domingo, 30 de agosto de 2026

Formação conjunta de pilotos: por que não unificar a etapa básica entre as três Forças?

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A criação pelo Ministério da Defesa do Grupo de Trabalho responsável por formular o Conceito Conjunto para o futuro Helicóptero Multimissão abre espaço para uma discussão que deveria acompanhar a definição da própria aeronave: a possibilidade de unificar, sob uma estrutura conjunta, a formação básica dos pilotos de helicópteros das Forças Armadas. A proposta não significa retirar do Exército, Marinha e Força Aérea suas doutrinas ou qualificações operacionais específicas, mas concentrar em uma mesma estrutura aquilo que é comum à formação de um aviador de asas rotativas.

A iniciativa poderia ser conduzida diretamente pelo Ministério da Defesa, com coordenação do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas e participação permanente das três Forças. O modelo seguiria a lógica empregada nas aquisições conjuntas, nas quais o Ministério atua como elemento integrador, enquanto cada Força mantém seus requisitos e responsabilidades específicas. Nesse caso, a estrutura teria como finalidade estabelecer uma base comum de formação, treinamento e procedimentos, deixando para as organizações de aviação de cada Força a qualificação posterior para as respectivas missões.

O Brasil já possui elementos que tornam essa proposta tecnicamente viável. As Forças Armadas empregam a família Esquilo/Fennec em diferentes funções de formação e treinamento de aviadores, enquanto o Programa H-XBR consolidou a operação do H225M pelas três Forças. A experiência acumulada demonstra que a adoção de plataformas comuns não impede que Exército, Marinha e Força Aérea mantenham diferentes doutrinas de emprego. O que muda é a possibilidade de compartilhar conhecimentos, procedimentos e recursos sempre que os requisitos forem equivalentes.

A eventual seleção do H145M para o novo programa ampliaria essa convergência. Caso o modelo seja adotado, as três Forças passariam a operar uma segunda plataforma Airbus comum, além do H225M. O H145M ocuparia uma categoria distinta, com emprego voltado a missões compatíveis com uma aeronave leve multimissão, enquanto o H225M permaneceria associado às capacidades de maior porte já incorporadas às Forças. Essa configuração aumentaria a escala de operação de uma mesma família de produtos e poderia ser acompanhada por uma estrutura igualmente integrada para formação e adestramento.

A unificação proposta deveria, entretanto, limitar-se às competências que efetivamente possam ser compartilhadas. A formação básica de pilotos de helicópteros envolve conteúdos comuns, como segurança de voo, procedimentos normais e de emergência, navegação, comunicações, meteorologia aplicada, preparação e operação da aeronave, gerenciamento de recursos da tripulação, procedimentos de solo e fundamentos de operação de asas rotativas. Esses conhecimentos podem ser organizados em currículos comuns, com padrões de avaliação definidos conjuntamente, sem interferir na formação operacional posterior de cada Força.

Depois dessa etapa, ocorreria a especialização. Um piloto destinado à Aviação do Exército seguiria para a qualificação relacionada às operações aeromóveis, reconhecimento, ataque e apoio às forças terrestres. Na Marinha, a formação avançaria para as particularidades das operações navais, incluindo emprego embarcado e procedimentos específicos para operação sobre o mar. Na Força Aérea, o piloto seria direcionado às qualificações correspondentes às missões atribuídas à FAB. Dessa forma, a formação conjunta funcionaria como uma etapa comum, e não como substituição das estruturas operacionais existentes.

Esse modelo também permitiria racionalizar investimentos. A formação militar exige infraestrutura especializada, instrutores, dispositivos de treinamento, simuladores, sistemas de avaliação e instalações de apoio. Quando três organizações mantêm estruturas semelhantes para atender necessidades essencialmente iguais, existe espaço para avaliar se determinados recursos podem ser concentrados em uma estrutura conjunta. O objetivo não seria simplesmente reduzir instalações, mas evitar a duplicação de capacidades que poderiam ser utilizadas de forma compartilhada.

A mesma lógica poderia ser aplicada ao treinamento recorrente. A manutenção da proficiência de tripulações exige atividades periódicas, incluindo procedimentos de emergência, treinamento por instrumentos, operações noturnas, atualização de conhecimentos e exercícios de situações anormais. Uma estrutura conjunta poderia concentrar parte desses recursos e permitir que simuladores, instrutores e dispositivos de treinamento fossem utilizados pelas três Forças, enquanto os treinamentos diretamente relacionados às missões permaneceriam sob responsabilidade de cada organização.

A experiência do H-XBR oferece uma referência importante para esse modelo. O programa estabeleceu uma aquisição conjunta do H225M para Marinha, Exército e Força Aérea, resultando em 47 aeronaves produzidas no Brasil e na consolidação de capacidades industriais e de suporte associadas ao modelo. As aeronaves são empregadas segundo as necessidades de cada Força, demonstrando que padronização de plataforma e diferenciação operacional podem coexistir. O mesmo princípio pode ser aplicado à formação: procedimentos e conhecimentos comuns podem ser padronizados, enquanto o emprego tático permanece específico.

A eventual adoção do H145M acrescentaria ainda uma dimensão industrial à discussão. A Airbus e a Helibras trabalham para viabilizar a produção nacional do modelo em Itajubá, com perspectiva de iniciar pela versão militar. Caso o programa seja estruturado como uma aquisição conjunta, a escala proporcionada pelas três Forças poderá contribuir para sustentar a produção nacional e, simultaneamente, justificar investimentos em uma estrutura integrada de treinamento. Nesse contexto, formação, suporte logístico, qualificação e produção passam a ser elementos de uma mesma arquitetura de longo prazo.

A criação de um Centro Conjunto de Formação e Adestramento de Asas Rotativas subordinado ao Ministério da Defesa permitiria organizar essa estrutura sem retirar das Forças Singulares suas competências. O centro poderia reunir representantes permanentes do Exército, Marinha e Força Aérea, estabelecer os currículos comuns, coordenar instrutores, administrar recursos compartilhados e desenvolver padrões de treinamento aplicáveis às plataformas utilizadas conjuntamente. As Forças continuariam responsáveis pela qualificação específica de seus pilotos e pelo treinamento operacional necessário às respectivas missões.

Além da racionalização financeira, a formação comum teria impacto direto sobre a interoperabilidade. Pilotos formados sob os mesmos padrões básicos chegariam às unidades operacionais com conhecimento compartilhado de procedimentos e terminologia, facilitando posteriormente a participação em exercícios e operações conjuntas. Isso não elimina a necessidade de treinamento conjunto, mas reduz a quantidade de conhecimentos básicos que precisam ser nivelados quando militares de diferentes Forças passam a atuar no mesmo ambiente operacional.

A proposta também pode ser implementada de maneira gradual. O Ministério da Defesa poderia começar pela padronização dos currículos básicos, procedimentos de segurança, critérios de avaliação e formação de instrutores. Em uma segunda etapa, poderiam ser compartilhados simuladores e outros dispositivos de treinamento. Posteriormente, conforme os resultados fossem avaliados, novas atividades poderiam ser incorporadas. As estruturas atuais das Forças não precisariam ser imediatamente desativadas, podendo assumir progressivamente funções de especialização e qualificação operacional.

A discussão ganha relevância justamente porque o novo programa de Helicóptero Multimissão ainda está em fase de definição conceitual. Se o objetivo é desenvolver uma aquisição verdadeiramente conjunta, a análise não deveria se limitar ao número de aeronaves, às suas capacidades ou ao modelo de emprego. O planejamento também precisa considerar como os profissionais serão formados, quais recursos poderão ser compartilhados e como será organizada a manutenção da proficiência ao longo das décadas de operação.

Nesse contexto, a eventual escolha do H145M poderia ser aproveitada para aprofundar uma integração que já possui antecedentes concretos. A experiência com Esquilo e Fennec na formação e treinamento de aviadores, somada à operação conjunta do H225M pelo Exército, Marinha e Força Aérea, fornece uma base sobre a qual seria possível estruturar uma nova etapa. O objetivo seria estabelecer uma separação clara entre formação básica comum e qualificação operacional específica, preservando a autonomia doutrinária das Forças e reduzindo a duplicação de estruturas.

Para o Ministério da Defesa, essa abordagem permitiria avaliar o custo do programa não apenas pela aquisição das aeronaves, mas pelo conjunto de recursos necessários para mantê-las operacionais durante seu ciclo de vida. Formação, simuladores, instrutores, infraestrutura e treinamento recorrente representam compromissos permanentes. A concentração daqueles recursos que possam ser efetivamente compartilhados pode produzir economias ao longo de décadas, além de aumentar a disponibilidade dos meios de treinamento.

A proposta, portanto, não depende exclusivamente da escolha do H145M. A seleção de uma plataforma comum apenas reforçaria uma lógica que já está presente nas Forças Armadas. Se Exército, Marinha e Força Aérea precisam formar pilotos de helicópteros com competências básicas semelhantes e já possuem experiência com plataformas compartilhadas, cabe ao Ministério da Defesa avaliar se a manutenção de estruturas integralmente separadas para essa etapa continua sendo a solução mais eficiente.

O novo programa oferece uma oportunidade para responder a essa questão dentro de uma perspectiva de longo prazo. Uma estrutura conjunta para a formação básica permitiria concentrar recursos onde a padronização produz ganhos, enquanto Exército, Marinha e Força Aérea manteriam integralmente sob seu controle a preparação de seus pilotos para as missões específicas. Dessa forma, a integração seria aplicada apenas onde produz vantagem operacional e econômica, sem comprometer as características próprias de cada Força.


Por Angelo Nicolaci


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Brasil avança para novo programa conjunto de helicópteros com H145M no centro da estratégia

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O Ministério da Defesa avançou na estruturação do novo programa conjunto de helicópteros para as Forças Armadas, iniciativa que retoma a lógica de aquisição integrada adotada no Programa H-XBR. No centro desse movimento está o Airbus H145M, aeronave já avaliada no Brasil e que se encontra no foco da estratégia da Helibras para uma nova fase de produção nacional em Itajubá (MG).

A perspectiva ganhou forma com a criação de um Grupo de Trabalho no âmbito do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, responsável pela elaboração do conceito operacional conjunto para um futuro helicóptero multimissão. A iniciativa envolve Marinha, Exército e Força Aérea e busca identificar necessidades comuns que possam ser atendidas por uma mesma plataforma.

Embora o processo formal de aquisição ainda esteja em desenvolvimento, o H145M desponta como a principal referência para esse novo ciclo. A aeronave já passou por avaliações e reúne características que atendem ao conceito de emprego multimissão pretendido pelas Forças, enquanto sua produção no Brasil se conecta diretamente à estratégia de continuidade industrial da Helibras após o encerramento do programa H-XBR.

A empresa trabalha para transformar a unidade de Itajubá em uma nova base de produção do H145, com foco na versão militar H145M. Para viabilizar uma linha de produção nacional, a Helibras considera necessária uma encomenda de escala significativa, estimada em aproximadamente 50 aeronaves.

O cenário cria uma convergência entre duas necessidades estratégicas. De um lado, as Forças Armadas precisam renovar parte de suas frotas de helicópteros leves e ampliar suas capacidades multimissão. De outro, a indústria precisa garantir escala para preservar a capacidade produtiva e o conhecimento acumulado no Brasil após quase duas décadas de fabricação e suporte aos H225M do H-XBR.

O programa H-XBR representa o principal precedente. A iniciativa resultou na produção de 47 helicópteros H225M destinados às três Forças, além de transferência de tecnologia, qualificação de fornecedores e ampliação da capacidade brasileira de manutenção, integração e suporte a aeronaves militares de grande porte.

Agora, a proposta é avançar para uma plataforma menor, mais leve e com custos operacionais inferiores, mantendo a lógica de uma aquisição conjunta. O H145M pode cumprir missões de transporte, reconhecimento, operações especiais, evacuação aeromédica, busca e salvamento e apoio de fogo, além de permitir a integração de diferentes sistemas de armas por meio do conceito HForce.

Para o Exército Brasileiro, a nova aeronave também se relaciona diretamente com a necessidade de renovação dos meios leves da Aviação do Exército, especialmente os Fennec empregados em missões operacionais. A adoção de uma plataforma comum pelas três Forças poderia ainda proporcionar ganhos de escala em treinamento, logística, manutenção e aquisição de peças e componentes.

A criação do Grupo de Trabalho representa, portanto, mais do que um estudo isolado sobre uma nova aeronave. Ela abre caminho para a construção de um novo programa conjunto de asas rotativas, ao mesmo tempo em que oferece à indústria brasileira a possibilidade de iniciar um novo ciclo de produção.

O desafio agora será transformar essa convergência em um programa de longo prazo, com requisitos bem definidos, recursos previsíveis e uma encomenda capaz de sustentar a produção nacional.

Se o H-XBR marcou a criação da capacidade brasileira para produzir helicópteros militares de grande porte, o H145M poderá representar o próximo capítulo dessa trajetória, com uma diferença importante: desta vez, o Brasil já possui infraestrutura, mão de obra qualificada e experiência industrial para partir de uma posição muito mais madura.


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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Kuwait amplia cooperação militar com Paquistão em meio à pressão iraniana sobre a segurança do Golfo

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Kuwait e Paquistão deram um novo passo na ampliação de sua cooperação militar e de defesa, com a assinatura em 27 de agosto do novo protocolo durante a visita do ministro da Defesa kuwaitiano, Sheikh Abdullah Ali Abdullah Al-Salem Al-Sabah, a Islamabad.

O documento foi assinado pelo ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, e estabelece uma ampliação da estrutura de cooperação militar existente entre os dois países. Segundo o governo paquistanês, as Forças Armadas do país prestarão assistência às forças kuwaitianas em áreas como treinamento, capacitação, gestão de fronteiras e outros campos de colaboração definidos bilateralmente.

A assinatura ocorre em um momento particularmente sensível para o Kuwait. A guerra entre Estados Unidos e Irã transformou o Golfo em um ambiente de elevada pressão militar e estratégica, colocando países que não participam diretamente do conflito diante de riscos associados à proximidade geográfica, à infraestrutura militar americana instalada na região e à vulnerabilidade das rotas energéticas e instalações críticas.

Nesse contexto, o acordo com Islamabad ganha uma dimensão que ultrapassa o simples intercâmbio de treinamento. O Kuwait está ampliando sua rede de parceiros de defesa justamente quando a segurança do Golfo passa a depender cada vez mais da capacidade de enfrentar ameaças que combinam mísseis, drones, guerra eletrônica, ataques de precisão e operações contra infraestrutura.

Um acordo novo sobre uma estrutura que já existia

Embora o anúncio represente um novo passo na relação entre Kuwait e Paquistão, a cooperação de defesa entre os dois países é anterior ao protocolo agora assinado.

Kuwait e Paquistão assinaram um acordo de cooperação em defesa em 11 de junho de 2023, estabelecendo uma estrutura institucional para ampliar a colaboração militar, incluindo treinamento e educação, intercâmbio de especialistas e outras áreas definidas pelos dois governos.

O Kuwait ratificou formalmente esse acordo em julho de 2026, por meio do Decreto-Lei nº 73 de 2026, consolidando juridicamente uma estrutura que já vinha sendo construída desde 2023.

O novo protocolo, portanto, não deve ser interpretado automaticamente como substituição do acordo anterior. A documentação oficial paquistanesa indica que o instrumento de 2026 amplia de maneira significativa o marco de cooperação estabelecido anteriormente.

A distinção é importante porque mostra que Islamabad e Kuwait estão passando de uma relação institucional de cooperação para uma estrutura com maior ênfase na capacitação e no desenvolvimento de capacidades militares.

Por que o Paquistão?

A escolha do Paquistão é particularmente relevante. Islamabad possui uma das maiores estruturas militares do mundo islâmico e acumulou décadas de experiência operacional em um ambiente marcado por ameaças convencionais e assimétricas. O país mantém forças terrestres, aéreas e navais de grande porte e opera sistemas destinados a enfrentar diferentes categorias de ameaça.

Para o Kuwait, isso representa uma fonte adicional de conhecimento militar sem necessariamente implicar uma mudança de alinhamento estratégico. O Paquistão também possui experiência significativa em treinamento, operações combinadas, vigilância de fronteiras e emprego de sistemas de defesa diante de ameaças aéreas e de mísseis. A nova estrutura prevê justamente assistência nessas áreas, embora o governo paquistanês não tenha divulgado uma lista detalhada de equipamentos ou sistemas que seriam transferidos ao Kuwait.

Isso significa que, neste momento, não há base para tratar o acordo como um contrato de fornecimento de armas. Seu caráter é predominantemente institucional e de capacitação. Isso, porém, não reduz sua importância.

Treinamento, doutrina, intercâmbio de especialistas e integração entre forças podem produzir efeitos de longo prazo tão relevantes quanto a aquisição de uma plataforma específica. Em uma região onde diversos países operam equipamentos de diferentes origens, a capacidade de integrar sensores, sistemas de comando, defesa aérea e unidades de combate passa a ser um componente crítico da eficácia militar.

O Golfo mudou

A guerra entre Estados Unidos e Irã alterou significativamente o ambiente estratégico no qual o Kuwait está inserido. Durante décadas, a segurança dos países do Golfo esteve fortemente associada à presença militar americana e à capacidade de Washington de garantir a proteção das rotas marítimas, instalações energéticas e infraestrutura estratégica.

A guerra, porém, mostrou que essa proteção não elimina completamente os riscos. Países como o Kuwait podem não ser partes diretamente envolvidas nas operações, mas suas bases, instalações militares, aeroportos, infraestrutura energética e território podem adquirir importância estratégica para os cálculos de adversários dos Estados Unidos. A consequência é uma mudança na percepção de segurança.

O problema já não é apenas possuir forças capazes de enfrentar uma invasão terrestre ou uma ameaça naval convencional. É necessário proteger uma infraestrutura altamente concentrada contra ataques simultâneos de drones, mísseis de diferentes alcances, munições de precisão e operações eletrônicas.

Essa transformação favorece a diversificação das parcerias militares. Quanto maior o número de parceiros capazes de fornecer treinamento, conhecimento, doutrina e apoio técnico, maior a capacidade de um país reduzir sua dependência de uma única arquitetura de segurança.

O fator iraniano

Embora o acordo não seja apresentado oficialmente como uma resposta ao Irã, o contexto regional não pode ser ignorado. O Kuwait ocupa uma posição geográfica particularmente sensível. O país está entre Iraque, Arábia Saudita e Irã, além de possuir uma pequena faixa de litoral voltada para o Golfo Pérsico. Sua proximidade com o território iraniano e sua relação histórica com os Estados Unidos fazem com que qualquer escalada regional tenha consequências diretas para sua segurança.

O país também abriga instalações utilizadas pelos Estados Unidos, o que aumenta sua relevância dentro da arquitetura militar americana no Golfo. Por isso, a estratégia kuwaitiana parece caminhar para uma combinação de dissuasão, diversificação e resiliência.

Em vez de depender exclusivamente da presença americana, o Kuwait amplia seus canais de cooperação com outros atores capazes de contribuir para a formação e o desenvolvimento de suas forças. Isso não significa afastamento de Washington.

É, antes, uma tentativa de reduzir vulnerabilidades em um cenário no qual os próprios Estados Unidos estão sendo obrigados a administrar simultaneamente compromissos no Oriente Médio, na Europa e no Indo-Pacífico.

O Paquistão também amplia seu espaço estratégico

O movimento também precisa ser analisado pelo lado paquistanês. Islamabad vem ampliando sua atuação diplomática e militar no Oriente Médio. O país mantém relações históricas com as monarquias do Golfo e, ao mesmo tempo, possui canais de diálogo com diferentes atores regionais.

Essa posição cria uma combinação particularmente relevante: o Paquistão pode atuar simultaneamente como parceiro militar de países árabes do Golfo e como interlocutor com o Irã.

Para Islamabad, ampliar a cooperação com o Kuwait significa aumentar sua presença estratégica em uma região onde já possui relações militares históricas com outros países.

A tendência ganha importância diante do aprofundamento dos vínculos de defesa do Paquistão com diferentes países do Oriente Médio. O resultado pode ser a formação de uma rede de cooperação militar na qual Islamabad ocupa uma posição cada vez mais relevante.

Mais do que treinamento

A questão mais interessante está no que pode acontecer depois. O acordo de 2026 não anuncia a aquisição de caças, sistemas de defesa aérea ou veículos blindados. Mas mecanismos de cooperação militar frequentemente começam exatamente dessa maneira.

Exercícios conjuntos podem levar à padronização de procedimentos. Intercâmbios de oficiais podem gerar novos canais de relacionamento. Programas de treinamento podem revelar necessidades de equipamentos. E a cooperação industrial pode surgir posteriormente a partir dessas relações.

No caso do Kuwait, isso pode abrir espaço para futuras discussões envolvendo sistemas de vigilância, defesa aérea, guerra eletrônica, veículos, treinamento especializado e gerenciamento de fronteiras.

Não há, neste momento, indicação oficial de que essas aquisições estejam em negociação. O ponto é outro: o novo protocolo cria canais institucionais que tornam esse tipo de cooperação futura mais simples.

Um Kuwait mais diversificado

A assinatura do novo protocolo deve, portanto, ser observada como parte de uma transformação mais ampla da política de defesa kuwaitiana. O país não está abandonando seus parceiros tradicionais nem substituindo a relação estratégica com os Estados Unidos. Está adicionando novas camadas à sua arquitetura de segurança. Essa estratégia faz sentido diante da natureza das ameaças atuais.

A experiência da guerra no Irã demonstra que mesmo países que não participam diretamente de um conflito podem sofrer consequências militares, econômicas e políticas. Bases estrangeiras, rotas marítimas, instalações energéticas e sistemas logísticos transformam-se em elementos de uma equação estratégica muito maior.

Para o Kuwait, aumentar a quantidade e a diversidade de seus parceiros militares significa criar mais opções. Já para o Paquistão, significa ampliar sua influência no Golfo e transformar sua experiência militar em instrumento de projeção estratégica.

O resultado é uma aproximação que, embora apresentada oficialmente como cooperação para treinamento, capacitação e integração, ocorre em um momento em que a arquitetura de segurança do Oriente Médio está sendo redesenhada.

A guerra contra o Irã pode terminar, mas algumas de suas consequências provavelmente permanecerão. Entre elas está a percepção, cada vez mais evidente entre os países do Golfo, de que depender de um único garantidor externo não é suficiente para enfrentar um ambiente de ameaças que se tornou mais complexo, distribuído e imprevisível.

O Kuwait parece estar respondendo a essa realidade pela diversificação. E o Paquistão está encontrando nesse movimento uma oportunidade para ampliar seu próprio peso estratégico no Oriente Médio.


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Finlândia reforça defesa contra drones e ameaças aéreas com RBS 70 NG da Saab

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A Finlândia assinou contrato com a Saab visando a aquisição do sistema RBS 70NG para ampliar sua capacidade de defesa aérea de curto alcance. O acordo, firmado pelo Comando Logístico das Forças de Defesa da Finlândia, inclui uma encomenda inicial avaliada em 1,2 bilhões de coroas suecas e estabelece condições para futuras aquisições do sistema.

Além dos equipamentos, o contrato prevê a possibilidade de novas encomendas de sistemas RBS 70 NG, bem como de treinamento, peças de reposição e equipamentos destinados à manutenção. A estrutura do acordo busca garantir não apenas a aquisição dos sistemas, mas também a sustentação da capacidade ao longo de seu ciclo operacional.

A escolha representa uma evolução em relação ao sistema RBS 70 empregado pelas Forças de Defesa da Finlândia desde 2008. A versão NG incorpora melhorias destinadas a aumentar a capacidade de detecção, acompanhamento e engajamento de alvos, mantendo o conceito de defesa aérea de curto alcance baseado em mísseis guiados por laser.

Entre os principais avanços está o sistema de rastreamento automático de alvos, associado a uma capacidade noturna integrada. Essas características reduzem a dependência da operação manual durante o acompanhamento dos alvos e ampliam a possibilidade de emprego em diferentes condições de visibilidade.

O míssil utilizado pelo RBS 70 NG emprega orientação por feixe laser, característica que proporciona elevada resistência a determinadas formas de interferência eletrônica utilizadas contra sistemas convencionais de guiagem. Diferentemente de sistemas que dependem de um buscador instalado no próprio míssil, a orientação é realizada a partir da unidade de tiro durante o engajamento.

A modernização ganha relevância diante da transformação do ambiente aéreo observado nos conflitos recentes. A proliferação de drones, munições guiadas e aeronaves de baixa assinatura impõe às forças terrestres a necessidade de contar com sistemas capazes de detectar e enfrentar diferentes categorias de ameaças em distâncias relativamente curtas.

A defesa aérea de curto alcance também passou a desempenhar papel importante na proteção de unidades móveis, posições de comando, instalações logísticas e infraestruturas críticas. Nesse contexto, sistemas portáteis ou de elevada mobilidade podem complementar camadas de defesa de maior alcance, criando uma arquitetura mais distribuída e difícil de neutralizar.

A decisão finlandesa também possui uma dimensão particular para o ambiente estratégico europeu. Com uma extensa fronteira terrestre com a Rússia e integrada à estrutura de defesa da OTAN, a Finlândia vem ampliando suas capacidades militares e priorizando sistemas capazes de operar em um cenário de alta intensidade. A defesa aérea constitui uma das áreas mais sensíveis desse processo.

Brasil já emprega o RBS 70 NG

O Exército Brasileiro já utiliza o RBS 70 NG, com sistema integra a capacidade de defesa antiaérea de baixa altura da Força Terrestre e representa uma das soluções empregadas para proteger tropas e instalações contra ameaças aéreas.

A experiência brasileira com o RBS 70 NG coloca o país entre os operadores da geração mais recente do sistema e cria uma base para observar a evolução de sua utilização por outros usuários. No caso finlandês, a modernização ocorre dentro de uma arquitetura de defesa mais ampla e diretamente influenciada pela necessidade de enfrentar um ambiente operacional marcado pela presença de aeronaves, drones e armas de precisão.

A movimentação de Helsinque reforça uma tendência que vem ganhando espaço entre forças armadas europeias: a defesa aérea de curto alcance deixou de ser considerada exclusivamente uma capacidade complementar e passou a ocupar posição central na proteção das forças terrestres. A combinação entre sensores, mobilidade, capacidade de operação noturna e resistência a interferências torna esse nível de defesa particularmente relevante para a sobrevivência das unidades no campo de batalha moderno.

Para o Brasil, que já opera o RBS 70 NG, a evolução observada na Finlândia também oferece um parâmetro sobre a importância da sustentação, modernização e integração desse tipo de sistema dentro de uma arquitetura de defesa aérea em camadas, especialmente diante da rápida evolução das ameaças aéreas não tripuladas.


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Países Baixos ampliam proteção de blindados com sistemas de camuflagem multispectral da Saab

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Os Países Baixos firmaram com a Saab um acordo de longo prazo para fornecimento dos sistemas Barracuda Mobile Camouflage System (MCS), destinados inicialmente a veículos empregados pelo Exército Real dos Países Baixos. A medida amplia a capacidade de proteção das plataformas contra diferentes meios de detecção presentes no campo de batalha moderno.

O acordo estabelece uma estrutura de fornecimento de longo prazo e já contempla um primeiro pedido, com entregas previstas para os próximos anos. Segundo informações do Ministério da Defesa, o programa poderá envolver centenas de sistemas ao longo do período de dez anos.

Entre as plataformas inicialmente contempladas estão os veículos de reconhecimento Fennek e os obuseiros autopropulsados PzH 2000NL. O acordo também prevê opções para ampliar posteriormente a aplicação da tecnologia a outros tipos de veículos empregados pelas Forças Armadas dos Países Baixos.

A adoção do Barracuda MCS está diretamente relacionada à evolução dos sistemas de reconhecimento e aquisição de alvos. Em um ambiente operacional marcado pelo emprego de sensores ópticos, infravermelhos e outros sistemas capazes de identificar plataformas a distância, reduzir a assinatura de um veículo passou a ser um componente relevante de sua sobrevivência.

O sistema da Saab utiliza uma solução de camuflagem multispectral desenvolvida para reduzir a exposição das plataformas em diferentes faixas do espectro eletromagnético. A tecnologia não se limita à camuflagem visual convencional, buscando dificultar a detecção por sensores utilizados para reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos.

A configuração do sistema pode ser adaptada ao tipo de veículo e ao ambiente operacional, incluindo padrões destinados a regiões de vegetação, áreas urbanas e ambientes árticos. Essa flexibilidade permite que a camuflagem seja empregada de acordo com as características do terreno e das missões realizadas pelas unidades.

Outro efeito associado ao Barracuda MCS é a redução da temperatura superficial dos veículos. Ao diminuir a transferência e a retenção de calor, o sistema pode contribuir para reduzir a assinatura infravermelha da plataforma e, adicionalmente, melhorar as condições térmicas para a tripulação e para determinados equipamentos embarcados.

A importância operacional da tecnologia está na combinação entre camuflagem e mobilidade. Em conflitos de alta intensidade, permanecer oculto durante deslocamentos, paradas e preparação para o emprego pode reduzir a possibilidade de detecção e, consequentemente, o risco de ataques de artilharia, drones e outras armas de precisão.

A iniciativa neerlandesa acompanha uma tendência observada em diferentes forças armadas europeias, que passaram a considerar a redução de assinaturas como parte integrante da sobrevivência de veículos blindados. A experiência recente em conflitos de alta intensidade demonstrou que a capacidade de localizar uma plataforma pode ser tão importante quanto a capacidade de atacá-la.

Nesse contexto, sistemas como o Barracuda MCS representam uma mudança na concepção de proteção de veículos militares. Em vez de depender exclusivamente de blindagem para sobreviver ao ataque, as plataformas passam a incorporar medidas destinadas a dificultar sua detecção desde as primeiras etapas do ciclo de engajamento, combinando ocultação, mobilidade e redução de assinaturas como elementos complementares da sobrevivência no campo de batalha.


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Guerra no Irã completa seis meses e reconfigura o Oriente Médio, pressionando Europa e estratégia global dos EUA

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Seis meses após o início da guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, o conflito está longe de produzir uma solução política ou militar definitiva. O que inicialmente parecia ser uma campanha de duração limitada transformou-se em uma guerra prolongada, com impactos que ultrapassam o Oriente Médio e começam a atingir a própria arquitetura estratégica dos Estados Unidos, da Europa e de seus aliados.

A evolução do conflito também revela uma mudança na estratégia de Washington. Ao longo dos últimos meses, a administração Trump alternou pressão militar com tentativas de negociação, mais recentemente, passou a reforçar uma ofensiva econômica destinada a ampliar o isolamento do Irã e pressionar sua capacidade de sustentar o conflito. O objetivo declarado permanece impedir que Teerã desenvolva capacidade nuclear, mas o caminho para alcançar esse objetivo tornou-se consideravelmente mais complexo do que o previsto no início da campanha.

A principal dificuldade para os Estados Unidos está no fato de que superioridade militar não significa, necessariamente, capacidade de impor uma solução política. A campanha aérea e as operações contra alvos estratégicos iranianos podem degradar instalações, infraestrutura e capacidades militares, mas não eliminam automaticamente a capacidade de resistência de Teerã. Ao contrário, uma guerra prolongada pode criar um ambiente em que o Irã passe a apostar menos em uma vitória militar convencional e mais no desgaste progressivo de seus adversários.

Esse desgaste ocorre em diferentes níveis. Há o custo direto das operações militares, o consumo de munições e interceptadores, a necessidade de manter forças aéreas e navais em estado de prontidão e a crescente pressão sobre uma estrutura militar que também precisa sustentar compromissos na Europa e no Indo-Pacífico. A guerra no Irã, portanto, não ocorre isoladamente dentro do planejamento estratégico americano. Cada recurso deslocado para o Oriente Médio é um recurso que deixa de estar disponível, ainda que temporariamente, para outras prioridades.

Essa realidade começa a ser percebida de forma mais clara na Europa. A pressão sobre os estoques de sistemas de defesa aérea e antimíssil, particularmente os interceptadores Patriot, tornou-se uma das consequências mais sensíveis da guerra. O intenso emprego desses sistemas no conflito com o Irã e os compromissos simultâneos com aliados e parceiros elevaram as preocupações sobre a disponibilidade de interceptadores para a defesa do continente europeu e para o apoio à Ucrânia. O Pentágono contesta que exista uma situação crítica, mas o debate evidencia uma questão estrutural: os estoques ocidentais continuam limitados diante de guerras simultâneas de alta intensidade.

Para a Europa, isso representa um problema adicional. O continente continua enfrentando a guerra na Ucrânia, mantém preocupações crescentes com a segurança do flanco oriental da OTAN, ao mesmo tempo, precisa considerar a possibilidade de uma redução gradual da presença militar americana. Washington está conduzindo uma revisão da presença de suas forças na Europa e vem pressionando os aliados a assumir maior responsabilidade pela defesa convencional do continente, preservando para os Estados Unidos um papel mais voltado à dissuasão estratégica e ao apoio às capacidades europeias.

A guerra no Irã adiciona uma variável importante a esse processo. A necessidade de manter uma grande estrutura militar no Oriente Médio reforça o argumento americano de que os europeus precisam desenvolver maior autonomia em determinadas áreas. Sistemas de defesa aérea, munições, inteligência, logística, transporte estratégico e capacidade de comando e controle passam a ser ainda mais relevantes para uma Europa que poderá, progressivamente, ser chamada a assumir uma parcela maior da responsabilidade por sua própria segurança

A Bulgária e a expansão da geografia estratégica da guerra

Um dos episódios mais significativos desse processo ocorreu na Bulgária. Em julho, o Parlamento búlgaro autorizou a permanência temporária de até oito aeronaves de reabastecimento KC-135 e de até 250 militares americanos na Base Aérea de Bezmer, no âmbito de um acordo para o uso conjunto de instalações militares. A presença das aeronaves estava relacionada ao apoio às operações americanas no Oriente Médio.

A reação iraniana foi imediata. Teerã criticou a decisão búlgara e associou o emprego da infraestrutura do país às operações americanas contra o Irã. Posteriormente, a possibilidade de instalações e ativos americanos localizados no sudeste europeu serem considerados dentro do ambiente de retaliação iraniano passou a alimentar preocupações sobre a ampliação geográfica do conflito.

Em 21 de agosto após pressão da opinião popular búlgara, os dois KC-135 que estavam em Bezmer deixaram a Bulgária. O episódio ocorreu após menos de um mês de permanência das aeronaves no país. Embora a saída não signifique necessariamente o abandono permanente da possibilidade de utilização da base pelos Estados Unidos, o episódio demonstrou a sensibilidade política e estratégica envolvida na transformação de instalações europeias em parte da cadeia logística da guerra travada no Oriente Médio.

A importância desse episódio vai além do número reduzido de aeronaves envolvidas. O KC-135 é uma plataforma de apoio, mas o reabastecimento em voo é um dos principais multiplicadores do poder aéreo americano. Aeronaves-tanque permitem ampliar o raio de ação e o tempo de permanência de caças, bombardeiros e outras plataformas, sustentando operações a grandes distâncias. Por essa razão, uma aeronave que não possui armamento ofensivo pode, ainda assim, assumir importância estratégica significativa dentro de uma campanha militar.

A presença dos KC-135 na Bulgária mostra que, em uma guerra moderna, a linha entre área de combate e retaguarda tornou-se cada vez mais difusa. Bases aéreas, centros logísticos, instalações portuárias, sistemas de comunicação e infraestrutura de apoio podem adquirir importância operacional mesmo estando localizados a milhares de quilômetros do teatro principal de operações. Ao mesmo tempo, tornam-se potenciais alvos ou instrumentos de pressão política e diplomática.

Para os países europeus, essa é uma questão particularmente delicada. Apoiar os Estados Unidos não significa necessariamente participar diretamente das operações, mas o fornecimento de infraestrutura e apoio logístico pode alterar a percepção de outras potências sobre o grau de envolvimento de determinado país. O caso búlgaro demonstra como um conflito regional pode produzir efeitos sobre a segurança do continente europeu sem que uma nova frente de combate seja formalmente aberta.

O problema da dispersão estratégica americana

Os Estados Unidos enfrentam atualmente uma equação que se torna cada vez mais difícil de administrar. No Oriente Médio, precisam sustentar operações contra o Irã e proteger suas bases, aliados e linhas de comunicação. Na Europa, continuam sendo o principal pilar militar da OTAN, mesmo pressionando os aliados a assumir maiores responsabilidades. No Indo-Pacífico, a competição com a China continua sendo considerada uma prioridade estratégica de longo prazo.

A dificuldade está em que essas regiões exigem capacidades que não podem ser produzidas rapidamente. Interceptadores antimísseis, aeronaves de reabastecimento, navios de guerra, sistemas de defesa aérea, munições de precisão e plataformas de inteligência possuem ciclos de produção e manutenção complexos. Uma guerra prolongada pode consumir esses recursos mais rapidamente do que a indústria consegue repô-los.

A própria estrutura militar americana no Golfo passou a ser objeto de debate. Seis meses de conflito demonstraram a vulnerabilidade de grandes instalações fixas localizadas dentro do alcance de drones e mísseis iranianos. Isso pode levar Washington a rever parte de sua postura regional, buscando maior dispersão, mobilidade e emprego de bases alternativas. Uma mudança desse tipo, porém, tende a ampliar a necessidade de utilizar instalações localizadas fora do Oriente Médio, incluindo estruturas na Europa.

Esse movimento cria um paradoxo estratégico. Quanto mais os Estados Unidos tentam reduzir sua vulnerabilidade no Golfo por meio da dispersão de meios e da utilização de outras bases, maior pode ser o número de países envolvidos, direta ou indiretamente na infraestrutura operacional da guerra. Isso amplia a capacidade de sobrevivência das forças americanas, mas também pode expandir o espaço geográfico da crise.

O Oriente Médio depois de seis meses de guerra

No Oriente Médio, a guerra também está modificando a relação entre os Estados Unidos e seus parceiros regionais. Países que durante décadas estruturaram parte de sua segurança em torno da presença militar americana passaram a observar que mesmo uma força militar como a dos Estados Unidos encontra dificuldades para controlar completamente a escalada de um conflito contra uma potência regional como o Irã.

A vulnerabilidade das bases, a exposição de rotas marítimas e os efeitos sobre o comércio e a energia colocaram novamente em discussão a sustentabilidade do modelo de presença militar americana construído ao longo das últimas décadas. O debate não é apenas sobre quantas forças os Estados Unidos devem manter na região, mas sobre qual modelo de presença será capaz de sobreviver em um ambiente marcado pela proliferação de drones, mísseis balísticos e sistemas de ataque de longo alcance.

O Estreito de Ormuz permanece como um dos principais pontos de pressão. Antes do início da guerra, cerca de um quinto do petróleo comercializado internacionalmente transitava pela região. A segurança da navegação tornou-se uma preocupação direta de diversos países, e membros da OTAN vêm discutindo formas de apoiar a liberdade de navegação sem transformar formalmente a aliança em parte direta do conflito. França e Reino Unido aparecem entre os países envolvidos nas discussões sobre possíveis mecanismos de segurança marítima.

Ormuz começa a pressionar as rotas do comércio mundial

A pressão sobre o Estreito de Ormuz já começa a produzir efeitos que ultrapassam o mercado de energia e atingem diretamente o planejamento logístico internacional. Um exemplo particularmente significativo veio da Coreia do Sul, que iniciou em agosto uma viagem experimental com o porta-contêineres PanStar Acro para avaliar a viabilidade comercial da Rota do Mar do Norte, pelo Ártico.

A iniciativa, conduzida pelo governo sul-coreano em parceria com empresas privadas, busca testar uma alternativa às rotas tradicionais entre a Ásia e a Europa em um momento de crescente instabilidade no Oriente Médio e de riscos associados aos principais corredores marítimos. A possibilidade de utilizar a passagem ártica ganha relevância justamente porque reduz a exposição a pontos de estrangulamento geopolítico como o Estreito de Ormuz e, em determinadas condições, pode oferecer uma alternativa ao corredor que passa pelo Canal de Suez.


É importante, porém, não interpretar o movimento como uma substituição imediata das rotas tradicionais. A Rota do Mar do Norte ainda enfrenta limitações importantes, entre elas condições ambientais extremas, sazonalidade, infraestrutura portuária restrita, necessidade de capacidades específicas para navegação em águas árticas e questões regulatórias e geopolíticas. O teste sul-coreano representa, sobretudo, uma tentativa de avaliar se uma rota considerada estratégica no longo prazo pode se transformar em uma alternativa logística mais relevante diante do aumento dos riscos em outras regiões.

O aspecto mais importante está justamente nessa mudança de percepção. Quando empresas e governos começam a investir na avaliação de rotas alternativas não apenas por razões comerciais, mas também para reduzir exposição a riscos geopolíticos, a segurança marítima passa a integrar diretamente o planejamento das cadeias globais de abastecimento.

O caso do PanStar Acro demonstra como uma crise concentrada no Oriente Médio pode estimular decisões a milhares de quilômetros de distância. Se a instabilidade em Ormuz persistir, a tendência é que governos e grandes operadores ampliem a diversificação de corredores, estoques estratégicos, infraestrutura portuária e mecanismos de proteção das cadeias logísticas.

Isso não significa que o Ártico esteja prestes a substituir Ormuz ou Suez. Significa que o custo estratégico de depender de poucos gargalos marítimos está aumentando. Em uma economia global na qual energia, matérias-primas e produtos industrializados dependem de fluxos marítimos contínuos, qualquer ponto de estrangulamento capaz de ser ameaçado por um conflito passa a ser também uma variável de segurança econômica.

A consequência mais ampla pode ser uma transformação gradual da própria geografia do comércio mundial. Quanto maior a percepção de risco associada às rotas tradicionais, maior será o incentivo para investimentos em alternativas que, até recentemente, eram consideradas caras, complexas ou pouco competitivas. A guerra no Irã, portanto, pode estar acelerando uma diversificação logística que permanecerá mesmo depois que o conflito terminar.

Ao mesmo tempo, o prolongamento da guerra reduz o espaço para soluções simples. Uma retirada americana sem algum tipo de resultado político poderia ser apresentada pelo Irã como uma vitória estratégica. Por outro lado, a continuidade indefinida das operações amplia os custos para Washington e mantém o risco de novas escaladas.

A ofensiva econômica como nova frente

É nesse cenário que a estratégia econômica de Donald Trump ganha importância. Depois de meses alternando operações militares e tentativas de negociação, Washington passou a reforçar o uso de sanções e instrumentos financeiros para ampliar a pressão sobre a economia iraniana e reduzir sua capacidade de sustentar a guerra.

A estratégia procura transferir parte do confronto para o campo econômico. O cálculo americano parece ser o de que o desgaste financeiro, combinado à pressão militar e ao isolamento internacional, poderá criar condições para uma negociação mais favorável. O problema é que esse tipo de estratégia também possui limitações. Sanções podem degradar uma economia, mas raramente produzem resultados políticos previsíveis em curto prazo, especialmente quando o país alvo considera sua própria sobrevivência estratégica em jogo.

Além disso, o Irã desenvolveu ao longo de décadas mecanismos para operar sob restrições econômicas. Isso não elimina os efeitos das sanções, mas significa que a pressão econômica precisa ser avaliada dentro de uma perspectiva de longo prazo. Quanto mais prolongado o conflito, maior a possibilidade de Teerã buscar alternativas comerciais, financeiras e estratégicas junto a países interessados em reduzir a influência americana sobre os fluxos econômicos internacionais.

Os cenários para os próximos meses

O primeiro cenário é o de uma guerra prolongada de desgaste. Nesse caso, nenhuma das partes conseguiria impor uma vitória decisiva. Os Estados Unidos manteriam superioridade militar, mas enfrentariam custos crescentes para sustentar as operações, enquanto o Irã concentraria seus esforços na preservação de capacidades militares, na sobrevivência de sua estrutura política e na elevação progressiva do custo do conflito para seus adversários.

O segundo cenário envolve uma expansão indireta da guerra. Em vez de uma grande escalada convencional, o conflito poderia se espalhar por meio de ataques contra infraestrutura militar, bases, instalações logísticas, rotas marítimas ou ativos considerados parte da cadeia de apoio às operações americanas. A situação envolvendo a Bulgária demonstra como a simples presença de meios de apoio pode inserir novos países no ambiente estratégico da guerra.

Um terceiro cenário seria a construção de uma saída negociada após um período adicional de pressão militar e econômica. Essa continua sendo uma possibilidade, mas exigiria uma fórmula que permitisse a ambos os lados apresentar algum tipo de resultado político. Para Washington, a questão central continua sendo o programa nuclear iraniano e a capacidade militar de Teerã. Para o Irã, qualquer negociação estará relacionada também a garantias de segurança e à redução da pressão econômica.

Existe ainda um quarto cenário, talvez o mais relevante para a arquitetura internacional: a guerra pode acelerar a redistribuição global do poder militar americano. Washington poderá ser levado a reduzir compromissos permanentes em determinadas regiões e exigir que aliados assumam maiores responsabilidades. Na Europa, isso significaria acelerar investimentos em defesa e preencher lacunas em áreas que durante décadas dependeram fortemente dos Estados Unidos. A revisão americana da presença militar no continente já aponta nessa direção.

Há, porém, um quinto cenário que merece atenção: uma crise prolongada de baixa intensidade, sem acordo definitivo e sem escalada para uma guerra regional total. Nesse caso, o Oriente Médio poderia permanecer sob um regime permanente de tensão, com ataques episódicos, pressão sobre a navegação, sanções, operações clandestinas e disputas por influência. Para os Estados Unidos, esse seria talvez o cenário mais desgastante, porque obrigaria Washington a manter recursos militares relevantes na região sem obter uma solução definitiva.

Para a Europa, o risco seria igualmente complexo. Uma combinação de guerra prolongada no Oriente Médio, continuidade da guerra na Ucrânia e redução gradual da presença americana poderia acelerar a construção de uma arquitetura europeia de defesa mais autônoma. Mas essa transformação exigiria tempo, recursos e capacidade industrial. O continente teria de aumentar produção de munições, defesa aérea, sistemas não tripulados, capacidades de guerra eletrônica, transporte estratégico e meios de comando e controle.

Uma guerra que pode redefinir mais do que o Oriente Médio

A questão central, portanto, vai além do que acontecerá nos próximos meses no Irã. O verdadeiro impacto da guerra poderá estar na forma como ela altera as prioridades dos Estados Unidos e força seus aliados a reconsiderar sua própria dependência da capacidade militar americana.

Seis meses depois, o conflito já demonstrou que não será definido apenas pela quantidade de aeronaves, navios ou mísseis empregados. A guerra passou a ser também uma disputa de resistência econômica, capacidade industrial, logística, alianças e influência política. O Oriente Médio continua sendo o centro do conflito, mas seus efeitos já alcançam a Europa, pressionam os estoques militares ocidentais, afetam as rotas comerciais e colocam em discussão a própria distribuição do poder americano no mundo.

A retirada dos KC-135 da Bulgária é, nesse sentido, um episódio aparentemente limitado, mas representativo de uma transformação maior. Ela mostra que, em uma guerra prolongada e marcada pelo emprego de armas de longo alcance, até a infraestrutura localizada fora do teatro principal pode adquirir importância estratégica e passar a fazer parte dos cálculos de dissuasão e retaliação.

O caso do PanStar Acro acrescenta outra dimensão a esse processo. Enquanto governos discutem bases, forças e sistemas de armas, empresas e Estados começam a avaliar alternativas para reduzir a exposição de suas cadeias logísticas aos gargalos geopolíticos. A segurança das rotas marítimas deixa de ser apenas uma questão comercial e passa a integrar o planejamento estratégico dos países.

A guerra no Irã, portanto, não está apenas redesenhando o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Ela começa a testar os limites da capacidade dos Estados Unidos de sustentar simultaneamente seus compromissos globais e pode acelerar mudanças que já estavam em curso: uma Europa pressionada a assumir mais responsabilidades, uma presença americana mais seletiva, cadeias logísticas mais diversificadas e uma competição crescente pela capacidade industrial necessária para sustentar conflitos prolongados no século XXI.

O resultado final pode ser uma ordem internacional mais fragmentada e menos dependente de um único centro de poder. Seis meses de guerra ainda não permitem afirmar que essa transformação será permanente, mas já oferecem sinais suficientes de que o conflito ultrapassou há muito os limites de uma disputa entre Washington e Teerã. Seus efeitos estão alcançando a segurança europeia, o comércio global, a energia, a indústria de defesa e a própria forma como os Estados planejam sua segurança em um mundo marcado por guerras simultâneas e pela crescente disputa por recursos estratégicos.


por Angelo Nicolaci


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Avibras Aeroco recebe chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército

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A Avibras Aeroco recebeu na quarta-feira (26) em sua unidade industrial em Jacareí (SP), o chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército Brasileiro, general de Exército Hertz Pires do Nascimento. A visita reuniu também o chefe de Gabinete de Planejamento e Gestão do DCT, general de Divisão Erb Lyra Leal, e o chefe do Núcleo do Parque Tecnológico de Defesa e Segurança em Campinas, general de Brigada Douglas Corbari Correa.

Durante a agenda, a comitiva conheceu diferentes áreas da empresa e suas capacidades nas áreas de engenharia, produção e certificação de produtos. Entre os pontos apresentados estiveram as competências relacionadas à propulsão e à integração de sistemas voltados ao setor de defesa.

A aproximação entre o DCT e a Avibras Aeroco ocorre na área diretamente relacionada às atribuições do departamento, responsável por coordenar as atividades científico-tecnológicas do Exército e contribuir para o desenvolvimento das capacidades necessárias ao cumprimento das missões da Força Terrestre.

Para a indústria de defesa, esse tipo de interação permite aproximar as demandas operacionais e tecnológicas do Exército das competências disponíveis no setor privado. No caso da Avibras Aeroco, a experiência acumulada em tecnologias de propulsão, integração de sistemas e desenvolvimento de produtos de defesa representa um conjunto de conhecimentos aplicáveis a diferentes projetos estratégicos.

A área de propulsão possui particular relevância para programas de defesa de maior complexidade, especialmente aqueles que envolvem sistemas guiados, foguetes e outras plataformas que dependem de soluções nacionais para reduzir vulnerabilidades na cadeia de fornecimento. O domínio dessas tecnologias também está associado à capacidade de desenvolver, testar, certificar e sustentar sistemas ao longo de seu ciclo de vida.

A visita também ganha importância diante da necessidade de ampliar a participação da Base Industrial de Defesa no desenvolvimento de tecnologias críticas. A integração entre empresas, centros de pesquisa e estruturas de ciência e tecnologia das Forças Armadas é um dos mecanismos utilizados para transformar necessidades militares em projetos e capacidades tecnológicas.

O DCT atua justamente nessa interface, conduzindo iniciativas relacionadas à pesquisa, desenvolvimento, inovação e obtenção de soluções científico-tecnológicas para o Exército. A presença de seus principais representantes na Avibras Aeroco permite conhecer diretamente a infraestrutura e as competências disponíveis na indústria nacional.

Além da capacidade industrial, a possibilidade de certificação e validação de produtos é um elemento relevante para programas militares, uma vez que a incorporação de novas tecnologias exige processos capazes de comprovar desempenho, segurança, confiabilidade e adequação aos requisitos estabelecidos pela Força.

A agenda em Jacareí reforça, portanto, a aproximação entre o Exército e uma empresa que concentra competências consideradas estratégicas para o setor de defesa. Mais do que uma visita institucional, o contato permite ao DCT avaliar capacidades industriais que podem contribuir para projetos atuais e futuros da Força Terrestre.

A Avibras Aeroco mantém, nesse contexto, um conjunto de conhecimentos associados ao desenvolvimento de sistemas de defesa que pode ter importância para a manutenção e ampliação da autonomia tecnológica brasileira. A aproximação com o DCT coloca essas competências novamente em contato direto com o órgão responsável por transformar demandas científico-tecnológicas do Exército em capacidades militares.


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Gripen - F-39F realiza primeiro voo e inicia campanha de testes na Suécia

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A Saab realizou nesta sexta-feira (28) o primeiro voo do F-39F Gripen, versão biposto do caça Gripen E desenvolvida em parceria com o Brasil. A aeronave decolou às 9h40 (4h40 em Brasília) do aeródromo da Saab em Linköping na Suécia, e permaneceu em voo durante 40 minutos.

O voo inaugural foi realizado pelo piloto-chefe de testes da Saab, Jakob Högberg, e pelo tenente-coronel aviador Abdon de Rezende Vasconcelos, piloto de testes da Força Aérea Brasileira. A atividade teve como objetivo verificar o funcionamento dos principais sistemas da aeronave e avaliar seu comportamento inicial em voo.

Com a conclusão do primeiro voo, o Gripen F entra agora na campanha de ensaios em voo, etapa que permitirá ampliar progressivamente os limites operacionais da aeronave. Serão avaliados parâmetros como velocidade, altitude, fator de carga e ângulo de ataque, além das características específicas relacionadas à configuração biposto.

A campanha também terá como foco o posto traseiro da aeronave, cuja configuração foi desenvolvida para ampliar as possibilidades de treinamento e permitir a execução de determinadas atividades operacionais. A avaliação deverá abranger os sistemas e funções disponíveis para o segundo tripulante, além da integração desses recursos às capacidades táticas do caça.

Embora baseado no F-39E Gripen, a variante "F" não é apenas uma adaptação de configuração. A aeronave incorpora uma estrutura modificada para acomodar o segundo tripulante e exigiu trabalho específico de engenharia, integração de sistemas, ensaios e certificação. O desenvolvimento contou com participação brasileira desde as fases de projeto e produção.

O Brasil é o cliente lançador da variante biposto e teve participação direta em seu desenvolvimento por meio do Programa Gripen Brasileiro. Segundo a Saab, mais de 350 engenheiros, técnicos e pilotos brasileiros participaram de atividades relacionadas ao desenvolvimento, produção, ensaios em voo e manutenção da aeronave.

A participação brasileira também amplia o alcance do programa para além da simples aquisição de aeronaves. A transferência de tecnologia permitiu que profissionais e empresas do Brasil participassem de diferentes etapas do ciclo de desenvolvimento do Gripen, criando conhecimento que permanece associado à capacidade nacional de engenharia e sustentação do caça.

Para a Força Aérea Brasileira, o F-39F Gripen terá papel relevante na formação e qualificação de pilotos para a operação do Gripen. A configuração biposto permite realizar treinamento avançado diretamente na aeronave de combate, mantendo os mesmos sistemas e características fundamentais da família Gripen empregada pela FAB.

A Saab informou que, após os voos iniciais de aceitação de produção, os ensaios avançarão para uma expansão gradual do envelope de voo e para a avaliação das capacidades táticas específicas da versão biposto. A campanha será conduzida pelo Centro de Ensaios em Voo da empresa na Suécia.

Concluídas as atividades previstas e os procedimentos de aceitação, o F-39F Gripen será preparado para ser entregue à Força Aérea Brasileira. O primeiro voo representa, assim, a passagem do programa para uma nova fase, na qual a aeronave deixa o ambiente de desenvolvimento e passa a ser submetida a uma sequência estruturada de avaliações destinada a validar suas capacidades antes da entrada em serviço.


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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

HM-4 Jaguar é homologado para emprego do Bambi Bucket em combate a incêndios

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O Grupo de Ensaios e Avaliações (GEA) da Aviação do Exército concluiu os ensaios em voo que permitiram homologar o emprego do sistema Bambi Bucket no HM-4 Jaguar, versão brasileira do helicóptero H225M. A nova capacidade amplia o emprego da aeronave em missões de apoio à população e resposta a emergências, particularmente no combate a incêndios de grandes proporções.

Durante a campanha de avaliação, foram realizados 18 lançamentos de teste para verificar o comportamento da aeronave e do equipamento dentro dos limites operacionais estabelecidos. Ao final dos ensaios, a Aviação do Exército qualificou a primeira equipe de tripulantes para a operação com o sistema.

O HM-4 Jaguar passa a utilizar o Bambi Bucket com capacidade para transportar até 1.600 litros de água por lançamento. O equipamento é empregado por helicópteros para captação de água em corpos d'água e lançamento sobre áreas atingidas por incêndios, permitindo atuar em regiões onde o acesso por meios terrestres é limitado ou inviável.

A homologação envolveu não apenas os ensaios realizados pelo GEA, mas também a integração entre pilotos, mecânicos de voo e a equipe de Transporte Aéreo, Suprimento e Serviços Especiais de Aviação (TASA), responsável pelo apoio às atividades em solo. O processo permitiu avaliar a operação do sistema dentro dos parâmetros de segurança definidos para o Jaguar.

A incorporação dessa capacidade amplia o espectro de emprego do HM-4, que já atua em missões de transporte de pessoal e material, assalto aeromóvel, infiltração e exfiltração, apoio logístico e operações humanitárias. Com o Bambi Bucket, a aeronave passa a dispor de uma capacidade adicional para resposta a desastres e emergências ambientais.

O desenvolvimento dessa competência também ganha relevância diante da ocorrência de incêndios florestais de grandes proporções no território brasileiro, especialmente em áreas de difícil acesso. A mobilidade e a capacidade de operar a partir de diferentes pontos permitem que o Jaguar seja empregado como parte de uma resposta integrada, complementando os meios terrestres e outras aeronaves disponíveis.

A conclusão dos ensaios pelo GEA representa, portanto, mais do que a simples integração de um equipamento à aeronave. A homologação estabelece parâmetros operacionais e procedimentos para que o sistema possa ser utilizado de forma segura pelas tripulações da Aviação do Exército, criando uma nova capacidade disponível para missões de interesse da Força e de apoio às autoridades em situações de emergência.

A informação foi divulgada pelo 1º Batalhão de Aviação do Exército (1º BAvEx), unidade da Aviação do Exército responsável por parte das atividades operacionais com o HM-4 Jaguar.


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