sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Déficit de fragatas antissubmarino expõe desafios da Royal Navy e acende alerta no Atlântico Sul

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A Royal Navy enfrenta uma redução preocupante de sua capacidade de guerra antissubmarino em um momento de crescente competição estratégica no Atlântico Norte e de novas tensões no Atlântico Sul. Um relatório da Comissão de Defesa da Câmara dos Comuns, publicado em 22 de outubro de 2026, aponta que o Reino Unido dispõe de apenas cinco fragatas equipadas com sonar rebocado para essa missão, três a menos do que o requisito estabelecido para sua força naval.

O déficit resulta da retirada de navios antigos antes que seus substitutos estejam disponíveis em número suficiente. A situação preocupa não apenas pela redução do número de plataformas, mas também pelas consequências para a vigilância marítima, a proteção da infraestrutura submarina e a capacidade de manter operações em áreas estratégicas. O documento Defence in the High North alerta que a defasagem pode limitar a resposta britânica diante da atividade submarina russa no Alto Norte e no Atlântico Norte.

O problema tornou-se mais evidente em 2026, quando as fragatas HMS Richmond e HMS Iron Duke foram retiradas de serviço. Com essas baixas, a Royal Navy passou a contar com cinco navios equipados com o sonar rebocado Sonar 2087, sistema destinado à detecção e ao acompanhamento de submarinos. A Comissão de Defesa recomendou que nenhuma outra Type 23 equipada com esse recurso seja retirada antes que uma fragata Type 26 assuma sua função.

A recomendação expõe uma dificuldade recorrente no planejamento naval: renovar a frota sem comprometer as capacidades necessárias às operações em andamento. Enquanto os navios antigos se aproximam do fim da vida útil, os substitutos dependem de cronogramas de construção, testes, integração de sistemas e preparação das tripulações. Quando essas etapas não estão alinhadas, a modernização pode abrir uma lacuna operacional justamente no momento em que a capacidade se torna mais necessária.

Type 26: a substituição precisa chegar a tempo

A resposta britânica está concentrada no programa Type 26, também conhecido como classe City. O plano prevê oito fragatas projetadas prioritariamente para a guerra antissubmarino, destinadas a substituir as Type 23 especializadas nessa função.

Segundo a Defence Equipment & Support, órgão do Ministério da Defesa britânico responsável por equipamentos e aquisições, a primeira unidade tem entrada em serviço prevista para 2028, enquanto a conclusão da construção das oito fragatas está planejada para o fim de 2033. Esses marcos, contudo, não significam que todos os navios estarão imediatamente disponíveis para operações assim que forem entregues.

Cada unidade precisa passar por testes, integração de sistemas e preparação das tripulações antes de alcançar plena capacidade operacional. É nesse intervalo entre a retirada dos meios antigos e a entrada efetiva dos novos que surge o risco de uma lacuna prolongada.

A questão também envolve a cooperação com a Noruega, que prevê a aquisição de fragatas Type 26. A parceria pode ampliar a capacidade antissubmarino da OTAN no Atlântico Norte e fortalecer a base industrial britânica, mas a Comissão de Defesa alerta que os compromissos de exportação não devem prejudicar as necessidades da própria Royal Navy.

O relatório examina um cenário no qual duas unidades originalmente destinadas à Marinha britânica seriam direcionadas à Noruega. Nessa hipótese, a força poderia permanecer com apenas cinco fragatas equipadas com sonar rebocado por mais tempo, adiando até 2037 o cumprimento do requisito de oito navios. Trata-se de uma projeção condicionada a esse cenário, e não de uma data definitiva para a conclusão do programa.

O caso evidencia que contratos, cronogramas industriais e necessidades operacionais precisam ser tratados de forma integrada. A exportação de equipamentos de defesa pode sustentar empregos, ampliar a escala de produção e fortalecer alianças, mas seus benefícios não eliminam a necessidade de preservar a capacidade militar que justifica o próprio investimento.

A disputa pelo controle do Atlântico Norte

A preocupação britânica está ligada à atividade submarina russa e à vulnerabilidade de estruturas essenciais instaladas no fundo do mar, como cabos de comunicação e infraestrutura energética. A proteção dessas instalações depende de vigilância persistente, capacidade de identificar atividades suspeitas e meios preparados para atuar em condições ambientais exigentes.

Nesse contexto, Londres vem desenvolvendo a estratégia Atlantic Bastion, que prevê maior integração entre navios tripulados, submarinos, sistemas não tripulados de superfície e veículos subaquáticos. A proposta busca combinar diferentes sensores e plataformas para ampliar a cobertura de vigilância e detectar ameaças em uma área extensa e operacionalmente complexa.

O Ministério da Defesa britânico anunciou investimentos de 1,3 bilhão de libras até 2030 no conceito Hybrid Navy, voltado à integração de meios tripulados e não tripulados. Ainda assim, a própria Comissão de Defesa questiona se os recursos serão suficientes para desenvolver, adquirir e integrar todas as classes de plataformas previstas.

Sistemas não tripulados podem ampliar o alcance da vigilância e reduzir a exposição das tripulações, mas não substituem automaticamente as fragatas especializadas. Seu desempenho precisa ser validado em condições reais, especialmente no Alto Norte, onde o frio extremo, as longas distâncias e as dificuldades de comunicação impõem exigências adicionais.

A comissão também alerta que a capacidade de operar sob o gelo do Ártico precisa ser recuperada e que a disponibilidade dos navios e submarinos atuais é determinante para a defesa britânica antes de 2030. Em outras palavras, os programas futuros são indispensáveis, mas não resolvem as necessidades imediatas se a força existente não puder sustentar as operações.

Malvinas: um alerta para o Atlântico Sul

A situação britânica ganha uma dimensão adicional quando observada à luz das tensões recentes em torno das Ilhas Malvinas, ou Falklands, no Atlântico Sul. A disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido permanece sem solução, mas voltou a receber atenção diante da exploração de recursos energéticos na região, de declarações políticas mais duras e de movimentações militares.

Em setembro, o presidente argentino Javier Milei anunciou medidas para endurecer as sanções contra empresas envolvidas em atividades nas águas próximas às ilhas sem autorização argentina. Também anunciou recursos adicionais para a construção de uma base naval na Terra do Fogo, com o objetivo declarado de reforçar a presença e a infraestrutura logística argentina no extremo sul do país. As iniciativas foram apresentadas em meio à controvérsia sobre o projeto petrolífero Sea Lion, desenvolvido em águas administradas pelas autoridades das ilhas e contestado por Buenos Aires.

Do lado britânico, a presença militar nas Malvinas continua sendo um componente da defesa do território. A patrulha HMS Medway tem desempenhado funções de segurança marítima na região, enquanto exercícios recentes envolveram tropas britânicas em atividades de assalto, progressão terrestre e tiro real. Essas atividades foram noticiadas pela imprensa britânica em outubro, em meio à intensificação da retórica entre os dois países.

O contexto não significa que um conflito armado seja iminente. A disputa continua envolvendo instrumentos diplomáticos, jurídicos, econômicos e militares, e as declarações políticas precisam ser distinguidas de uma decisão concreta de recorrer à força. Ainda assim, o episódio demonstra como divergências de soberania, exploração de recursos e presença militar podem convergir em uma região de elevado valor estratégico.

Para Londres, sustentar uma presença militar no Atlântico Sul exige mais do que manter tropas e uma embarcação nas proximidades das ilhas. A distância em relação ao território metropolitano impõe necessidades de logística, manutenção, vigilância e capacidade de reforço. Em uma crise mais grave, a resposta dependeria da disponibilidade de meios adicionais e da capacidade de deslocá-los, apoiá-los e mantê-los em operação.

É nesse ponto que o déficit antissubmarino identificado no relatório parlamentar se torna relevante para além do Alto Norte. A Royal Navy precisa distribuir uma frota limitada entre compromissos distintos, enquanto enfrenta dificuldades de disponibilidade e uma transição prolongada para novas classes de navios. A existência de uma fragata permanentemente destacada no Atlântico Sul não elimina essa realidade nem garante, por si só, a capacidade de responder a qualquer cenário.

As Malvinas funcionam, assim, como um alerta sobre a relação entre presença avançada e capacidade de sustentação. Uma força pode manter presença permanente em determinada região, mas a credibilidade dessa presença depende da possibilidade de reforçá-la, proteger suas linhas logísticas e responder a mudanças no ambiente estratégico. O número de navios é importante, mas sua disponibilidade, especialização e capacidade de operar em conjunto são igualmente determinantes.

A lição para o planejamento naval brasileiro

A experiência britânica oferece uma referência importante para o Brasil, que precisa planejar a renovação de seus meios navais de acordo com as dimensões de seu litoral, os compromissos de defesa e a importância econômica e estratégica do Atlântico Sul. A comparação não significa que a Marinha do Brasil enfrente exatamente o mesmo déficit da Royal Navy, mas permite observar as consequências de uma transição entre gerações de navios que não seja acompanhada por recursos e cronogramas compatíveis.

A proteção da Amazônia Azul, das rotas marítimas e da infraestrutura energética e de comunicações exige uma força capaz de combinar navios de superfície, submarinos, aeronaves, helicópteros, sensores e sistemas não tripulados. Na guerra antissubmarino, a eficácia depende da integração desses componentes, além de treinamento, manutenção e apoio logístico. A aquisição de uma plataforma moderna é apenas uma parte desse conjunto.

O planejamento precisa considerar também a disponibilidade real dos meios ao longo de sua vida útil, a reposição de equipamentos críticos e a continuidade das capacidades enquanto novos navios são construídos e incorporados. Sem essa visão de conjunto, existe o risco de investir em novas plataformas sem garantir os recursos necessários para operá-las, mantê-las e integrá-las ao restante da força.

Para o Brasil, isso exige investimento robusto e previsível, alinhado a um planejamento realista do poder naval. Não basta anunciar programas ambiciosos ou contratar navios isoladamente: é necessário compatibilizar as necessidades estratégicas com a capacidade industrial, o orçamento, os prazos de construção e os custos de operação durante décadas. A previsibilidade orçamentária é essencial para preservar equipes, fornecedores, conhecimento técnico e continuidade dos programas, evitando que ciclos políticos interrompam ou desorganizem decisões que exigem planejamento de longo prazo.

O exemplo britânico mostra que até uma marinha com indústria de defesa avançada, programas de grande porte e parcerias internacionais pode enfrentar lacunas quando a retirada de meios antigos não acompanha a entrada dos substitutos. Para a Marinha do Brasil, a lição é planejar o tamanho e a composição da força a partir das missões que precisa cumprir e dos recursos que pode sustentar de forma contínua.

Em um cenário de competição estratégica crescente no Atlântico Sul, a soberania não se sustenta apenas com projetos anunciados ou presença simbólica. Depende de meios disponíveis, capacidades integradas e uma base industrial capaz de apoiar a força ao longo do tempo. Investir no poder naval exige ambição estratégica, mas também realismo, continuidade e previsibilidade: é essa combinação que transforma programas de modernização em capacidade efetiva de defesa.


Por Angelo Nicolaci


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Embraer bate recorde de US$ 35,7 bilhões em pedidos, com avanço de 56% em Defesa & Segurança

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A Embraer encerrou o terceiro trimestre de 2026 com uma carteira de pedidos recorde de US$ 35,7 bilhões, alta de 3% em relação ao trimestre anterior e de 14% na comparação anual. O resultado reflete a expansão dos negócios da fabricante brasileira nos mercados de aviação comercial, executiva, defesa e serviços, com destaque para o crescimento da divisão de Defesa & Segurança, cuja carteira aumentou 56% em um ano. 

No segmento de Defesa & Segurança, a carteira alcançou US$ 6,1 bilhões. Entre os principais destaques do trimestre está a assinatura do contrato para a aquisição de dois KC-390 Millennium pela Força Aeroespacial Colombiana (FAC), ampliando a presença do cargueiro militar brasileiro na América Latina.

Com a nova encomenda, a Embraer contabiliza 43 pedidos firmes do KC-390 Millennium e 25 do A-29 Super Tucano. A divisão registrou uma relação entre pedidos e receita de 2,9 vezes nos últimos 12 meses, indicando que o volume de encomendas recebidas superou significativamente a receita reconhecida no período. 

O contrato colombiano também contempla serviços de suporte logístico para a frota de KC-390, reforçando a importância do apoio pós-venda para a operação internacional da aeronave. A capacidade de oferecer manutenção, peças, treinamento e suporte ao longo do ciclo de vida é um componente relevante na competição por contratos de defesa, nos quais a disponibilidade operacional pesa tanto quanto as características da plataforma.

Aviação comercial e executiva sustentam expansão

A Aviação Comercial encerrou o trimestre com carteira de US$ 15,8 bilhões, crescimento anual de 4%. Entre os principais negócios estão o pedido firme de 20 E195-E2 pelo Grupo Abra, com opções e direitos de compra que podem elevar a encomenda potencial para 45 aeronaves, além de pedidos adicionais da Binter, Luxair e ANA Holdings.

Já a Aviação Executiva alcançou uma carteira recorde de US$ 8,2 bilhões, alta de 12% em relação ao terceiro trimestre de 2025. No período, a empresa apresentou o Phenom 300EV, nova evolução de seu jato leve, e entregou o primeiro Praetor 600E à Flexjet. 

A divisão de Serviços & Suporte também registrou recorde, com US$ 5,6 bilhões em carteira, crescimento anual de 14%. No segmento de defesa, além do contrato de suporte para os KC-390 colombianos, a Embraer renovou o acordo de Suporte Logístico Integrado para a frota de A-29 Super Tucano da Força Aérea do Chile e ampliou o escopo de um contrato de meios de treinamento para a Suécia. 

Crescimento internacional e perspectivas para a defesa brasileira

Os resultados do terceiro trimestre mostram a importância da diversificação dos negócios da Embraer e do crescimento de sua presença internacional. Na área de defesa, a expansão da carteira combina novas encomendas de aeronaves com contratos de suporte, ampliando o conjunto de atividades associadas à operação dos sistemas vendidos.

Para o KC-390 Millennium, a entrada de novos operadores representa oportunidades de ampliar a presença da aeronave no mercado internacional e fortalecer a rede de suporte necessária à sua operação. A evolução dessa base de clientes também pode contribuir para a continuidade da cadeia industrial associada ao programa.

A carteira recorde não representa receita já realizada: os valores correspondem a pedidos e contratos ainda sujeitos à execução, produção, entrega e reconhecimento contábil ao longo do tempo. Ainda assim, o crescimento registrado em Defesa & Segurança, acompanhado da expansão dos serviços associados, evidencia o peso crescente desse segmento na atividade da fabricante brasileira.


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Exército capacita oficiais superiores para planejar o emprego do sistema ASTROS

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Curso realizado em Formosa (GO) reuniu instruções sobre as capacidades do sistema brasileiro e visitas à Base Industrial de Defesa, no contexto da preparação de oficiais para o planejamento do emprego de mísseis e foguetes.

O planejamento do emprego de sistemas de artilharia de longo alcance exige mais do que o conhecimento dos equipamentos e de suas munições. É necessário compreender as possibilidades operacionais, coordenar os meios disponíveis e integrar o apoio de fogo ao planejamento das operações terrestres. Essa é a finalidade do Curso de Planejamento de Emprego do Sistema de Mísseis e Foguetes para Oficiais Superiores, realizado pelo Exército Brasileiro entre 21 de setembro e 23 de outubro, em Formosa, Goiás.

Conduzida pelo Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes (CI Art Msl Fgt), a formação aprofundou os conhecimentos dos oficiais sobre as características, capacidades e possibilidades de emprego do Sistema ASTROS, desenvolvido pela indústria brasileira e utilizado pelo Exército na execução de missões de apoio de fogo de longo alcance.

Durante o curso, os participantes tiveram contato com aspectos técnicos e operacionais do sistema, além de visitar empresas integrantes da Base Industrial de Defesa. A programação permitiu conhecer capacidades industriais e tecnologias relacionadas aos meios empregados pela Força Terrestre, aproximando a formação dos oficiais do ambiente de desenvolvimento e produção dos equipamentos militares.

Planejamento e emprego operacional

O ASTROS reúne viaturas lançadoras e meios de apoio que permitem empregar diferentes tipos de foguetes e mísseis, de acordo com a configuração utilizada. Sua operação exige coordenação entre o planejamento da missão, a preparação dos meios, os elementos de comando e controle e o apoio logístico necessário à sustentação das atividades.

Nesse contexto, a capacitação de oficiais superiores está voltada à preparação de profissionais que poderão exercer funções de comando e de Estado-Maior em organizações militares que empregam sistemas de mísseis e foguetes. O conhecimento das características e limitações dos meios é fundamental para avaliar sua aplicação em diferentes situações operacionais.

A formação especializada também contribui para aproximar o planejamento militar das condições reais de emprego e sustentação do sistema, considerando tanto suas capacidades técnicas quanto os requisitos necessários para mantê-lo disponível.

ASTROS-FOGOS amplia o escopo estratégico

A capacitação ocorre no contexto de reorganização dos programas estratégicos do Exército. Em março de 2026, a Portaria nº 1.703 do Estado-Maior do Exército atualizou o portfólio da Força e estabeleceu a denominação ASTROS-FOGOS para o programa, que passou a reunir iniciativas relacionadas à artilharia de campanha, aos mísseis e foguetes e à defesa antiaérea, organizadas em subprogramas.

A mudança amplia o escopo administrativo e estratégico da iniciativa, integrando projetos de diferentes áreas da artilharia. Isso não significa que o lançador ASTROS tenha recebido, por essa alteração, uma função antiaérea, mas que capacidades distintas passaram a ser coordenadas sob uma estrutura estratégica comum.

O programa permanece relevante para o desenvolvimento e a modernização da artilharia do Exército Brasileiro, enquanto a formação de pessoal especializado constitui parte essencial da preparação para o emprego dos sistemas e para a evolução das capacidades da Força Terrestre.


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Com Exército Brasileiro

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França avalia prolongar vida útil do "Charles de Gaulle" e manter dois porta-aviões em operação

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A França estuda prolongar a vida útil do porta-aviões nuclear Charles de Gaulle para além de 2038, prazo previsto para sua substituição pelo futuro France Libre. A possibilidade, apresentada pelo chefe do Estado-Maior da Marinha francesa, almirante Christophe Cluzel, durante audiência na Assembleia Nacional em 14 de outubro, busca preservar a capacidade aeronaval do país durante a transição para a nova geração de navios.

A decisão, porém, dependerá de uma avaliação técnica. Os estudos serão realizados durante a próxima grande parada de manutenção do Charles de Gaulle, prevista para 2027–2028, e examinarão as condições dos reatores nucleares, a disponibilidade de combustível e o estado dos sistemas auxiliares. As conclusões são esperadas para o início de 2029. Até lá, a extensão do serviço permanece uma hipótese, não uma decisão aprovada.

Em operação desde 2001, o Charles de Gaulle é o único porta-aviões nuclear francês e um dos principais instrumentos de projeção militar de Paris. Sua indisponibilidade para manutenção deixa a França temporariamente sem essa capacidade embarcada, o que torna a continuidade operacional um fator importante no planejamento de sua substituição.

O sucessor, France Libre, foi anunciado pelo presidente Emmanuel Macron em março de 2026. Com cerca de 310 metros de comprimento e aproximadamente 78 mil toneladas de deslocamento, o novo navio será significativamente maior que o Charles de Gaulle, que mede 261,5 metros e desloca cerca de 42 mil toneladas. O projeto prevê propulsão nuclear e catapultas eletromagnéticas, permitindo operar uma ala aérea embarcada mais ampla e diversificada.

A entrada em serviço do France Libre está prevista para 2038. Para assegurar a transição, a Marinha francesa planeja manter os dois navios em operação entre 2036 e 2038, com tripulações e capacidade de navegar simultaneamente. Esse período de sobreposição não significa, contudo, que Paris tenha decidido manter permanentemente dois porta-aviões.

Cluzel destacou que uma frota de duas unidades permitiria ampliar a disponibilidade operacional e manter um porta-aviões em prontidão a partir de Toulon enquanto o outro estivesse indisponível. Para assegurar uma presença permanente no mar, entretanto, o almirante apontou que seriam necessários três navios, considerando os ciclos de manutenção e operação. A decisão de manter dois porta-aviões após 2038, afirmou, cabe ao poder político, pois envolve uma ambição estratégica e compromissos orçamentários de longo prazo.

Catapultas norte-americanas e autonomia tecnológica

Outro ponto central do programa é a adoção do sistema eletromagnético de lançamento de aeronaves EMALS, desenvolvido pela norte-americana General Atomics. A França já encomendou os equipamentos para o France Libre, mas a decisão ocorre em meio ao debate nos Estados Unidos sobre a confiabilidade e o emprego futuro dessa tecnologia.

Durante a audiência parlamentar, Cluzel afirmou não identificar, naquele momento, uma ameaça ao fornecimento francês. Segundo o almirante, o sistema acumulava quase 40 mil lançamentos nos Estados Unidos, com disponibilidade próxima de 98%. Esses números foram apresentados por ele como indicadores de confiabilidade operacional.

As catapultas eletromagnéticas permitem ajustar o lançamento a aeronaves de diferentes pesos e ampliam as possibilidades de emprego de sistemas não tripulados. Para a França, porém, a aquisição também evidencia uma dependência tecnológica externa em um componente essencial para as operações do futuro porta-aviões.

Por isso, Paris avalia a possibilidade de desenvolver uma solução nacional. Um estudo de viabilidade deverá apresentar resultados em 2028, embora Cluzel tenha alertado que o desenvolvimento francês não estaria pronto a tempo de substituir os equipamentos já previstos para o France Libre e poderia elevar consideravelmente os custos.

Uma decisão estratégica e orçamentária

Prolongar a vida útil do Charles de Gaulle permitiria à França preservar sua capacidade aeronaval por mais tempo, mas exigiria investimentos adicionais em uma plataforma com mais de três décadas de serviço em 2038. A decisão dependerá tanto das condições técnicas do navio quanto da relação entre os custos de manutenção e as vantagens operacionais de mantê-lo disponível.

O debate vai além da substituição de um porta-aviões. Ele envolve a capacidade de Paris sustentar sua presença marítima, evitar lacunas operacionais e financiar uma estrutura aeronaval compatível com suas ambições estratégicas. Por enquanto, a única certeza é a sobreposição planejada entre o Charles de Gaulle e o France Libre durante a transição. Uma frota permanente de dois porta-aviões continuará dependendo dos estudos técnicos e de uma decisão política que ainda não foi tomada.


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Dia do Aviador - De Santos Dumont à Embraer: 120 anos de evolução da aviação brasileira

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Do pioneirismo do 14-Bis à presença global da indústria aeroespacial brasileira, a trajetória da aviação nacional reúne feitos históricos, operações militares decisivas e o desenvolvimento de aeronaves que conquistaram mercados em todo o mundo.

Em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle em Paris, o brasileiro Alberto Santos Dumont entrou para a história ao realizar o voo do 14-Bis, aeronave mais pesada que o ar que decolou por seus próprios meios. Diante de observadores e da Comissão Oficial do Aeroclube da França, o inventor percorreu aproximadamente 60 metros, a cerca de dois metros de altura, em uma demonstração que seria homologada no contexto das regras aeronáuticas da época.

O feito consolidou o pioneirismo de Alberto Santos Dumont na conquista do voo motorizado. Em 23 de outubro de 1906, o brasileiro realizou com o 14-Bis, o primeiro voo oficialmente reconhecido e homologado de uma aeronave mais pesada que o ar, decolando por seus próprios meios diante de observadores. Para o Brasil, representa mais do que uma data comemorativa: é a expressão de um pioneirismo que colocou um inventor brasileiro na vanguarda de uma transformação que mudaria a forma de conectar sociedades, conduzir guerras e projetar poder.

Os norte-americanos insistem em afirmar ter realizado o primeiro voo motorizado em 1903, utilizando um trilho de lançamento e catapulta; Santos Dumont, por sua vez, demonstrou publicamente em 1906, que uma aeronave motorizada mais pesada que o ar podia decolar por seus próprios meios, sem depender de um dispositivo externo de lançamento. É nesse contexto que sobrevive a conhecida provocação brasileira: “com catapulta até pedra voa”.

A frase é uma ironia popular sobre o voo dos Wright que utilizaram um trilho e uma catapulta. Ainda assim, expressa a diferença entre os critérios frequentemente invocados nessa disputa. O pioneirismo de Santos Dumont deve ser compreendido a partir de seu feito técnico, de sua demonstração documentada e de sua contribuição para o desenvolvimento da aviação, sem alimentar uma rivalidade entre países, onde todos sabemos quem é o "Pai da Aviação".

Dos pioneiros à construção de uma capacidade nacional

A história da aviação brasileira não se encerra com o 14-Bis. Nas décadas seguintes, militares, engenheiros, mecânicos e pilotos passaram a explorar as possibilidades da nova tecnologia para conectar regiões distantes, apoiar operações terrestres, marítimas e ampliar a capacidade de defesa do país.

As primeiras experiências militares envolveram tanto a observação aérea por balões quanto o emprego de aviões. Durante a Guerra da Tríplice Aliança, em 1867, forças brasileiras utilizaram balões cativos para observar posições inimigas. Décadas depois, a aviação propriamente dita começou a ganhar espaço nas estruturas militares, com a formação de pilotos e a aquisição dos primeiros aparelhos.

A organização da aviação militar brasileira teve na Marinha do Brasil sua instituição pioneira. O interesse naval pelo emprego de aeronaves surgiu poucos anos após o voo histórico de Santos Dumont. Em 29 de abril de 1911, o então Tenente da Marinha Jorge Henrique Möller recebeu, na França, seu brevê de piloto, tornando-se o primeiro militar brasileiro a obter essa qualificação. O feito antecedeu a criação da primeira escola militar de aviação do país e demonstrou que a Marinha já identificava o potencial das aeronaves para ampliar as capacidades de reconhecimento, vigilância e atuação militar.

O passo institucional decisivo ocorreu em 23 de agosto de 1916, quando o presidente Wenceslau Braz assinou o decreto de criação da Escola de Aviação Naval, durante a gestão do ministro da Marinha, Almirante Alexandrino Faria de Alencar. Foi a primeira escola militar de aviação do Brasil e estabeleceu as bases para a formação de aviadores navais. Naquele mesmo ano, a Marinha adquiriu três hidroaviões Curtiss nos Estados Unidos, que chegaram ao país em julho e foram incorporados à estrutura aeronáutica naval. Em 12 de outubro de 1916, o Capitão de Corveta Protógenes Pereira Guimarães e o piloto-mecânico norte-americano Orthon Hoover realizaram o primeiro reide da Aviação Naval brasileira, voando em um Curtiss F decolado da Ilha das Enxadas em direção à região da Ilha Grande.

O Exército também teve papel importante na formação da aviação militar brasileira. Em 1912, o Primeiro-Tenente Ricardo João Kirk obteve seu brevê de piloto na França, tornando-se o primeiro oficial do Exército Brasileiro a conquistar essa qualificação. Sua atuação ganhou dimensão operacional durante a Guerra do Contestado, quando, em 1º de março de 1915, realizou uma missão de reconhecimento aéreo e morreu após a queda de sua aeronave. O episódio marcou a primeira utilização de aviões em operações militares no Brasil. Em 10 de julho de 1919, foi inaugurada a Escola de Aviação Militar do Exército, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, com orientação técnica da Missão Militar Francesa, consolidando a formação de pilotos militares da Força Terrestre.

A evolução das duas estruturas foi interrompida e reorganizada em 20 de janeiro de 1941, quando o Decreto-Lei nº 2.961 criou o Ministério da Aeronáutica. A nova instituição reuniu os meios, as instalações e o pessoal das aviações do Exército e da Marinha, estabelecendo as bases da Força Aérea Brasileira (FAB). A centralização encerrou a primeira fase da Aviação Naval, que permaneceu sem componente aéreo próprio por mais de uma década.

A necessidade de apoiar diretamente as operações marítimas, contudo, levou à retomada da aviação da Marinha. Em 4 de agosto de 1952, a Lei nº 1.658, que reorganizou o Ministério da Marinha, marcou o ressurgimento institucional da Aviação Naval por meio da reorganização de sua Diretoria de Aeronáutica. Nos anos seguintes, a chegada de helicópteros, a criação de estruturas de formação e o desenvolvimento da capacidade de operar aeronaves embarcadas permitiram reconstruir progressivamente essa competência.

O Exército também voltaria a contar com uma aviação própria. A implantação da atual Aviação do Exército foi determinada em 1985, e sua estrutura operacional e de formação ganhou corpo nos anos seguintes, com a retomada do emprego de helicópteros em apoio às forças terrestres. Assim, a história brasileira consolidou três componentes com missões complementares: a FAB, responsável pela defesa aeroespacial e por uma ampla gama de operações aéreas; a Aviação Naval, voltada ao apoio às operações marítimas; e a Aviação do Exército, destinada a ampliar a mobilidade, o reconhecimento e o apoio às forças terrestres.

A consolidação desses três componentes permitiu ao Brasil desenvolver capacidades aéreas voltadas a necessidades operacionais distintas, mas complementares. Da defesa do espaço aéreo ao apoio às operações navais e à mobilidade das tropas em terra, a aviação militar passou a desempenhar um papel essencial na vigilância do território, na presença do Estado em regiões de difícil acesso e na resposta a emergências. Essa trajetória histórica ajuda a compreender por que a evolução tecnológica, a formação de pessoal e a manutenção de meios continuam sendo fatores decisivos para a capacidade operacional das Forças Armadas.

Aviadores brasileiros: entre o combate, a integração nacional e o salvamento de vidas

A história da aviação militar brasileira vai além da evolução das aeronaves e da organização das Forças Armadas. Desde os primeiros voos de reconhecimento até as operações de combate na Segunda Guerra Mundial, passando pela integração de regiões isoladas e por missões de busca e salvamento, os aviadores brasileiros foram chamados a cumprir tarefas que exigiram iniciativa, preparo técnico e capacidade de operar em condições adversas.

Um dos primeiros exemplos do emprego militar da aviação no Brasil ocorreu durante a Guerra do Contestado, no início do século XX. O Primeiro-Tenente Ricardo João Kirk, primeiro oficial do Exército Brasileiro a obter brevê de piloto, participou de missões de reconhecimento aéreo em 1915. Em 1º de março daquele ano, morreu após a queda de sua aeronave durante uma dessas missões. O episódio marcou a primeira utilização de aviões em operações militares no país, antecipando uma função que se tornaria essencial para as forças terrestres: obter informações sobre o terreno e as posições adversárias a partir do ar.

A Marinha do Brasil também construiu uma trajetória pioneira. Durante a Primeira Guerra Mundial, aviadores navais brasileiros participaram de missões de patrulhamento integrados ao esforço aliado, incluindo operações associadas ao 10º Grupo de Operações da Royal Air Force. Essa experiência ajudou a demonstrar o valor da aviação na vigilância marítima, na observação de áreas costeiras e no apoio às operações navais, funções que ganhariam ainda mais importância com a expansão da ameaça submarina nas décadas seguintes.

Na Segunda Guerra Mundial, a entrada do Brasil no conflito ao lado dos Aliados levou a aviação militar a enfrentar ameaças concretas contra a navegação no Atlântico Sul. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 22 de maio de 1942, quando um bombardeiro B-25 Mitchell da FAB atacou o submarino italiano Barbarigo. A embarcação havia torpedeado o navio mercante brasileiro Comandante Lyra dias antes. O ataque marcou o batismo de fogo da Força Aérea Brasileira e tornou-se referência na história da Aviação de Patrulha. O submarino, contudo, não foi afundado nessa ação: conseguiu escapar após o ataque.

A vitória aérea mais expressiva da campanha antissubmarino brasileira ocorreu em 31 de julho de 1943, com o afundamento do submarino alemão U-199 ao largo do litoral do Rio de Janeiro. A operação envolveu aeronaves brasileiras e norte-americanas. Depois de um primeiro ataque de um PBM Mariner dos Estados Unidos, um A-28 Hudson da FAB atacou o submarino. Na sequência, um PBY Catalina brasileiro lançou bombas de profundidade que atingiram o alvo. O U-199 afundou, e sobreviventes de sua tripulação foram resgatados. O episódio demonstrou a importância da coordenação entre aeronaves, persistência na perseguição e emprego adequado dos meios para neutralizar uma ameaça submarina.

Enquanto a Aviação de Patrulha protegia as rotas marítimas, o Primeiro Grupo de Aviação de Caça, conhecido pelo lema “Senta a Púa!”, combatia na campanha da Itália a partir de 1944. Equipados com caças-bombardeiros P-47 Thunderbolt, os pilotos brasileiros realizaram missões de ataque contra posições, instalações e linhas de comunicação alemãs, apoiando o avanço das tropas aliadas. A atuação do grupo exigia navegar sobre território inimigo, localizar alvos e executar ataques sob ameaça da artilharia antiaérea. A experiência consolidou a participação brasileira em operações aéreas de combate fora do continente e permanece como um dos capítulos mais importantes da história da FAB na Segunda Guerra Mundial.

A aviação militar também desempenhou papel decisivo na integração do território nacional. Em 12 de junho de 1931, os então tenentes Casimiro Montenegro Filho e Nelson Freire Lavenère-Wanderley realizaram o primeiro voo do Correio Aéreo Militar entre o Rio de Janeiro e São Paulo, transportando correspondências. A iniciativa, que daria origem ao atual Correio Aéreo Nacional, expandiu-se ao longo das décadas e levou a presença do Estado a regiões onde as distâncias, a falta de infraestrutura e as dificuldades de transporte limitavam as ligações terrestres. Além das correspondências, o serviço passou a apoiar o transporte de pessoal, medicamentos, equipamentos e suprimentos, contribuindo para missões de assistência e evacuação aeromédica.

Entre os episódios mais emblemáticos da busca e salvamento está a operação desencadeada após o desaparecimento do C-47 FAB 2068 na Amazônia, em junho de 1967. Depois de dias de buscas em uma região de difícil acesso, os sobreviventes foram localizados em 26 de junho por uma aeronave da FAB. A frase atribuída a um dos sobreviventes, “Eu sabia que vocês viriam!”, tornou-se símbolo da confiança depositada nas equipes de busca e salvamento. O caso permanece como um marco da história desse serviço e ilustra os desafios impostos pela floresta amazônica, pela distância dos centros de apoio e pela necessidade de coordenar aeronaves e equipes especializadas.

Mais de cinco décadas depois, a aviação militar voltou a demonstrar essa capacidade de resposta diante de uma emergência de grandes proporções. Em janeiro de 2021, durante a segunda onda da pandemia de COVID-19, Manaus enfrentou uma grave crise de abastecimento de oxigênio hospitalar, enquanto hospitais lidavam com a chegada de pacientes em estado crítico. A Força Aérea Brasileira foi mobilizada para transportar cilindros, tanques de oxigênio líquido, equipamentos e outros insumos médicos, além de retirar pacientes que precisavam de atendimento em outros estados.

A operação exigiu mobilizar diferentes aeronaves e manter uma ponte aérea logística entre Manaus e pontos de apoio em outras regiões do país. Em 16 de janeiro, por exemplo, um KC-390 Millennium do Esquadrão Zeus decolou da Base Aérea de São Paulo com cinco tanques de oxigênio líquido, totalizando 5.550 quilos de carga, e pousou em Manaus naquela noite. A missão foi parte de um esforço contínuo que envolveu também aeronaves C-130 Hércules, C-105 Amazonas e outros meios da FAB. Em fevereiro, a Força Aérea informou que já havia ultrapassado 1.600 horas de voo em apoio à Região Norte, transportando oxigênio e suprimentos e realizando a transferência de pacientes para outras cidades brasileiras.

Por trás desses números estavam tripulações, equipes de manutenção, especialistas em logística e profissionais de apoio que precisaram atuar em ritmo intenso durante uma emergência sanitária. O transporte aéreo de cargas essenciais, em especial de equipamentos e recipientes que exigem procedimentos específicos de acondicionamento e movimentação, demandou planejamento, coordenação e execução rigorosa. Em meio à urgência, a disponibilidade dos meios e o trabalho das equipes contribuíram para levar recursos vitais a hospitais e apoiar a transferência de pacientes em situação crítica. Foi uma missão de caráter humanitário em que a prontidão operacional da aviação militar foi colocada diretamente a serviço da população.

A dimensão humanitária dessas operações não se limita ao território nacional. Em missões de apoio internacional, aeronaves militares brasileiras também foram empregadas no transporte de equipes, no atendimento a populações atingidas por desastres e no apoio logístico a regiões de difícil acesso. No Brasil, a combinação entre aeronaves de transporte, helicópteros e equipes de resgate permite executar tarefas que vão da evacuação de feridos à entrega de suprimentos e à retirada de pessoas isoladas por enchentes, deslizamentos ou outros eventos extremos. Nessas situações, o alcance, a capacidade de operar em áreas sem infraestrutura adequada e a rapidez de resposta podem ser determinantes para salvar vidas.

Dos pioneiros que realizaram reconhecimento durante a Guerra do Contestado aos ataques contra submarinos do Eixo, dos raides do “Senta a Púa!” na Itália às buscas na Amazônia e ao transporte emergencial de oxigênio durante a pandemia, a história da aviação militar brasileira revela a amplitude de suas responsabilidades. O poder aéreo não se resume à capacidade de enfrentar um adversário: também protege rotas, amplia a mobilidade das Forças Armadas, conecta regiões afastadas e permite chegar a pessoas que precisam de ajuda. Essa diversidade de missões explica por que a prontidão operacional depende não apenas de aeronaves modernas, mas também de tripulações qualificadas, estruturas de apoio e recursos sustentados ao longo do tempo.

Embraer: uma potência aeroespacial brasileira com alcance global

Mais de um século depois do voo de Santos Dumont, o Brasil ocupa uma posição singular na indústria aeroespacial. A Embraer, criada em 1969, transformou o conhecimento aeronáutico nacional em uma plataforma industrial capaz de competir internacionalmente nos segmentos de aviação comercial, executiva e de defesa.

A empresa já entregou mais de 9 mil aeronaves a clientes em mais de cem países, segundo seus dados institucionais. No mercado de jatos comerciais, consolidou-se como a terceira maior fabricante do mundo, com forte presença na categoria de aeronaves regionais e de corredor único de menor porte, atendendo companhias aéreas que precisam combinar eficiência, alcance e capacidade adequada à demanda de cada rota.

A família E-Jets representa um dos maiores sucessos dessa trajetória. Desde a entrada em serviço em 2004, os modelos E170, E175, E190 e E195, seguidos pelas versões de nova geração E2, conquistaram operadores em dezenas de países. Essas aeronaves ajudaram a transformar o mercado regional, permitindo que companhias aéreas atendessem rotas com demanda intermediária sem recorrer necessariamente a jatos maiores.

Em setembro de 2026, a Embraer celebrou a entrega de seu 2.000º E-Jet, um E195-E2 destinado à Azul Linhas Aéreas. A família acumula aproximadamente 48 milhões de horas de voo e transportou mais de 2,85 bilhões de passageiros, operando em mais de 90 companhias aéreas de mais de 60 países.

O sucesso dos E-Jets evidencia uma dimensão importante do poder aeroespacial: a capacidade de desenvolver produtos competitivos, manter uma rede global de suporte e permanecer presente durante décadas na operação de clientes internacionais. A relevância econômica da Embraer não está apenas nas aeronaves entregues, mas também na engenharia, nos serviços, na manutenção, na cadeia de fornecedores e na formação de profissionais altamente especializados.

Essa experiência industrial também contribui para a área de defesa. Embora os requisitos de uma aeronave comercial sejam diferentes dos de uma plataforma militar, o domínio de processos de projeto, fabricação, integração, certificação e suporte constitui uma base tecnológica importante para programas mais complexos.

KC-390 Millennium: mobilidade aérea com identidade brasileira

No segmento de defesa, o KC-390 Millennium simboliza a capacidade brasileira de desenvolver uma aeronave de transporte militar moderna e competitiva. Projetado para múltiplas missões, o jato pode transportar tropas e cargas, realizar lançamento aéreo de pessoal e equipamentos, evacuação aeromédica, busca e salvamento e apoio logístico. Quando equipado com os sistemas apropriados, também pode executar reabastecimento em voo e combate a incêndios.

Sua combinação de velocidade, capacidade de carga e flexibilidade operacional atende às necessidades de forças aéreas que precisam movimentar pessoal e material por grandes distâncias. Para o Brasil, cuja extensão territorial exige deslocamentos frequentes entre regiões afastadas, o KC-390 representa um recurso importante para a mobilidade militar e para o apoio em emergências.

O programa também conquistou espaço no mercado internacional. Em agosto de 2026, a Colômbia assinou contrato para adquirir duas aeronaves, tornando-se a primeira nação latino-americana, além do Brasil, a selecionar o Millennium. A seleção colombiana ampliou para 13 o número de países que haviam escolhido a plataforma, segundo os dados divulgados pela Embraer na ocasião.

As exportações de aeronaves militares envolvem mais do que a entrega de uma plataforma. Elas exigem treinamento, suporte logístico, manutenção, fornecimento de peças e capacidade de acompanhar o ciclo de vida do equipamento. Cada novo operador amplia a presença internacional do programa e pode abrir oportunidades para a cadeia industrial brasileira.

O KC-390 demonstra, assim, como uma indústria nacional pode desenvolver soluções para as necessidades de suas próprias Forças Armadas e, simultaneamente, oferecer um produto competitivo a outros países.

A-29 Super Tucano: versatilidade e presença internacional

O A-29 Super Tucano consolidou outra vertente da indústria brasileira de defesa. Desenvolvido para treinamento avançado, ataque leve, reconhecimento armado e outras missões táticas, o turboélice combina flexibilidade operacional com custos de operação adequados a forças aéreas que precisam manter uma presença constante em grandes áreas.

A aeronave pode atuar em missões de patrulha, interdição aérea, apoio aéreo aproximado e vigilância de fronteiras, conforme a configuração e os sistemas empregados. Sua capacidade de operar em pistas não pavimentadas e em ambientes com infraestrutura limitada amplia as possibilidades de utilização.

Em 2026, a Embraer informou que o A-29 havia sido selecionado por 22 forças aéreas. A presença internacional do modelo demonstra a capacidade da indústria brasileira de oferecer uma solução adaptada a diferentes doutrinas e necessidades operacionais, especialmente em missões nas quais a disponibilidade, a persistência e o custo por hora de voo são fatores relevantes.

O Super Tucano também mostra que a modernidade aeronáutica não depende exclusivamente de velocidade supersônica ou de plataformas de grande porte. Em determinadas missões, uma aeronave turboélice equipada com sensores, comunicações e armamentos apropriados pode oferecer uma resposta operacional coerente com a ameaça e com os recursos disponíveis.

F-39E Gripen: produção nacional e transferência de tecnologia

A participação brasileira no programa F-39E Gripen representa outro passo na evolução da indústria aeroespacial. O caça é um projeto sueco da Saab, mas o programa brasileiro foi estruturado para ampliar a participação da indústria nacional e absorver conhecimentos relacionados à fabricação, integração e ensaio de aeronaves de combate avançadas.

Em 25 de março de 2026, foi apresentado o primeiro Gripen E produzido no Brasil pela Embraer, em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Em 7 de outubro, a aeronave realizou seu primeiro voo, destinado a verificar o desempenho dos sistemas principais e validar suas características de voo.

O marco demonstrou que o complexo industrial brasileiro passou a integrar a cadeia de produção global do Gripen. A experiência envolve competências de engenharia, processos industriais, integração de sistemas e ensaios, além da formação de profissionais especializados.

É importante, contudo, distinguir fabricação nacional de desenvolvimento integralmente nacional. O Gripen continua sendo um projeto sueco, e a autonomia tecnológica brasileira dependerá da capacidade de absorver conhecimentos, manter competências, assegurar o acesso a componentes e sistemas e sustentar a aeronave ao longo de sua vida operacional.

Para a FAB, o F-39E representa a modernização da aviação de caça e da defesa aérea. Para a indústria, constitui uma oportunidade de consolidar capacidades que podem gerar benefícios para programas futuros. A dimensão estratégica do projeto está justamente na possibilidade de transformar a transferência de tecnologia em conhecimento duradouro, e não apenas em uma etapa de montagem.

Força Aérea Brasileira: defesa, integração e prontidão

A FAB reúne capacidades que vão muito além da aviação de caça. Transporte estratégico e tático, reabastecimento em voo, patrulha marítima, busca e salvamento, reconhecimento e formação de pilotos são componentes essenciais de sua atuação.

A experiência histórica da Força, desde a campanha da Itália ao Correio Aéreo Nacional, mostra a diversidade de missões atribuídas aos aviadores brasileiros. Hoje, o KC-390 amplia a mobilidade aérea; o A-29 mantém relevância em treinamento e missões táticas; e o F-39E incorpora uma nova geração de sensores, aviônicos e sistemas de missão à defesa aérea.

A dimensão do território nacional impõe desafios permanentes. A proteção do espaço aéreo, a vigilância de fronteiras e do litoral, o apoio a populações isoladas e a resposta a emergências exigem aeronaves disponíveis, tripulações treinadas e uma rede de manutenção capaz de sustentar operações prolongadas.

A modernização, portanto, não se mede apenas pelo número de aeronaves incorporadas. Disponibilidade operacional, estoques de peças, infraestrutura, treinamento continuado, armamentos e integração entre sensores e centros de comando são elementos fundamentais para converter tecnologia em capacidade militar efetiva.

Aviação Naval: o poder aéreo a serviço da força naval

A Aviação Naval brasileira nasceu de uma visão pioneira sobre o papel das aeronaves no apoio às operações marítimas. Formalizada em 1916, participou das primeiras experiências de transporte aéreo militar, reconhecimento e patrulha, antes de sua estrutura ser incorporada ao Ministério da Aeronáutica em 1941. A retomada da aviação própria da Marinha, a partir de 1952, refletiu a necessidade de contar com meios aéreos embarcados para apoiar navios e ampliar o alcance das operações navais.

Atualmente, os meios aeronavais desempenham funções fundamentais na guerra antissubmarino e antissuperfície, na busca e salvamento e no apoio às operações de emprego geral. O SH-16 Seahawk ocupa posição importante nesse conjunto, com sensores e sistemas destinados à detecção e ao enfrentamento de ameaças marítimas.

Em 2026, avançaram os trabalhos de integração do SH-16 às futuras Fragatas Classe Tamandaré, incluindo estudos e ensaios para estabelecer parâmetros seguros de pouso, decolagem e operação embarcada sob diferentes condições de vento. A integração entre helicóptero e navio exige procedimentos, comunicações e treinamento específicos, pois a capacidade de empregar uma aeronave a partir de uma fragata depende do funcionamento coordenado de todo o sistema.

Outro avanço ocorreu na formação de aviadores navais. Em setembro de 2026, o 1º Esquadrão de Helicópteros de Instrução iniciou os voos de instrução com a aeronave IH-18, abrindo uma nova fase no treinamento dos futuros oficiais aviadores navais.

A experiência da Marinha evidencia que o poder aéreo não pode ser analisado apenas em termos de aeronaves isoladas. No ambiente marítimo, sensores, helicópteros, navios, comunicações e centros de comando precisam operar de forma integrada. Essa interoperabilidade é indispensável para ampliar a consciência situacional e responder a ameaças que podem surgir a grandes distâncias.

Aviação do Exército: mobilidade para a Força Terrestre

Na Aviação do Exército, o emprego de helicópteros amplia a mobilidade das tropas, permite realizar reconhecimentos, transportar pessoal e material, apoiar operações aeromóveis e executar evacuações. Em determinadas situações, as aeronaves permitem alcançar áreas em que o deslocamento terrestre seria demorado, difícil ou inviável.

A história da aviação militar brasileira inclui os primeiros esforços de observação aérea, o emprego de aviões pelo Exército no início do século XX e a atuação de pioneiros como Ricardo Kirk. Décadas depois, a recriação da Aviação do Exército, em 1986, restabeleceu uma capacidade própria de emprego de meios aéreos em apoio às operações terrestres.

Em um país de dimensões continentais, com florestas densas, grandes rios, extensas fronteiras e regiões de infraestrutura limitada, essa mobilidade possui valor operacional significativo. Na Amazônia, por exemplo, os helicópteros podem apoiar o deslocamento de tropas, o transporte de suprimentos e a execução de missões em locais de acesso difícil.

A evolução tecnológica também amplia o emprego de sistemas aéreos não tripulados para reconhecimento e obtenção de informações. Drones e sensores podem complementar a atuação das aeronaves tripuladas, desde que estejam integrados aos sistemas de comando e controle e sejam empregados de acordo com as necessidades operacionais.

O desafio é combinar plataformas, doutrina, treinamento, manutenção e comunicações confiáveis. A tecnologia, por si só, não substitui a capacidade de planejar e conduzir operações; seu valor está na integração com as unidades terrestres e com os demais meios das Forças Armadas.

O futuro da aviação brasileira: tecnologia, indústria e soberania

A trajetória que começa com Santos Dumont e chega à produção nacional do Gripen revela uma transformação profunda. O Brasil passou de um país associado ao Pioneiro da conquista do ar para uma nação que desenvolve aeronaves competitivas, exporta plataformas militares e participa da fabricação de caças supersônicos.

A Embraer ocupa posição central nessa evolução. A família E-Jets consolidou a presença brasileira na aviação comercial mundial, enquanto o KC-390 e o A-29 ampliaram a atuação da empresa no mercado de defesa. A produção do F-39E no Brasil acrescenta uma dimensão industrial e tecnológica estratégica, ao permitir que o país participe de processos complexos de fabricação e ensaio de aeronaves de combate.

Ao mesmo tempo, a FAB, a Aviação Naval e a Aviação do Exército enfrentam desafios próprios, que vão da modernização de frotas à integração operacional, da formação de pessoal à sustentação logística. O avanço tecnológico precisa ser acompanhado por recursos para manutenção, treinamento, armamentos, sensores e infraestrutura, sob pena de comprometer a disponibilidade dos meios adquiridos.

A soberania aérea não se constrói apenas com aeronaves modernas. Depende também de uma indústria capaz de sustentar programas de longo prazo, de profissionais qualificados, de conhecimento tecnológico e de previsibilidade orçamentária. Interrupções sucessivas em investimentos estratégicos podem comprometer competências que levaram décadas para serem desenvolvidas.

No Dia do Aviador, celebrar Santos Dumont é reconhecer a força de uma ideia que atravessou gerações. O 14-Bis marcou um capítulo decisivo da história do voo; o Correio Aéreo Nacional contribuiu para integrar o território; os aviadores militares participaram de operações que marcaram a história brasileira; e a Embraer demonstra que o país pode transformar conhecimento em produtos reconhecidos internacionalmente.

O desafio agora é assegurar que esse patrimônio de engenharia, experiência operacional e capacidade industrial se converta em autonomia tecnológica, prontidão militar e proteção duradoura dos interesses nacionais. A história da aviação brasileira não pertence apenas ao passado: continua sendo escrita a cada aeronave projetada, a cada missão cumprida e a cada geração de aviadores que leva adiante o legado de Santos Dumont.

Neste Dia do Aviador, o GBN Defense presta sua homenagem a todos aqueles que fazem do céu seu habitat e cumpre sua missão, honrando com coragem, competência e dedicação o legado de Alberto Santos Dumont, o brasileiro que mostrou ao mundo que a ousadia, a inteligência e a perseverança não conhecem limites. Celebrar o Aviador é celebrar a capacidade de nosso povo de sonhar grande, superar desafios e transformar conhecimento em conquistas que atravessam fronteiras. Que o exemplo do Pai da Aviação continue inspirando gerações e alimentando o orgulho de sermos brasileiros, porque cada vez que um aviador brasileiro alça voo, também voam com ele a história, a coragem e a grandeza de uma nação.


por Angelo Nicolaci


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DSAM visita ARES para tratar de sistemas de armas da Marinha

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A ARES recebeu a visita do Almirante João Cândido Marques Dias e de representantes da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha do Brasil (DSAM) e do Centro de Manutenção de Sistemas. O encontro aproximou representantes da Força Naval e da indústria de defesa nacional em torno de atividades relacionadas aos sistemas de armas.

A visita ocorreu nas instalações da empresa, que atua no desenvolvimento e fornecimento de soluções para os setores de defesa e segurança. A presença de representantes da DSAM e do Centro de Manutenção de Sistemas destaca a relevância da interação entre a Marinha e a indústria na sustentação dos equipamentos empregados pela Força.

A manutenção dos sistemas de armas é um fator importante para a disponibilidade operacional dos meios navais, contribuindo para preservar suas capacidades ao longo do ciclo de vida. Nesse contexto, a participação de empresas especializadas pode apoiar as atividades de manutenção e a evolução tecnológica dos equipamentos.

Não foram divulgados detalhes sobre os equipamentos abordados durante a visita nem informações sobre eventuais contratos ou projetos específicos relacionados ao encontro.


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