segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Iraque: 23 anos depois, o fim da presença americana expõe o custo estratégico da guerra

0 comentários

 

A retirada das últimas forças americanas do Iraque, prevista para ser concluída até 30 de setembro de 2026, encerra um ciclo militar iniciado em março de 2003 e que atravessou diferentes administrações em Washington, a ascensão e a derrota territorial do Estado Islâmico e mais de duas décadas de operações militares. O Pentágono deixa um país no qual entrou para derrubar Saddam Hussein e que, ao longo desse período, tornou-se simultaneamente campo de batalha contra organizações jihadistas, espaço de disputa estratégica entre Estados Unidos e Irã e um dos principais exemplos dos limites da transformação política por meio da imposição pela força militar.

O encerramento da presença militar americana permite, portanto, avaliar a Guerra do Iraque não apenas como um conflito encerrado, mas como um processo cujas consequências continuam influenciando o equilíbrio do Oriente Médio. A questão não está em relativizar os crimes cometidos pelo regime de Saddam Hussein, que incluem repressão sistemática, perseguição política e o emprego de armas químicas contra populações civis, mas em examinar se a intervenção escolhida para derrubá-lo produziu os resultados estratégicos que justificaram seu custo. A análise desse período exige separar a natureza do regime deposto das decisões tomadas durante a guerra e a ocupação que se seguiram.

Uma guerra sustentada por uma ameaça que não se confirmou

A invasão do Iraque em 2003 não surgiu simplesmente da descoberta de uma nova ameaça. A derrubada de Saddam Hussein já fazia parte da agenda estratégica de Washington antes mesmo da chegada de George W. Bush à Casa Branca. Em 1998, o Congresso americano aprovou o Iraq Liberation Act, posteriormente sancionado pelo presidente Bill Clinton, estabelecendo como política dos Estados Unidos apoiar a remoção do regime de Saddam e a formação de um governo democrático em Bagdá. A diferença fundamental na administração Bush foi transformar essa política de mudança de regime em uma intervenção militar de grande escala.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, essa agenda encontrou um ambiente político no qual a ameaça terrorista passou a ocupar o centro da estratégia de segurança americana. A administração Bush passou a apresentar Saddam Hussein como parte de um quadro mais amplo de ameaças que combinava terrorismo internacional, armas de destruição em massa e possibilidade de transferência dessas capacidades para grupos terroristas. O problema era que essas ameaças não possuíam o mesmo grau de evidência e, em vários casos, as próprias informações disponíveis apontavam para conclusões muito mais limitadas.

As inspeções conduzidas pelas Nações Unidas nos meses anteriores à invasão não confirmaram a existência de um arsenal operacional de armas de destruição em massa. Em seu relatório de 5 de junho de 2003, Hans Blix registrou que até a retirada dos inspetores, não haviam sido encontradas evidências de continuidade ou retomada de programas proibidos voltados a concepção de armas químicas. A AIEA também não encontrou evidências ou indicações plausíveis de que o Iraque tivesse retomado um programa destinado à produção de armas nucleares. Havia questões pendentes de desarmamento e materiais que permaneciam sem explicação, mas isso era diferente de comprovar a existência do arsenal que seria apresentado ao público americano como uma ameaça concreta.

Ainda assim, a administração Bush apresentou a existência dessas armas como praticamente estabelecida. Em setembro de 2002, George W. Bush afirmou que o regime iraquiano possuía armas químicas e biológicas e estava reconstruindo instalações para produzi-las. Outras autoridades foram além, apresentando como fato a reconstituição do programa nuclear iraquiano e a busca por materiais necessários à produção de uma arma nuclear. Posteriormente, o Comitê de Inteligência do Senado concluiu que importantes afirmações utilizadas para sustentar a guerra eram “não substanciadas, contraditadas ou inexistentes” na inteligência disponível e que a administração havia apresentado ao público um quadro de ameaça muito maior do que aquele efetivamente sustentado pelas informações.

A associação entre Saddam Hussein e a Al-Qaeda seguiu lógica semelhante. Existiram contatos entre representantes iraquianos e indivíduos ligados à organização de Osama bin Laden, mas isso não estabeleceu uma parceria operacional entre o regime de Bagdá e a Al-Qaeda. A Comissão do 11 de Setembro não encontrou evidências de que esses contatos tivessem evoluído para uma relação de cooperação operacional nos ataques contra os Estados Unidos. Mesmo assim, declarações de integrantes da administração Bush aproximaram repetidamente Saddam da ameaça terrorista que havia atingido o território americano em 2001, criando na opinião pública uma associação que as evidências disponíveis não sustentavam. O próprio Comitê de Inteligência do Senado concluiu posteriormente que diversas afirmações da administração sobre uma parceria Saddam-Al-Qaeda não eram apoiadas pela inteligência.

Essa distinção é fundamental para compreender a decisão de 2003. O problema não estava apenas em uma comunidade de inteligência que poderia ter cometido erros de avaliação. Havia informações divergentes, incertezas e relatórios que não confirmavam a existência do arsenal apresentado como ameaça. Mesmo assim, a administração Bush construiu uma narrativa pública na qual essas incertezas foram convertidas em certezas e diferentes ameaças foram apresentadas como partes de um mesmo problema estratégico. O resultado foi a utilização de argumentos de segurança nacional para sustentar uma decisão que já tinha, em Washington, um componente político anterior: a mudança de regime em Bagdá.

A questão jurídica acrescentou outra dimensão à controvérsia. Estados Unidos e Reino Unido sustentaram que resoluções anteriores do Conselho de Segurança, combinadas com as violações iraquianas de suas obrigações de desarmamento, forneciam base para a intervenção. O Conselho de Segurança, entretanto, não aprovou uma nova resolução autorizando explicitamente o uso da força, enquanto as inspeções ainda estavam em andamento. Em 2004, o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, declarou que a guerra não estava em conformidade com a Carta das Nações Unidas.

O que começou como uma política de contenção e pressão sobre Saddam Hussein terminou, portanto, com uma guerra destinada a derrubar seu governo. As armas de destruição em massa que serviram como principal argumento para apresentar o Iraque como uma ameaça imediata não foram encontradas, e não foi estabelecida a relação operacional entre Saddam e a Al-Qaeda que a retórica política do período sugeria. A força militar americana conseguiu destruir rapidamente o regime, mas a decisão de iniciar a guerra havia sido tomada sobre uma combinação de inteligência falha, ameaças ampliadas e uma política de mudança de regime que já existia em Washington antes de 2003. É justamente essa combinação que ajuda a explicar por que a derrubada de Saddam foi muito mais rápida do que a construção de um Iraque politicamente estável depois de sua queda.

A vitória militar e o problema da ocupação

A operação militar começou em 19 de março de 2003 e demonstrou rapidamente a superioridade convencional dos Estados Unidos e de seus aliados. Bagdá caiu em 9 de abril, as principais formações das forças armadas iraquianas foram derrotadas e Saddam Hussein perdeu o controle efetivo do Estado. A campanha convencional alcançou seu objetivo militar em poucas semanas, mas a própria decisão de invadir o Iraque já era alvo de forte contestação internacional e posteriormente passou a ser amplamente questionada também dentro dos Estados Unidos pelos resultados produzidos e pelos custos da ocupação.

A crítica à intervenção não surgiu apenas depois que a insurgência ganhou força. Antes da invasão, governos aliados dos Estados Unidos, organizações internacionais, especialistas e parcelas significativas da opinião pública questionavam a necessidade e a legalidade de uma guerra que não havia recebido nova autorização explícita do Conselho de Segurança da ONU e cuja principal justificativa, a existência de um arsenal operacional de armas de destruição em massa, não havia sido confirmada pelas inspeções em andamento. A ausência posterior dessas armas transformou essa controvérsia inicial em uma das principais questões do legado da guerra.

O problema tornou-se ainda mais evidente depois da queda de Saddam. A vitória militar havia destruído rapidamente a capacidade convencional do regime, mas não produziu automaticamente uma estrutura estatal capaz de substituí-lo. Derrubar um governo é uma operação diferente de administrar o território que permanece depois de sua queda. No Iraque, essa diferença era particularmente importante porque décadas de governo autoritário haviam concentrado as estruturas políticas, administrativas e de segurança em torno do regime. Ao eliminar o centro de poder, a coalizão precisava simultaneamente preservar aquilo que ainda funcionava no Estado, impedir o colapso da ordem pública e construir instituições capazes de substituir o sistema anterior.

Foi justamente nessa transição que algumas das decisões mais controversas da ocupação produziram efeitos profundos. A Autoridade Provisória da Coalizão (CPA), chefiada por Paul Bremer, implementou a política de desbaathificação, e em 23 de maio de 2003, publicou a Ordem nº 2, que determinou a dissolução de estruturas fundamentais do Estado iraquiano. Foram dissolvidos o Ministério da Defesa, as forças armadas, a Guarda Republicana, a Força Aérea, a Marinha, a Defesa Aérea e diversos órgãos de segurança e inteligência. A medida desarticulou em curto espaço de tempo, grande parte do aparato que havia garantido o controle territorial do antigo regime.

A desbaathificação produziu efeito semelhante no campo político-administrativo. A remoção de integrantes diretamente envolvidos com a repressão do regime fazia parte da tentativa de construir uma nova ordem política, mas a amplitude adotada atingiu uma estrutura muito maior do que o núcleo dirigente de Saddam. Em um país que dependia fortemente do Estado para emprego, renda, serviços e organização administrativa, a ruptura atingiu milhares de pessoas que passaram a perder simultaneamente posição, renda e perspectiva dentro da nova ordem.

A dissolução das forças de segurança teve uma consequência ainda mais imediata: o novo poder ocupante passou a controlar um território sem dispor de uma estrutura iraquiana equivalente para garantir sua segurança. Muitos militares foram afastados sem que existisse, naquele momento, um mecanismo eficiente de reintegração ou absorção em novas forças nacionais. Parte desses homens possuía treinamento militar, conhecimento territorial e redes de relacionamento que poderiam posteriormente ser mobilizados contra a ocupação.

O resultado foi um vazio institucional que ultrapassou a questão militar. Com o antigo aparato estatal desarticulado e as novas instituições ainda em formação, a coalizão precisou assumir funções para as quais não havia uma transição preparada em escala suficiente. A segurança pública deteriorou-se, arsenais foram saqueados, estruturas administrativas sofreram interrupções e diferentes grupos passaram a disputar o espaço deixado pela queda do regime.

Foi nesse ambiente que a insurgência encontrou condições para crescer. Ex-integrantes das forças de Saddam, grupos nacionalistas, organizações sectárias, criminosos e posteriormente organizações jihadistas, passaram a operar em um cenário no qual o Estado ainda não havia recuperado o monopólio efetivo da força. A violência não surgiu simplesmente porque Saddam havia sido derrubado, mas também porque a ocupação não conseguiu substituir com rapidez e legitimidade suficientes as estruturas que haviam sido destruídas.

É nesse ponto que a diferença entre vitória militar e resultado estratégico se torna decisiva. A coalizão demonstrou capacidade extraordinária para destruir o aparato militar de Saddam, mas encontrou dificuldades muito maiores para construir uma nova arquitetura estatal. A intervenção, que já havia sido contestada antes mesmo de começar, passou a acumular novos argumentos contra sua condução à medida que os custos humanos, financeiros e políticos da ocupação se ampliavam. O problema deixou de ser apenas se Saddam poderia ser derrubado e passou a ser se a guerra havia produzido um Iraque mais estável, seguro e capaz de sustentar sua própria soberania.

O vácuo institucional e a transformação da insurgência

A queda de Saddam Hussein não encerrou o conflito; ela alterou sua natureza. Com a dissolução das principais estruturas militares e de segurança do antigo regime, a coalizão passou a enfrentar uma insurgência que encontrou no descontentamento com a ocupação, na perda de posições dentro do Estado e na fragilidade das novas instituições um ambiente favorável para se organizar. O problema iraquiano deixou rapidamente de ser uma operação de ocupação convencional e passou a envolver uma combinação de resistência armada, disputa política, criminalidade e violência sectária.

A insurgência não possuía uma estrutura única nem respondia a um comando central. Ex-integrantes das forças de Saddam, grupos nacionalistas sunitas, organizações islamistas, criminosos e diferentes redes locais passaram a atuar contra a coalizão e contra as novas instituições iraquianas. A ausência de um aparato estatal capaz de controlar o território permitiu que esses grupos construíssem áreas de influência, obtivessem recursos e explorassem o ressentimento produzido pela ocupação e pela ruptura da antiga ordem.

Foi nesse ambiente que Abu Musab al-Zarqawi ganhou espaço. Sua organização, inicialmente conhecida como Jama'at al-Tawhid wal-Jihad, adotou uma estratégia ainda mais radical ao transformar a violência sectária em instrumento deliberado de guerra. Em vez de limitar sua atuação às forças americanas e às instituições associadas à ocupação, o grupo passou a atacar civis, mesquitas e comunidades xiitas, buscando provocar uma reação que aprofundasse a divisão entre sunitas e xiitas e tornasse praticamente impossível qualquer estabilização política.

A estratégia de Zarqawi alterou a natureza da violência. Os atentados deixaram de ser apenas instrumentos de resistência contra uma força estrangeira e passaram a funcionar como mecanismos para provocar represálias, alimentar o medo e destruir as possibilidades de coexistência entre comunidades. O objetivo era produzir uma guerra interna suficientemente profunda para impedir a consolidação de um Estado iraquiano capaz de monopolizar a força e neutralizar os grupos armados.

A violência passou então a produzir um efeito cumulativo. Quanto menor a capacidade do governo de garantir segurança, maior a dependência de milícias, forças locais e estruturas comunitárias de proteção. Quanto mais esses grupos assumiam funções de segurança, mais difícil se tornava estabelecer uma cadeia nacional de comando. A fragmentação política alimentava a violência, enquanto a violência aprofundava a fragmentação política, criando um ciclo que a coalizão demorou a compreender e ainda mais tempo levou para controlar.

O fenômeno também mostrou uma das consequências mais graves da ruptura institucional promovida após a invasão: o espaço deixado pela desorganização do Estado não permaneceu vazio. Quando o governo não consegue garantir segurança, outros atores ocupam essa função, seja por razões políticas, sectárias, criminosas ou ideológicas. No Iraque, isso significou a multiplicação de centros de poder armado justamente no momento em que o novo Estado precisava reconstruir sua autoridade.

Foi nesse ambiente de crescente violência e fragmentação que ocorreu um dos episódios mais marcantes para o Brasil e para a própria presença internacional no Iraque: o atentado contra a sede das Nações Unidas em Bagdá, em agosto de 2003, que matou o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello e outras 21 pessoas. O ataque demonstrou que a deterioração da segurança já havia ultrapassado o confronto direto entre forças americanas e insurgentes e começava a atingir também aqueles que buscavam construir uma transição política e institucional no país.

Sérgio Vieira de Mello, a ONU e uma perda que ultrapassou o Brasil

Em 19 de agosto de 2003, apenas quatro meses depois do início da invasão, um caminhão-bomba atingiu a sede das Nações Unidas no Hotel Canal, em Bagdá. O atentado matou 22 pessoas, entre funcionários da ONU e outros integrantes da missão internacional, e deixou mais de 150 feridos. Entre os mortos estava o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, Representante Especial do Secretário-Geral da ONU para o Iraque e, naquele momento, também Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. O ataque destruiu o principal centro de atuação da organização na capital iraquiana e se tornou um dos episódios mais graves da história da presença humanitária da ONU.

A presença das Nações Unidas no Iraque tinha uma natureza diferente da ocupação militar conduzida pela coalizão. A organização buscava atuar na reconstrução institucional, na assistência humanitária, na mediação política e na criação de condições para que os próprios iraquianos recuperassem progressivamente sua soberania. Poucos dias antes do atentado, o Conselho de Segurança havia aprovado a Resolução 1500, que estabeleceu a Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque (UNAMI). Vieira de Mello estava no centro desse esforço, tentando estabelecer canais de diálogo entre diferentes grupos iraquianos e contribuir para uma transição política em um ambiente cada vez mais marcado pela insegurança.

A escolha de Vieira de Mello para aquela missão não era casual. Sua carreira dentro da ONU havia sido construída em cenários de guerra, deslocamento populacional, reconstrução e transição política. Ele ingressou na organização em 1969 e trabalhou em operações humanitárias e de manutenção da paz em países como Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru. Também atuou no Camboja, em Kosovo e sobretudo, no Timor-Leste, onde chefiou a Administração Transitória das Nações Unidas responsável por conduzir o território durante o processo que culminou na independência. Em 2002, assumiu o cargo de Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos.

Sua experiência no Timor-Leste tornava particularmente relevante sua atuação no Iraque. Em ambos os casos havia uma questão central de reconstrução política depois de um período de violência, mas as circunstâncias eram profundamente diferentes. No Timor-Leste, a ONU possuía um mandato internacional explícito para administrar a transição e construir instituições; no Iraque, a organização atuava em um país ocupado por uma coalizão militar cuja legitimidade e condução da transição eram objeto de intensa controvérsia. Vieira de Mello precisava, portanto, trabalhar em um espaço político muito mais limitado, tentando ampliar a participação iraquiana e criar condições para a transferência de responsabilidades para instituições nacionais.

O atentado atingiu exatamente esse esforço. A ONU não estava no Iraque para combater a insurgência nem para substituir as forças militares da coalizão. Sua presença representava uma tentativa de criar uma dimensão internacional de mediação e reconstrução que pudesse contribuir para a recuperação da soberania iraquiana. Ao atingir deliberadamente a sede da organização, os responsáveis pelo ataque demonstraram que nem mesmo uma estrutura internacional associada à ajuda humanitária, à diplomacia e à reconstrução estava protegida no novo ambiente de segurança. A própria ONU descreveu posteriormente o atentado como o pior ataque terrorista sofrido pela organização até aquele momento.

Para o Brasil, a morte de Vieira de Mello teve uma dimensão que ultrapassou a perda de um diplomata de carreira. O país perdeu um dos brasileiros que haviam alcançado posição de maior relevância dentro do sistema internacional e que construíra, ao longo de décadas, uma trajetória diretamente associada à resolução de conflitos, à proteção de refugiados, aos direitos humanos e à reconstrução de sociedades devastadas pela guerra. Sua morte transformou uma crise internacional em tragédia nacional e colocou o Brasil entre os países diretamente atingidos pela deterioração da segurança no Iraque.

A dimensão de sua perda também foi reconhecida pela própria ONU. Em homenagem ao diplomata, a organização destacou sua trajetória de mais de três décadas e seu trabalho em alguns dos cenários mais difíceis de sua história recente. A Assembleia Geral prestou tributo especial a Vieira de Mello e aos demais funcionários mortos no ataque, enquanto o então secretário-geral Kofi Annan classificou sua morte como um golpe particularmente doloroso para as Nações Unidas.

Há ainda uma dimensão simbólica particularmente forte nesse episódio. Sérgio Vieira de Mello havia dedicado sua carreira justamente à tentativa de construir soluções políticas onde a força havia fracassado. Sua missão em Bagdá era ajudar a criar condições para que um país destruído pela guerra pudesse recuperar instituições, soberania e capacidade de governar a si próprio. Sua morte, apenas quatro meses depois da invasão, revelou o tamanho do abismo entre a rapidez com que o regime de Saddam havia sido derrotado e a dificuldade de construir uma ordem política capaz de substituir aquilo que havia sido destruído.

O atentado contra a ONU, portanto, não foi apenas mais um episódio da violência que começava a dominar o Iraque. Ele atingiu uma das poucas estruturas internacionais que tentavam atuar fora da lógica militar da ocupação e eliminou uma liderança que reunia experiência excepcional em reconstrução política e mediação de conflitos. Para o Brasil, a perda de Sérgio Vieira de Mello permanece como uma das consequências mais dolorosas daquela guerra; para as Nações Unidas, seu assassinato tornou-se um símbolo do preço pago por aqueles que tentam reconstruir Estados em ambientes onde a segurança ainda não foi restabelecida.

A Guerra ao Terror e a associação entre ameaças diferentes

A invasão do Iraque ocorreu dentro da atmosfera política criada pelos atentados de 11 de setembro de 2001 e pela estratégia americana que ficou conhecida como "Guerra ao Terror". Depois dos ataques contra Nova York e Washington, a prioridade de segurança dos Estados Unidos passou a ser a identificação e a neutralização de organizações capazes de realizar novos atentados e dos governos que pudessem oferecer apoio, território ou capacidades estratégicas a esses grupos. Foi nesse ambiente que ameaças de naturezas diferentes passaram a ser apresentadas dentro de uma mesma lógica de segurança nacional.

O Afeganistão apresentava uma relação direta com os ataques de 11 de setembro. A Al-Qaeda estava instalada no país e encontrava no regime Talibã condições para manter sua estrutura, enquanto Osama bin Laden permanecia protegido em território afegão. A intervenção americana iniciada em outubro de 2001 tinha, portanto, uma relação direta com a organização responsável pelos atentados e com o governo que lhe oferecia abrigo.

O Iraque era uma situação diferente. Saddam Hussein era um adversário histórico dos Estados Unidos e seu regime possuía um extenso histórico de repressão, programas de armas de destruição em massa e confrontos com a comunidade internacional, mas não havia sido demonstrada uma relação operacional equivalente com a Al-Qaeda. A Comissão do 11 de Setembro identificou contatos entre representantes iraquianos e integrantes da organização de Bin Laden, mas não encontrou evidências de que esses contatos tivessem evoluído para uma parceria operacional. Também não encontrou evidências de que o governo iraquiano tivesse cooperado com a Al-Qaeda na preparação ou execução dos ataques de 11 de setembro.

Essa distinção acabou sendo parcialmente obscurecida no debate político americano. Saddam Hussein, armas de destruição em massa e terrorismo internacional passaram a aparecer associados dentro de uma mesma narrativa de ameaça, apesar de serem questões diferentes e das evidências disponíveis apresentarem graus muito distintos de consistência. O regime iraquiano podia ser considerado uma ameaça por suas próprias ações e pelo histórico de seus programas militares, mas isso não estabelecia automaticamente uma conexão com a organização responsável pelos ataques do 11 de Setembro.

A associação tornou-se particularmente relevante porque o medo de um novo ataque criou uma percepção pública na qual a possibilidade de um Estado hostil fornecer armas de destruição em massa a terroristas adquiriu enorme peso. Nesse contexto, a hipótese de que Saddam poderia transferir essas capacidades para grupos jihadistas foi utilizada como argumento de segurança nacional, embora a inteligência disponível não tivesse estabelecido uma relação operacional entre o regime iraquiano e a Al-Qaeda. Investigações posteriores do próprio governo americano reforçaram essa distinção.

O resultado foi uma mudança importante na natureza da justificativa para a guerra. O Iraque deixou de ser apresentado apenas como um regime que violava resoluções internacionais e passou a ser enquadrado como parte de uma ameaça mais ampla associada ao terrorismo pós-11 de Setembro. Essa construção facilitou politicamente a transformação de uma política de contenção e mudança de regime em uma intervenção militar destinada a derrubar Saddam Hussein.

Existe, porém, um dos paradoxos mais importantes de toda a Guerra do Iraque. Depois da invasão, o país que não havia sido demonstrado como parceiro operacional da Al-Qaeda tornou-se um dos principais ambientes de atuação do jihadismo internacional. A desarticulação das instituições estatais, a insurgência, a violência sectária e a ausência de um aparato de segurança capaz de controlar o território criaram condições para que grupos jihadistas se estabelecessem e ampliassem sua influência.

Abu Musab al-Zarqawi e sua organização exploraram precisamente esse ambiente. A partir do território iraquiano, a Al-Qaeda no Iraque transformou a violência sectária em instrumento de mobilização e recrutamento, atacando não apenas as forças americanas, mas também civis e comunidades xiitas. A organização procurava provocar uma guerra interna que impedisse a estabilização do país e ampliasse o espaço para o jihadismo.

A ironia estratégica é que a presença jihadista que se consolidou no Iraque depois de 2003 não existia, antes da invasão, nos mesmos termos em que passou a existir durante a guerra. Isso não significa que a invasão tenha sido a única causa de sua ascensão, a dinâmica sectária iraquiana, a guerra civil síria e outros fatores regionais também foram decisivos, mas a intervenção criou um ambiente no qual organizações jihadistas encontraram espaço para se reorganizar, recrutar e expandir.

Por isso, a posterior transformação do Iraque em um grande teatro do jihadismo não pode ser utilizada para confirmar retroativamente a justificativa da invasão. O que ocorreu foi justamente o inverso: uma guerra iniciada sob o argumento de neutralizar uma combinação de ameaças acabou contribuindo para criar, dentro do próprio país invadido, um dos ambientes mais importantes para a expansão do jihadismo internacional na década seguinte.

Da Al-Qaeda no Iraque ao Estado Islâmico

A trajetória iniciada com a insurgência jihadista no Iraque não terminou com a morte de Abu Musab al-Zarqawi em junho de 2006. Sua organização passou por sucessivas reorganizações e mudanças de liderança, mantendo a estrutura jihadista criada durante os anos de guerra. O grupo passou a ser conhecido como Estado Islâmico do Iraque e continuou explorando a fragilidade das instituições iraquianas, a violência sectária e a dificuldade do governo de recuperar o controle sobre todo o território.

A retirada gradual das forças americanas não significou o encerramento do problema. A partir de 2011, a situação tornou-se ainda mais complexa com a guerra civil na Síria. A fronteira entre os dois países deixou de funcionar como uma barreira efetiva para organizações armadas, permitindo que o grupo estabelecesse redes de financiamento, recrutamento e operações em ambos os lados. Em 2013, a organização passou a utilizar a denominação Estado Islâmico do Iraque e do Levante, refletindo justamente essa expansão territorial.

A guerra síria ofereceu ao grupo condições que o Iraque isoladamente dificilmente poderia proporcionar. O colapso de estruturas estatais em extensas áreas da Síria, a multiplicação de grupos armados e a disputa entre forças do governo, oposição e organizações jihadistas criaram um ambiente no qual o Estado Islâmico conseguiu ampliar seu território, obter recursos e desenvolver uma estrutura militar muito mais sofisticada. O grupo deixou de atuar apenas como uma organização insurgente e passou a buscar o controle direto de território, cidades, infraestrutura e populações.

O ponto de ruptura ocorreu em junho de 2014, quando o Estado Islâmico capturou Mossul, segunda maior cidade do Iraque, e avançou rapidamente por outras áreas do norte e oeste do país. A ofensiva revelou a fragilidade das forças de segurança iraquianas reconstruídas depois de 2003. Unidades numericamente superiores abandonaram posições, grandes quantidades de armamentos foram capturadas e o grupo passou a controlar uma extensa faixa territorial entre Iraque e Síria.

A queda de Mossul teve consequências muito maiores do que a perda de uma cidade. O Estado Islâmico passou a administrar território, controlar recursos, cobrar impostos, explorar instalações e impor sua própria estrutura de governo. Em junho de 2014, Abu Bakr al-Baghdadi anunciou a criação de um “califado”, apresentando a organização não mais apenas como uma força insurgente, mas como uma entidade política e militar com pretensão territorial transnacional.

A dimensão da ameaça obrigou os Estados Unidos a retornar militarmente ao Iraque. Em agosto de 2014, Washington iniciou ataques aéreos contra posições do Estado Islâmico e, posteriormente, ampliou sua participação na coalizão internacional formada para combater a organização. O objetivo americano agora era novamente impedir que uma ameaça jihadista consolidasse controle territorial no Iraque, mas o adversário era completamente diferente daquele que Washington havia apresentado como ameaça em 2003.

A sequência histórica revela uma das contradições mais importantes da intervenção. Os Estados Unidos entraram no Iraque em 2003 para derrubar Saddam Hussein e neutralizar uma ameaça que Washington associava a armas de destruição em massa e terrorismo. Onze anos depois, precisaram voltar ao mesmo país para conduzir uma nova campanha militar contra uma organização jihadista que havia crescido em meio à fragmentação política, à violência sectária e ao enfraquecimento das instituições estatais produzidos ao longo do período posterior à invasão.

Isso não significa atribuir exclusivamente aos Estados Unidos a criação do Estado Islâmico. A guerra civil síria, as políticas dos governos iraquianos posteriores, a marginalização de segmentos da população sunita, a atuação de outros Estados regionais, a violência sectária e as próprias decisões estratégicas dos grupos jihadistas foram determinantes para sua ascensão. Reduzir esse processo a uma única causa seria historicamente inadequado.

Também seria inadequado, porém, separar completamente o surgimento do Estado Islâmico da ruptura produzida no Iraque depois de 2003. A dissolução das instituições de segurança, a insurgência, a radicalização sectária e a incapacidade inicial do novo Estado de recuperar o monopólio da força formaram parte do ambiente no qual a Al-Qaeda no Iraque se consolidou. A guerra da Síria posteriormente ampliou esse espaço, transformando uma insurgência originalmente iraquiana em uma organização transnacional.

O percurso de Zarqawi ao Estado Islâmico demonstra, portanto, como as consequências de uma intervenção militar podem ultrapassar em muito o objetivo inicial da operação. A derrubada de Saddam encerrou um regime, mas abriu uma sequência de disputas políticas, sectárias e militares que atravessou mais de uma década, ultrapassou as fronteiras iraquianas e acabou exigindo que os próprios Estados Unidos retornassem ao teatro de operações que haviam deixado.

A mudança do equilíbrio regional e a ascensão da influência iraniana

Talvez a consequência geopolítica mais profunda da guerra tenha ocorrido fora do campo de batalha propriamente dito: a alteração do equilíbrio de poder entre Bagdá e Teerã. Antes de 2003, o Iraque de Saddam Hussein, apesar de suas próprias fragilidades econômicas e militares após duas guerras e anos de sanções, permanecia como um importante contrapeso regional ao Irã. A Guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, havia transformado os dois países em adversários estratégicos, com centenas de milhares de mortos e efeitos que se estenderam por todo o Golfo. A existência de um Iraque militarmente relevante impunha a Teerã um limite concreto à sua projeção de poder para oeste.

A derrubada de Saddam eliminou esse obstáculo. A intervenção americana não apenas retirou do poder um regime hostil a Washington, mas também destruiu a estrutura estatal que havia mantido o Iraque como uma potência capaz de disputar espaço regional com o Irã. Estudos posteriores sobre o conflito apontam que a invasão abriu uma oportunidade estratégica para Teerã, ao transferir o centro de gravidade político iraquiano para forças que haviam sido perseguidas pelo regime baathista e que, em muitos casos, mantinham vínculos históricos com o Irã.

Esse processo não ocorreu simplesmente porque o Irã “ocupou” o espaço deixado pelos Estados Unidos. A nova ordem política iraquiana foi construída sobre uma sociedade complexa, na qual partidos xiitas, forças curdas, grupos sunitas, nacionalistas e diferentes correntes políticas disputavam poder e recursos. Muitos dos grupos que passaram a exercer influência em Bagdá possuíam relações anteriores com Teerã, inclusive por terem encontrado no Irã apoio ou refúgio durante o governo de Saddam. A influência iraniana cresceu, portanto, por meio de uma combinação de relações políticas, religiosas, econômicas e de segurança, e não por controle direto sobre o Estado iraquiano.

Essa distinção é importante porque o Iraque não se tornou um simples instrumento da política externa iraniana. Há fortes identidades nacionais e árabes próprias, interesses econômicos divergentes e correntes políticas xiitas que também rejeitam a interferência de Teerã. As manifestações iraquianas de 2019, por exemplo, expressaram críticas tanto ao sistema político interno quanto à influência iraniana e às milícias associadas a ela. O resultado foi um relacionamento assimétrico: Teerã conquistou instrumentos de influência muito mais amplos do que possuía antes de 2003, mas continuou enfrentando resistência e competição dentro do próprio Iraque.

O componente militar tornou essa transformação ainda mais relevante. Durante os anos de ocupação americana, o Irã ampliou o apoio a organizações armadas xiitas que combateram as forças dos Estados Unidos e, posteriormente, tiveram papel importante na luta contra o Estado Islâmico. Entre essas estruturas estavam grupos que mais tarde integrariam as Forças de Mobilização Popular, conhecidas como PMF ou Hashd al-Shaabi. A mobilização contra o Estado Islâmico deu a essas organizações maior legitimidade doméstica e experiência militar, enquanto algumas delas preservaram vínculos estreitos com Teerã.

A incorporação das Forças de Mobilização Popular à arquitetura estatal iraquiana acrescentou uma camada adicional de complexidade. A existência de uma estrutura legalmente vinculada ao Estado não eliminou as diferenças entre suas organizações integrantes, algumas das quais mantêm relações políticas, ideológicas e estratégicas particularmente próximas do Irã. Dessa forma, o Iraque passou a administrar um sistema de segurança no qual o Estado possui forças militares regulares, mas também convive com organizações armadas de diferentes níveis de autonomia e influência política.

O resultado estratégico para Washington foi particularmente contraditório. Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 para remover Saddam Hussein e remodelar o ambiente de segurança regional. Ao fazê-lo, porém, eliminaram justamente o Estado que durante décadas havia funcionado como um dos principais contrapesos militares de Teerã no mundo árabe. A consequência não foi uma transferência automática de soberania iraquiana para o Irã, mas a criação de um ambiente político, econômico e militar no qual a influência iraniana passou a ser significativamente maior do que antes da invasão.

Sob essa perspectiva, a guerra produziu uma das ironias estratégicas mais relevantes de todo o pós-2003: uma intervenção conduzida pelos Estados Unidos para reorganizar o equilíbrio de segurança do Oriente Médio terminou enfraquecendo um adversário histórico do Irã e ampliando o espaço de manobra de Teerã dentro do próprio Iraque. Não se trata de afirmar que essa tenha sido a intenção americana, mas de reconhecer uma consequência concreta da destruição do antigo equilíbrio regional.

O custo humano, financeiro e institucional

O custo da guerra do Iraque não pode ser medido apenas pelo número de militares americanos mortos ou pelo dinheiro desembolsado por Washington. A intervenção desencadeou uma sequência de conflitos que produziu mortes civis em grande escala, deslocamentos populacionais, destruição de infraestrutura, interrupções de serviços públicos e perdas econômicas que ultrapassaram em muito o período da invasão e da ocupação inicial. Parte desses efeitos também se prolongou durante a guerra contra o Estado Islâmico e a instabilidade regional decorrente da guerra civil na Síria.

Uma das estimativas mais amplas é a do projeto Costs of War, da Brown University. Em estudo publicado em 2023, a instituição estimou entre 550 mil e 580 mil mortes relacionadas aos conflitos no Iraque e na Síria entre 2003 e 2023. A metodologia inclui mortes diretas de combatentes e civis e considera que outras pessoas podem ter morrido posteriormente por causas indiretas relacionadas à guerra, como doenças evitáveis. O mesmo estudo calculou em aproximadamente US$ 1,79 trilhão os custos orçamentários americanos acumulados até 2023, chegando a cerca de US$ 2,89 trilhões quando incluídas as obrigações futuras relacionadas principalmente ao atendimento e aos benefícios destinados aos veteranos.

Esses números devem ser lidos como estimativas, e não como um balanço definitivo. A quantidade de mortos varia significativamente conforme a metodologia utilizada, especialmente quando se tenta contabilizar mortes indiretas provocadas pela destruição de hospitais, sistemas de abastecimento, saneamento, energia, alimentação e outras estruturas essenciais. O ponto central, entretanto, permanece: a dimensão humana da guerra não se resume às baixas registradas nos campos de batalha. Milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas durante os diferentes ciclos de conflito, enquanto comunidades inteiras sofreram perda de moradia, emprego, serviços públicos e segurança.

A destruição também criou um problema que não desaparece quando os combates terminam. O Banco Mundial documentou que a reconstrução iraquiana avançou de forma desigual e, em vários setores, lentamente. No sistema elétrico, por exemplo, a capacidade de geração levou quase oito anos para atingir uma meta inicialmente prevista para meados de 2004, enquanto a recuperação de serviços essenciais permaneceu limitada em diferentes regiões.

A situação voltou a se agravar com a guerra contra o Estado Islâmico. Nas áreas que estiveram sob controle da organização, escolas, hospitais, estradas, pontes, redes de água e outros serviços foram destruídos ou severamente danificados. Uma avaliação do Banco Mundial apontou que, entre 2014 e 2017, cerca de 3,2 milhões de iraquianos foram deslocados internamente e que, em sete províncias diretamente afetadas, apenas 38% da infraestrutura escolar permanecia sem danos, enquanto 18% havia sido completamente destruída. As necessidades de reconstrução e recuperação apenas para a educação nessas áreas foram estimadas em US$ 4,6 bilhões.

Mas existe uma dimensão ainda mais difícil de contabilizar: a perda de capacidade institucional. Uma ponte destruída pode receber um orçamento de reconstrução, uma escola pode ser novamente construída e uma instalação militar pode ser recuperada. Já uma cadeia de comando militar, um serviço de inteligência, uma polícia profissional, uma burocracia pública eficiente ou a confiança da população no Estado não podem ser simplesmente reconstruídos com concreto, equipamentos e dinheiro.

Esse problema foi particularmente relevante no Iraque porque a guerra não apenas destruiu infraestrutura física, mas também alterou profundamente as instituições responsáveis por administrar o país. A dissolução das forças armadas e de outras estruturas de segurança após a queda de Saddam, combinada à desestruturação de setores da administração pública, criou lacunas que precisaram ser preenchidas em meio à insurgência e à violência sectária. A reconstrução posterior passou, portanto, a ter de enfrentar simultaneamente problemas de segurança, governança, prestação de serviços e legitimidade política.

O resultado foi um ciclo difícil de interromper: instituições enfraquecidas tinham maior dificuldade para garantir segurança e serviços; a ausência desses serviços alimentava a insatisfação da população; a insegurança dificultava investimentos e reconstrução; e a fragilidade econômica e política ampliava o espaço para grupos armados e redes de influência não estatais. O Banco Mundial observa que conflitos prolongados no Iraque também fragmentaram relações entre comunidades e enfraqueceram a confiança entre população e Estado, tornando a reconstrução uma questão de coesão social, e não apenas de infraestrutura.

É nesse ponto que o custo da guerra ultrapassa a contabilidade financeira. Os Estados Unidos conseguiram mobilizar recursos suficientes para derrubar o regime de Saddam e manter uma extensa presença militar durante anos, mas a transformação de uma vitória militar em um Estado iraquiano estável exigia tempo, instituições legítimas, segurança e continuidade política. A experiência demonstrou que destruir rapidamente a estrutura de um regime é uma tarefa muito diferente de reconstruir, em condições de guerra, um Estado capaz de exercer autoridade sobre seu território e prestar serviços à sua população.

O legado institucional da guerra, portanto, não está apenas no que foi destruído, mas também no tempo necessário para recuperar aquilo que não pode ser comprado rapidamente: capacidade administrativa, confiança pública, previsibilidade política e o monopólio estatal legítimo da força. É justamente essa dimensão menos visível do conflito que ajuda a explicar por que os efeitos de 2003 continuam presentes muito depois do fim das grandes operações militares.

A morte de Saddam não resolveu o problema iraquiano

A captura de Saddam Hussein, em dezembro de 2003, e sua posterior execução, em 30 de dezembro de 2006, produziram um dos momentos mais simbólicos da guerra. O homem que havia governado o Iraque por quase três décadas estava morto, e o regime que havia dominado o país desde 1968 havia sido definitivamente desmontado. Mas a eliminação do principal personagem do antigo sistema não significou a eliminação dos problemas que haviam levado o Iraque à ruptura.

Saddam foi condenado à morte pelo Tribunal Superior Iraquiano no processo relacionado aos crimes cometidos em Dujail, onde 148 homens e adolescentes foram executados após uma tentativa de assassinato contra o então presidente, em 1982. Seu histórico de repressão era amplo e documentado, incluindo crimes contra curdos, xiitas e opositores políticos. A responsabilização dos integrantes do antigo regime era, portanto, uma questão legítima de justiça e de preservação da memória das vítimas. O problema esteve na forma como esse processo foi conduzido.

A Human Rights Watch, que havia defendido durante anos a responsabilização dos responsáveis pelos crimes do regime baathista, apontou graves deficiências no julgamento de Dujail, incluindo problemas na apresentação de provas à defesa, restrições ao direito de questionar testemunhas, interferência política e dúvidas sobre a independência do tribunal. A organização também criticou a execução de Saddam após um processo que, em sua avaliação, não havia cumprido garantias fundamentais de um julgamento justo.

A controvérsia jurídica, porém, é apenas uma parte da questão. Do ponto de vista estratégico, Saddam representava muito mais do que um indivíduo. Seu regime havia construído durante décadas uma estrutura política, militar e de segurança baseada no Partido Baath, nas forças armadas, nos serviços de inteligência e em mecanismos de repressão. A derrubada desse sistema deixou de imediato uma pergunta que a execução de seu antigo líder não poderia responder: quem teria autoridade suficiente para ocupar o espaço deixado pelo Estado anterior?

O Iraque passou a enfrentar justamente essa disputa. A nova ordem precisava construir instituições políticas legítimas, reorganizar as forças de segurança, integrar comunidades que haviam sido marginalizadas ou perseguidas, estabelecer novas relações entre governo central e regiões e, principalmente, definir quem teria autoridade sobre o emprego da força. A morte de Saddam encerrou sua trajetória política, mas não resolveu nenhuma dessas questões.

Isso ajuda a explicar uma das contradições centrais do pós-2003. A coalizão conseguiu destruir rapidamente o aparelho militar do regime e retirar Saddam do poder, mas a construção de um Estado capaz de exercer autoridade sobre todo o território exigiu décadas e permaneceu incompleta em diferentes aspectos. O problema deixou de ser simplesmente quem governava o Iraque e passou a ser como o Iraque seria governado e quem teria capacidade efetiva de fazer cumprir as decisões desse Estado.

O monopólio estatal da força continua sendo um desafio

Essa questão permanece particularmente relevante em 2026, justamente quando a presença militar americana no Iraque chega ao fim. Um Estado soberano não depende apenas de reconhecimento internacional ou da existência formal de um governo. Também precisa ter capacidade efetiva de controlar seu território, organizar suas forças de segurança e determinar, por meio de instituições legítimas, quando e como a força militar pode ser empregada.

O Iraque reconstruiu suas Forças Armadas, polícia e demais estruturas de segurança depois de 2003. Entretanto, a guerra contra o Estado Islâmico criou outro fenômeno: a expansão das Forças de Mobilização Popular, as PMF ou Hashd al-Shaabi, formadas em 2014 a partir de diferentes grupos armados para apoiar o Estado iraquiano contra o avanço do grupo jihadista. Em 2016, o Parlamento iraquiano aprovou legislação reconhecendo as PMF como uma formação militar independente integrante das Forças Armadas e subordinada ao primeiro-ministro.

Essa formalização resolveu apenas parte do problema. As PMF não constituem uma organização homogênea: reúnem grupos com origens, agendas e vínculos políticos distintos. Algumas formações possuem relações particularmente estreitas com o Irã e mantiveram capacidade militar, política e econômica própria. Isso criou uma situação peculiar em que organizações armadas passaram a fazer parte formal da arquitetura de segurança do Estado, mas nem todas possuem o mesmo grau de alinhamento político ou operacional com Bagdá. Relatórios da ONU já destacavam a necessidade de fortalecer o controle governamental e a supervisão democrática sobre essas estruturas.

A questão tornou-se ainda mais evidente em 2026. O governo iraquiano enfrenta pressão para avançar sobre o desarmamento ou a subordinação efetiva de grupos armados ligados ao ambiente pró-Irã, enquanto algumas dessas organizações resistem à entrega de suas capacidades militares. A Reuters relatou em setembro que grupos integrantes da chamada Resistência Islâmica no Iraque, alguns estreitamente alinhados a Teerã, contestavam os esforços de desarmamento e mantinham estruturas militares significativas.

Isso coloca a retirada americana diante de uma realidade diferente daquela existente em 2003. O desafio atual não é mais derrubar um regime e ocupar a capital, mas verificar se o Estado iraquiano consegue exercer sozinho a autoridade que a ocupação estrangeira não conseguiu consolidar plenamente. A questão central deixa de ser quantos soldados americanos permanecem no país e passa a ser quem possui, de fato, capacidade de decidir o emprego da força dentro do território iraquiano.

Essa diferença é fundamental. Ter Exército, Força Aérea, polícia e unidades especiais não significa automaticamente possuir um monopólio estatal efetivo da força. O verdadeiro teste está na capacidade do governo de impedir que organizações armadas utilizem recursos militares, mísseis, drones ou redes de segurança em desacordo com as decisões do Estado, ao mesmo tempo em que mantém capacidade suficiente para combater células remanescentes do Estado Islâmico e responder a ameaças externas.

O problema, portanto, não se resume a substituir militares americanos por militares iraquianos. Trata-se de consolidar uma cadeia de autoridade na qual as diferentes capacidades armadas existentes no país respondam, em última instância, ao Estado iraquiano. É uma questão de soberania, comando e controle, e também de legitimidade política.

Sob essa perspectiva, a morte de Saddam em 2006 e a retirada americana em 2026 representam dois momentos muito diferentes da mesma história. O primeiro encerrou definitivamente o antigo regime; o segundo testa se a ordem criada depois dele é capaz de se sustentar sem a presença militar americana. Entre esses dois acontecimentos está o principal desafio deixado por 2003: construir um Estado que não dependa de um homem para governar, de uma potência estrangeira para garantir sua segurança ou de organizações armadas paralelas para exercer poder dentro de seu próprio território.

A retirada americana e o teste da soberania

A retirada americana de 2026 encerra a presença militar associada à longa missão dos Estados Unidos no Iraque, mas não significa o fim da relação entre Washington e Bagdá. Cooperação em inteligência, treinamento, manutenção, aquisição de equipamentos e intercâmbio militar pode continuar por meio de acordos bilaterais, agora sem a mesma presença operacional permanente.

Para o Iraque, a mudança possui um significado político e estratégico direto. Depois de mais de duas décadas de presença militar estrangeira, a segurança do país passa a depender predominantemente das próprias instituições iraquianas. O governo de Bagdá terá de demonstrar que consegue administrar seu território, proteger suas estruturas críticas e responder às ameaças sem depender de uma força americana permanentemente instalada.

Essa tarefa ocorre em um ambiente muito diferente daquele existente antes de 2003. O Iraque precisa conciliar a presença de diferentes organizações armadas, a influência iraniana, a modernização de suas Forças Armadas, a necessidade de desenvolver capacidades próprias de inteligência, vigilância, defesa aérea e comando e controle, além da ameaça residual representada pelo Estado Islâmico.

Durante anos, as forças iraquianas receberam treinamento, inteligência, apoio aéreo e assistência operacional da coalizão. Parte dessas capacidades foi nacionalizada e incorporada às estruturas iraquianas, mas a retirada reduz uma camada externa de apoio que esteve presente durante boa parte da reconstrução militar do país.

É nesse ponto que a saída americana precisa ser observada. Não se trata apenas de retirar tropas ou transferir instalações, mas de verificar se o Estado iraquiano adquiriu capacidade suficiente para sustentar sozinho a arquitetura de segurança construída desde 2003. A soberania deixa de ser apenas uma condição jurídica e passa a ser medida pela capacidade efetiva de tomar decisões, controlar o território e fazer cumprir essas decisões.

O balanço estratégico de 23 anos

O Iraque de 2026 é profundamente diferente daquele de 2003. Saddam Hussein morreu, o Partido Baath deixou de controlar o Estado, as Forças Armadas foram reconstruídas, o sistema político tornou-se formalmente plural e o Estado Islâmico perdeu o território que chegou a controlar.

Essa transformação, entretanto, teve um custo extraordinário. O país atravessou ciclos sucessivos de ocupação, insurgência, violência sectária, terrorismo e reconstrução. Milhões de pessoas foram deslocadas ao longo dos diferentes conflitos, centenas de milhares morreram segundo diferentes estimativas e a infraestrutura estatal sofreu danos que exigiram anos de recuperação. Para os Estados Unidos, os custos financeiros chegaram à casa dos trilhões de dólares quando consideradas as despesas de guerra e os compromissos futuros relacionados aos veteranos.

O impacto também foi geopolítico. A queda de Saddam eliminou um importante contrapeso regional ao Irã, abriu espaço para o crescimento da influência iraniana no Iraque e contribuiu para uma nova configuração política e de segurança no Oriente Médio. Paralelamente, a desestruturação do Estado iraquiano favoreceu o ambiente no qual surgiram a insurgência jihadista, a Al-Qaeda no Iraque e, posteriormente, o Estado Islâmico.

Isso não significa que toda a trajetória posterior tenha sido determinada pela invasão americana. A guerra civil síria, as decisões dos governos iraquianos, as disputas entre comunidades, a atuação do Irã, a fragilidade das instituições e as próprias estratégias dos grupos jihadistas tiveram papéis decisivos. O que 2003 fez foi alterar profundamente o ambiente no qual esses fatores passaram a atuar.

Essa distinção é importante porque permite avaliar a guerra sem transformar todos os acontecimentos posteriores em uma relação automática de causa e efeito. A invasão não explica sozinha a crise iraquiana, mas criou condições estruturais que ajudaram a moldar grande parte dela.

A principal questão estratégica deixada pela experiência iraquiana está justamente na diferença entre conquistar e transformar. A campanha militar demonstrou a capacidade americana de destruir rapidamente o aparato convencional de um Estado. A ocupação mostrou que essa superioridade não garantia a reconstrução de instituições, a formação de legitimidade política ou a consolidação do monopólio estatal da força.

Foi nessa transição que surgiram algumas das consequências mais duradouras da guerra. A ruptura institucional alimentou a insurgência; a violência sectária abriu espaço para organizações jihadistas; o combate ao Estado Islâmico fortaleceu estruturas armadas que posteriormente passaram a integrar o sistema de segurança iraquiano; e a queda de Saddam modificou o equilíbrio regional em favor de Teerã.

Sérgio Vieira de Mello permanece como um dos símbolos mais expressivos desse período. O diplomata brasileiro foi enviado ao Iraque para trabalhar na reconstrução política e institucional do país e morreu em agosto de 2003, no atentado contra a sede das Nações Unidas em Bagdá. Sua morte, apenas quatro meses após a invasão, expôs de maneira brutal a distância entre a derrota do antigo regime e a construção de uma ordem política estável.

Vinte e três anos depois, os Estados Unidos deixam o Iraque e transferem novamente ao governo de Bagdá a responsabilidade central pela segurança do país. A retirada representa, portanto, o encerramento de uma etapa militar, mas também o início de uma fase em que as instituições iraquianas precisarão demonstrar, sem o mesmo nível de suporte externo, a capacidade que adquiriram ao longo de duas décadas.

O teste será concreto: preservar o controle territorial, manter forças de segurança funcionais, impedir que organizações armadas atuem à margem das decisões do Estado, conter ameaças jihadistas residuais e equilibrar as relações com Washington, Teerã e os demais atores regionais.

O futuro do Iraque dependerá menos da presença ou ausência de uma potência estrangeira do que da capacidade de Bagdá de transformar suas instituições militares e políticas em instrumentos efetivos de soberania. Esse processo ainda não está concluído.

A retirada americana encerra a presença militar iniciada em 2003. O que vem depois definirá se o Iraque conseguiu, finalmente, transformar a intervenção, a guerra e duas décadas de reconstrução em um Estado capaz de sustentar sozinho sua própria segurança e sua soberania.


Por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

Míssil não identificado em unidade russa levanta suspeita de origem chinesa

0 comentários

 

Imagens divulgadas pela televisão estatal russa durante um exercício militar na região de Rostov colocaram em evidência um sistema portátil de defesa antiaérea que não corresponde claramente aos principais MANPADS conhecidos em serviço nas Forças Armadas da Rússia. O armamento, associado nas imagens ao nome “Iva”, foi observado com uma unidade móvel de defesa antiaérea da 51ª Divisão de Defesa Aérea.

A identificação do sistema ainda não foi oficialmente esclarecida. Análises realizadas a partir das imagens apontam semelhanças externas com os MANPADS chineses da família QW, especialmente os modelos QW-18A e QW-19. Também foi levantada a possibilidade de se tratar de um sistema iraniano da família Misagh, cuja arquitetura possui relação com projetos chineses.

A comparação visual, entretanto, exige cautela. O formato do tubo lançador, do conjunto de guiagem e de componentes próximos à seção dianteira apresenta características que podem aproximar o equipamento de diferentes sistemas derivados da mesma linha tecnológica. Uma análise publicada nesta segunda-feira apontou inclusive que determinados elementos visíveis no equipamento russo parecem mais compatíveis com os sistemas chineses QW do que com o Misagh-3 iraniano.

O aparecimento do equipamento ganha relevância pelo contexto de rápida expansão do emprego de equipes móveis de defesa antiaérea na Rússia. A guerra na Ucrânia transformou os MANPADS em uma ferramenta empregada não apenas contra aeronaves e helicópteros, mas também dentro de uma arquitetura de defesa de ponto destinada a enfrentar drones de diferentes categorias.

Esse emprego tornou-se particularmente importante na proteção de infraestrutura crítica. Ataques ucranianos contra instalações energéticas e industriais russas vêm exigindo a criação de camadas adicionais de defesa em torno de áreas que não podem ser protegidas exclusivamente por sistemas de maior alcance. Em ataques recentes contra a região de Moscou, por exemplo, equipes móveis equipadas com sistemas lançados do ombro foram registradas tentando interceptar drones.

A própria escala da ameaça explica parte dessa mudança. Em 28 de setembro, o Ministério da Defesa russo afirmou ter interceptado ou destruído 254 drones ucranianos durante uma única noite em diferentes regiões do país, incluindo Rostov, Moscou e outras áreas estratégicas. Independentemente da verificação independente desses números, a frequência dos ataques tornou a defesa contra VANTs uma necessidade permanente para a estrutura russa de defesa aérea.

Nesse cenário, a eventual presença de um MANPADS estrangeiro na estrutura russa desperta uma questão que vai além da identificação do armamento: qual teria sido sua origem e finalidade?

A Rússia possui capacidade própria para produzir sistemas portáteis de defesa antiaérea. O 9K333 Verba, por exemplo, representa uma evolução da família russa de MANPADS e emprega um sistema de guiagem infravermelho de múltiplas bandas. Portanto, a aparição de um equipamento visualmente semelhante a modelos chineses não permite concluir, por si só, que exista uma deficiência na produção doméstica russa ou uma dependência de fornecedores estrangeiros.

Entre as possibilidades está a utilização do equipamento para avaliação técnica, testes comparativos, treinamento, desenvolvimento de contramedidas ou simplesmente como parte de uma cadeia de fornecimento que ainda não foi esclarecida publicamente. Também não pode ser descartada, apenas com base nas imagens, a hipótese de que se trate de um projeto russo ou de uma variante não divulgada anteriormente.

A hipótese chinesa, contudo, ganha contexto diante da crescente circulação de sistemas derivados da família QW. Em julho, a Reuters informou que o Irã negociou a aquisição de entre 300 e 400 sistemas MANPADS chineses, incluindo QW-12 e FN-16, em um acordo estimado entre US$ 60 milhões e US$ 70 milhões. Segundo as fontes ouvidas pela agência, os primeiros sistemas deveriam ser entregues ao Irã em semanas. China e Paquistão contestaram aspectos das informações sobre a operação.

A relação tecnológica entre os sistemas também merece atenção. Os MANPADS iranianos da família Misagh possuem forte influência da arquitetura chinesa, criando uma dificuldade adicional para a identificação exclusivamente por aparência. Um equipamento observado na Rússia pode, portanto, apresentar características comuns a uma cadeia tecnológica que envolve diferentes países e gerações de sistemas.

Isso torna prematuro estabelecer uma ligação direta entre o acordo sino-iraniano e o equipamento observado em Rostov. Não há, nas informações disponíveis até o momento, evidência pública que demonstre que o sistema tenha sido transferido do Irã para a Rússia, tampouco que tenha sido adquirido diretamente da China.

O episódio, porém, revela uma dimensão mais ampla da evolução da guerra aérea. A proliferação de drones de baixo custo e a capacidade de empregá-los em grandes quantidades estão pressionando as forças armadas a combinar radares, guerra eletrônica, armas de cano, interceptadores não tripulados e mísseis de curto alcance em uma mesma arquitetura de defesa.

Nesse ambiente, um MANPADS portátil continua tendo uma função relevante justamente pela mobilidade e pela possibilidade de distribuir pequenas equipes de defesa por áreas extensas. Ao mesmo tempo, seu emprego contra VANTs possui limitações, especialmente quando o alvo opera fora do envelope de engajamento ou quando a quantidade de drones supera a capacidade de resposta das equipes móveis. A experiência russa recente demonstra que a defesa contra drones exige mais do que simplesmente ampliar o número de mísseis disponíveis.

A identificação do sistema “Iva” passa, portanto, a ser uma questão de interesse não apenas para determinar se a Rússia incorporou um MANPADS chinês, iraniano ou outro modelo, mas também para compreender como Moscou está adaptando sua defesa aérea à realidade de uma guerra marcada pela presença massiva de sistemas não tripulados.

Por enquanto, as imagens permitem afirmar apenas que um MANPADS de origem não esclarecida foi observado com uma unidade russa em Rostov e que suas características visuais apresentam semelhanças com sistemas chineses e iranianos. A confirmação de sua origem dependerá de informações adicionais ou de uma identificação oficial. Até lá, a hipótese chinesa permanece uma possibilidade tecnicamente plausível, mas ainda não comprovada.



GBN Defense - A informação começa aqui


Continue Lendo...
 

GBN Defense - A informação começa aqui Copyright © 2012 Template Designed by BTDesigner · Powered by Blogger