sábado, 26 de setembro de 2026

Marinha inicia construção de novos Avisos de Instrução para modernizar formação de Oficiais

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A Marinha do Brasil iniciou, em 21 de setembro, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), a construção de uma nova classe de Avisos de Instrução destinados a ampliar a capacidade de treinamento embarcado de futuros Oficiais da Marinha do Brasil e da Marinha Mercante. As embarcações foram concebidas para transformar a formação teórica em experiência prática de navegação, manobra, marinharia e operação dos sistemas de bordo, com emprego prioritário em águas interiores e costeiras da Amazônia Azul.

A nova classe terá aproximadamente 230 toneladas de deslocamento, até 35 metros de comprimento, 8 metros de boca e calado de 2 metros. As embarcações deverão alcançar 12 nós de velocidade máxima, possuir raio de ação superior a 700 milhas náuticas e operar por aproximadamente 130 dias de mar por ano. O dimensionamento privilegia a frequência de utilização e a capacidade de operar em diferentes áreas costeiras, características importantes para uma plataforma destinada principalmente à instrução.

Cada Aviso poderá embarcar 39 militares, sendo 21 Aspirantes ou Alunos, três Oficiais e 15 Praças. A configuração foi definida para reproduzir, em escala compatível com a finalidade didática, as principais rotinas de bordo e permitir que os alunos desenvolvam competências diretamente relacionadas à vida operacional de um navio, incluindo navegação, condução da embarcação, segurança, liderança e trabalho em equipe.

O programa também possui uma característica relevante ao integrar diferentes segmentos da formação marítima. Além dos Aspirantes da Escola Naval e dos Alunos do Colégio Naval, os novos Avisos serão empregados pelos Centros de Instrução Almirante Graça Aranha (CIAGA) e Almirante Braz de Aguiar (CIABA), responsáveis pela formação de profissionais da Marinha Mercante. A mesma plataforma, portanto, será utilizada para aproximar a formação acadêmica da experiência prática no mar em dois ambientes profissionais distintos.

A disponibilidade prevista de aproximadamente 130 dias de mar por ano é um dos elementos mais importantes do projeto. Para uma plataforma de instrução, a utilidade não está apenas nas características de desempenho, mas na possibilidade de colocar os alunos regularmente em contato com situações reais de navegação e operação. A experiência acumulada durante esses períodos complementa o ensino realizado em terra e contribui para formar profissionais mais familiarizados com os procedimentos e limitações inerentes à atividade marítima.

A construção será realizada de forma seriada. O primeiro Aviso funcionará como referência para a classe, e sua construção, integração dos sistemas e avaliação de engenharia deverão produzir informações e lições aprendidas que serão incorporadas às unidades subsequentes, construídas em paralelo. Esse modelo permite aperfeiçoar processos ao longo da produção e reduzir a repetição de problemas de engenharia ou integração nas embarcações seguintes.

Para o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, o programa também representa a continuidade do emprego da infraestrutura e do conhecimento acumulado na construção e manutenção de meios navais. O AMRJ é subordinado à Diretoria Industrial da Marinha e mantém capacidade para construir e reparar embarcações, constituindo um dos principais núcleos de conhecimento naval da estrutura brasileira. Em abril de 2026, o Arsenal lançou o Navio-Patrulha Mangaratiba e iniciou sua fase de testes, em outro projeto que reforça a retomada de atividades de construção naval no complexo.

A opção por uma embarcação de pequeno porte também possui relação direta com a finalidade do programa. Ao contrário de navios destinados prioritariamente a missões de combate ou patrulha oceânica, os Avisos precisam oferecer condições para que os alunos pratiquem repetidamente procedimentos fundamentais, com capacidade de operar em áreas próximas à costa e em águas interiores. O objetivo é criar uma plataforma de treinamento que possa permanecer disponível por longos períodos e realizar diferentes ciclos de instrução ao longo do ano.

O programa evidencia, portanto, que a renovação de uma Marinha não depende apenas da incorporação de navios de combate de maior porte. Fragatas, submarinos e navios de patrulha representam capacidades operacionais distintas, mas todas dependem de pessoal capaz de operar sistemas complexos, tomar decisões sob pressão e compreender as particularidades do ambiente marítimo. Nesse sentido, os novos Avisos atuam em uma etapa anterior e fundamental: preparar os profissionais que posteriormente ocuparão postos de responsabilidade nos meios da Marinha e também na Marinha Mercante.

A construção dos novos Avisos de Instrução associa, assim, três dimensões que interessam diretamente à capacidade marítima brasileira: formação de pessoal, disponibilidade de plataformas para treinamento e preservação da capacidade nacional de construção naval. Mais do que substituir embarcações de instrução, o programa cria uma nova ferramenta para manter a formação prática conectada à realidade operacional de uma força que precisa atuar em uma área marítima de dimensões continentais.


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Argentina amplia pressão sobre exploração de petróleo nas Malvinas e mira empresas ligadas ao projeto Sea Lion

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A disputa pelas Ilhas Malvinas entrou em uma nova fase. O governo de Javier Milei ampliou a pressão diplomática e jurídica contra empresas envolvidas na exploração de hidrocarbonetos no arquipélago ao mesmo tempo em que a Argentina acelera a recuperação de capacidades militares que haviam perdido espaço ao longo de décadas. O resultado é uma convergência entre soberania, energia e defesa que recoloca o Atlântico Sul no centro da agenda estratégica de Buenos Aires.

O petróleo é o elemento que acelerou essa dinâmica. Em setembro, o governo argentino iniciou procedimentos sancionatórios contra 45 pessoas físicas e jurídicas relacionadas a atividades de hidrocarbonetos nas áreas reivindicadas pela Argentina e quatro dias depois, acrescentou outros 15 envolvidos. A medida não se limita às empresas operadoras: alcança também acionistas e prestadores de serviços associados aos empreendimentos. Buenos Aires também informou ter enviado aproximadamente 180 notificações de advertência e assunção de riscos a pessoas e empresas localizadas em 30 países.

No centro da disputa está o projeto Sea Lion, na Bacia Norte das Malvinas, operado pela israelense Navitas Petroleum em parceria com a britânica Rockhopper Exploration. O empreendimento prevê uma primeira fase com 11 poços submarinos conectados a uma unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência de petróleo, com início da produção previsto para 2028. O desenvolvimento transforma uma reivindicação sobre recursos potenciais em disputa sobre um ativo energético que começa a adquirir valor econômico concreto.

Essa mudança é importante para compreender a estratégia argentina. Durante décadas, a questão sobre as Malvinas permaneceu predominantemente concentrada na soberania territorial e na diplomacia. Com a perspectiva da produção de petróleo, porém, empresas privadas, investidores, fornecedores, seguradoras, financiadores e cadeias logísticas passam a fazer parte do problema. Buenos Aires tenta utilizar sua legislação para elevar o risco de operar nessa cadeia, enquanto o Reino Unido sustenta a validade das atividades autorizadas pelas autoridades das ilhas e rejeita a jurisdição argentina sobre empresas e indivíduos que atuem no arquipélago.

A reação argentina também ganhou uma dimensão institucional mais ampla. O governo apresentou ao Congresso um projeto de Lei de Defesa da Soberania Nacional que prevê o endurecimento das sanções e amplia a coordenação entre áreas de defesa, inteligência, economia e relações exteriores. Entre os mecanismos previstos estão instrumentos contra empresas envolvidas direta ou indiretamente na exploração de recursos naturais, além de estruturas relacionadas à proteção de infraestruturas críticas e dos espaços marítimo e aeroespacial.

Essa política ocorre paralelamente a uma das mais importantes iniciativas de reconstrução militar argentina das últimas décadas. O Decreto 314/2026 criou o Plano de Adequação e Reequipamento Militar Argentino, o Plan ARMA, com objetivo declarado de financiar reequipamento, modernização, infraestrutura estratégica e recuperação de capacidades. O programa criou também mecanismos adicionais de financiamento para a Defesa, procurando dar continuidade ao processo de recuperação do instrumento militar.

Os primeiros resultados já são visíveis. A Argentina está incorporando o F-16 no âmbito do programa Peace Cóndor, recuperando uma capacidade supersônica de combate que havia desaparecido da Força Aérea Argentina. Em agosto, a Força Aérea e a Armada iniciaram trabalhos para integrar o F-16 ao P-3C Orion, incluindo estudos para emprego de redes táticas e procedimentos conjuntos. A combinação entre caça, patrulha marítima, sensores e comunicações representa uma evolução qualitativa na capacidade argentina de vigilância e controle do espaço aéreo e marítimo.

No componente terrestre, a assinatura da Letter of Offer and Acceptance para 235 Stryker amplia significativamente a escala da força mecanizada argentina. O pacote inclui variantes para transporte de infantaria, comando, evacuação médica e apoio de fogo, além das primeiras oito unidades já recebidas. Não se trata de um sistema especificamente desenhado para as Malvinas, mas de uma recuperação geral de capacidade que aumenta a mobilidade protegida e a disponibilidade operacional do Exército Argentino.

É no extremo sul, entretanto, que a conexão com o Atlântico Sul se torna mais evidente. Em setembro, o ministro da Defesa argentino visitou a área onde será construída a Base Naval Integrada em Ushuaia, projeto destinado a ampliar a presença e as capacidades da Armada Argentina na região austral. A localização possui importância geográfica para o controle dos acessos ao Atlântico Sul e para as operações navais e logísticas relacionadas à Antártida. Embora o projeto não seja apresentado oficialmente como preparação para uma operação contra as Malvinas, sua existência amplia a infraestrutura disponível para a presença argentina no extremo sul.

É nesse contexto que 1982 volta inevitavelmente ao debate, mas precisa ser tratado com rigor. A Argentina de 2026 não dispõe simplesmente da mesma estrutura militar que possuía antes da Guerra das Malvinas, e a recuperação atualmente em curso ainda demanda treinamento, infraestrutura, logística, armamentos, manutenção e integração dos novos sistemas. Da mesma forma, a incorporação de F-16, P-3C e Stryker não significa, por si só, que Buenos Aires esteja preparando uma operação militar para recuperar as ilhas.

A comparação histórica, contudo, permanece relevante porque evidencia uma diferença fundamental. Em 1982, a Argentina utilizou a força para tentar alterar unilateralmente o status das ilhas, desencadeando uma guerra com o Reino Unido. O conflito demonstrou que a posse de plataformas individuais não é suficiente para sustentar uma campanha militar de alta intensidade: logística, inteligência, comando e controle, reabastecimento, capacidade de projeção, guerra eletrônica, sustentação e disponibilidade operacional são determinantes para transformar equipamentos em poder militar efetivo.

É justamente nesses elementos que a atual modernização argentina deve ser observada. O F-16 representa mais do que a aquisição de uma aeronave: envolve treinamento, armamento, infraestrutura, manutenção e integração de sistemas. O P-3C acrescenta capacidade de vigilância marítima. O Stryker recupera mobilidade protegida. A Base Naval Integrada amplia infraestrutura no extremo sul. E o Plan ARMA procura estabelecer um mecanismo permanente de recuperação de capacidades. O conjunto ainda está em formação, mas é diferente de uma simples compra pontual de equipamentos.

Do lado britânico, a equação também permanece muito diferente daquela de 1982. A Royal Air Force mantém quatro Typhoon FGR4 permanentemente baseados em Mount Pleasant, apoiados por um Voyager para reabastecimento e um A400M Atlas, além da estrutura terrestre necessária para sustentar a operação. O complexo foi estabelecido em 1985 justamente para garantir uma presença aérea e de transporte permanente nas ilhas.

Isso reduz a possibilidade de interpretar a atual modernização argentina de maneira isolada. Qualquer alteração significativa do equilíbrio militar no Atlântico Sul precisaria considerar não apenas os meios argentinos que estão chegando, mas também a infraestrutura britânica permanente, a capacidade de reforço do Reino Unido e o ambiente diplomático no qual uma eventual crise ocorreria.

A dimensão energética torna o cenário ainda mais sensível. O Sea Lion deixa de ser apenas um projeto exploratório e passa a caminhar para uma etapa de produção, criando interesses financeiros e industriais que não existiam na mesma escala durante os períodos anteriores da disputa. Quanto mais avançar o empreendimento, maior será o número de empresas, contratos, equipamentos e investimentos expostos à política argentina de sanções. A própria existência dessa cadeia cria novos instrumentos de pressão que não dependem do emprego da força.

Para Buenos Aires, a estratégia atual parece combinar diferentes instrumentos: reivindicação diplomática, pressão jurídica sobre empresas, tentativa de elevar o custo econômico da exploração, fortalecimento das capacidades militares e ampliação da infraestrutura no extremo sul. O objetivo declarado é defender a reivindicação argentina sem abandonar a via diplomática, enquanto a modernização das Forças Armadas aumenta as opções disponíveis ao Estado.

A questão que merece acompanhamento não é, portanto, se a Argentina está simplesmente “se preparando para uma nova guerra”. Os dados disponíveis não permitem afirmar isso. A questão estratégica mais relevante é outra: até onde a recuperação do instrumento militar argentino poderá alterar a relação de forças e o cálculo de risco em torno das Malvinas nos próximos anos, especialmente se o petróleo começar a gerar receitas e interesses econômicos permanentes.

Esse processo também precisa ser observado pelo Brasil. O Atlântico Sul é uma área de interesse estratégico brasileiro, tanto pela dimensão marítima quanto pelas rotas comerciais, recursos offshore e proximidade com a Antártida. Uma mudança significativa na postura argentina, no dispositivo britânico ou na presença de atores externos produziria efeitos sobre o ambiente estratégico regional, ainda que não envolvesse diretamente o território brasileiro.

A Guerra das Malvinas permanece como o principal precedente histórico para qualquer análise desse tipo, mas 2026 apresenta uma configuração diferente. A Argentina está reconstruindo capacidades militares, o Reino Unido mantém uma estrutura permanente de defesa no arquipélago e o petróleo adicionou uma dimensão econômica concreta à disputa. O cenário atual não permite antecipar uma repetição de 1982, mas mostra que a questão das Malvinas deixou de ser apenas uma disputa diplomática de longa duração e voltou a adquirir relevância militar, energética e geopolítica no Atlântico Sul.


Por Angelo Nicolaci


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M109A5+BR do Regimento Mallet avança na digitalização da cadeia de fogos

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O 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (3º GAC AP) – "Regimento Mallet", em Santa Maria (RS), está avançando na implantação do Sistema Digitalizado da Artilharia de Campanha, o SISDAC, ampliando a integração entre sensores, observadores, sistemas de comando e controle e os meios de tiro empregados pela 6ª Brigada de Infantaria Blindada – "Brigada Niederauer". A evolução ocorre sobre uma estrutura que já conta com os obuseiros M109A5+BR, modernizados pelo Exército Brasileiro, e representa uma nova etapa na digitalização dos processos de direção e coordenação dos fogos.

O próprio Exército Brasileiro destaca que o SISDAC foi concebido para ampliar a integração entre navegação, posicionamento, direção de tiro, comunicações e apoio ao comando e controle. A implantação no Regimento Mallet está inserida no processo de evolução da Artilharia de Campanha brasileira, que busca reduzir o tempo necessário para transformar informações obtidas no campo em dados utilizáveis pelos meios de fogo.

A chegada do M109A5+BR já havia elevado o nível tecnológico da artilharia autopropulsada brasileira. A modernização incorporou novos recursos de navegação, pontaria e comunicações às viaturas, criando uma base tecnológica que passou a exigir também a evolução dos processos de coordenação e direção dos fogos. Nesse contexto, o SISDAC amplia a capacidade de integração para além do próprio obuseiro.

A instalação do sistema no 3º GAC AP começou ainda no primeiro semestre de 2026. Segundo o Exército, a iniciativa está relacionada à necessidade de aumentar a precisão dos fogos de longo alcance, integrar sensores e meios de tiro e acelerar o processo de decisão. O Regimento Mallet foi selecionado entre as organizações militares que receberão o sistema justamente por sua função no apoio de fogo da 6ª Brigada de Infantaria Blindada.

A fase mais recente da implantação ocorreu entre 21 e 25 de setembro de 2026, quando foi realizada a etapa final de instalação do SISDAC no Regimento Mallet. Segundo informações obtidas pelo GBN Defense junto ao 3º GAC AP, a próxima etapa está prevista para 5 de novembro, quando deverá ocorrer o tiro de integração do Radar de V0 ao SISDAC, concluindo a instalação do sistema na unidade.

O Radar de V0 possui uma função específica dentro da cadeia de artilharia, fornecendo informações relacionadas à velocidade inicial do projétil. Sua integração ao sistema amplia a quantidade de dados que podem ser empregados no acompanhamento e na preparação dos fogos, inserindo mais uma fonte de informação na arquitetura digital que está sendo implantada no Regimento Mallet.

Paralelamente à instalação do SISDAC, também foi realizada uma atualização de software do equipamento de observação JIM Compact da Safran. O equipamento é empregado para observação e localização de alvos e possui recursos eletro-ópticos destinados a missões de apoio de fogo e artilharia. A fabricante destaca sua capacidade de observação diurna e noturna, localização de alvos e conectividade para emprego em missões de fogos de longo alcance.

No Regimento Mallet, a atualização permite que as informações do alvo obtidas pelo JIM Compact sejam inseridas digitalmente no tablet utilizado pelo Observador Avançado, por meio do Terminal de Observação e Ligação (TOL). A mudança é relevante porque aproxima o sensor do restante da cadeia digital de fogos, reduzindo a necessidade de transcrição manual das informações e permitindo que os dados obtidos pelo observador sejam incorporados diretamente ao fluxo de processamento do sistema.

A evolução pode ser compreendida a partir de uma cadeia que começa na aquisição da informação sobre o alvo e termina no emprego do meio de tiro. O JIM Compact fornece os dados de observação, o Observador Avançado os insere no TOL, o SISDAC integra e processa as informações dentro da arquitetura de direção dos fogos e os M109A5+BR constituem os meios responsáveis pela execução do tiro. A integração do Radar de V0 acrescentará outra fonte de dados ao mesmo ambiente digital.

Esse processo é particularmente importante para uma unidade de artilharia autopropulsada inserida em uma brigada blindada. A capacidade de deslocamento do M109A5+BR permite acompanhar forças de manobra, mas a eficiência do sistema de armas depende também da velocidade com que recebe informações, processa os dados necessários e executa uma missão de fogo. A digitalização atua justamente nesse intervalo entre a observação e o disparo.

A transformação também acompanha uma mudança mais ampla na forma de emprego da artilharia. Sensores eletro-ópticos, radares, sistemas de posicionamento, comunicações e meios de comando e controle passaram a constituir elementos inseparáveis da capacidade de fogo. O obuseiro continua sendo responsável pela produção do efeito sobre o alvo, mas sua eficiência depende cada vez mais da qualidade e da velocidade das informações que chegam à guarnição.

No caso brasileiro, o SISDAC representa ainda a continuidade de uma trajetória de desenvolvimento nacional iniciada com o Sistema Gênesis, desenvolvido pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL). O sistema atual amplia esse conceito para uma arquitetura que integra diferentes funções da Artilharia de Campanha, mantendo o domínio nacional sobre componentes críticos de comando, controle e direção dos fogos.

O Regimento Mallet, portanto, passa por uma transformação que vai além da modernização individual dos seus obuseiros. O M109A5+BR continua sendo o principal meio de fogo autopropulsado da unidade, mas passa a estar inserido em uma arquitetura na qual sensores, observadores, sistemas digitais e meios de tiro trabalham dentro de uma cadeia integrada.

A conclusão da instalação do SISDAC, prevista para avançar com o tiro de integração do Radar de V0 em novembro, deverá representar mais uma etapa na consolidação dessa capacidade. O resultado pretendido não é apenas aumentar a quantidade de equipamentos digitais disponíveis, mas reduzir o intervalo entre a obtenção da informação, a decisão e a execução do fogo, mantendo o Regimento Mallet alinhado às exigências de uma artilharia cada vez mais dependente de informação e conectividade.


Por Angelo Nicolaci


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Centauro II avança no Brasil: produção das primeiras viaturas começa após contrato de R$ 420 milhões

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O Exército Brasileiro avança na modernização de sua frota de blindados com o acompanhamento da produção da nova Viatura Blindada de Combate de Cavalaria 8×8 Centauro II na Itália. A Chefia de Material do Comando Logístico (C Mat/COLOG) acompanha as etapas de fabricação dos veículos destinados ao primeiro lote contratado, verificando aspectos relacionados à produção, integração dos sistemas, controle de qualidade e atendimento aos requisitos estabelecidos pelo Programa Estratégico Forças Blindadas.

A iniciativa ocorre após a assinatura em 31 de agosto de 2026, dos contratos para o fornecimento das primeiras sete VBC Cav MSR 8×8 Centauro II e do respectivo suporte logístico, evento acompanhado pelo GBN Defense. Os dois contratos somam aproximadamente R$ 420 milhões, constituindo a etapa inicial de um programa que prevê a incorporação de até 98 viaturas à Cavalaria Mecanizada do Exército Brasileiro.

As sete primeiras viaturas correspondem ao Lote de Experimentação Doutrinária e deverão ser entregues até 31 de outubro de 2028. Essa etapa permitirá à Força Terrestre avaliar o emprego operacional do sistema, consolidar procedimentos, formar pessoal especializado e validar aspectos doutrinários antes da eventual ampliação da frota.

O Centauro II é produzido pela IDV em parceria com a Leonardo e emprega a torre HITFACT MkII, armada com um canhão de 120 mm. A configuração combina elevado poder de fogo com mobilidade sobre rodas e proteção, ampliando as possibilidades de emprego da Cavalaria Mecanizada em diferentes cenários operacionais.

A incorporação do novo blindado representa uma mudança significativa em relação ao emprego dos EE-9 Cascavel, que constituem há décadas um dos principais meios de reconhecimento e combate sobre rodas do Exército. A substituição de parte do inventário ocorrerá de maneira progressiva, dentro de um processo mais amplo de renovação dos meios da Força Terrestre.

A fase de experimentação também permitirá ao Exército consolidar os requisitos de operação e manutenção do novo sistema, incluindo treinamento das equipes e estrutura necessária para sustentar sua disponibilidade ao longo do ciclo de vida. O acompanhamento da fabricação na Itália contribui para esse processo ao aproximar a Força Terrestre da cadeia industrial responsável pelo veículo.

O programa do Centauro II está inserido em uma estratégia mais ampla de renovação dos meios blindados brasileiros. Paralelamente ao desenvolvimento da capacidade sobre rodas, o Exército conduz outros projetos voltados à modernização de suas forças mecanizadas e blindadas, buscando substituir equipamentos que se aproximam do limite de sua vida útil e elevar a capacidade de combate das unidades.

Durante a EDEF 2026, um exemplar do Centauro II foi exposto ao público, colocando a plataforma em evidência também no contexto das discussões sobre a futura renovação dos meios blindados do Corpo de Fuzileiros Navais. O veículo é considerado um dos candidatos à substituição dos carros de combate leves SK-105 Kürassier empregados pelo CFN, em uma eventual futura solução para a renovação dessa capacidade.

A presença do Centauro II na EDEF, contudo, não representa uma decisão de aquisição pela Marinha do Brasil. A plataforma, entretanto, reúne características que a colocam entre as alternativas consideradas para esse processo, especialmente pela combinação de mobilidade sobre rodas, proteção e poder de fogo proporcionado pelo canhão de 120 mm.

Com a produção das primeiras unidades em andamento na Itália, o Exército entra agora em uma fase decisiva do programa. Mais do que receber sete novos blindados, a Força Terrestre terá de transformar a introdução do Centauro II em uma capacidade operacional sustentável, integrando emprego doutrinário, formação de pessoal e disponibilidade do sistema ao longo de seu ciclo de vida.


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M109A7 Paladin: a artilharia autopropulsada no campo de batalha da era dos drones

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A artilharia autopropulsada sobre lagartas continua desempenhando papel central nas forças terrestres que precisam combinar mobilidade, proteção e poder de fogo. Longe de perder relevância diante da proliferação de drones e sensores, esse tipo de sistema vem sendo atualizado justamente para operar em um ambiente no qual a velocidade de detecção, decisão e deslocamento passou a ser determinante para a sobrevivência.

O M109A7 Paladin, desenvolvido pela BAE Systems para o Exército dos Estados Unidos, representa uma das expressões mais recentes dessa evolução. O sistema mantém a arquitetura consagrada da família M109, mas incorpora um chassi modernizado, novos sistemas eletrônicos e maior integração com as estruturas digitais de comando e controle das forças blindadas.

Mais do que um obuseiro autopropulsado, o M109A7 foi concebido como parte da arquitetura de combate das Armored Brigade Combat Teams. Sua função é acompanhar forças de manobra e fornecer apoio de fogo indireto, mantendo mobilidade suficiente para deslocar-se com as unidades apoiadas e reposicionar-se rapidamente após o disparo. A comunalidade de componentes do chassi, trem de força, suspensão e lagartas com a família Bradley também reduz a complexidade logística dentro dessas brigadas.

Essa capacidade ganhou ainda mais importância com a transformação do campo de batalha. A proliferação de drones de reconhecimento, sensores terrestres, radares e sistemas de aquisição de alvos tornou mais difícil permanecer exposto após abrir fogo. Nesse ambiente, a capacidade de disparar e mudar de posição rapidamente passou a ser tão importante quanto o alcance e a precisão do armamento.

A BAE Systems destaca justamente o conceito de shoot and scoot. O M109A7 possui navegação e controle de tiro integrados, permitindo receber uma missão durante o deslocamento, calcular os dados de tiro, passar da configuração de marcha para a de tiro, apontar o armamento e disparar em aproximadamente 60 segundos. A lógica é reduzir o intervalo entre receber a missão, executar o fogo e abandonar a posição antes que o adversário consiga localizar e atacar a unidade.


O sistema também foi projetado para responder rapidamente a situações de emergência. Estudos publicados pelo Exército dos Estados Unidos indicam requisitos de ocupação de posição de aproximadamente 75 segundos em situações de emergência e cerca de três minutos em uma ocupação convencional. Essa capacidade de deslocamento e rápida entrada em posição é particularmente relevante em um ambiente no qual a artilharia adversária pode empregar radares de contrabateria e drones para localizar as fontes de fogo.

No centro dessa capacidade está o armamento principal. O M109A7 emprega o canhão M284 de 155 mm, instalado sobre o reparo M182A1. Com munição convencional, o alcance informado pelo Exército dos Estados Unidos chega a aproximadamente 30 quilômetros, enquanto a BAE Systems descreve a capacidade geral do sistema como superior a 30 quilômetros, dependendo da munição empregada.

A cadência também precisa ser analisada dentro do conceito de emprego. O Exército dos Estados Unidos informa uma capacidade máxima de quatro disparos por minuto durante períodos de até três minutos, seguida de uma cadência sustentada de aproximadamente um disparo por minuto. Essa diferença evidencia que a capacidade de fogo não deve ser medida apenas pela cadência máxima, mas pela possibilidade de manter efeitos sobre o alvo sem comprometer a sustentabilidade da unidade.

A munição transportada internamente também condiciona a autonomia da peça. Dados do Exército indicam uma dotação padrão de 42 projéteis e 31 cargas propulsoras armazenadas no próprio sistema. Por isso, o M109A7 opera associado ao M992A3, viatura destinada ao transporte e reabastecimento de munição, formando um conjunto logístico que permite manter a bateria em operação por períodos mais prolongados.

A mobilidade é outro elemento central. O M109A7 possui peso de combate de aproximadamente 38,1 toneladas, motor de 675 hp, velocidade máxima de cerca de 61 km/h e autonomia estimada de 300 quilômetros. O veículo pode superar rampas de 60%, operar em inclinações laterais de até 40%, atravessar valas de aproximadamente 1,8 metro e vadear até cerca de 1,07 metro de profundidade. Esses números explicam por que a plataforma pode acompanhar formações mecanizadas em diferentes condições de terreno.

A relação entre peso e potência, entretanto, não deve ser observada isoladamente. O objetivo do M109A7 não é competir em velocidade com veículos leves, mas oferecer mobilidade suficiente para acompanhar forças blindadas e principalmente, reduzir o tempo em que permanece exposto após executar uma missão de fogo. Nesse contexto, a capacidade de deslocamento passa a ser parte da própria proteção da unidade.

A sobrevivência também recebeu atenção na modernização. O M109A7 dispõe de pacote de blindagem adicional configurável de acordo com a missão, sistema automático de extinção de incêndio e possibilidade de integração de estação de armas remotamente controlada. A proteção é complementada pela capacidade de abandonar rapidamente uma posição de tiro, reduzindo a exposição à contrabateria.

A arquitetura eletrônica representa outra diferença importante em relação às gerações anteriores. O sistema possui navegação e posicionamento embarcados, controle digital de tiro e capacidade de receber e processar missões de fogo. O Exército dos Estados Unidos também destaca o aumento da geração elétrica disponível, permitindo alimentar sistemas adicionais de comunicações, aquisição de alvos e gerenciamento de missão.

O gerador principal fornece até 70 kW, enquanto a plataforma mantém mais de 50% de capacidade de geração elétrica de reserva. Essa margem não é um detalhe secundário: em uma força cada vez mais dependente de sensores, redes de comunicação, sistemas de navegação e equipamentos eletrônicos, disponibilidade de energia passa a ser uma capacidade operacional.

O M109A7 também foi concebido com maior capacidade de diagnóstico e manutenção. Computadores embarcados monitoram os sistemas e auxiliam na identificação de falhas, enquanto a utilização de componentes comuns ao Bradley busca reduzir a carga logística das unidades que operam os dois veículos. O objetivo é aumentar a disponibilidade operacional e reduzir o tempo em que a plataforma permanece fora de serviço para manutenção.


Essa integração é especialmente importante porque a artilharia moderna deixou de funcionar como uma capacidade isolada. Um alvo pode ser identificado por um drone, radar ou observador avançado, transmitido por uma rede de comando e controle e convertido em uma missão de fogo para uma bateria localizada quilômetros distante. Quanto menor o tempo entre a identificação e o disparo, maior a possibilidade de atingir o alvo antes que ele se desloque ou seja protegido.

O M109A7, portanto, deve ser entendido como um elo dentro dessa cadeia. O canhão continua sendo o elemento que produz o efeito sobre o alvo, mas sua eficácia depende cada vez mais da qualidade da informação que recebe e da velocidade com que consegue transformá-la em fogo.

Essa transformação ganhou importância especial nos conflitos recentes. A proliferação de drones permitiu ampliar a capacidade de observação sobre o campo de batalha e tornou possível localizar posições de artilharia, veículos e concentrações de tropas com maior rapidez. Ao mesmo tempo, sistemas de guerra eletrônica passaram a interferir diretamente nas comunicações e na navegação, obrigando as unidades de fogo a combinar velocidade, disciplina de emissão e capacidade de operar mesmo sob interferência.

Nesse ambiente, proteção e mobilidade passam a trabalhar juntas. Um sistema de artilharia autopropulsada não precisa necessariamente possuir a proteção de um carro de combate, mas precisa ser suficientemente protegido para sobreviver ao ambiente em que opera e suficientemente móvel para reduzir seu tempo de exposição. O conceito do M109A7 segue justamente essa lógica.

A continuidade do programa também demonstra que os Estados Unidos não tratam a artilharia autopropulsada como uma capacidade ultrapassada. Em 2026, a BAE Systems recebeu novos contratos para produção de M109A7 e das viaturas M992A3 de transporte de munição, mantendo a linha de produção associada a uma das principais plataformas de apoio de fogo das brigadas blindadas norte-americanas.

O M992A3 exerce papel complementar nessa arquitetura, transportando munição para acompanhar o ritmo operacional das unidades de artilharia. Essa combinação evidencia um ponto frequentemente esquecido quando se observa apenas o veículo de combate: a capacidade de fogo depende tanto da plataforma que dispara quanto da estrutura logística capaz de mantê-la abastecida e operando continuamente.

A artilharia autopropulsada moderna, portanto, precisa ser entendida como parte de um sistema. Sensores, drones, radares, observadores avançados, sistemas de comando e controle, munições, viaturas de apoio e os próprios obuseiros formam uma cadeia na qual a velocidade da informação pode determinar o efeito obtido no alvo.

Essa transformação não elimina a importância do calibre ou do alcance. Ao contrário, aumenta o valor de uma plataforma capaz de entregar grande volume de fogo e, ao mesmo tempo, deslocar-se rapidamente para evitar a resposta inimiga. A tecnologia modifica a maneira de empregar a artilharia, mas não elimina sua função no campo de batalha.

O caso do M109A7 mostra, assim, como uma plataforma cuja origem remonta à Guerra Fria pode continuar relevante quando submetida a sucessivos ciclos de modernização. O conceito fundamental permanece, fogo indireto protegido e móvel, enquanto sensores, eletrônica, comunicações, navegação e integração digital são atualizados para acompanhar as novas exigências operacionais.

No Brasil, essa evolução possui um paralelo direto. O Exército Brasileiro emprega o M109A5+BR, versão modernizada do M109A5, que recebeu sistemas digitais de navegação, posicionamento, comunicações e controle da missão de tiro. A experiência brasileira demonstra como uma plataforma de uma geração anterior pode receber novos sistemas e permanecer integrada à arquitetura digital da artilharia de campanha.

No fim, o M109A7 representa menos uma ruptura com o passado do que uma evolução de um conceito que continua válido: colocar poder de fogo de 155 mm sobre uma plataforma protegida, móvel e conectada, capaz de acompanhar forças de manobra e sobreviver no ambiente onde permanecer parado pode ser tão perigoso quanto não possuir alcance suficiente.


Por Angelo Nicolaci


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Menos peso, não menos proteção: por que o MMBT pode fazer sentido para o Brasil

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O debate sobre o futuro das forças blindadas brasileiras não deveria ser reduzido à escolha entre “mais aço” ou “mais rede”. O campo de batalha contemporâneo demonstrou que sensores, drones, guerra eletrônica, consciência situacional e comando e controle passaram a ser determinantes para a sobrevivência de uma força blindada, mas também mostrou que a proteção física continua sendo um componente essencial da capacidade de combate. A questão, portanto, não é escolher entre blindagem e conectividade, mas integrar essas capacidades em uma plataforma que responda às necessidades operacionais brasileiras.

É nesse espaço que o conceito de MMBT, ou Main Medium Battle Tank, ganha relevância. A proposta não é transformar um veículo médio em substituto universal de um carro de combate pesado, mas combinar poder de fogo elevado, proteção, mobilidade e sistemas eletrônicos em uma plataforma com menor peso e maior flexibilidade de emprego. Para um país continental como o Brasil, essa equação merece ser analisada com atenção.

A experiência recente de combate reforçou a importância de uma arquitetura de sobrevivência em camadas. Blindagem convencional, proteção modular, sistemas de proteção ativa, alerta contra iluminação laser, sensores eletro-ópticos, guerra eletrônica, sistemas antidrones e consciência situacional passaram a atuar de maneira complementar. A rede amplia a capacidade de detectar e evitar ameaças, mas não elimina a necessidade de uma plataforma capaz de suportar impactos quando a evasão ou a neutralização da ameaça não forem possíveis.

É justamente nesse ponto que uma concepção moderna de MMBT pode se diferenciar de um simples “carro leve com canhão pesado”. A redução de peso precisa resultar de arquitetura, materiais, distribuição interna, sistemas de proteção e integração tecnológica, e não simplesmente da retirada de blindagem. A plataforma precisa continuar oferecendo proteção compatível com sua missão, ao mesmo tempo em que utiliza sensores e sistemas de proteção ativa para reduzir a probabilidade de ser atingida.

O conceito também responde a uma realidade brasileira que não pode ser ignorada. O país possui dimensões continentais, extensa malha rodoviária, diferentes capacidades de pontes e infraestrutura, grandes distâncias entre centros logísticos e múltiplos ambientes de emprego. Um veículo excessivamente pesado pode encontrar restrições de transporte estratégico, infraestrutura e sustentação que não aparecem necessariamente no campo de batalha, mas que condicionam a capacidade de colocar uma força no lugar certo, no momento certo.

Nesse contexto, o peso deixa de ser apenas uma característica técnica e passa a ser uma questão operacional. Quanto maior a massa, maiores tendem a ser as exigências de transporte, combustível, manutenção, recuperação e infraestrutura. Um MMBT pode oferecer uma alternativa intermediária: preservar elevada capacidade de fogo e proteção, mas com maior facilidade de deslocamento e sustentação do que plataformas pesadas de última geração.

O CV90120 é um dos exemplos mais claros dessa filosofia. Desenvolvido sobre a família CV90, o veículo combina uma plataforma sobre lagartas de elevada mobilidade com canhão de 120 mm e carregador automático. Na configuração CV90120 MkIV atualmente apresentada pela BAE Systems, a plataforma chega a cerca de 38 toneladas, emprega motor de até 1.000 hp, conta com sistema de proteção ativa e possui sensores e sistemas de alerta integrados. A fabricante também destaca a capacidade de utilizar munição 120 mm padrão OTAN.

O desenho do CV90 também merece atenção nesse contexto. A arquitetura compacta e o perfil relativamente baixo contribuem para reduzir a silhueta do veículo quando comparado a plataformas de maior porte, o que pode dificultar sua percepção visual pelo adversário em determinadas condições de terreno e distância. Não se trata de tornar o blindado invisível, mas de reduzir sua assinatura física e, combinada aos sensores, sistemas de alerta, proteção ativa e demais recursos de sobrevivência, diminuir as oportunidades de detecção e engajamento pelo inimigo.

O aspecto mais importante do CV90120, porém, não está apenas no calibre. A plataforma procura combinar poder de fogo próximo ao de um carro de combate principal com características de mobilidade e arquitetura de uma família de veículos de menor peso. A BAE Systems também destaca a integração de sistemas de alerta contra laser, radar e aproximação de mísseis, além de recursos de proteção ativa. Ou seja, a proposta não é substituir blindagem por sensores, mas utilizar sensores e proteção ativa para aumentar a sobrevivência de uma plataforma que continua sendo protegida fisicamente.

Outra alternativa que merece atenção no contexto brasileiro é o TULPAR equipado com a torre HITFACT MkII de 120 mm, desenvolvido pela turca Otokar e pela italiana Leonardo, respectivamente. A configuração ganhou relevância adicional em setembro de 2026, quando Otokar e Leonardo concluíram os testes de integração e tiro real do conjunto. O resultado combina a arquitetura sobre lagartas do TULPAR com a torre de 120 mm, associando poder de fogo de carro de combate à mobilidade, proteção e modularidade da plataforma.

O TULPAR possui arquitetura modular e faixa de peso bruto entre 28 e 45 toneladas, segundo a Otokar, permitindo diferentes configurações e crescimento futuro. Já a HITFACT MkII pode receber canhão 105/52 mm ou 120/45 mm de baixa força de recuo, possui sistema digital de controle de tiro e miras estabilizadas para comandante e atirador. A solução também foi concebida para separar a munição do compartimento da tripulação e pode incorporar sistemas adicionais contra ameaças aéreas não tripuladas.

A configuração TULPAR-HITFACT é particularmente interessante porque demonstra uma tendência importante: a modularidade deixou de significar apenas trocar equipamentos secundários e passou a envolver a própria arquitetura de combate. Uma mesma plataforma pode ser desenvolvida para diferentes missões, enquanto a torre e os sistemas embarcados podem ser adaptados às necessidades do usuário. Isso abre espaço para uma solução que não seja necessariamente um MBT tradicional, mas também não seja apenas um blindado de apoio de fogo.

Para o Brasil, essa discussão precisa ainda considerar a formação de uma família de blindados. O Exército já avança com o Centauro II, uma plataforma 8x8 equipada com canhão de 120 mm e concebida para combinar mobilidade, sensores, comunicações e poder de fogo em uma viatura de Cavalaria. O contrato firmado em agosto de 2026 prevê uma sequência de aquisições até alcançar 98 unidades.

O Centauro II, entretanto, não elimina a necessidade de discutir uma plataforma sobre lagartas para outras funções. A diferença entre uma viatura de combate de Cavalaria sobre rodas e um MMBT sobre lagartas está justamente na arquitetura de emprego. Um eventual MMBT poderia ocupar um espaço intermediário entre o Centauro II e um carro de combate pesado, oferecendo maior proteção e capacidade de choque sem necessariamente assumir todas as penalidades logísticas de um MBT de grande massa.

Isso também permite olhar para o problema sob uma perspectiva de força, e não de veículo isolado. Um MMBT conectado a drones, sensores terrestres, sistemas de guerra eletrônica, defesa antidrone e outros elementos de reconhecimento e apoio pode operar de maneira muito diferente de um blindado empregado isoladamente. A plataforma continua dependendo de sua blindagem e de seus sistemas de proteção, mas passa a receber informações que aumentam sua capacidade de identificar, evitar e engajar ameaças.

Essa arquitetura é particularmente importante diante da proliferação de drones. O aprendizado dos conflitos recentes não indica que os carros de combate tenham se tornado inúteis; mostra que o emprego isolado de blindados em um ambiente saturado por sensores e munições de precisão tornou-se muito mais arriscado. A resposta não é simplesmente abandonar o blindado, mas modificar a maneira como ele é protegido, apoiado e empregado.

Por isso, o conceito de MMBT pode ser adequado ao Brasil desde que não seja utilizado como justificativa para aceitar uma redução indiscriminada de proteção. O requisito deveria ser inverso: encontrar o ponto de equilíbrio em que a redução de massa seja obtida por eficiência arquitetônica, sistemas de proteção e integração tecnológica, preservando uma blindagem compatível com o nível de ameaça previsto.

Nesse sentido, CV90120 e TULPAR-HITFACT 120 representam soluções conceitualmente interessantes para o debate brasileiro, ainda que qualquer eventual escolha dependa de avaliação técnica, operacional, logística, industrial e econômica do Exército. As duas propostas mostram que é possível buscar uma plataforma de menor massa relativa sem abrir mão de um canhão de 120 mm, proteção moderna, sensores e capacidade de crescimento.

Há ainda uma dimensão industrial que não deveria ser secundária. O Brasil precisa avaliar não apenas qual veículo entrega determinado desempenho, mas qual solução permite maior participação da Base Industrial de Defesa, transferência efetiva de tecnologia, produção local, domínio de manutenção, capacidade de modernização e sustentação durante décadas. O blindado escolhido hoje será uma plataforma que permanecerá em serviço muito depois de os requisitos atuais terem mudado.

Uma arquitetura de força baseada nessa lógica poderia ter no MMBT a espinha dorsal das unidades blindadas, complementada por uma força menor de MBT destinada às missões em que maior proteção e poder de choque sejam necessários. Nesse núcleo mais pesado, variantes modernizadas do Leopard 1 ainda poderiam ser consideradas, enquanto uma eventual evolução para o Leopard 2A4 ou 2A5 ofereceria maior proteção e poder de fogo, mas exigiria uma análise cuidadosa da infraestrutura nacional. O Leopard 2A4, por exemplo, pesa cerca de 55 toneladas, contra 42,4 toneladas do Leopard 1A5, e estudos do próprio Exército apontam as exigências sobre estradas e pontes como um dos principais obstáculos ao seu emprego.

O MMBT, portanto, não deve ser apresentado como o “fim do MBT”, muito menos como uma resposta definitiva para todos os cenários. Ele pode ser entendido como uma alternativa para determinadas forças e missões, especialmente quando mobilidade estratégica, disponibilidade, logística e capacidade de fogo precisam ser equilibradas com proteção e sobrevivência.

A questão central para o Brasil não é escolher entre aço e rede. É construir uma força na qual o aço, a proteção ativa, os sensores, os drones, a guerra eletrônica, o comando e controle e o poder de fogo funcionem como partes de um mesmo sistema de combate. Menos peso pode fazer sentido. Menos proteção, não.

O desafio brasileiro é justamente transformar essa diferença em requisito operacional: desenvolver ou selecionar um MMBT que seja suficientemente móvel para a realidade nacional, suficientemente protegido para sobreviver ao campo de batalha contemporâneo e suficientemente conectado para não lutar sozinho.


Por Angelo Nicolaci


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Da Marambaia ao cerrado: França e Brasil ampliam interoperabilidade militar em diferentes ambientes operacionais

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A participação de 40 militares franceses da 9e Brigade d’Infanterie de Marine na Operação Formosa 2026 amplia uma cooperação militar entre França e Brasil que ganhou densidade ao longo dos anos e possui uma característica que nenhum outro país europeu compartilha com o Brasil: uma fronteira terrestre na Amazônia. São cerca de 730 quilômetros entre o Amapá e a Guiana Francesa, conectando diretamente uma potência europeia ao espaço amazônico sul-americano.

Essa condição dá à relação franco-brasileira uma dimensão geográfica própria, que se soma a uma parceria de Defesa construída em diferentes ambientes e níveis. Em 2026, essa aproximação foi exercitada do litoral do Rio de Janeiro ao ambiente ribeirinho de Minas Gerais e, posteriormente, ao cerrado de Goiás, colocando militares dos dois países diante de diferentes condições de terreno, mobilidade, logística e emprego.

A sequência começou no litoral fluminense. Em abril, durante a Operação Jeanne d’Arc 2026, forças francesas e brasileiras participaram do exercício Marambaia 26, realizado na ilha de Marambaia. A atividade envolveu ações no mar, sob o mar, no ar e em terra, incluindo guerra antissubmarino, operações anfíbias e emprego de tropas terrestres. Segundo o Estado-Maior das Forças Armadas francesas, o exercício teve entre seus objetivos trabalhar a interoperabilidade por meio de uma série de sequências de treinamento complexas.

O exercício colocou meios das duas forças dentro de uma mesma arquitetura operacional. O grupo francês, formado pelo porta-helicópteros anfíbio Dixmude e pela fragata Aconit, empregou seus próprios meios anfíbios e também CLAnf brasileiros embarcados no Dixmude para a projeção de tropas em terra. Aeronaves brasileiras e francesas realizaram operações coordenadas, enquanto tropas conduziram manobras conjuntas na ilha. A integração exigiu coordenação entre planejamento, comunicações, meios navais, aviação e tropas em terra.

Em seguida, a cooperação deixou o ambiente marítimo e avançou para o interior do país. Entre junho e julho, militares franceses participaram da Operação Furnas 2026, em São José da Barra, Minas Gerais, exercício conduzido pelo Corpo de Fuzileiros Navais no ambiente do Lago de Furnas. A operação reuniu cerca de 2 mil militares e empregou meios terrestres, navais e aéreos em atividades ribeirinhas, de apoio à Defesa Civil e de preparação para missões de paz.

A participação francesa acrescentou ao intercâmbio uma realidade operacional diferente daquela encontrada em Marambaia. Navegação, mobilidade fluvial, emprego de pequenas frações, controle de margens e projeção de tropas em ambiente ribeirinho exigem procedimentos distintos daqueles empregados em uma operação anfíbia marítima. O exercício permitiu, assim, comparar técnicas e formas de emprego em um cenário mais próximo das condições encontradas em determinados ambientes interiores brasileiros.

A terceira etapa ocorreu em Goiás. A Operação Formosa 2026 reuniu aproximadamente 3.000 militares brasileiros das Forças Armadas e contou com 40 militares franceses da 9e Brigade d’Infanterie de Marine. A presença francesa levou a cooperação para um cenário terrestre marcado por grandes distâncias e características distintas dos ambientes marítimo e ribeirinho trabalhados anteriormente.

Mais do que somar três exercícios, a sequência de 2026 permite observar como a interoperabilidade é construída na prática. O desafio não está apenas em empregar equipamentos compatíveis, mas em coordenar planejamento, comando e controle, comunicações, procedimentos táticos, logística e emprego de meios diferentes. A mudança de ambiente funciona como um teste adicional porque obriga cada força a adaptar seus procedimentos sem perder a capacidade de atuar em conjunto.

A experiência também possui importância particular para a França. A Guiana Francesa mantém presença militar francesa permanente na América do Sul e coloca Paris diante de desafios relacionados à segurança de seu território, ao controle de fronteiras e ao combate a atividades ilícitas. Em julho de 2026, autoridades francesas e brasileiras reforçaram justamente essa agenda durante reuniões em Brasília e na região do Oiapoque, com acordos voltados à segurança, combate à criminalidade ambiental e ao garimpo ilegal.

Para o Brasil, a proximidade geográfica cria uma circunstância diferente daquela existente com os demais parceiros europeus. A cooperação com a França envolve uma relação de Defesa entre dois países que, além de manterem interesses estratégicos convergentes, compartilham uma fronteira diretamente inserida no contexto amazônico. Isso amplia o espaço para intercâmbio de experiências relacionadas à presença estatal, segurança fronteiriça e atuação em áreas de difícil acesso.

A dimensão militar faz parte de uma relação estratégica mais ampla. A parceria França-Brasil foi lançada em 2006 e renovada durante a visita do presidente Emmanuel Macron ao Brasil, em março de 2024. O novo plano de ação bilateral abrange Defesa, espaço, energia, economia, educação e cooperação transfronteiriça entre a Guiana Francesa e o Amapá.

No campo da Defesa, a relação também ultrapassa os exercícios. França e Brasil desenvolveram programas de grande complexidade tecnológica, entre eles o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e o programa de helicópteros H-XBR. A experiência acumulada nessas iniciativas criou canais permanentes de cooperação entre Forças Armadas, instituições públicas e empresas dos dois países.

Essa dimensão industrial ajuda a dar profundidade à interoperabilidade. O contato recorrente entre militares permite compreender requisitos operacionais e limitações de cada força, enquanto a cooperação tecnológica aproxima empresas e instituições de pesquisa. Em 2026, essa agenda avançou também no setor de munições, com a assinatura de um Memorando de Entendimento entre KNDS e IMBEL durante a Eurosatory, com apoio da Direction générale de l’armement (DGA) francesa.

A cooperação, portanto, não se resume à presença de contingentes estrangeiros em exercícios. Existe uma combinação entre treinamento militar, intercâmbio doutrinário, relacionamento institucional e cooperação industrial. Cada dimensão possui objetivos próprios, mas o contato recorrente entre os dois países contribui para criar conhecimento mútuo sobre capacidades, procedimentos e necessidades operacionais.

No caso brasileiro, esse intercâmbio também permite aproveitar experiências estrangeiras sem reproduzir automaticamente modelos externos. França e Brasil possuem doutrinas, estruturas, territórios e necessidades diferentes. O valor da cooperação está justamente na possibilidade de confrontar essas experiências, identificar convergências e limitações e adaptar aquilo que fizer sentido às necessidades nacionais.

A participação dos 40 militares franceses em Formosa se insere nesse processo. O contingente representa uma parcela pequena do efetivo total do exercício, mas sua relevância está na continuidade de uma relação que, em 2026, colocou militares franceses e brasileiros em três ambientes distintos: o litoral de Marambaia, o cenário ribeirinho de Furnas e o cerrado de Formosa.

O aspecto mais relevante dessa sequência é justamente a continuidade. A interoperabilidade não se consolida em um único exercício nem pela simples compatibilidade entre equipamentos. Ela depende de treinamento recorrente, conhecimento pessoal entre os militares, familiaridade com procedimentos e capacidade de adaptar meios e doutrinas diante de diferentes cenários.

Para França e Brasil, essa construção ganha peso adicional pela existência de uma fronteira comum na Amazônia e por uma parceria estratégica que combina Defesa, tecnologia, indústria e cooperação transfronteiriça. Marambaia, Furnas e Formosa mostram, em escala operacional, como essa relação vem sendo construída: colocando forças diferentes diante de problemas concretos e permitindo que a experiência acumulada seja convertida em maior capacidade de atuação coordenada.


Por Angelo Nicolaci


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