasil e Türkiye no campo da defesa, atuando como um dos canais de diálogo e conexão entre os ambientes de defesa, indústria e especialistas dos dois países.

Ao longo desse período, o GBN Defense não se limitou a acompanhar a evolução da indústria turca. O veículo também trabalhou para aproximar os dois ecossistemas, apresentando ao público brasileiro capacidades desenvolvidas pela Türkiye, identificando possibilidades de cooperação e estimulando o diálogo entre representantes dos setores de defesa e indústria.

Esse trabalho antecede o atual movimento político. A aproximação que agora chega ao mais alto nível foi precedida por anos de contatos, cobertura especializada, interlocução e construção de pontes entre os dois países. Isso não significa atribuir ao GBN Defense a construção da política de Estado brasileira ou turca. Essa responsabilidade pertence aos governos e às instituições encarregadas de formular e executar suas políticas de defesa e relações exteriores. Mas é importante registrar o papel desempenhado pelo veículo ao acompanhar e fomentar essa agenda desde 2017, quando a relação Brasil–Türkiye ainda não ocupava o espaço que começa a conquistar atualmente.

O momento atual reforça, portanto, uma percepção que o GBN Defense vem sustentando ao longo desse período: Brasil e Türkiye possuem condições para construir uma relação de defesa muito mais profunda do que uma simples relação comercial baseada na compra de equipamentos.

Do diálogo político às necessidades brasileiras

A aproximação ocorre também em um momento de transformação das necessidades das Forças Armadas brasileiras. A guerra na Ucrânia demonstrou a velocidade com que sistemas não tripulados, guerra eletrônica, sensores, munições guiadas e tecnologias comerciais podem ser incorporados ao ambiente militar. Ao mesmo tempo, o Brasil precisa lidar com necessidades próprias, que incluem vigilância de fronteiras, proteção da Amazônia, monitoramento da Amazônia Azul e enfrentamento de ilícitos transnacionais.

Nesse cenário, a experiência turca pode ser útil não apenas pelos equipamentos desenvolvidos, mas pelo modelo de desenvolvimento de capacidades. A Türkiye conseguiu aproximar requisitos militares, empresas privadas, pesquisa, desenvolvimento e produção em escala, criando produtos capazes de atender às próprias Forças Armadas e conquistar mercados internacionais.

O Brasil não precisa reproduzir esse modelo integralmente. Precisa identificar onde existe complementaridade e quais projetos podem gerar benefícios concretos para sua autonomia tecnológica e industrial.

Drones de Categoria 3 e sistemas de ataque podem ser uma dessas frentes. Veículos blindados podem representar outra. Sistemas navais de defesa de ponto constituem uma terceira possibilidade. Sensores, guerra eletrônica, comando e controle e outras tecnologias ampliam ainda mais esse mapa.  Existe, portanto, um campo amplo de oportunidades ainda a ser explorado.

O Conselho Estratégico e o próximo passo

A criação do Conselho Estratégico bilateral pode ser o mecanismo capaz de transformar essa aproximação em processo contínuo. Ao estabelecer uma estrutura permanente de coordenação em nível de vice-presidentes, Brasil e Türkiye passam a dispor de um instrumento político para acompanhar diferentes áreas da relação e conectar iniciativas que hoje podem estar dispersas.

Na defesa, essa coordenação pode aproximar três níveis fundamentais: as necessidades das Forças Armadas, as capacidades da indústria e as decisões políticas e orçamentárias.

O principal indicador de sucesso, entretanto, não será o número de equipamentos turcos incorporados pelas Forças Armadas brasileiras. Será a capacidade de transformar a relação em projetos capazes de ampliar a autonomia brasileira.

Isso significa observar se as conversas avançadas mencionadas pelo Comandante do Exército evoluirão para projetos concretos, qual será a participação da indústria nacional e se os acordos produzirão transferência efetiva de conhecimento, capacidade de manutenção, produção e desenvolvimento.

Também será necessário avaliar o potencial de exportação. Projetos concebidos desde o início para atender aos mercados brasileiro e turco, além de terceiros países, poderiam oferecer escala e sustentabilidade que dificilmente seriam alcançadas por programas destinados exclusivamente ao mercado interno.

O próximo capítulo

Em 31 de agosto, o editor do GBN Defense estará na Embaixada da Türkiye em Brasília durante as celebrações do Dia das Forças Armadas Turcas. O encontro será mais uma oportunidade para acompanhar os desdobramentos dessa nova fase e buscar informações sobre os projetos que podem ganhar impulso a partir do ambiente político criado por Lula e Erdoğan.

Para o GBN Defense, também será a continuidade de um trabalho iniciado há quase uma década, acompanhando e fomentando a aproximação entre os dois países e buscando identificar oportunidades que possam resultar em benefícios concretos para a defesa e a indústria brasileiras.

A sequência dos acontecimentos demonstra a mudança de patamar: o acordo de defesa foi assinado em 2022, avançou no processo legislativo brasileiro em 2025, foi ratificado pela Türkiye em junho de 2026, em julho o Comandante do Exército confirmou conversas avançadas sobre a potencial aquisição de drones Categoria 3 e sistemas de ataque. Em agosto, a agenda chegou diretamente aos presidentes e ganhou uma estrutura política permanente para ser desenvolvida.

O Brasil, portanto, não está apenas diante de uma oportunidade para adquirir equipamentos turcos. Existe a possibilidade de construir uma relação industrial e tecnológica mais ampla com um país que desenvolveu competências relevantes justamente em áreas nas quais as Forças Armadas brasileiras possuem demandas concretas.

O desafio será transformar essa convergência em capacidade permanente, com participação efetiva da indústria nacional, desenvolvimento tecnológico, produção, possibilidade de exportação e continuidade além dos ciclos políticos.

Se esse caminho for seguido, a aproximação entre Brasília e Ancara poderá representar muito mais do que a expansão da cooperação bilateral. Poderá se transformar em uma parceria estratégica capaz de gerar capacidades militares, industriais e tecnológicas para os dois países.


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Da Tamandaré à próxima geração: por que a Marinha precisa pensar além das fragatas Tamandaré

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A entrada em serviço da classe Tamandaré representa um dos movimentos mais importantes para a renovação da Esquadra brasileira nas últimas décadas. Depois de anos marcados pelo envelhecimento de suas principais escoltas, a Marinha do Brasil passa a incorporar uma plataforma concebida no século XXI, equipada com sistemas de combate integrados, sensores modernos e elevado grau de automação. O programa deve, portanto, ser compreendido como uma recuperação necessária da capacidade de presença e escolta da Força Naval.

Essa constatação, entretanto, não encerra o debate. Pelo contrário. A evolução do ambiente estratégico e da própria guerra naval durante o desenvolvimento das novas fragatas mostra que o Brasil precisa começar a discutir, desde já, qual será o próximo passo para sua capacidade de combate no mar.

A questão não é colocar em dúvida a importância da Tamandaré, mas reconhecer suas características e seus limites naturais. Uma plataforma concebida para recuperar o número de escoltas disponíveis não pode, por necessidade, ser transformada na resposta para todas as demandas futuras da Esquadra.

A própria origem do programa ajuda a compreender essa questão. O projeto que deu origem à Tamandaré nasceu de uma iniciativa voltada à obtenção de uma nova geração de corvetas para a Marinha do Brasil. Ao longo do processo, os requisitos foram ampliados e a plataforma evoluiu até ser classificada como fragata, resultando em um navio significativamente mais capaz do que as corvetas inicialmente previstas.

Essa trajetória não é apenas uma questão de nomenclatura. Ela ajuda a definir a posição que a Tamandaré ocupa dentro da futura Esquadra. Trata-se de uma plataforma moderna, equipada com sistemas contemporâneos e superior às tradicionais corvetas em diversos aspectos, mas que permanece dentro de uma faixa intermediária de deslocamento e capacidade. Sua concepção atende à necessidade de recuperar presença, disponibilidade e massa de escoltas, mas não elimina a necessidade de uma categoria de navios maior, concebida desde a origem para missões de maior intensidade e complexidade.

Os limites naturais de uma fragata de porte intermediário

É justamente nesse ponto que algumas características da classe Tamandaré merecem atenção. Não como falhas do projeto, mas como consequência das escolhas feitas para uma plataforma de cerca de 3.500 toneladas de deslocamento.

Uma delas está na guerra antissubmarino. A Tamandaré dispõe de sonar de casco, mas não incorpora um sonar rebocado. Essa diferença possui implicações importantes. O sonar de casco oferece uma capacidade relevante de detecção e acompanhamento de contatos submarinos, mas um sistema rebocado amplia as possibilidades de busca e permite explorar diferentes condições acústicas, aumentando a distância e a profundidade da capacidade de detecção.

Dentro do ambiente marítimo no qual submarinos modernos se tornam cada vez mais silenciosos, detectar o adversário antes que ele alcance uma posição favorável para o ataque pode ser tão importante quanto possuir os meios necessários para destruí-lo.

A defesa aérea representa outro ponto relevante. A Tamandaré possui recursos destinados à proteção do próprio navio e à defesa contra ameaças aéreas, mas sua configuração não corresponde à de uma escolta concebida para fornecer defesa aérea de área a uma força naval. Existe uma diferença importante entre defender a própria plataforma e criar uma zona de proteção capaz de cobrir outros navios de uma força-tarefa.

Essa segunda capacidade exige sensores de maior alcance, sistemas de comando e controle capazes de administrar um cenário aéreo mais complexo, e principalmente, um conjunto de armamentos suficiente para enfrentar ameaças antes que elas alcancem a zona terminal de defesa.

Também é necessário considerar o volume e o alcance do armamento que pode ser embarcado. Um escolta de porte intermediário, possui características que são naturalmente condicionadas pelo espaço disponível, pelo deslocamento e pela própria arquitetura da plataforma.

Em cenários de maior intensidade, a capacidade de manter um número maior de armas prontas para emprego e atingir ameaças a distâncias superiores passa a influenciar diretamente a sobrevivência do navio e a liberdade de ação da força naval.

Outro aspecto que só poderá ser plenamente avaliado com o tempo será o desempenho operacional dos modernos sensores e sistemas eletrônicos embarcados na classe. A qualidade e a sofisticação tecnológica desses equipamentos são conhecidas, mas sua eficácia como conjunto dependerá da experiência acumulada pela Marinha do Brasil durante o emprego operacional, exercícios e cenários cada vez mais exigentes.

Esses fatores não diminuem a importância da Tamandaré. Pelo contrário. Eles ajudam a definir com maior precisão o papel que ela deverá desempenhar, e principalmente aquilo que precisará ser exigido da próxima geração de escoltas brasileiras.

A guerra mudou durante o desenvolvimento da Tamandaré

A guerra na Ucrânia acelerou a percepção sobre o impacto dos sistemas não tripulados na guerra naval. Veículos de superfície não tripulados, drones aéreos, munições vagantes e ataques coordenados por diferentes vetores passaram a representar uma ameaça concreta para navios de guerra.

A experiência recente demonstrou que plataformas navais podem ser submetidas a ataques realizados por sistemas de custo relativamente baixo, empregados em quantidade e combinados com inteligência, reconhecimento, guerra eletrônica e outros meios convencionais.  Isso não torna automaticamente inadequada uma fragata concebida antes dessa transformação. Mas altera os parâmetros que devem orientar os projetos seguintes.

Um navio de guerra permanece em serviço por décadas. Uma fragata projetada hoje poderá continuar navegando quando tecnologias que ainda parecem emergentes já estiverem maduras e novas formas de ataque tiverem transformado novamente o ambiente operacional.

Por isso, o próximo passo da Marinha não deveria ser simplesmente reproduzir a mesma arquitetura em um novo programa. O Brasil precisa aproveitar a experiência adquirida com a Tamandaré, incluindo suas capacidades e limitações, para desenvolver uma segunda camada de escoltas com maior deslocamento, entre 7.000 e 8.500 toneladas, e margem de crescimento tecnológico. É nesse ponto que surge a necessidade de discutir uma futura classe formada por quatro a seis fragatas de maior porte e maior capacidade de combate.

O objetivo não seria substituir as Tamandaré, mas complementar a força. As duas categorias cumpririam funções diferentes dentro de uma mesma arquitetura naval. As Tamandaré forneceriam volume, presença e capacidade multifuncional, enquanto as fragatas maiores concentrariam capacidades destinadas aos cenários de maior intensidade.

Mais espaço significa mais capacidade para evoluir

Uma fragata de maior deslocamento não representa apenas mais armas ou sensores. Um navio maior oferece mais volume interno, geração elétrica, capacidade de refrigeração, autonomia, estabilidade e margem estrutural para incorporar novas tecnologias ao longo de décadas.

Essa característica se torna cada vez mais importante em uma época na qual radares mais potentes, sistemas de guerra eletrônica, sensores avançados, defesa contra drones e futuras armas de energia dirigida exigirão maior disponibilidade de energia e processamento.

Uma nova classe poderia incorporar desde sua concepção uma capacidade antissubmarino mais ampla, combinando sonar de casco e sistemas rebocados, além do emprego de helicópteros e outros meios destinados à busca e ao acompanhamento de contatos submarinos.

Na defesa aérea, a diferença poderia ser ainda mais significativa. Além dos sistemas necessários para a autoproteção, uma fragata maior poderia dispor de uma arquitetura voltada à defesa aérea de área, contribuindo para proteger outras unidades e criando maior profundidade defensiva para uma força-tarefa.

O mesmo vale para a capacidade de ataque. Maior espaço e deslocamento permitem acomodar um conjunto mais amplo de armas e principalmente, preservar margem para incorporar novos sistemas durante a vida útil do navio.

O ambiente dos drones acrescenta outra variável. A proliferação de veículos aéreos não tripulados e veículos de superfície não tripulados exige que uma escolta moderna seja capaz de detectar, classificar e enfrentar múltiplas ameaças simultaneamente, sem depender exclusivamente de mísseis de alto custo para neutralizar sistemas muito mais baratos.

Guerra eletrônica, canhões com munição programável, sensores específicos, sistemas de curto alcance e futuramente armas de energia dirigida, deverão integrar uma arquitetura de defesa em camadas. Mais uma vez, espaço, energia e capacidade de crescimento serão fatores decisivos.

Uma Esquadra precisa de camadas

A discussão, portanto, não deveria ser sobre escolher entre quantidade e qualidade. Uma Esquadra formada apenas por grandes fragatas seria cara demais para garantir presença permanente em toda a extensão da Amazônia Azul. Por outro lado, uma força composta exclusivamente por escoltas de porte intermediário poderia encontrar limitações diante de ameaças que exigem maior alcance de detecção, defesa aérea de área, guerra antissubmarino mais profunda e maior capacidade de sobrevivência. A solução mais racional está justamente na combinação dessas duas categorias.

Oito Tamandaré poderiam formar a base quantitativa de uma nova geração de escoltas brasileiras, garantindo presença, disponibilidade e capacidade multifuncional. Sobre essa estrutura, quatro a seis fragatas de maior porte poderiam constituir um núcleo destinado às missões que exigem maior poder de detecção, defesa aérea, guerra antissubmarino, guerra eletrônica e capacidade para operar em ambientes de maior intensidade.

Essa arquitetura também permitiria distribuir melhor os meios disponíveis. Nem toda missão exige uma grande fragata, assim como nem toda ameaça pode ser enfrentada por uma escolta de porte intermediário. O equilíbrio entre as duas capacidades daria à Marinha maior flexibilidade para empregar seus recursos de acordo com o nível de ameaça e a importância da missão.

A Tamandaré não é o ponto final

O desafio, portanto, não é decidir se a Tamandaré é suficiente ou insuficiente. Ela é necessária e representa uma etapa fundamental para a reconstrução da capacidade de escolta da Marinha do Brasil. O verdadeiro risco seria considerar sua incorporação como o ponto final desse processo.

A Amazônia Azul possui dimensões que exigem presença constante, mas também concentra interesses econômicos e estratégicos que justificam a existência de meios capazes de operar em ambientes de maior ameaça. Petróleo, gás, infraestrutura submarina, cabos de comunicação, rotas marítimas, portos e outros recursos ampliam a importância de uma força naval capaz de proteger não apenas o litoral, mas os interesses brasileiros no mar.

A guerra contemporânea acrescentou uma variável que não pode mais ser ignorada: o adversário terá capacidade crescente para combinar sistemas relativamente baratos, numerosos e difíceis de detectar com mísseis de longo alcance, submarinos, guerra eletrônica e ataques multidomínio. A próxima escolta brasileira precisará nascer considerando esse ambiente, e não apenas reproduzindo os parâmetros que orientaram projetos anteriores.

A classe Tamandaré deve, portanto, ser vista como o início da reconstrução da Esquadra, e não como sua conclusão. O Brasil precisa de navios suficientes para estar presente em sua imensa área marítima, mas também precisa de plataformas capazes de concentrar maior poder de combate quando a presença, por si só, não for suficiente.

Da Niterói à Tamandaré, a Marinha do Brasil atravessou uma importante mudança geracional. O próximo passo será transformar as lições desse processo, incluindo as capacidades e limitações naturais da nova classe, em uma visão de longo prazo para a Esquadra.

A discussão sobre uma fragata de maior porte precisa começar antes que a atual geração esteja completa. Projetar, financiar, construir e incorporar um navio de guerra exige anos, muitas vezes décadas. As ameaças, por outro lado, evoluem em velocidade muito maior.

Esperar que a necessidade se torne urgente para começar a pensar na próxima geração seria correr o risco de repetir um problema que a própria história da renovação da Esquadra brasileira já demonstrou: quando o planejamento começa tarde, a capacidade operacional acaba chegando depois que a necessidade já se tornou crítica.


por Angelo Nicolaci


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Diretor da CIA vai a Moscou em missão secreta enquanto EUA enfrentam crises na Ucrânia e no Irã

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O diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou nesta terça-feira (25) a Moscou para reuniões com autoridades russas, uma missão que não foi anunciada previamente por Washington e cuja agenda permanece sob sigilo. A viagem representa o primeiro deslocamento conhecido de um diretor da principal agência de inteligência americana à capital russa desde novembro de 2021, quando William Burns esteve em Moscou e se reuniu com Vladimir Putin, poucos meses antes da invasão em larga escala da Ucrânia.

A presença de Ratcliffe na Rússia foi identificada após um C-17A Globemaster III da Força Aérea dos Estados Unidos ser observado no aeroporto de Moscou, acompanhado de um comboio diplomático americano. Segundo relatos, a aeronave havia passado anteriormente por Riga, na Letônia. A CIA não comentou a viagem, enquanto o Kremlin confirmou apenas que Putin não tinha encontro previsto com o diretor da agência. 

A natureza da missão, portanto, permanece desconhecida. Não há confirmação de que Ratcliffe tenha ido a Moscou para negociar a guerra na Ucrânia ou tratar diretamente da crise com o Irã. O que existe é uma combinação pouco comum de fatores que torna a viagem particularmente relevante para a segurança internacional.

Uma missão fora do canal diplomático

A escolha do diretor da CIA para uma visita presencial a Moscou é o primeiro elemento que chama atenção. Pois Ratcliffe não ocupa uma função diplomática convencional. Como chefe da inteligência americana, seu principal instrumento é o acesso a informações classificadas e aos canais mantidos entre as estruturas de inteligência dos dois países. A CIA também participou de negociações recentes envolvendo cidadãos e prisioneiros, incluindo acordos de troca entre Estados Unidos e Rússia. Isso significa que a visita pode tratar de questões que Washington prefere manter fora dos canais diplomáticos tradicionais.

A ausência de um embaixador americano na Rússia aumenta ainda mais a relevância desses mecanismos paralelos. Em determinadas situações, canais de inteligência permitem transmitir mensagens, avaliar intenções e discutir questões sensíveis sem produzir imediatamente o mesmo grau de exposição política de uma negociação diplomática formal.

Por isso, seria precipitado interpretar a viagem como uma tentativa de negociação de paz. O deslocamento pode ter objetivo muito mais específico: estabelecer comunicação direta com Moscou sobre questões relacionadas à escalada militar, avaliar as intenções russas ou preparar condições para futuras negociações.

Washington pediu cautela a Kiev

Um dos elementos mais significativos associados à viagem envolve a Ucrânia. Segundo uma autoridade ucraniana ouvida pela CBS, Washington informou a Kiev que uma delegação americana de alto nível viajaria a Moscou e pediu a suspensão dos ataques até a saída da delegação. A Reuters também informou que os Estados Unidos solicitaram que a Ucrânia evitasse ataques aéreos nas proximidades de Moscou, São Petersburgo e determinadas áreas do norte da Rússia durante o período da viagem.

O episódio merece atenção porque demonstra que Washington considerou necessário criar uma janela de segurança para uma missão americana dentro do território russo.

Isso não significa que os Estados Unidos estejam restringindo permanentemente as operações ucranianas. O pedido está relacionado ao período específico da viagem. Ainda assim, revela a preocupação de Washington com a possibilidade de um ataque ucraniano coincidir com a presença de uma autoridade americana de alto escalão em território russo.

Há também uma dimensão estratégica. A Ucrânia vem ampliando sua capacidade de atacar alvos em profundidade dentro da Rússia, enquanto Moscou continua conduzindo operações militares contra o território ucraniano. Quanto maior a profundidade desses ataques, maior também o risco de um incidente envolvendo diretamente interesses americanos.

O precedente de William Burns

A comparação com 2021 é inevitável, mas precisa ser tratada com cautela. Em novembro daquele ano, o então diretor da CIA, William Burns, foi a Moscou quando Washington já havia identificado sinais de que o Kremlin preparava uma grande operação militar contra a Ucrânia. Burns conversou diretamente com Putin e transmitiu ao governo russo as consequências que uma invasão poderia provocar. Três meses depois, a Rússia iniciou a invasão em larga escala.

O contexto atual é diferente e não existe qualquer evidência de que a visita de Ratcliffe esteja relacionada a uma nova ofensiva russa. A coincidência, entretanto, demonstra a importância que Washington atribui a contatos desse nível quando a relação com Moscou entra em uma fase particularmente sensível.

A diferença agora é que os Estados Unidos não estão apenas tentando antecipar movimentos russos. Washington precisa administrar simultaneamente uma guerra que se prolonga na Europa e uma nova crise envolvendo o Irã.

O fator Irã

É nesse ponto que a viagem ganha uma dimensão mais ampla. Os Estados Unidos aumentaram a pressão sobre Teerã, segundo a Reuters, advertiram países e empresas para que reduzissem relações comerciais com o Irã sob risco de sanções secundárias. Ao mesmo tempo, Moscou mantém uma parceria estratégica com o governo iraniano.

A relação entre Rússia e Irã também possui dimensão militar e de inteligência. A Reuters já relatou acusações de que Moscou teria fornecido ao Irã imagens de satélite para apoiar a identificação de alvos americanos no Oriente Médio. A Ucrânia também acusou a Rússia de apoiar o desenvolvimento e emprego de sistemas derivados dos drones iranianos. Essas alegações fazem parte do contexto de crescente cooperação entre Moscou e Teerã, embora não constituam confirmação da pauta da reunião de Ratcliffe.

É justamente aqui que a inteligência americana possui interesse direto. Para Washington, não basta acompanhar a capacidade militar do Irã. Também é necessário compreender até onde Moscou está disposta a apoiar Teerã e quais limites a Rússia pretende estabelecer diante da pressão americanaRatcliffe seria, portanto, um interlocutor adequado para discutir esse tipo de questão sem necessariamente transformar o contato em uma negociação política formal.

Mais do que negociar, administrar riscos

Existe ainda uma interpretação mais ampla para a viagem, Washington pode estar tentando estabelecer ou reforçar canais destinados a evitar uma escalada direta entre Estados Unidos e Rússia.

A guerra da Ucrânia permanece sem solução, enquanto as negociações mediadas pelos Estados Unidos continuam distantes de um acordo sobre questões fundamentais. Moscou, por outro lado, afirmou recentemente estar aberta a novas propostas para um acordo, desde que elas considerem aquilo que o governo russo chama de “realidades no terreno”.

Ao mesmo tempo, avaliações recentes da inteligência americana indicam preocupação com uma possível mudança no cálculo de risco de Putin e com a disposição russa para testar a reação da OTAN por meio de ações provocativas ou operações híbridas.

Nesse ambiente, um canal direto entre os serviços de inteligência pode ter uma função que vai além da negociação. Pode servir para estabelecer limites, transmitir advertências, esclarecer intenções e reduzir o risco de que uma ação militar produza uma escalada não planejada.

Esse tipo de comunicação é especialmente importante quando as forças envolvidas operam próximas umas das outras e quando decisões tomadas em um teatro podem produzir consequências em outro.

Uma missão para administrar três crises

A importância da viagem de Ratcliffe está justamente na convergência desses fatores. A guerra na Ucrânia continua pressionando a relação entre Rússia, Estados Unidos e OTAN. A Ucrânia possui capacidade crescente de atingir alvos no interior do território russo. Washington, simultaneamente, enfrenta uma crise militar e estratégica com o Irã, enquanto Moscou mantém relações próximas com Teerã.

Isso cria um problema de gestão estratégica para os Estados Unidos: evitar que dois teatros de crise diferentes passem a se reforçar mutuamente.

Uma Rússia mais comprometida com o Irã pode ampliar os custos para Washington no Oriente Médio. Uma escalada entre Rússia e OTAN pode limitar a liberdade de ação americana em outras regiões. E um agravamento da guerra na Ucrânia pode aumentar a disposição de Moscou para aprofundar sua cooperação com adversários dos Estados Unidos.

Nesse contexto, conversar diretamente com Moscou pode ser menos uma tentativa de produzir um acordo imediato e mais uma forma de entender qual será o comportamento russo diante das próximas decisões americanas.

O que a visita revela

Até que Washington ou Moscou revelem a pauta da reunião, qualquer conclusão sobre o conteúdo das conversas deve ser tratada como hipótese.

Mas alguns elementos são objetivos: Ratcliffe foi pessoalmente a Moscou; a viagem não foi anunciada previamente; a CIA não divulgou sua agenda; o Kremlin não confirmou encontro com Putin; Washington pediu cautela a Kiev durante o período da missão; e o deslocamento ocorre enquanto os Estados Unidos enfrentam simultaneamente impasses na Ucrânia e uma escalada envolvendo o Irã.

A leitura estratégica, portanto, pode estar menos naquilo que Ratcliffe foi fazer em Moscou e mais na necessidade que Washington identificou de enviar o chefe de sua principal agência de inteligência diretamente à capital russa neste momento.

Não é necessariamente uma missão para fechar um acordo. Pode ser uma missão para medir intenções, transmitir mensagens ou estabelecer limites.

E essa distinção é importante. Em períodos de elevada tensão entre potências militares, a capacidade de conversar diretamente pode ser tão importante quanto a capacidade de combater. A viagem de Ratcliffe sugere que, apesar do confronto entre Washington e Moscou, os canais de inteligência continuam sendo utilizados para administrar os riscos de uma escalada que poderia ultrapassar os limites que ambos os lados pretendem controlar.


por Angelo Nicolaci


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com Reuters e CBS 

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