Duzentos anos depois de estabelecerem as bases formais de sua relação bilateral, Brasil e França mantêm uma parceria que ultrapassa há muito os limites da diplomacia. O vínculo construído desde 1826 envolve hoje submarinos, helicópteros, exercícios militares, indústria de Defesa, ciência, tecnologia, espaço e uma fronteira terrestre de aproximadamente 730 quilômetros entre o Amapá e a Guiana Francesa. O que começou como uma relação entre dois Estados transformou-se, ao longo de dois séculos, em uma conexão que também produz capacidades industriais, conhecimento e presença estratégica.
O marco formal dessa trajetória está no "Tratado de Amizade, Navegação e Comércio" assinado no Rio de Janeiro em 8 de janeiro de 1826. O documento estabeleceu bases para as relações políticas, comerciais e de navegação entre o Império do Brasil e o Reino da França, consolidando o relacionamento bilateral em um período no qual o Brasil ainda estruturava sua posição internacional após a Independência.
A aproximação, entretanto, já vinha de antes. Em 1816, a "Missão Artística Francesa" chegou ao Brasil levando artistas, arquitetos e intelectuais que exerceriam influência duradoura sobre a formação cultural e artística brasileira. Essa presença seria posteriormente ampliada para áreas como educação, ciência e formação institucional.
Ao longo do século XX, a relação incorporou novas dimensões. No século XXI, Defesa, tecnologia, indústria, espaço, energia e desenvolvimento sustentável passaram a ocupar posição crescente na agenda bilateral. A parceria estratégica estabelecida em 2006 consolidou um relacionamento que atualmente alcança setores nos quais domínio tecnológico e capacidade industrial possuem valor direto para a autonomia dos dois países.
A simbologia dos 200 anos também esteve presente na chegada do novo embaixador da França ao Brasil. Ao apresentar as cópias figuradas de suas cartas credenciais, Julien Steimer recebeu como referência histórica a carta de credenciamento do Marquês Ernest de Cadoine de Gabriac, nomeado representante da França junto ao Imperador do Brasil em 1826. Datado de 19 de setembro daquele ano, o documento expressava a intenção de estreitar os laços e preservar a “perfeita harmonia” entre os dois países. Dois séculos depois, o gesto diplomático estabelece uma ligação direta entre o início da representação francesa no Brasil e a relação estratégica construída atualmente.
É na área de Defesa, porém, que essa transformação se torna particularmente visível.
A cooperação entre as Forças Armadas brasileira e francesas não se resume à aquisição de equipamentos. Exercícios combinados criam oportunidades para o intercâmbio de procedimentos, doutrinas e experiências operacionais em diferentes ambientes. Em 2026, a Operação Jeanne d’Arc reuniu cerca de 1.700 militares brasileiros e franceses no litoral do Rio de Janeiro, integrando meios navais, aeronavais e tropas anfíbias em atividades conduzidas na região da Marambaia.
A dinâmica também se estende a exercícios realizados em território brasileiro e francês, aproximando unidades que precisam operar em ambientes multinacionais e coordenar comunicações, logística, comando e procedimentos de emprego. Essa experiência é particularmente relevante para forças que participam de operações combinadas e para países que buscam ampliar sua capacidade de atuação além de seus próprios teatros de operações.
A cooperação ganha uma dimensão ainda mais singular quando se considera a geografia. Brasil e França possuem uma fronteira terrestre comum de aproximadamente 730 quilômetros, entre o estado do Amapá e a Guiana Francesa. É a maior fronteira terrestre do território francês e faz da França o único país europeu a possuir uma fronteira terrestre com o Brasil.
Essa condição diferencia a relação Brasil–França de qualquer outra parceria do Brasil com uma potência europeia. Os dois países não estão apenas ligados por tratados, comércio e pelo Atlântico: seus territórios se encontram fisicamente na Amazônia, separados pelo rio Oiapoque. A proximidade coloca diante de Brasília e Paris questões concretas relacionadas à segurança de fronteira, circulação de pessoas e mercadorias, migração, proteção ambiental, combate a ilícitos e desenvolvimento regional.
A presença francesa na Guiana acrescenta ainda uma dimensão de Defesa a essa vizinhança. A França mantém território e estruturas militares na América do Sul, enquanto o Brasil possui no Amapá uma área diretamente inserida no contexto amazônico. Exercícios, intercâmbios e mecanismos de coordenação na região transformam a fronteira em espaço de interação permanente entre os dois países.
A própria infraestrutura evidencia essa proximidade. A Ponte Binacional sobre o Oiapoque conecta o município brasileiro de Oiapoque a Saint-Georges, na Guiana Francesa, criando uma ligação terrestre entre o Brasil e o território francês e ampliando as possibilidades de circulação e integração econômica na região.
Essa aproximação operacional e geográfica se soma a programas estratégicos construídos ao longo das últimas décadas. O principal exemplo é o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB.
Concebido em 2008 a partir da parceria estabelecida entre Brasil e França, o programa envolve a construção de quatro submarinos convencionais derivados da classe Scorpène, a infraestrutura industrial associada e o apoio ao projeto e construção do primeiro submarino brasileiro convencionalmente armado com propulsão nuclear. O programa também estruturou processos de transferência e absorção de tecnologia e formação de pessoal especializado.
Para o Brasil, o aspecto mais relevante do PROSUB não está apenas nos submarinos que entram em serviço. A construção do Complexo Naval de Itaguaí, a formação de profissionais e o domínio de processos associados à construção e manutenção de submarinos criaram uma infraestrutura que permanece no país. Em programas dessa natureza, a plataforma é apenas uma parte do resultado. A capacidade de projetar, construir, manter e evoluir sistemas complexos representa um ativo estratégico que pode continuar produzindo efeitos muito depois da entrega de cada unidade.
A mesma lógica esteve presente no programa H-XBR. A cooperação com a França resultou no desenvolvimento e produção de 47 helicópteros H225M para as Forças Armadas e para a Presidência da República, com participação da Helibras em Itajubá e um programa de transferência e absorção de tecnologia. O projeto foi concebido para ampliar a capacidade brasileira de conceber, desenvolver e produzir helicópteros de médio porte, indo além da simples montagem das aeronaves.
Agora, essa relação industrial pode entrar em uma nova etapa. Em julho de 2025, Brasil e França assinaram uma Carta de Intenções para avaliar a transformação da fábrica da Helibras, em Itajubá, em um polo de produção e exportação do H145. A proposta prevê investimento estimado em R$ 1 bilhão e a possibilidade de produzir até 200 aeronaves em 15 anos para os mercados nacional e internacional. O projeto ainda não representa uma encomenda contratada.
Paralelamente, está em estudo a possível estruturação de um programa para aquisição do H145M pelas Forças Armadas brasileiras, retomando uma lógica semelhante à adotada no H-XBR: associar uma demanda militar a produção nacional, transferência de tecnologia e desenvolvimento de cadeia industrial. A eventual adoção conjunta pelas três Forças poderia contribuir para dar escala à produção em Itajubá, enquanto as exportações ampliariam o mercado da linha brasileira.
Se avançar, a iniciativa poderá aproveitar a infraestrutura e as competências acumuladas pela Helibras ao longo do H-XBR, transformando uma eventual aquisição em instrumento de consolidação da capacidade industrial brasileira.
Esse é um dos pontos centrais da relação bilateral. A aquisição de um sistema militar pode atender a uma necessidade operacional imediata. Um programa estruturado em torno de produção, transferência tecnológica, cadeia de fornecedores e formação de pessoal pode, entretanto, deixar uma infraestrutura de conhecimento que permanece disponível para projetos futuros.
A parceria também avançou em ciência, educação, espaço, energia e desenvolvimento sustentável. O Ano Cultural Brasil–França de 2025, concebido pelos dois governos para marcar os 200 anos da relação diplomática, ampliou a agenda de intercâmbios e projetos bilaterais e foi inserido no novo plano de ação da parceria estratégica assinado em 2024.
No campo científico e tecnológico, a cooperação envolve instituições brasileiras e francesas em diferentes áreas, incluindo observação da Terra e monitoramento ambiental. Em setores estratégicos, a relação passou a incorporar também discussões sobre energia, minerais estratégicos e novas tecnologias, acompanhando uma agenda internacional na qual acesso a recursos, domínio tecnológico e segurança das cadeias de fornecimento ganharam peso crescente.
Para Brasília, a relevância dessa relação está na possibilidade de trabalhar com um parceiro que possui capacidade própria de desenvolvimento e produção em setores estratégicos. Para Paris, o Brasil representa uma potência regional com base industrial, científica e tecnológica relevante, além de uma posição geográfica singular na América do Sul. A relação, portanto, não se sustenta apenas na tradição diplomática: existe uma convergência concreta de interesses em diferentes áreas.
Essa característica ajuda a explicar por que programas como o PROSUB ultrapassam os limites de uma única Força Armada. O projeto reúne Defesa, engenharia, indústria, ciência, formação de pessoal e infraestrutura, demonstrando como um programa militar pode produzir efeitos em diferentes segmentos da economia e da base tecnológica nacional.
O mesmo princípio pode ser observado na trajetória do H-XBR e, em uma escala ainda em definição, na proposta de produção do H145. Em ambos os casos, a dimensão industrial é tão importante quanto o equipamento entregue ao usuário final. O resultado estratégico depende de quanto conhecimento é absorvido, de quais competências permanecem no país e da capacidade de utilizar essa base em novos projetos.
O contexto internacional também mudou profundamente desde 1826. A competição tecnológica, a disputa por cadeias industriais, a proteção de recursos estratégicos e a crescente complexidade dos sistemas militares fizeram com que relações entre Estados passassem a envolver cada vez mais indústria, conhecimento e capacidade de produção.
É nesse ambiente que Brasil e França chegam ao bicentenário. A relação construída desde o Império preservou suas bases diplomáticas, mas incorporou novas dimensões ao longo do tempo. Hoje, seus efeitos podem ser observados no mar, nos estaleiros, nas fábricas, nos centros de pesquisa, no espaço, nos exercícios militares e, de maneira particularmente concreta, na fronteira amazônica que une fisicamente os dois países.
Para o Brasil, o desafio das próximas décadas será transformar essa relação de longo prazo em capacidade nacional. Isso significa avaliar não apenas o que é adquirido, mas também quanto conhecimento é absorvido, quais competências industriais são desenvolvidas, que cadeias de fornecedores são fortalecidas e até onde os programas conjuntos ampliam a capacidade brasileira de projetar, produzir, manter e evoluir sistemas complexos.
Duzentos anos depois do tratado que estabeleceu as bases formais da relação bilateral, Brasil e França já não constroem seus vínculos apenas por meio de representações diplomáticas e acordos comerciais. A parceria também é construída no mar, nos estaleiros, nas fábricas, nos centros de pesquisa, nos exercícios militares e na fronteira do Oiapoque. É nesses espaços que uma relação histórica deixa de ser apenas patrimônio diplomático e passa a produzir capacidade estratégica.
por Angelo Nicolaci
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