Fragatas FDI, submarinos, sistemas autônomos, inteligência artificial e defesa contra drones compõem a estratégia da empresa francesa para as futuras forças navais. A versão ampliada da FDI foi um dos destaques da feira, abrindo novas perspectivas para o debate sobre a renovação da Esquadra brasileira e o aproveitamento da capacidade industrial nacional.
A evolução dos conflitos navais está modificando a maneira como as marinhas planejam suas forças e definem os requisitos de seus navios. A disseminação de drones, os ataques de saturação, a crescente importância da guerra eletrônica e a necessidade de operar em ambientes sujeitos a ameaças simultâneas exigem plataformas mais versáteis, capazes de integrar sensores, armamentos e sistemas não tripulados em uma mesma arquitetura de combate.
Foi diante desse cenário que a Naval Group apresentou, durante a Euronaval 2026, realizada em Paris entre 3 e 6 de novembro, seu portfólio de navios, submarinos, sistemas e serviços voltados às operações de alta intensidade. A exposição reuniu plataformas já em serviço, projetos contratados e soluções ainda em desenvolvimento, demonstrando como a indústria naval procura responder à transformação do ambiente operacional.
A proposta da empresa francesa parte de uma premissa: o navio de guerra do futuro não poderá ser avaliado apenas por seu deslocamento, velocidade ou quantidade de armamentos. Sua capacidade de sobreviver e cumprir missões dependerá também da qualidade dos sensores, da velocidade de processamento das informações, da integração com outros meios e da possibilidade de empregar sistemas autônomos em diferentes áreas de operação.
Entre os destaques estiveram as famílias de fragatas FDI e corvetas Gowind, os submarinos Scorpène e Blacksword Barracuda, o sistema de autodefesa Rampart e o conceito de navio SCX26. A empresa também apresentou sua visão para a formação de frotas híbridas, nas quais navios e submarinos operam em conjunto com drones aéreos, de superfície e submersos.
FDI: uma plataforma em evolução para operações de alta intensidade
A fragata FDI ocupou posição de destaque na apresentação. Desenvolvida para reunir capacidades de guerra antiaérea, antissubmarino e antissuperfície, a classe foi concebida para operar em ambientes complexos, integrando sensores e armamentos em um sistema de combate capaz de coordenar diferentes respostas diante das ameaças.
A plataforma combina radar multifuncional, sistemas de guerra eletrônica, sensores eletro-ópticos e sonar, além de armamentos destinados ao enfrentamento de ameaças aéreas, de superfície e submarinas. Sua arquitetura também permite a integração de sistemas não tripulados, ampliando as possibilidades de emprego em missões de reconhecimento, vigilância e apoio às operações navais.
Um dos anúncios mais interessantes da Euronaval foi a apresentação de uma versão ampliada da FDI, com aproximadamente 131 metros de comprimento e deslocamento próximo de 5.400 toneladas. A configuração incorpora uma seção adicional de quase nove metros no casco, elevando o deslocamento em aproximadamente 800 toneladas em relação à versão original.
O espaço adicional amplia as possibilidades de configuração dos armamentos e equipamentos de missão. Entre as alternativas apresentadas estão lançadores adicionais de mísseis antinavio Exocet, células verticais para mísseis antiaéreos e opções de integração de armamentos de maior alcance. O volume também pode acomodar equipamentos para operações especiais, sistemas de controle de drones e módulos de missão.
É importante observar que essas configurações representam possibilidades de evolução do projeto, não uma configuração contratada ou já incorporada por alguma marinha. A proposta demonstra, entretanto, a flexibilidade da arquitetura da FDI e a intenção da Naval Group de oferecer uma plataforma capaz de acompanhar requisitos operacionais mais exigentes.
Essa evolução também reflete uma tendência da construção naval militar: ampliar a capacidade de combate de uma família de navios por meio de modificações estruturais e modulares, evitando que cada mudança de requisito exija necessariamente o desenvolvimento de uma nova classe.
Gowind: versatilidade e cooperação industrial
Na categoria das corvetas, a Naval Group apresentou a família Gowind, projetada para missões de defesa naval, proteção de águas jurisdicionais e segurança marítima. A plataforma integra sensores e armamentos por meio do sistema de gerenciamento de combate SETIS, desenvolvido pela própria empresa, e permite diferentes configurações conforme as necessidades de cada operador.
A Gowind foi selecionada por diferentes marinhas, somando 11 unidades escolhidas, segundo a fabricante. Um aspecto importante de sua trajetória é a construção local adotada em alguns programas, associada à transferência de tecnologia e à participação de empresas dos países compradores.
Esse modelo demonstra que a exportação de navios de combate pode ir além do fornecimento de uma plataforma pronta. A cooperação industrial permite desenvolver fornecedores, capacitar profissionais e criar competências nacionais que permanecem disponíveis após a entrega das embarcações.
Submarinos: Scorpène e Blacksword Barracuda
No segmento submarino, a Naval Group destacou duas famílias com características distintas. O Scorpène, submarino convencional multimissão, foi desenvolvido para operações antissuperfície e antissubmarino, coleta de informações e apoio a operações especiais. Sua combinação de discrição, sensores e armamentos permite atuar em diferentes cenários de guerra submarina.
A família possui uma relação direta com o Brasil por meio do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que viabilizou a construção de quatro unidades convencionais no país, com transferência de tecnologia e desenvolvimento de competências industriais em Itaguaí.
Já o Blacksword Barracuda representa uma proposta de submarino convencional de longo alcance e elevada autonomia, incorporando soluções derivadas da experiência da Naval Group com a família Barracuda. Entre seus principais diferenciais estão as baterias de íons de lítio, concebidas para ampliar a permanência submersa e oferecer maior flexibilidade operacional.
Em 2024, os Países Baixos encomendaram quatro unidades para seu programa de substituição de submarinos. A primeira entrega está prevista para 2033, o que posiciona o Blacksword como um programa contratado, mas ainda em desenvolvimento.
Frotas híbridas: navios e drones operando em conjunto
A integração de sistemas não tripulados foi um dos eixos centrais da apresentação. A Naval Group trabalha com soluções para o emprego de drones em missões de reconhecimento, vigilância, guerra de minas e guerra antissubmarino, procurando estabelecer uma arquitetura na qual diferentes plataformas possam compartilhar informações e atuar de maneira coordenada.
O conceito de frota híbrida apresentado pela empresa não se refere à propulsão dos navios, mas à combinação entre meios tripulados e não tripulados. Nesse modelo, drones aéreos, veículos de superfície e sistemas submersos podem ampliar o alcance dos sensores, executar tarefas específicas e complementar as capacidades dos navios e submarinos.
A efetividade dessa arquitetura, entretanto, depende de fatores que vão além da disponibilidade dos veículos. Comunicações seguras, interoperabilidade, autonomia, resistência à guerra eletrônica e integração com os sistemas de comando e controle serão determinantes para que os diferentes meios possam operar de maneira coordenada.
A proposta também exige atenção à vulnerabilidade das redes. Em um conflito de alta intensidade, a perda ou degradação das comunicações pode comprometer a coordenação entre plataformas. Por isso, a autonomia dos sistemas e a capacidade de continuar operando sob interferência eletrônica são requisitos tão importantes quanto o desempenho físico dos drones.
SCX26: o navio como centro de operações autônomas
A visão de futuro da Naval Group ganhou expressão no SCX26, conceito de navio de combate apresentado como projeto de pesquisa para explorar as necessidades das próximas gerações de forças navais.
Com aproximadamente 170 metros de comprimento e deslocamento estimado entre 8 mil e 10 mil toneladas, o conceito foi desenvolvido em torno do emprego de sistemas não tripulados. Sua arquitetura prevê um espaço de missão destinado ao lançamento, recolhimento, manutenção e apoio a diferentes tipos de drones.
A proposta é que o navio funcione não apenas como plataforma de combate, mas também como centro de coordenação de uma força híbrida, capaz de distribuir sistemas autônomos para missões de reconhecimento, guerra eletrônica, proteção e operações antissubmarino.
O SCX26 reúne soluções já conhecidas e tecnologias que ainda dependem de desenvolvimento. Entre os recursos explorados estão sensores avançados, grande capacidade de lançamento vertical de mísseis e sistemas de armas de nova geração.
O projeto permanece conceitual. Sua apresentação não significa que a Naval Group tenha iniciado a construção de uma nova classe ou que exista uma encomenda para sua produção. O interesse está na exploração de uma arquitetura que procura antecipar como os navios poderão atuar em forças navais cada vez mais distribuídas e dependentes da integração entre diferentes plataformas.
Rampart e a defesa contra drones
A expansão dos ataques com drones tornou a proteção das embarcações uma preocupação crescente. Sistemas não tripulados relativamente baratos podem obrigar navios sofisticados a empregar armamentos de custo elevado, criando um desequilíbrio econômico e operacional que exige novas respostas.
Nesse campo, a Naval Group apresentou o Rampart, sistema de autodefesa de curto alcance desenvolvido para enfrentar ameaças assimétricas, incluindo veículos não tripulados. Apresentado inicialmente como conceito em 2024, o projeto passou por um processo acelerado de desenvolvimento financiado pela própria empresa.
A proposta utiliza uma arquitetura aberta e escalável, com recursos destinados a apoiar a identificação e o enfrentamento de diferentes ameaças. A intenção é oferecer uma solução que possa acompanhar a evolução dos vetores de ataque e ser adaptada às características das plataformas protegidas.
A inteligência artificial também integra essa estratégia. Em 2025, a Naval Group adquiriu uma participação de 20% na cortAIx Factory France, estrutura da Thales dedicada ao desenvolvimento de inteligência artificial para sistemas críticos.
A aplicação desses recursos pode acelerar a análise de informações e apoiar a tomada de decisões em ambientes nos quais o volume de dados e a velocidade dos ataques pressionam as equipes de combate. A tecnologia, contudo, precisa ser acompanhada de testes, validação operacional e mecanismos de supervisão compatíveis com a criticidade das decisões envolvidas.
Modernização e disponibilidade operacional
A apresentação também contemplou soluções de modernização para navios de superfície, submarinos e embarcações logísticas. Em operações prolongadas, a disponibilidade dos meios torna-se tão importante quanto a incorporação de novas plataformas.
A atualização de sensores, sistemas de combate e equipamentos de missão permite prolongar a vida útil das embarcações e preservar capacidades enquanto novos navios são construídos. Essa abordagem também procura adaptar os ciclos de manutenção às exigências de frotas submetidas a maior intensidade de emprego.
O tema tem relevância para marinhas que precisam equilibrar a renovação de suas forças com restrições orçamentárias e limitações industriais. A modernização planejada, associada à manutenção e à gestão do ciclo de vida, pode evitar que plataformas ainda úteis percam capacidade operacional por falta de atualização ou suporte.
Oportunidades para o Brasil: capacidade de combate e continuidade industrial
A apresentação da Naval Group na Euronaval 2026 oferece elementos importantes para o debate sobre o futuro da Marinha do Brasil. A relação construída no PROSUB demonstra que a cooperação com a indústria francesa já produziu resultados concretos em transferência de tecnologia, formação de profissionais e desenvolvimento de capacidade industrial em território nacional.
Mas as oportunidades não se limitam ao segmento submarino. A evolução da FDI, especialmente sua configuração ampliada, merece ser acompanhada como uma possível alternativa para complementar o processo de renovação da força de superfície brasileira.
O Programa Fragatas Classe Tamandaré representa um passo importante nessa direção. A primeira unidade já foi incorporada à Esquadra e a Marinha mantém o planejamento de um segundo lote de quatro navios, cuja viabilização depende da continuidade das etapas contratuais.
Uma eventual aquisição de FDI não precisaria substituir ou interromper esse programa. Poderia ser estudada como uma segunda linha de escoltas, com maior porte e capacidade de combate, acrescentando à Esquadra recursos mais robustos para determinadas missões, especialmente no campo da defesa antiaérea e da proteção de forças-tarefa.
A combinação de diferentes classes permitiria distribuir melhor as tarefas operacionais, ampliando o número de meios disponíveis e evitando concentrar todas as necessidades da Marinha em uma única plataforma. Naturalmente, essa decisão exigiria uma análise de custos, logística, treinamento, armamentos, interoperabilidade e sustentabilidade ao longo de todo o ciclo de vida.
Há também uma dimensão industrial que merece atenção. A Itaguaí Construções Navais, criada no contexto do PROSUB, acumulou experiência na construção e manutenção de submarinos. Em 28 de outubro, a EMGEPRON divulgou um memorando de entendimentos firmado com a ICN para estudar oportunidades conjuntas em construção, conversão, modernização, manutenção, reparação e extensão da vida útil de embarcações desenvolvidas pela empresa ou por seus parceiros.
Esse entendimento não representa um contrato para construção, tampouco comprova que a estrutura de Itaguaí esteja imediatamente preparada para receber uma nova linha de produção. Abre, entretanto, uma perspectiva para avaliar a ampliação das atividades da ICN e o aproveitamento de competências já desenvolvidas no Brasil.
Uma eventual participação da ICN em um programa de construção de navios de superfície poderia contribuir para manter demanda industrial, preservar mão de obra especializada, ampliar a participação de fornecedores brasileiros e dar continuidade ao conhecimento acumulado durante o PROSUB. Para isso, seriam necessários estudos de viabilidade, adaptações de infraestrutura, definição do conteúdo local e um modelo consistente de transferência de tecnologia.
A mesma lógica se aplica às tecnologias apresentadas na feira. Sistemas não tripulados, defesa contra drones, sensores, inteligência artificial e modernização de plataformas são áreas nas quais a indústria brasileira poderia buscar participação, seja por meio de integração local, desenvolvimento conjunto ou fornecimento de componentes e soluções.
A Euronaval 2026 mostrou que a transformação do combate naval não está restrita à criação de novos navios. Ela envolve a capacidade de conectar plataformas, distribuir sensores, integrar sistemas autônomos e manter os meios disponíveis diante de ameaças cada vez mais complexas.
Para o Brasil, o desafio é transformar essas tendências em planejamento de longo prazo. A continuidade das Tamandaré, a avaliação de uma segunda classe de fragatas, o aproveitamento da estrutura industrial de Itaguaí e a incorporação gradual de novas tecnologias precisam ser considerados dentro de uma mesma estratégia.
A experiência acumulada com a França oferece uma base para essa discussão. O próximo passo é avaliar como essa cooperação pode contribuir não apenas para fornecer novos meios à Marinha, mas também para ampliar a capacidade nacional de projetar, construir, integrar e sustentar os sistemas que comporão o Poder Naval brasileiro nas próximas décadas.
por Angelo Nicolaci
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