sexta-feira, 5 de junho de 2026

Otokar conclui aquisição da Automecanica e transforma a Romênia em polo estratégico para produção do blindado COBRA II

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A empresa turca Otokar concluiu oficialmente a aquisição de 96,77% do capital da Automecanica S.A., consolidando uma das mais importantes operações de investimento estrangeiro no setor de defesa da Romênia nos últimos anos. Avaliada em aproximadamente 85 milhões de euros, a transação marca um passo decisivo na expansão industrial da Otokar na Europa e fortalece significativamente a capacidade de produção militar da Romênia no flanco oriental da OTAN.

Com a aprovação de todas as autoridades regulatórias, a instalação industrial da Automecanica, localizada na cidade de Mediaș, passa a integrar a estrutura global da fabricante turca, tornando-se um importante centro regional para a produção de veículos blindados compatíveis com os padrões da OTAN. O complexo industrial ocupa uma área de aproximadamente 140 mil metros quadrados e conta atualmente com mais de 250 funcionários e técnicos especializados.

A aquisição ocorre em um momento em que a Romênia acelera o processo de modernização de suas Forças Armadas e busca ampliar sua autonomia industrial no setor de defesa. Além do aumento da capacidade produtiva nacional, o acordo prevê transferência de tecnologia, desenvolvimento de engenharia local e fortalecimento da cadeia de fornecedores romenos, reduzindo a dependência de importações e ampliando a participação da indústria nacional em programas estratégicos.

Segundo o CEO da Otokar, Aykut Özüner, a empresa vê a Romênia como um dos futuros centros de fabricação de equipamentos de defesa da Europa. De acordo com o executivo, o investimento representa mais do que uma simples decisão industrial, constituindo uma parceria estratégica voltada para crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da segurança regional.

O principal motor dessa expansão é o programa COBRA II ATBTU, firmado em novembro de 2024 entre a Otokar e a empresa estatal romena C.N. Romtehnica S.A.. O contrato prevê o fornecimento de 1.059 viaturas blindadas táticas leves sobre rodas COBRA II 4x4 para o Ministério da Defesa da Romênia, em um acordo avaliado em aproximadamente 4,26 bilhões de leus romenos, equivalentes a cerca de 857 milhões de euros.

Dentro do programa, quase 800 veículos serão produzidos localmente em território romeno por meio de um amplo modelo de cooperação industrial. A iniciativa visa não apenas equipar as Forças Armadas do país, mas também fortalecer a base industrial de defesa nacional e ampliar a capacidade de dissuasão da OTAN em sua fronteira oriental. O primeiro blindado COBRA II fabricado na Romênia foi apresentado durante a edição de 2026 da feira de defesa BSDA 2026, realizada em Bucareste.

O COBRA II é um veículo blindado tático 4x4 desenvolvido para operações em ambientes de alta intensidade, oferecendo elevada mobilidade, proteção balística e modularidade para diferentes missões. A plataforma já foi exportada para diversos países e integra o portfólio de soluções militares da Otokar, que inclui veículos blindados 4x4, 6x6 e 8x8, veículos sobre lagartas, sistemas não tripulados e torres de armas.

A movimentação também reforça a crescente importância da Romênia como um dos principais polos industriais de defesa do leste europeu. Ao estabelecer uma capacidade robusta de produção local para atender programas militares nacionais e futuras demandas da OTAN, Bucareste segue uma estratégia semelhante à adotada por outros países da região, que buscam combinar aquisição de capacidades militares com desenvolvimento industrial doméstico. Para a Otokar, a operação representa mais um passo em sua estratégia global baseada em produção local, transferência de tecnologia e parcerias industriais de longo prazo, modelo que já contribuiu para a presença de mais de 33 mil veículos militares da empresa em serviço em cerca de 50 países ao redor do mundo.


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quinta-feira, 4 de junho de 2026

SYNAPSIS INBS: A Arquitetura Digital da Fragata Classe Tamandaré

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A Fragata Classe Tamandaré incorpora um dos mais modernos sistemas integrados de navegação e gerenciamento de passadiço atualmente em operação no segmento naval militar: o SYNAPSIS INBS (Integrated Navigation and Bridge System), desenvolvido pela Anschütz. O sistema constitui a espinha dorsal da arquitetura de navegação da F200, reunindo sensores, radares, controle de governo, cartas eletrônicas e gerenciamento operacional em uma plataforma digital unificada.

O SYNAPSIS foi concebido dentro do conceito de Integrated Bridge System (IBS), permitindo centralizar funções críticas do navio em consoles multifuncionais interoperáveis. Na Fragata Tamandaré, o sistema integra radares de navegação, WECDIS, piloto automático, controle de direção, gerenciamento de alarmes, monitoramento CCTV e sistemas de comunicação marítima, reduzindo redundâncias e ampliando a consciência situacional da tripulação.

A arquitetura aberta e modular do SYNAPSIS permite integração simplificada com sensores adicionais, sistemas de missão e futuras atualizações tecnológicas. Essa característica é considerada fundamental em navios de combate modernos, cuja vida operacional ultrapassa três décadas e exige capacidade contínua de modernização sem necessidade de grandes intervenções estruturais.

Outro diferencial do sistema é sua capacidade de fusão e distribuição de dados em tempo real. Informações provenientes de múltiplos sensores são processadas e disponibilizadas simultaneamente às estações de operação do passadiço, permitindo maior velocidade na tomada de decisão em cenários de alta complexidade operacional.

O sistema também foi projetado para operar sob elevados requisitos de redundância e disponibilidade, garantindo continuidade operacional mesmo em condições degradadas ou ambientes de elevada carga de dados. Em operações navais contemporâneas, onde ameaças assimétricas, guerra eletrônica e saturação informacional tornaram-se elementos permanentes, esse nível de integração passou a ser requisito essencial.

Na Fragata Tamandaré, o SYNAPSIS atua diretamente na otimização da operação do navio, reduzindo carga de trabalho da tripulação e elevando os níveis de segurança da navegação e gerenciamento operacional. A interface homem-máquina unificada também contribui para maior eficiência no gerenciamento do ambiente tático e marítimo.

A adoção do sistema aproxima a Marinha do Brasil dos padrões tecnológicos empregados por marinhas da OTAN, alinhando a Classe Tamandaré ao conceito de guerra naval centrada em dados e integração digital. Mais do que um sistema de navegação, o SYNAPSIS representa um componente estratégico da transformação tecnológica em curso na força naval brasileira.

A incorporação desse tipo de arquitetura demonstra que a superioridade marítima contemporânea não depende apenas de sensores ou armamentos embarcados, mas da capacidade de integrar, processar e distribuir informações em tempo real dentro de um ambiente operacional cada vez mais complexo e disputado.


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Guardas-Marinha Fuzileiros Navais conhecem soluções não letais da Condor em preparação para Viagem de Instrução do Navio-Escola Brasil

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A preparação dos futuros oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais vai além dos conhecimentos tradicionais de liderança, tática e operações militares. Cada vez mais, a formação desses militares incorpora tecnologias voltadas à gestão de crises, controle de distúrbios e emprego diferenciado da força. Nesse contexto, a Condor Tecnologias Não Letais recebeu a visita técnica preparatória de 24 Guardas-Marinha Fuzileiros Navais que participarão da próxima Viagem de Instrução a bordo do Navio-Escola Brasil (U-27).

A atividade contou com a participação do Capitão de Corveta (FN) Rafael de Jesus Andrade e do Suboficial (AD) Paulo Johson Lopes da Cunha, integrando o processo de formação dos futuros oficiais da Marinha do Brasil. A visita permitiu aos alunos conhecerem de perto tecnologias desenvolvidas para ampliar a capacidade de resposta das forças de segurança e defesa em diferentes cenários operacionais, especialmente aqueles que exigem o emprego proporcional e escalonado da força.

Durante a programação, os Guardas-Marinha tiveram contato com diversas soluções não letais desenvolvidas pela empresa brasileira, reconhecida internacionalmente pelo fornecimento de equipamentos destinados a forças armadas, polícias e agências de segurança de diversos países. O objetivo foi apresentar as possibilidades de emprego dessas tecnologias em operações embarcadas e em atividades realizadas durante escalas em portos nacionais e estrangeiros.

A utilização de recursos não letais vem ganhando crescente relevância nas operações militares modernas, particularmente em missões de paz, operações de garantia da lei e da ordem, proteção de instalações estratégicas, segurança portuária e ações de controle de multidões. Nessas situações, a capacidade de neutralizar ameaças sem recorrer imediatamente ao uso da força letal representa um importante diferencial operacional e político.

Segundo a Condor, a visita permitiu apresentar equipamentos e soluções desenvolvidos para ampliar a segurança dos efetivos e aumentar a capacidade de resposta em cenários complexos, mantendo o foco na preservação da vida e no uso diferenciado da força. Esses conceitos estão alinhados às melhores práticas internacionais e às exigências cada vez maiores impostas aos militares que atuam em ambientes urbanos, portuários ou em operações multinacionais.

A atividade também reforça a aproximação entre a Base Industrial de Defesa brasileira e as Forças Armadas. O contato direto dos futuros oficiais com tecnologias desenvolvidas pela indústria nacional contribui para ampliar o conhecimento sobre capacidades disponíveis no país e sobre as possibilidades de aplicação desses sistemas em diferentes tipos de missão.

Para os Guardas-Marinha que em breve integrarão as unidades operativas do Corpo de Fuzileiros Navais, a experiência representa uma oportunidade de compreender como tecnologias não letais podem ser incorporadas ao planejamento e à execução de operações, ampliando as opções disponíveis aos comandantes diante de situações que exigem respostas graduadas e proporcionais.

A iniciativa evidencia não apenas o compromisso da Marinha do Brasil com a formação de seus futuros líderes, mas também a importância da cooperação entre instituições militares e a indústria nacional de defesa. Em um ambiente operacional cada vez mais complexo, o conhecimento sobre tecnologias não letais torna-se uma ferramenta valiosa para garantir a segurança das tropas, a proteção de civis e o cumprimento eficiente das missões atribuídas aos Fuzileiros Navais brasileiros.


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Escola de Drones do Corpo de Fuzileiros Navais forma primeira turma de operadores de sistemas remotamente pilotados

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A transformação dos campos de batalha modernos tem colocado os sistemas de aeronaves remotamente pilotadas entre as capacidades mais relevantes para as forças armadas contemporâneas. Reconhecendo essa realidade e a crescente importância dos drones em operações militares, o Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC) realizou, em 22 de maio, a cerimônia de conclusão da primeira edição do Estágio de Qualificação Técnica Especial de Operador de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas Categorias 0 e 1 (E-QTEsp-OpSARP-0/1), marco importante para a evolução doutrinária e operacional do Corpo de Fuzileiros Navais.

A capacitação ganha ainda mais relevância por estar diretamente associada à recém-inaugurada Escola de Drones do Corpo de Fuzileiros Navais, criada em 17 de março de 2026. A iniciativa representa um passo significativo na modernização da Força, tornando-se a primeira escola militar do Brasil dedicada especificamente ao estudo, desenvolvimento doutrinário e capacitação para o emprego de drones militares.

Realizado entre os dias 5 e 22 de maio, o estágio teve como objetivo qualificar militares e representantes de instituições parceiras para a operação de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) da classe Multirrotor, Categorias 0 e 1. A formação contemplou não apenas a pilotagem básica, mas também aspectos diretamente ligados ao emprego operacional desses sistemas em missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (IVR), além de sua utilização como vetores de ataque em cenários táticos.

Durante o período de instrução, os alunos foram submetidos a um programa abrangente de capacitação, desenvolvendo competências em planejamento de missões, segurança operacional, observação aérea, consciência situacional e emprego tático de aeronaves remotamente pilotadas em apoio às operações militares. O conteúdo reflete uma tendência observada nas principais forças armadas do mundo, que passaram a incorporar drones em praticamente todos os níveis de operação, desde o reconhecimento de curto alcance até missões de apoio ao combate.

A primeira edição do estágio formou 21 operadores, sendo 17 militares oriundos de diferentes Organizações Militares da Marinha do Brasil e quatro Auditores Fiscais de Finanças e Controle da Controladoria-Geral da União (CGU). A participação de integrantes de outras instituições evidencia o caráter multidisciplinar da capacitação e demonstra como as tecnologias remotamente pilotadas vêm ampliando sua relevância não apenas no ambiente militar, mas também em atividades de fiscalização, monitoramento e apoio institucional.

A cerimônia de encerramento contou com a presença do Superintendente Adjunto da CGU, Luiz Henrique Gomes Coelho da Silva, e do Comandante do CIASC, reforçando a importância atribuída à formação de especialistas capazes de operar sistemas que se tornaram elementos centrais dos conflitos contemporâneos. Nos últimos anos, operações militares ao redor do mundo demonstraram que drones deixaram de ser apenas ferramentas de observação para se tornarem multiplicadores de força capazes de influenciar diretamente o resultado das operações.

Mais do que formar operadores, a iniciativa contribui para a construção de uma doutrina nacional de emprego de sistemas remotamente pilotados no âmbito do Corpo de Fuzileiros Navais. O conhecimento adquirido pelos militares capacitados servirá de base para o desenvolvimento de novas táticas, técnicas e procedimentos, permitindo que a Força acompanhe a rápida evolução tecnológica observada nesse segmento e amplie sua capacidade de resposta diante dos desafios operacionais do século XXI.

Ao consolidar a Escola de Drones como um centro de excelência para ensino, experimentação e desenvolvimento doutrinário, a Marinha do Brasil reafirma seu compromisso com a inovação e com a preparação de seus recursos humanos. Em um cenário onde a superioridade informacional e a capacidade de obtenção de dados em tempo real assumem papel cada vez mais decisivo, investir na formação de operadores qualificados representa um passo fundamental para garantir a prontidão e a efetividade operacional dos Fuzileiros Navais brasileiros.


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CIASC introduz Jogo de Guerra Tabletop no aperfeiçoamento avançado de oficiais dos Fuzileiros Navais

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A preparação de líderes militares para os desafios dos conflitos contemporâneos exige muito mais do que conhecimento doutrinário. Exige a capacidade de analisar cenários complexos, tomar decisões sob pressão e antecipar os efeitos de cada ação no campo de batalha. Com esse objetivo, o Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC) realizou, no último dia 29 de maio, de forma inédita, um Jogo de Guerra no estilo Tabletop voltado aos oficiais-alunos do Curso de Aperfeiçoamento Avançado do Corpo de Fuzileiros Navais (C-ApA-CFN 2026).

Amplamente empregado por algumas das mais renomadas escolas militares do mundo, o método tem suas origens no exército prussiano do século XIX, sendo considerado um dos pilares históricos da formação de comandantes e planejadores militares. Ao longo das décadas, sua utilização evoluiu e passou a integrar os processos de ensino e desenvolvimento profissional de forças armadas que buscam aperfeiçoar a tomada de decisão e o planejamento operacional em ambientes cada vez mais dinâmicos e imprevisíveis.

Para a realização da atividade, os instrutores do curso conduziram um extenso trabalho de desenvolvimento e adaptação das regras do exercício, criando uma metodologia capaz de incorporar probabilidades de sucesso e fracasso às ações planejadas pelos participantes. A iniciativa permitiu reduzir a subjetividade normalmente associada à arbitragem de exercícios dessa natureza, introduzindo fatores de incerteza e atrito que se aproximam das condições encontradas em operações reais.

O exercício submeteu os planejamentos elaborados pelos oficiais-alunos a um ambiente de simulação onde decisões, riscos e consequências puderam ser analisados de forma prática. Mais do que testar conceitos, o Tabletop permitiu avaliar a coerência dos cursos de ação propostos, identificar vulnerabilidades e explorar alternativas antes de uma eventual aplicação em cenários operacionais reais.

A dinâmica reforçou um princípio fundamental da arte militar: identificar falhas durante o planejamento é significativamente menos custoso do que corrigi-las durante a execução de uma operação. A conhecida máxima de “errar no papel para acertar no terreno” permanece atual em um ambiente operacional caracterizado pela crescente complexidade dos sistemas de combate, pela velocidade da informação e pela necessidade de decisões cada vez mais rápidas e precisas.

Outro aspecto relevante da atividade foi a possibilidade de proporcionar elevado retorno em termos de adestramento sem a necessidade de grandes investimentos em infraestrutura ou meios de simulação complexos. Essa característica faz dos jogos de guerra uma ferramenta particularmente eficiente para o desenvolvimento intelectual dos quadros militares, permitindo exercitar processos de análise, coordenação e planejamento de forma contínua e realista.

Para os oficiais-alunos do Curso de Aperfeiçoamento Avançado, a experiência contribui diretamente para o desenvolvimento das competências exigidas daqueles que futuramente ocuparão funções em Estados-Maiores, centros de planejamento e Grupamentos Operativos do Corpo de Fuzileiros Navais. Trata-se de uma formação voltada não apenas para o comando de tropas, mas para a capacidade de integrar informações, avaliar riscos e transformar diretrizes estratégicas em ações concretas no nível operacional.

A iniciativa do CIASC evidencia o compromisso permanente da Marinha do Brasil com a modernização de seus processos de ensino e com a preparação de recursos humanos altamente qualificados. Em um cenário internacional marcado por rápidas transformações tecnológicas e operacionais, investir em métodos avançados de treinamento e planejamento representa um elemento fundamental para manter elevados níveis de prontidão e assegurar que o Corpo de Fuzileiros Navais continue apto a cumprir suas missões em defesa dos interesses nacionais.


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Brasil mira mais 20 Gripen E e fortalece polo aeronáutico nacional

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Durante coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (4), em Estocolmo, os ministros da Defesa do Brasil e da Suécia, José Múcio Monteiro e Pål Jonson, revelaram um importante desdobramento da parceria estratégica estabelecida entre os dois países. Entre os temas discutidos, destacou-se o interesse brasileiro na aquisição de 20 aeronaves adicionais Saab JAS 39 Gripen E, ampliando a frota atualmente contratada pela Força Aérea Brasileira (FAB) e reforçando o papel do Brasil dentro do programa Gripen.

O anúncio ocorreu no contexto da assinatura da Declaração Conjunta sobre Cooperação Reforçada em Segurança e Defesa, instrumento que amplia os mecanismos de cooperação bilateral em áreas consideradas estratégicas, incluindo pesquisa e desenvolvimento, inovação tecnológica, indústria de defesa, capacidades aeroespaciais avançadas e segurança internacional. Mais do que uma simples aquisição militar, a proposta representa um novo passo na consolidação de uma parceria que vem transformando o nível de participação brasileira em programas aeronáuticos de alta complexidade tecnológica.

Um dos aspectos mais relevantes da possível ampliação do programa é o fato de que as novas aeronaves seriam produzidas integralmente em território brasileiro, aproveitando a infraestrutura industrial instalada em Gavião Peixoto, onde Saab e Embraer estabeleceram um dos mais avançados centros de desenvolvimento, integração e produção aeronáutica do hemisfério sul. A unidade tornou-se peça central do processo de transferência de tecnologia previsto no contrato original firmado em 2014, permitindo ao Brasil absorver conhecimentos que tradicionalmente permanecem restritos a um grupo muito limitado de nações.

Ao longo da última década, centenas de engenheiros, técnicos e especialistas brasileiros participaram de programas de capacitação na Suécia, adquirindo experiência em áreas sensíveis como engenharia de sistemas, integração de sensores, desenvolvimento de software embarcado, ensaios em voo, arquitetura de missão e guerra eletrônica. O resultado é a formação de uma capacidade industrial e tecnológica que transcende o próprio programa Gripen e passa a beneficiar diversos segmentos da indústria nacional de defesa e aeroespacial.

Sob a ótica operacional, a ampliação da frota representa um importante incremento das capacidades de combate da Força Aérea Brasileira. O Gripen E reúne um conjunto de tecnologias que o posiciona entre os mais modernos caças multifuncionais atualmente em produção, incluindo radar AESA Raven ES-05, sensor infravermelho passivo IRST Skyward-G, avançados sistemas de guerra eletrônica e arquitetura centrada em rede, permitindo elevado nível de consciência situacional e compartilhamento de dados em tempo real com outras plataformas e centros de comando.

No entanto, talvez o maior ganho para o Brasil esteja além da dimensão operacional. A continuidade da produção nacional garante a preservação de competências estratégicas construídas ao longo de anos de investimentos e evita a desmobilização de uma cadeia produtiva altamente especializada. Em um cenário internacional marcado pela crescente competição tecnológica e pela busca de autonomia em setores críticos, manter ativa uma linha de produção de aeronaves de combate de última geração representa um diferencial estratégico de enorme relevância.

A possível aquisição também fortalece o posicionamento do Brasil como parceiro industrial global da Saab. Em meio ao aumento da demanda por aeronaves de combate decorrente da reconfiguração do ambiente de segurança europeu, da expansão da OTAN e da necessidade de renovação de frotas em diversos países, a capacidade instalada em Gavião Peixoto poderá assumir um papel cada vez mais relevante dentro da cadeia internacional de produção do Gripen, ampliando oportunidades para empresas brasileiras e consolidando o país como um polo regional de excelência aeronáutica.

Caso confirmada, a aquisição dos 20 novos Gripen E representará muito mais do que a ampliação da capacidade de combate da FAB. Trata-se de um investimento direto na manutenção de conhecimento, na preservação de empregos altamente qualificados, no fortalecimento da Base Industrial de Defesa e na consolidação de uma capacidade tecnológica que poucos países no mundo possuem. Em um ambiente estratégico cada vez mais complexo e competitivo, iniciativas como essa demonstram que defesa e desenvolvimento industrial caminham lado a lado, constituindo elementos fundamentais para a soberania e para a projeção internacional do Brasil.


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Canadá reavalia programa F-35 e Gripen E surge como alternativa estratégica; movimento pode abrir oportunidades para a indústria brasileira

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As crescentes tensões entre Ottawa e Washington começam a produzir efeitos concretos em um dos setores mais sensíveis da segurança nacional canadense: a defesa. O que inicialmente parecia ser apenas mais um atrito comercial entre dois parceiros históricos evoluiu para uma discussão estratégica sobre soberania industrial, autonomia tecnológica e independência operacional. Nesse contexto, o governo canadense avalia uma profunda revisão de seu programa de renovação da aviação de caça, abrindo espaço para o Saab Gripen E como alternativa ao Lockheed Martin F-35A.

De acordo com informações divulgadas pelo jornal canadense La Presse, o Canadá estuda abandonar a aquisição integral de 88 caças F-35A aprovada em 2023 e substituí-la por uma frota mista. A proposta em análise prevê a manutenção de cerca de 30 aeronaves F-35A para missões estratégicas vinculadas aos compromissos do país junto ao NORAD e à OTAN, enquanto aproximadamente 60 aeronaves Gripen E assumiriam a maior parte das missões de defesa aérea e policiamento do espaço aéreo canadense.

A mudança de rumo não ocorre por razões puramente militares. Ela está diretamente ligada ao agravamento das relações entre o governo canadense e a administração liderada por Donald Trump. A imposição de tarifas de 25% sobre produtos canadenses e as ameaças de medidas ainda mais severas contra setores estratégicos, incluindo a indústria aeronáutica, acenderam um alerta em Ottawa sobre os riscos de uma dependência excessiva de fornecedores americanos em áreas consideradas críticas para a segurança nacional.

Embora o Canadá tenha realizado pagamentos relacionados a componentes de longo ciclo de produção do F-35, a situação contratual oferece margem de manobra ao governo do primeiro-ministro Mark Carney. Na prática, apenas as primeiras 16 aeronaves encontram-se plenamente vinculadas a contratos de produção já assinados, enquanto as demais unidades ainda podem ser reduzidas ou canceladas sem que isso represente custos proibitivos para o país.

Os sinais de uma mudança de orientação estratégica já haviam surgido em maio deste ano. Em uma decisão que surpreendeu parte do setor de defesa, Ottawa descartou propostas americanas para sua futura capacidade de Alerta Aéreo Antecipado e Controle Aerotransportado (AEW&C), iniciando negociações exclusivas com a Saab para a aquisição do sistema GlobalEye.

A escolha não foi apenas técnica. O GlobalEye utiliza a aeronave Bombardier Global 6500 como plataforma, preservando empregos e fortalecendo a indústria aeroespacial canadense. A decisão foi interpretada como um indicativo claro de que a prioridade do governo passou a ser a geração de capacidade industrial doméstica, mesmo quando isso significa abrir mão de soluções tradicionalmente fornecidas pelos Estados Unidos.

Essa visão foi formalizada na nova Estratégia Industrial de Defesa do Canadá, lançada em fevereiro de 2026. O documento estabelece investimentos estimados em 500 bilhões de dólares canadenses ao longo da próxima década e prevê a elevação gradual dos gastos de defesa para 5% do PIB até 2035. Mais importante, a estratégia busca corrigir uma realidade histórica na qual aproximadamente 75% dos recursos destinados à defesa acabavam direcionados para fornecedores americanos.

A nova política estabelece que pelo menos 70% do valor agregado dos grandes contratos de defesa permaneça dentro do território canadense. Nesse cenário, a proposta da Saab ganhou força ao oferecer algo que a concorrência americana não conseguiu igualar: transferência de tecnologia, produção local, participação da indústria nacional e controle soberano sobre futuras modernizações de software e sistemas de missão.

O Gripen E também apresenta características operacionais particularmente interessantes para o ambiente canadense. Desenvolvido para operar em condições severas e a partir de bases dispersas, o caça sueco possui elevada disponibilidade operacional, requisitos logísticos reduzidos e capacidade de operar em pistas improvisadas de aproximadamente 800 metros de comprimento. Em um país com vastas áreas remotas e desafios geográficos significativos, essas características representam vantagens importantes.

Outro fator que pesa na análise canadense é o custo operacional. Enquanto o F-35 continua enfrentando questionamentos relacionados ao custo de operação ao longo de sua vida útil, estimado em valores significativamente superiores aos de aeronaves de geração anterior, o Gripen E apresenta um custo por hora de voo substancialmente menor. Isso permite manter um número maior de aeronaves disponíveis para emprego operacional, treinamento e prontidão, reduzindo a pressão sobre o orçamento de defesa.

Sob a ótica estratégica, a combinação entre F-35 e Gripen E cria uma solução considerada equilibrada. O F-35 manteria as capacidades furtivas e a integração plena com as redes de combate da OTAN e do NORAD, enquanto o Gripen assumiria grande parte das missões de defesa aérea, interceptação e policiamento do espaço aéreo, oferecendo custos operacionais mais baixos e maior flexibilidade de emprego.

A Saab ainda adicionou um componente geopolítico à proposta ao sugerir que futuras aeronaves destinadas à reconstrução das capacidades militares da Ucrânia possam ser produzidas em instalações canadenses. A iniciativa cria perspectivas de geração de empregos, expansão da base industrial local e acesso a futuras linhas de financiamento internacionais ligadas à reconstrução da capacidade de defesa ucraniana.

Embora nenhuma decisão definitiva tenha sido anunciada até o momento, analistas apontam que qualquer confirmação deverá ocorrer somente após as eleições legislativas parciais americanas previstas para novembro de 2026, evitando ampliar as tensões diplomáticas já existentes entre os dois países.

Uma oportunidade que pode interessar diretamente à Base Industrial de Defesa do Brasil

Caso o Gripen E seja efetivamente selecionado para compor a futura frota canadense, os reflexos poderão ultrapassar as fronteiras da América do Norte e alcançar diretamente a Base Industrial de Defesa brasileira.

Diferentemente de muitos programas internacionais de defesa nos quais o Brasil atua apenas como cliente, o programa Gripen criou no país competências industriais estratégicas que hoje fazem parte da cadeia global de fornecimento da Saab. Ao longo da última década, empresas brasileiras absorveram conhecimento, desenvolveram processos produtivos avançados e passaram a participar de atividades de engenharia, integração e fabricação de componentes aeronáuticos de alta complexidade.

Um dos principais exemplos é a AEL Sistemas. A empresa tornou-se responsável por importantes elementos da aviônica do Gripen, incluindo sistemas de interface homem-máquina e componentes eletrônicos que hoje equipam a aeronave, como o Wide Area Display (WAD). O amadurecimento dessa capacidade transformou a empresa em um fornecedor estratégico dentro do programa.

Caso a produção do Gripen seja ampliada para atender um pedido canadense de dezenas de aeronaves, a demanda por equipamentos eletrônicos, integração de sistemas e desenvolvimento de software embarcado poderá crescer significativamente, criando oportunidades para ampliar a participação da indústria brasileira.

Outro aspecto relevante está relacionado à produção de aeroestruturas. O programa Gripen permitiu que fosse instalada no Brasil a capacidade para fabricar componentes estruturais complexos, empregando tecnologias avançadas de manufatura aeronáutica. Essa infraestrutura já existe, está certificada e opera dentro dos padrões exigidos pela indústria aeroespacial internacional.

Dessa forma, uma eventual expansão da produção global do Gripen poderia encontrar no Brasil uma capacidade industrial pronta para absorver parte da demanda, reduzindo riscos, acelerando cronogramas e aumentando a competitividade do programa. Em vez de uma simples transferência de produção para o Canadá, a Saab poderia estruturar uma cadeia multinacional envolvendo Suécia, Brasil e Canadá, distribuindo atividades conforme as competências já existentes em cada país.

Para a Base Industrial de Defesa brasileira, trata-se de uma perspectiva particularmente interessante. Além de gerar novas oportunidades de negócios, um eventual programa canadense fortaleceria toda a cadeia de fornecedores construída ao redor do Gripen, ampliando economias de escala, reduzindo custos e aumentando a sustentabilidade de longo prazo dos investimentos realizados no Brasil.

Mais do que uma possível venda de caças para o Canadá, a disputa entre Gripen e F-35 pode representar um novo capítulo na consolidação de uma rede industrial internacional em torno da aeronave sueca. E, nesse cenário, o Brasil tem condições concretas de deixar de ser apenas um operador do Gripen para se consolidar como um dos principais polos industriais e tecnológicos do programa em nível global.


por Angelo Nicolaci


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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Da Tempestade no Deserto à Guerra dos 12 Dias: o paradigma militar de 1991 chegou ao seu limite?

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Quando os primeiros mísseis de cruzeiro atingiram Bagdá em janeiro de 1991, o mundo testemunhou muito mais do que o início da Operação Desert Storm. Naquele momento nascia um novo paradigma militar que moldaria o pensamento estratégico global pelas três décadas seguintes. A Guerra do Golfo demonstrou de forma inequívoca que a combinação entre superioridade aérea, inteligência em tempo real, guerra eletrônica, munições guiadas de precisão e sistemas avançados de comando e controle poderia derrotar um adversário numericamente expressivo em questão de semanas. A imagem das bombas atingindo alvos específicos transmitida ao vivo pela televisão marcou não apenas uma vitória militar norte-americana, mas o surgimento de uma nova forma de fazer guerra.

Nas décadas seguintes, praticamente todas as forças armadas do mundo passaram a estudar aquele modelo. Algumas buscaram reproduzi-lo. Outras procuraram encontrar formas de neutralizá-lo. O fato é que a Guerra do Golfo não apenas derrotou o Iraque de Saddam Hussein; ela redefiniu o pensamento militar contemporâneo. Kosovo, Afeganistão, Iraque em 2003, Líbia e Síria pareciam confirmar a mesma lógica. Quem dominasse o espaço aéreo, a informação e a capacidade de atingir alvos com precisão dominaria o campo de batalha.

Mas os acontecimentos recentes no Oriente Médio levantam uma questão que hoje ocupa estrategistas, militares e governos ao redor do mundo: o modelo de guerra que emergiu em 1991 continua suficiente para explicar e vencer os conflitos do século XXI?

A resposta não é simples. A Guerra dos 12 Dias demonstrou que os fundamentos daquele paradigma continuam relevantes, mas também revelou suas limitações. O conflito não marcou o surgimento de uma nova revolução militar, como muitos sugerem. Na realidade, ele representou a consolidação de uma transformação que vinha sendo construída há anos, passando pelos campos de batalha do Cáucaso e pelas planícies da Ucrânia, até emergir de forma incontestável no Oriente Médio. Mais do que analisar quem venceu ou perdeu os recentes confrontos entre Israel, Irã e Estados Unidos, talvez seja mais importante compreender o que esses eventos revelam sobre a evolução da guerra moderna e sobre os desafios que moldarão os conflitos das próximas décadas.

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados acumulavam experiências em conflitos assimétricos contra adversários significativamente inferiores em capacidade militar convencional, outras nações observavam atentamente as vulnerabilidades daquele modelo. Rússia, China, Irã e Coreia do Norte compreenderam que competir diretamente com Washington em porta-aviões, bombardeiros estratégicos ou caças furtivos seria economicamente inviável e operacionalmente desvantajoso. Em vez disso, passaram a investir em sistemas capazes de negar ou dificultar a exploração dessas vantagens. Mísseis balísticos e de cruzeiro de longo alcance, sistemas integrados de defesa aérea, guerra eletrônica avançada, capacidades cibernéticas e, posteriormente, drones de diferentes categorias tornaram-se instrumentos centrais de uma estratégia destinada não necessariamente a derrotar os Estados Unidos em um confronto direto, mas a aumentar substancialmente os custos de qualquer intervenção militar.

Foi nesse contexto que começaram a surgir os primeiros sinais de que o paradigma criado em 1991 talvez não fosse tão absoluto quanto parecia. Curiosamente, esses sinais não apareceram em um confronto entre grandes potências, mas em um conflito regional frequentemente negligenciado pelos grandes centros de análise estratégica. A guerra entre Armênia e Azerbaijão em Nagorno-Karabakh, em 2020, representou um dos momentos mais importantes da evolução militar contemporânea. Embora tenha recebido atenção relativamente limitada da imprensa internacional, o conflito revelou transformações profundas que mais tarde seriam observadas em escala muito maior na Ucrânia e, posteriormente, no Oriente Médio.

A campanha conduzida pelo Azerbaijão demonstrou de forma inequívoca o potencial da integração entre drones armados, munições vagantes, inteligência em tempo real e sistemas avançados de reconhecimento. Os drones Bayraktar TB2 de origem turca e as munições vagantes Harop produzidas por Israel tornaram-se símbolos de uma nova realidade operacional. Pela primeira vez, formações blindadas, posições fortificadas, sistemas de defesa aérea e unidades de artilharia passaram a ser constantemente observados e engajados por meios relativamente baratos quando comparados aos sistemas que estavam sendo destruídos. Mais importante do que os equipamentos perdidos foi a constatação de que a tradicional capacidade de ocultação no campo de batalha estava sendo drasticamente reduzida. O avanço dos sensores, das comunicações e dos sistemas não tripulados estava tornando o campo de batalha cada vez mais transparente.

A principal lição de Nagorno-Karabakh não estava relacionada apenas aos drones. O conflito revelou uma mudança muito mais profunda na relação entre custo e poder de combate. Durante décadas, o desenvolvimento militar foi impulsionado pela busca de plataformas cada vez mais sofisticadas, protegidas e tecnologicamente avançadas. Contudo, a guerra no Cáucaso demonstrou que sistemas relativamente simples, quando integrados em uma arquitetura eficiente de reconhecimento e ataque, poderiam neutralizar equipamentos avaliados em milhões de dólares. Pela primeira vez desde a ascensão dos blindados como protagonistas das operações terrestres, observava-se uma inversão preocupante na lógica econômica do combate. O que estava sendo questionado não era apenas a sobrevivência dos blindados ou dos sistemas antiaéreos tradicionais, mas a própria sustentabilidade financeira de um modelo baseado em plataformas cada vez mais caras enfrentando ameaças progressivamente mais acessíveis.

Se Nagorno-Karabakh representou o primeiro alerta, a guerra na Ucrânia destruiu definitivamente qualquer dúvida remanescente. O conflito iniciado em fevereiro de 2022 transformou-se rapidamente em um laboratório militar sem precedentes, onde praticamente todas as tecnologias emergentes passaram a ser empregadas simultaneamente. Drones comerciais adaptados para uso militar coexistiram com satélites comerciais de alta resolução, inteligência artificial, sistemas avançados de guerra eletrônica, munições vagantes, armamentos hipersônicos e redes digitais de compartilhamento de dados. O resultado foi a criação de um ambiente operacional permanentemente monitorado, no qual a identificação de uma posição podia resultar em um ataque poucos minutos depois. A tradicional separação entre reconhecimento, decisão e engajamento começou a desaparecer, substituída por ciclos operacionais cada vez mais rápidos e letais.

A Ucrânia também revelou algo que poucos estrategistas haviam previsto em sua real dimensão: a democratização da consciência situacional. Durante décadas, apenas grandes potências possuíam acesso a imagens de satélite, vigilância persistente e sistemas avançados de inteligência. Hoje, imagens comerciais, drones produzidos em larga escala e sistemas digitais relativamente acessíveis permitem que forças muito menores tenham acesso a capacidades que antes estavam restritas a um número reduzido de países. O monopólio da informação, um dos pilares da superioridade militar ocidental após a Guerra Fria, começou a ser corroído por uma combinação de inovação tecnológica, redução de custos e ampla disponibilidade de sistemas comerciais adaptados para uso militar.

Mas talvez a principal contribuição da guerra na Ucrânia tenha sido demonstrar que a tecnologia, por si só, não resolve os desafios fundamentais da guerra. Apesar da presença de sistemas altamente sofisticados, o conflito trouxe de volta ao centro do debate fatores que muitos acreditavam superados pelas transformações tecnológicas das últimas décadas. Logística, produção industrial, capacidade de reposição de perdas, estoques de munição e resiliência econômica voltaram a desempenhar um papel decisivo. A guerra demonstrou que o futuro não pertence exclusivamente às forças mais tecnologicamente avançadas, mas àquelas capazes de combinar inovação, capacidade industrial e adaptação contínua. Em outras palavras, a tecnologia transformou profundamente a guerra, mas não eliminou seus fundamentos históricos.

Foi justamente nesse cenário de transformação acelerada que surgiu a chamada Guerra dos 12 Dias. Diferentemente do que muitos analistas sugerem, o conflito entre Israel e Irã não inaugurou uma revolução militar. Essa revolução já estava em curso havia anos. O que tornou esse confronto particularmente relevante foi o fato de reunir simultaneamente praticamente todas as tendências observadas nos conflitos anteriores. Pela primeira vez, inteligência artificial, operações cibernéticas, sistemas antimísseis multicamadas, guerra eletrônica, drones de longo alcance, mísseis balísticos de precisão, sensores distribuídos e capacidades espaciais atuaram de forma integrada dentro de um mesmo ambiente operacional, revelando um nível de complexidade sem precedentes na história recente dos conflitos armados.

Mais importante, o conflito revelou algo que poucos planejadores militares estavam dispostos a admitir. Nenhuma das partes conseguiu impor uma condição de invulnerabilidade. Israel demonstrou uma impressionante capacidade de integração entre inteligência, poder aéreo, defesa antimísseis e guerra eletrônica, alcançando resultados operacionais notáveis contra alvos iranianos. O Irã, por sua vez, demonstrou que décadas de investimentos em mísseis balísticos, drones, instalações subterrâneas e dispersão de capacidades estratégicas foram capazes de gerar custos reais para um adversário tecnologicamente superior. Os Estados Unidos reafirmaram sua extraordinária capacidade de projeção de poder, mas também perceberam que mesmo a mais poderosa força militar da história opera em um ambiente onde ameaças relativamente acessíveis podem desafiar sistemas avaliados em bilhões de dólares.

Talvez resida aí a principal diferença entre o paradigma militar consolidado após 1991 e a realidade estratégica de 2026. Durante décadas acreditou-se que a superioridade tecnológica permitiria criar verdadeiros santuários estratégicos, protegendo bases, centros de comando, instalações industriais e infraestruturas críticas. Os conflitos recentes demonstram justamente o contrário. A proliferação de drones, mísseis de precisão, sistemas de guerra eletrônica, capacidades cibernéticas e sensores avançados está tornando cada vez mais difícil garantir proteção absoluta a qualquer ativo estratégico. O campo de batalha expandiu-se para muito além das linhas de frente tradicionais.

A própria noção de retaguarda começa a perder significado. Durante grande parte da história militar, a distância representava proteção. Bases localizadas centenas de quilômetros atrás da frente de combate eram consideradas relativamente seguras. Hoje, uma refinaria pode ser atingida por drones lançados a milhares de quilômetros de distância. Um centro de comando pode ser localizado por sensores espaciais e atacado em questão de minutos. Uma rede elétrica pode ser degradada por meios cibernéticos sem que um único soldado atravesse uma fronteira. A profundidade estratégica, um dos pilares do pensamento geopolítico clássico, está sendo progressivamente erodida por tecnologias que reduzem o valor da distância como fator de proteção.

Esse fenômeno também ajuda a explicar por que a Guerra dos 12 Dias produziu efeitos muito além dos países diretamente envolvidos. Mesmo após os anúncios de cessar-fogo, a situação no Oriente Médio permanece longe de uma normalização plena. O Estreito de Ormuz continua operando sob um ambiente de incerteza estratégica, e isso possui implicações globais. Aproximadamente um quinto do petróleo comercializado mundialmente atravessa essa estreita passagem marítima, além de volumes significativos de gás natural liquefeito, fertilizantes, amônia, ureia e diversos produtos petroquímicos essenciais para a economia global. Quando a estabilidade de Ormuz é colocada em dúvida, os efeitos são sentidos muito além do Golfo Pérsico.

O agricultor brasileiro que depende de fertilizantes importados, a indústria europeia dependente de energia, os mercados financeiros asiáticos e as cadeias globais de transporte marítimo tornam-se, de alguma forma, participantes indiretos do conflito. A guerra moderna já não afeta apenas os exércitos envolvidos. Ela afeta cadeias logísticas globais, sistemas financeiros, mercados energéticos e a estabilidade econômica internacional. O campo de batalha do século XXI não termina nas fronteiras nacionais; ele se estende por toda a arquitetura econômica que sustenta a globalização contemporânea.

Ao observar a trajetória que conecta a Desert Storm, Nagorno-Karabakh, Ucrânia e a Guerra dos 12 Dias, torna-se evidente que não estamos assistindo ao colapso do paradigma militar criado em 1991, mas à sua evolução. A superioridade aérea continua fundamental. A inteligência permanece decisiva. As armas de precisão seguem desempenhando papel central. Contudo, nenhuma dessas capacidades, isoladamente, é capaz de garantir a vitória ou assegurar a invulnerabilidade. A principal característica da guerra contemporânea não é a supremacia absoluta de uma tecnologia específica, mas a crescente interdependência entre capacidades militares, industriais, econômicas e tecnológicas.

Estamos ingressando em uma era marcada pela resiliência estratégica integrada. Em um ambiente onde a proteção absoluta se torna cada vez mais difícil, a vantagem competitiva tende a pertencer não necessariamente ao ator capaz de destruir mais alvos, mas àquele que consegue continuar operando mesmo após sofrer ataques significativos. Energia, comunicações, logística, indústria, infraestrutura digital e capacidade de adaptação tornam-se tão importantes quanto caças, navios ou blindados. A guerra moderna deixou de ser uma disputa entre exércitos para se tornar uma disputa entre sistemas nacionais complexos.

O agricultor brasileiro que depende de fertilizantes importados, a indústria europeia dependente de energia, os mercados financeiros asiáticos e as cadeias globais de transporte marítimo tornam-se, de alguma forma, participantes indiretos do conflito. A guerra moderna já não afeta apenas os exércitos envolvidos. Ela afeta cadeias logísticas globais, sistemas financeiros, mercados energéticos e a estabilidade econômica internacional. O campo de batalha do século XXI não termina nas fronteiras nacionais; ele se estende por toda a arquitetura econômica que sustenta a globalização contemporânea.

Outro aspecto frequentemente negligenciado nas análises sobre os conflitos recentes é a consolidação definitiva do conceito de "sistema de sistemas". Durante décadas, plataformas individuais dominaram o imaginário militar. Caças, navios, blindados e sistemas de defesa aérea eram frequentemente avaliados por suas características isoladas, como alcance, velocidade, poder de fogo ou proteção. Contudo, os conflitos das últimas décadas demonstraram que o verdadeiro diferencial não está mais na plataforma individual, mas na capacidade de integrar sensores, armamentos, comunicações, inteligência, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle em uma arquitetura única e dinâmica. O poder de combate moderno deixou de ser resultado da simples soma de capacidades individuais para tornar-se produto da integração entre múltiplos sistemas operando simultaneamente em todos os domínios do conflito. O sucesso operacional passa cada vez mais pela velocidade com que informações são coletadas, processadas, distribuídas e convertidas em decisões e ações. Nesse novo ambiente, a plataforma mais avançada do mundo pode tornar-se limitada se estiver desconectada da rede, enquanto sistemas aparentemente mais simples, quando integrados de forma eficiente, podem produzir efeitos estratégicos desproporcionais. A Guerra dos 12 Dias evidenciou precisamente essa realidade, mostrando que o fator decisivo não foi apenas a qualidade dos armamentos empregados, mas a capacidade de integrar sensores espaciais, inteligência artificial, sistemas de guerra eletrônica, defesa antimísseis, plataformas tripuladas e não tripuladas em um ecossistema operacional único.

Essa transformação possui implicações particularmente importantes para o Brasil. Historicamente, o país concentrou grande parte de seus esforços na aquisição e operação de plataformas individuais de elevado desempenho, muitas vezes sem a mesma ênfase na integração plena entre os diversos sistemas das Forças Armadas. Programas estratégicos como o F-39E Gripen, as Fragatas Classe Tamandaré, o SISFRON, o KC-390 Millennium, os satélites nacionais e os modernos sistemas de comando e controle representam avanços expressivos e fundamentais para a defesa nacional. Entretanto, as lições observadas em Nagorno-Karabakh, na Ucrânia e mais recentemente no Oriente Médio indicam que o verdadeiro salto de capacidade não será proporcionado apenas pela incorporação de novas plataformas, mas pela construção de uma arquitetura integrada capaz de conectar sensores, decisores e vetores de emprego em tempo real. A guerra do século XXI é cada vez menos uma disputa entre equipamentos isolados e cada vez mais um confronto entre redes, ecossistemas operacionais e sistemas de sistemas. Para o Brasil, isso significa que conceitos como interoperabilidade, consciência situacional compartilhada, integração multidomínio, guerra centrada em redes e resiliência cibernética precisam deixar de ser apenas objetivos doutrinários para tornarem-se capacidades efetivamente consolidadas. Em um cenário internacional marcado por crescente instabilidade e rápidas transformações tecnológicas, a capacidade de integrar mar, terra, ar, espaço e ciberespaço em uma única arquitetura operacional poderá ser tão importante quanto a aquisição de qualquer novo sistema de armas.

Ao observar a trajetória que conecta a Desert Storm, Nagorno-Karabakh, Ucrânia e a Guerra dos 12 Dias, torna-se evidente que não estamos assistindo ao colapso do paradigma militar criado em 1991, mas à sua evolução. A superioridade aérea continua fundamental. A inteligência permanece decisiva. As armas de precisão seguem desempenhando papel central. Contudo, nenhuma dessas capacidades, isoladamente, é capaz de garantir a vitória ou assegurar a invulnerabilidade. A principal característica da guerra contemporânea não é a supremacia absoluta de uma tecnologia específica, mas a crescente interdependência entre capacidades militares, industriais, econômicas e tecnológicas.

Estamos ingressando em uma era marcada pela resiliência estratégica integrada. Em um ambiente onde a proteção absoluta se torna cada vez mais difícil, a vantagem competitiva tende a pertencer não necessariamente ao ator capaz de destruir mais alvos, mas àquele que consegue continuar operando mesmo após sofrer ataques significativos. Energia, comunicações, logística, indústria, infraestrutura digital e capacidade de adaptação tornam-se tão importantes quanto caças, navios ou blindados. A guerra moderna deixou de ser uma disputa entre exércitos para se tornar uma disputa entre sistemas nacionais complexos.

Se a Guerra do Golfo ensinou ao mundo como a superioridade tecnológica poderia revolucionar a arte da guerra, os conflitos das últimas décadas estão ensinando uma lição igualmente importante. Nenhuma tecnologia é capaz de eliminar completamente a incerteza, a vulnerabilidade ou a necessidade de adaptação. Talvez essa seja a principal mensagem deixada pela Guerra dos 12 Dias. No século XXI, a vitória não pertencerá necessariamente à nação que atacar melhor, mas àquela capaz de resistir, adaptar-se e continuar funcionando quando todos os demais sistemas ao seu redor começarem a falhar. Essa é a verdadeira transformação estratégica em curso e, muito provavelmente, o principal desafio que moldará o pensamento militar, a geopolítica e os investimentos em defesa nas próximas décadas.

Se a Guerra do Golfo ensinou ao mundo como a superioridade tecnológica poderia revolucionar a arte da guerra, os conflitos das últimas décadas estão ensinando uma lição igualmente importante. Nenhuma tecnologia é capaz de eliminar completamente a incerteza, a vulnerabilidade ou a necessidade de adaptação. Talvez essa seja a principal mensagem deixada pela Guerra dos 12 Dias. No século XXI, a vitória não pertencerá necessariamente à nação que atacar melhor, mas àquela capaz de resistir, adaptar-se e continuar funcionando quando todos os demais sistemas ao seu redor começarem a falhar. Essa é a verdadeira transformação estratégica em curso e, muito provavelmente, o principal desafio que moldará o pensamento militar, a geopolítica e os investimentos em defesa nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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O “Sistema de Sistemas”: Uma Visão para a Defesa Multidomínio da Amazônia Azul

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A defesa da Amazônia Azul é um dos maiores desafios estratégicos do Brasil no século XXI. Mais do que uma vasta área marítima sob jurisdição nacional, ela representa um patrimônio econômico, energético e geopolítico vital para o país. Segundo dados da Marinha do Brasil, cerca de 95% do comércio exterior brasileiro é transportado por via marítima, enquanto a maior parte da produção nacional de petróleo e gás natural provém de campos offshore localizados na plataforma continental.

A Amazônia Azul compreende aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados quando consideradas a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira e as áreas de extensão da Plataforma Continental reconhecidas ou pleiteadas pelo Brasil junto às Nações Unidas. Trata-se de uma área comparável à própria Amazônia continental e que concentra recursos estratégicos essenciais para a segurança e o desenvolvimento nacional.

Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul vem se tornando um ambiente cada vez mais complexo. A expansão da pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (IUU Fishing), o emprego de rotas marítimas por organizações criminosas transnacionais, a crescente presença de frotas extrarregionais e a evolução tecnológica dos meios militares impõem novos desafios à vigilância e à proteção desse imenso espaço marítimo.

Nesse cenário, surge uma reflexão cada vez mais presente nos debates estratégicos internacionais: a era das plataformas isoladas está cedendo espaço para a era dos sistemas integrados. Em vez de concentrar poder em um único navio, aeronave ou submarino, as forças armadas mais avançadas do mundo buscam construir verdadeiros “Sistemas de Sistemas”, nos quais sensores, plataformas, centros de comando e armamentos operam de forma integrada e compartilhada.

Essa transformação já pode ser observada em iniciativas nacionais como o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), os avanços do programa Link-BR2, o desenvolvimento de sistemas nacionais de comando e controle e os investimentos em capacidades espaciais. Embora ainda existam importantes desafios tecnológicos e orçamentários, esses projetos apontam para uma futura arquitetura multidomínio genuinamente brasileira.

A Teia de Sensores e a Nova Consciência Situacional

Em uma arquitetura moderna de defesa marítima, a consciência situacional passa a ser construída por uma rede distribuída de sensores. Satélites equipados com radar de abertura sintética (SAR), aeronaves de patrulha marítima, radares costeiros, sistemas eletro-ópticos, submarinos e plataformas não tripuladas atuariam de forma complementar para monitorar permanentemente a Amazônia Azul.

Nesse contexto, tecnologias como os radares Over-The-Horizon (OTH) merecem atenção especial. Já empregadas por diversas potências militares, essas soluções permitem ampliar significativamente o alcance da vigilância marítima além da linha convencional do horizonte. Em um cenário futuro, sistemas dessa natureza poderiam integrar a arquitetura brasileira de monitoramento oceânico, complementando os sensores já existentes.

A geografia nacional também oferece vantagens raramente exploradas no debate estratégico. Cadeias montanhosas como a Serra do Mar, por exemplo, poderiam desempenhar um papel relevante na proteção de centros de comando, bases logísticas e infraestruturas críticas, aumentando a resiliência operacional em cenários de alta intensidade.

O Papel dos Meios Não Tripulados

A evolução dos conflitos recentes demonstrou que drones deixaram de ser ferramentas auxiliares para se tornarem elementos centrais da arquitetura militar contemporânea. Plataformas aéreas não tripuladas de longa permanência poderiam futuramente assumir missões permanentes de vigilância oceânica, complementando o trabalho realizado por meios tripulados.

Soluções internacionais como o Akinci e o Anka-S, desenvolvidos pela Türkiye, ou sistemas sul-coreanos de longa autonomia, ilustram o tipo de capacidade que poderá influenciar futuros programas brasileiros. Mais importante do que a origem da plataforma, porém, é a capacidade de integrá-la a redes nacionais de comando e controle.

Essa abordagem permitiria ampliar significativamente a persistência sobre áreas críticas da ZEE, reduzindo custos operacionais e aumentando a capacidade de resposta diante de ameaças emergentes.

O Equilíbrio entre Presença e Dissuasão

Uma das contribuições conceituais mais interessantes para o debate sobre a defesa da Amazônia Azul é a distinção entre capacidades voltadas ao policiamento cotidiano e aquelas destinadas à guerra de alta intensidade.

Em termos conceituais, poderíamos chamar essas capacidades de “dentes de leite” e “dentes de sabre”.

Os “dentes de leite” representariam os meios empregados diariamente em missões de fiscalização, patrulha e aplicação da lei no mar. Incluem sensores, drones, embarcações de patrulha, helicópteros, armamentos de precisão de menor porte e sistemas capazes de neutralizar ameaças assimétricas de forma proporcional.

Já os “dentes de sabre” corresponderiam às capacidades de combate de alta intensidade destinadas à dissuasão e à defesa contra ameaças estatais. Nesse contexto, destacam-se programas como os submarinos da Classe Riachuelo, as futuras Fragatas Classe Tamandaré, os caças F-39 Gripen e os mísseis antinavio MANSUP atualmente em desenvolvimento nacional.

A coexistência dessas duas camadas de capacidade é essencial para evitar o emprego de meios estratégicos em situações que exigem apenas resposta policial ou fiscalização marítima.

O Multiplicador Estratégico do KC-30

Outro elemento fundamental de uma futura arquitetura multidomínio é a capacidade de projeção de poder. Nesse aspecto, a incorporação do KC-30 pela Força Aérea Brasileira representa um dos mais importantes multiplicadores estratégicos da atualidade.

O reabastecimento em voo amplia significativamente o alcance operacional dos caças F-39 Gripen e permite que aeronaves de combate permaneçam por mais tempo sobre áreas de interesse estratégico no Atlântico Sul. Em um ambiente operacional centrado em redes, a capacidade de projetar meios a grandes distâncias torna-se tão importante quanto o próprio armamento transportado.

Da mesma forma, aeronaves como o C-105 Amazonas continuam desempenhando papel relevante em missões de busca e salvamento, vigilância marítima e apoio logístico, compondo a camada de sustentação operacional da força.

Dissuasão por Resiliência

Talvez a principal lição da guerra moderna seja que a sobrevivência não depende mais da invulnerabilidade de uma plataforma específica, mas da capacidade de toda a rede continuar operando mesmo sob ataque.

Essa lógica dá origem ao conceito de “Dissuasão por Resiliência”. Em vez de concentrar capacidades críticas em poucos ativos de alto valor, uma arquitetura distribuída permite que sensores, plataformas e centros de comando compartilhem informações continuamente, reduzindo vulnerabilidades e aumentando a capacidade de reação.

Nesse modelo, a Amazônia Azul deixa de ser protegida apenas por navios ou aeronaves individuais e passa a ser defendida por uma verdadeira teia de sensores, enlaces de dados, sistemas de armas e centros de decisão conectados entre si.

Conclusão

A defesa da Amazônia Azul exigirá muito mais do que a aquisição de novas plataformas. O verdadeiro desafio será construir uma arquitetura multidomínio capaz de integrar satélites, radares, navios, submarinos, aeronaves, drones e sistemas de comando e controle em uma única rede operacional.

Programas como o SisGAAz, o Link-BR2, o PROSUB, as Fragatas Classe Tamandaré, o Gripen e o MANSUP já representam importantes blocos dessa construção. O próximo passo será conectá-los em uma estrutura capaz de transformar informação em poder de combate.

Se essa visão for concretizada nas próximas décadas, a defesa da Amazônia Azul deixará de depender de plataformas isoladas e passará a repousar sobre algo muito mais poderoso: uma rede inteligente, resiliente e nacionalmente controlada, capaz de garantir a soberania brasileira sobre o Atlântico Sul em um ambiente estratégico cada vez mais complexo.


Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel)


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MBDA reforça parceria estratégica com o Brasil durante visita oficial de seu CEO Eric Béranger

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A importância crescente do Brasil no cenário internacional de Defesa e Segurança voltou a ser evidenciada nesta semana com a visita oficial de Eric Béranger, CEO da MBDA, um dos maiores grupos de defesa do mundo e líder global no desenvolvimento de sistemas de armas complexos. A agenda, realizada nos dias 1º e 2 de junho, reuniu autoridades militares brasileiras, representantes diplomáticos de países parceiros e executivos da companhia, consolidando uma relação construída ao longo de décadas de cooperação com as Forças Armadas brasileiras.

A delegação da MBDA contou ainda com a participação de Florent Duleux, Vice-Presidente Sênior de Vendas para Exportação; Ricardo Mantovani, Vice-Presidente de Vendas para as Américas; e Pierre Marquis, Diretor-Geral e representante da empresa no Brasil. Durante a visita, os executivos mantiveram reuniões estratégicas com o Comandante da Marinha do Brasil, Almirante Marcos Sampaio Olsen; com o Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo; e com o Subchefe do Estado-Maior do Exército, General Eduardo Tavares Martins.

A agenda também contemplou encontros com importantes representantes diplomáticos, entre eles o Embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese; o Embaixador da França, Emmanuel Lenain; e o Vice-Embaixador do Reino Unido, Tony Kay. Os encontros reforçaram o caráter internacional das parcerias estratégicas ligadas aos programas de defesa que unem o Brasil às principais nações europeias do setor.

A presença da MBDA no Brasil está diretamente associada a alguns dos mais relevantes programas estratégicos das Forças Armadas. A empresa fornece sistemas de armas empregados nos caças F-39E Gripen da Força Aérea Brasileira, nas Fragatas Classe Tamandaré da Marinha do Brasil, nos submarinos da Classe Riachuelo (Scorpène BR) e nos helicópteros H225M utilizados pelas três Forças. Essa participação consolidou a companhia como um dos principais parceiros tecnológicos do país no segmento de sistemas de mísseis.

Durante a visita, Eric Béranger destacou que o Brasil ocupa hoje uma posição central na estratégia da MBDA para a América Latina. Segundo o executivo, a seleção do sistema EMADS pelo Exército Brasileiro para o programa de Defesa Antiaérea de Média Distância representa mais um passo importante na ampliação da cooperação entre a empresa e o país. A solução já é empregada por países como Itália, Reino Unido e Polônia e poderá representar um salto significativo nas capacidades de defesa aérea brasileiras.

Outro tema abordado foi o sucesso da Operação BVR-X, que marcou o lançamento do míssil ar-ar METEOR pela Força Aérea Brasileira a partir do caça F-39E Gripen. Considerado um dos mais avançados mísseis de combate além do alcance visual atualmente em operação no mundo, o METEOR demonstrou durante os testes o elevado grau de integração entre a plataforma sueca e os sistemas desenvolvidos pela MBDA, reforçando a capacidade operacional da aviação de caça brasileira.

Além dos programas militares em andamento, a MBDA reiterou seu compromisso com o fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira. A empresa destacou iniciativas voltadas à ampliação da cooperação tecnológica, à transferência de conhecimento e à integração de empresas nacionais em sua cadeia global de fornecimento. Entre essas ações está a realização do primeiro Supplier's Day da MBDA no Brasil, promovido recentemente no Rio de Janeiro com apoio do Ministério da Defesa, da ABIMDE e da FINEP, reunindo empresas brasileiras e equipes globais de compras do grupo.

Os números recentes da companhia demonstram a dimensão de sua expansão global. Em 2025, a MBDA registrou receita de € 5,8 bilhões, recebeu € 13,2 bilhões em novos pedidos e alcançou uma carteira de encomendas de € 44,4 bilhões. Após dobrar sua produção de mísseis entre 2023 e 2025, a empresa projeta um crescimento adicional de 40% neste ano, apoiado por um plano de investimentos superior a € 5 bilhões para o período de 2026 a 2030.

A visita de Eric Béranger ao Brasil reforça não apenas a solidez da parceria histórica entre a MBDA e as Forças Armadas brasileiras, mas também evidencia o potencial do país como polo estratégico para o desenvolvimento de capacidades de defesa avançadas na América Latina. Em um cenário internacional cada vez mais desafiador, iniciativas voltadas à cooperação industrial, transferência de tecnologia e fortalecimento da Base Industrial de Defesa tornam-se elementos fundamentais para garantir autonomia, inovação e capacidade operacional às futuras gerações de sistemas estratégicos brasileiros.


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