terça-feira, 20 de outubro de 2026

Queda do Hawk T2 expõe falhas que vão além da ausência de uma tampa de combustível

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O Hawk T2 da RAF caiu durante voo de teste após incidente anterior; investigação precisa esclarecer como uma possível falha de manutenção atravessou as barreiras de segurança até a decolagem.

A queda de uma aeronave de treinamento Hawk T2 da Força Aérea Real britânica (RAF) em 23 de setembro no País de Gales, levanta questões que vão além da suposta ausência da tampa do tanque de combustível. O acidente que destruiu uma aeronave avaliada em cerca de 20 milhões de libras, aproximadamente R$ 130 milhões, exige uma análise de toda a cadeia de manutenção, inspeção e liberação para voo, especialmente porque a aeronave realizava um teste após um incidente anterior.

Segundo informações publicadas nesta terça-feira (20), investigadores teriam identificado que a aeronave decolou sem a tampa do tanque de combustível devidamente instalada. A informação, entretanto, ainda não foi confirmada publicamente pela RAF, que mantém a investigação em andamento. Por isso, embora a hipótese seja relevante, não é possível afirmar que a ausência da tampa tenha sido, isoladamente, a causa determinante do acidente. 

O contexto anterior à queda torna o caso ainda mais significativo. O Hawk T2 havia se envolvido em outro incidente em 11 de setembro e retornou ao voo em 23 de setembro, quando realizou um voo descrito pela imprensa britânica como um voo de teste após reparos. A investigação precisa esclarecer qual foi o problema original, quais reparações foram executadas e se existia alguma relação entre o primeiro episódio e a perda da aeronave. 

Manutenção e inspeção: onde a segurança deveria ter funcionado

A eventual ausência da tampa de combustível pode parecer uma falha simples, mas sua importância está no que revela sobre os procedimentos de controle. Se a peça foi retirada durante a manutenção e não reinstalada, é necessário determinar quem executou o serviço, como a tarefa foi registrada, quais verificações foram realizadas e quem autorizou a aeronave a voltar a voar.

A segurança aeronáutica depende de camadas sucessivas de prevenção. O mecânico responsável pelo serviço não é necessariamente o único envolvido no processo: inspeções independentes, conferência dos trabalhos concluídos e procedimentos de liberação precisam reduzir a possibilidade de que uma falha individual chegue à operação. A investigação deverá estabelecer quais dessas barreiras eram aplicáveis ao serviço executado no Hawk T2 e se foram cumpridas.

Também é necessário examinar a inspeção externa realizada pela tripulação antes da decolagem. A verificação visual da aeronave integra os procedimentos de preparação para o voo e constitui uma barreira adicional contra problemas identificáveis visivelmente. Isso não significa, porém, que os pilotos tenham sido negligentes. Para chegar a essa conclusão, seria preciso conhecer os procedimentos específicos da RAF para o Hawk T2, as condições da inspeção, a posição e a visibilidade da tampa, além das circunstâncias em que a aeronave foi apresentada à tripulação.

A questão central é compreender se a falha poderia ter sido identificada antes da partida e por que isso não aconteceu. A eventual responsabilidade dos pilotos, da equipe de manutenção ou dos responsáveis pela liberação deve ser determinada com base em evidências, não apenas na constatação de que a aeronave teria decolado sem um componente instalado.

A tampa explica o acidente?

A ausência da tampa pode ter consequências relevantes, mas o mecanismo que levou à queda ainda precisa ser demonstrado. Os investigadores terão de esclarecer se houve vazamento ou derramamento de combustível, se o sistema de alimentação foi afetado e qual foi a relação entre esses fatores e os sinais de anormalidade observados logo após a decolagem.

Vídeos do acidente mostram a aeronave apresentando dificuldades durante a subida, com sinais de fogo antes do impacto. Esse registro ajuda a estabelecer a sequência visível dos acontecimentos, mas não permite, por si só, determinar a origem das chamas nem identificar a falha técnica que comprometeu o voo. Uma eventual falha de motor ou outra anomalia também precisa ser avaliada à luz dos registros técnicos e das evidências materiais. 

A investigação deve, portanto, distinguir três questões: a possível falha de manutenção, o mecanismo técnico que provocou a perda da aeronave e as oportunidades de prevenção que não impediram a decolagem. Elas podem estar relacionadas, mas não são necessariamente a mesma coisa.

O peso adicional de um voo de teste

O fato de o Hawk T2 estar em um voo de teste após reparos amplia a importância dos procedimentos anteriores à decolagem. Esse tipo de missão exige que o trabalho realizado seja compatível com o objetivo do ensaio e que as condições de liberação estejam devidamente verificadas. O histórico do incidente anterior, as intervenções executadas e os critérios usados para autorizar o retorno ao voo são, por isso, elementos essenciais para reconstruir o acidente.

Após a queda, a RAF suspendeu temporariamente as operações com os modelos Hawk T1 e T2 como medida de precaução enquanto a investigação avançava. A decisão demonstra que o episódio foi tratado como uma ocorrência que exigia avaliação de segurança, embora não constitua, por si só, confirmação de uma falha sistêmica na frota.

Os dois tripulantes conseguiram se ejetar e sofreram ferimentos considerados leves. Segundo informações divulgadas pela RAF, ambos apresentavam boa recuperação. Relatos da base também indicaram que a tripulação procurou direcionar a aeronave para uma área aberta, reduzindo o risco para pessoas em solo. 

O episódio evidencia a importância de investigar não apenas o componente que supostamente faltava, mas todo o processo que permitiu que a aeronave chegasse à pista nessas condições. Se a hipótese da tampa ausente for confirmada, será necessário explicar como uma falha potencialmente detectável durante a manutenção, a inspeção final ou a preparação pré-voo atravessou todas essas etapas.

Mais do que apontar um erro individual, o resultado da investigação deverá mostrar onde as barreiras de segurança falharam, quais responsabilidades cabem a cada etapa e que medidas podem evitar a repetição do acidente. Em aviação militar, a confiabilidade não depende de um único profissional ou procedimento, mas da integração entre manutenção, controle de qualidade, liberação técnica e atuação da tripulação.


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Guerra submarina: o desafio do Brasil vai além de construir submarinos

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A superioridade no Atlântico Sul dependerá da capacidade de integrar plataformas, sensores, inteligência e vigilância para proteger as águas brasileiras e a infraestrutura estratégica no fundo do mar.

A evolução da guerra submarina está mudando a forma como as forças navais precisam organizar suas capacidades. Submarinos modernos continuam sendo instrumentos fundamentais de dissuasão, inteligência e ataque, mas seu desempenho individual não garante superioridade em um ambiente no qual sensores, aeronaves, navios de superfície, sistemas não tripulados e redes de informação determinam a capacidade de detectar, acompanhar e responder às ameaças.

Essa é a principal questão levantada pelo contra-almirante Lincoln Reifsteck, da Marinha dos Estados Unidos, em artigo publicado na revista Proceedings, do U.S. Naval Institute. O oficial defende uma abordagem integrada da guerra submarina, na qual diferentes meios operam como componentes de uma mesma estrutura de vigilância, comando e resposta.

A mudança não é apenas conceitual. Ela reflete a evolução das forças submarinas de países como EUA, China e Rússia, o avanço dos sistemas autônomos e a crescente exposição da infraestrutura instalada no leito oceânico. Nesse cenário, a capacidade de reunir informações de diferentes fontes e transformá-las em decisões operacionais passa a ter importância comparável à qualidade das próprias plataformas.

Para o Brasil, que investe na construção de submarinos e no desenvolvimento de uma capacidade industrial própria, essa transformação coloca uma questão estratégica: como converter os avanços na força submarina em uma capacidade mais ampla de consciência situacional e controle do ambiente marítimo no Atlântico Sul?

Da superioridade da plataforma à integração de forças

Durante décadas, a superioridade submarina norte-americana foi sustentada, entre outros fatores, pela vantagem tecnológica e operacional sobre potenciais adversários. O avanço das forças submarinas chinesas, com plataformas convencionais e nucleares cada vez mais capazes, demonstrou que essa vantagem não pode ser considerada permanente.

Reifsteck utiliza a experiência da Força-Tarefa 74, responsável pela guerra submarina no Pacífico Ocidental, para mostrar como a resposta norte-americana evoluiu. A estrutura reúne especialistas em guerra submarina, aeronaves de patrulha marítima P-8A Poseidon, helicópteros MH-60S, navios de superfície, plataformas de vigilância e profissionais de inteligência.

O objetivo é construir uma imagem operacional compartilhada, capaz de combinar dados de diferentes sensores, identificar contatos e acompanhar movimentos adversários. Em vez de depender de uma única plataforma, a força passa a utilizar uma rede de capacidades complementares, coordenadas por uma estrutura de comando e controle.

Essa arquitetura também incorpora aliados e parceiros. O compartilhamento de informações, a coordenação de operações e a utilização complementar de recursos ampliam a cobertura disponível e reduzem a dependência de uma única força naval para monitorar áreas extensas.

A lição central é que a superioridade submarina não se resume ao desempenho acústico, à profundidade operacional, à autonomia ou ao armamento de um submarino. Depende também da qualidade das informações disponíveis, da capacidade de interpretá-las e da rapidez com que diferentes unidades conseguem agir de maneira coordenada.

O fundo do mar como espaço estratégico

A guerra submarina contemporânea também ultrapassa a busca e o combate a submarinos adversários. Cabos de telecomunicações, conexões de energia e gasodutos instalados no leito oceânico integram uma infraestrutura essencial para a economia e a segurança dos Estados.

A interrupção dessas conexões pode produzir consequências econômicas e operacionais sem que seja necessário um confronto naval convencional. A dificuldade de monitorar grandes extensões no fundo do mar, somada à complexidade de atribuir responsabilidade por danos, torna a proteção dessa infraestrutura um desafio militar, diplomático e regulatório.

A resposta exige mais do que submarinos de combate. Sensores fixos e móveis, veículos submarinos não tripulados, sistemas de vigilância marítima, inteligência e mecanismos de cooperação com operadores civis podem contribuir para identificar atividades suspeitas e melhorar a capacidade de resposta.

Isso não significa que toda ocorrência envolvendo cabos ou dutos seja resultado de sabotagem. A distinção entre acidentes, falhas técnicas e ações deliberadas exige investigação e evidências. O desafio militar consiste em ampliar a capacidade de monitoramento e produzir informações confiáveis sem transformar suspeitas em conclusões antecipadas.

Para as forças navais, portanto, o ambiente submarino passa a envolver duas dimensões complementares: a capacidade de enfrentar forças adversárias e a proteção de estruturas cuja vulnerabilidade pode afetar diretamente o funcionamento de um país.

O desafio brasileiro no Atlântico Sul

O Brasil possui uma extensa área marítima de interesse estratégico, com atividades de exploração de petróleo e gás, rotas comerciais e infraestrutura de comunicações submarinas. A proteção desses interesses exige consciência situacional que vá além do acompanhamento de embarcações na superfície.

Nesse contexto, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) representa uma base importante. A iniciativa permitiu ampliar a capacidade brasileira de construção naval militar, incorporar tecnologia e estabelecer infraestrutura especializada em Itaguaí, no Rio de Janeiro. O programa contempla quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo (S-BR, variante do Scorpène francês) e o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, armado convencionalmente.

A propulsão nuclear deverá proporcionar ao futuro submarino maior autonomia e capacidade de permanência submersa, ampliando suas possibilidades operacionais. Essa característica, contudo, não substitui a necessidade de sensores externos, inteligência, comunicações e coordenação com os demais meios da Marinha.

Um submarino pode permanecer submerso por longos períodos, mas sua contribuição para uma operação mais ampla depende das informações disponíveis, das missões atribuídas e da integração com a estrutura de comando. Da mesma forma, aeronaves, navios de superfície e sistemas não tripulados precisam produzir dados que possam ser compartilhados e utilizados de maneira oportuna.

O desafio brasileiro não é reproduzir integralmente a estrutura norte-americana, concebida para necessidades operacionais e recursos diferentes. É identificar quais capacidades são prioritárias para o Atlântico Sul e desenvolver uma arquitetura compatível com a dimensão da área marítima, as ameaças consideradas e os meios efetivamente disponíveis.

Isso envolve avaliar a integração entre vigilância marítima, aviação naval, navios de superfície, força submarina, centros de comando e sistemas de inteligência. Também exige definir como informações provenientes de sensores militares e fontes civis podem contribuir para uma imagem operacional confiável, respeitando as responsabilidades e limitações de cada instituição.

Sistemas não tripulados e autonomia tecnológica

Os veículos submarinos não tripulados acrescentam outra dimensão a essa transformação. Dependendo de sua configuração, esses sistemas podem apoiar missões de inspeção, mapeamento, coleta de dados, vigilância e investigação de áreas de interesse, reduzindo a necessidade de empregar plataformas tripuladas em determinadas tarefas.

Seu valor não está apenas na substituição de meios convencionais, mas na possibilidade de ampliar a frequência e a abrangência das operações. Plataformas menores e mais acessíveis também podem complementar sensores fixos e sistemas tripulados, desde que tenham autonomia adequada, confiabilidade e capacidade de transmitir ou armazenar informações úteis.

Para o Brasil, o desenvolvimento dessas tecnologias pode abrir oportunidades para a indústria nacional de defesa, centros de pesquisa e empresas especializadas em robótica, sensores, comunicações e processamento de dados.

A autonomia tecnológica, porém, não deve ser medida apenas pela fabricação de uma plataforma. Ela depende do domínio dos componentes críticos, dos softwares, da integração dos sensores, da manutenção e da capacidade de adaptar os sistemas às necessidades operacionais brasileiras.

A cooperação internacional pode acelerar esse processo, mas precisa ser acompanhada de escolhas claras sobre quais conhecimentos devem ser desenvolvidos internamente e quais dependências são aceitáveis. Sem essa definição, a aquisição de novos equipamentos corre o risco de ampliar o inventário sem assegurar a capacidade necessária para operá-los e evoluí-los ao longo do tempo.

O fator humano continua decisivo

A integração tecnológica não elimina a importância do treinamento, da doutrina e da experiência operacional. Ao contrário, quanto maior o volume de informações e o número de plataformas envolvidas, maior a necessidade de profissionais capazes de interpretar dados, reconhecer inconsistências e tomar decisões sob pressão.

O argumento de Reifsteck também destaca a cultura operacional das forças submarinas, construída por meio de treinamento rigoroso, disciplina e incentivo à identificação de erros. Sistemas de comando e controle podem acelerar a circulação de informações, mas não substituem o julgamento profissional nem garantem, por si só, que uma informação esteja correta.

Para a Marinha do Brasil, o desenvolvimento de procedimentos conjuntos, exercícios de integração e formação de equipes especializadas será tão importante quanto a incorporação de novos sensores. A capacidade de operar em rede precisa ser praticada antes de uma crise, quando falhas de comunicação, informações incompletas e decisões urgentes podem comprometer o resultado de uma missão.

Essa preparação também deve considerar a cooperação com outras instituições responsáveis pela segurança marítima e pela infraestrutura crítica. A proteção do ambiente submarino envolve competências militares, civis e técnicas que não estão concentradas em uma única organização.

Uma estratégia que precisa conectar os investimentos

O avanço do PROSUB é um componente relevante da capacidade naval brasileira, mas a construção de submarinos deve ser acompanhada por uma visão mais ampla do ambiente em que esses meios serão empregados. O objetivo não é apenas dispor de plataformas modernas, mas garantir que elas façam parte de uma estrutura capaz de detectar ameaças, compartilhar informações e coordenar respostas.

Isso exige prioridades claras para a vigilância do Atlântico Sul, integração entre sensores e centros de comando, avaliação do emprego de sistemas não tripulados e mecanismos de proteção da infraestrutura submarina. Também demanda continuidade orçamentária, desenvolvimento de pessoal e planejamento de longo prazo para evitar que capacidades complementares evoluam de forma isolada.

A experiência norte-americana apresentada por Reifsteck oferece uma referência para esse debate, mas não uma fórmula pronta. As dimensões, os recursos e as responsabilidades estratégicas brasileiras são diferentes, e a arquitetura necessária deve refletir essas particularidades.

A questão de fundo é como conectar os investimentos já realizados e os programas em desenvolvimento a uma capacidade coerente de vigilância, dissuasão e resposta. O desafio do Brasil não termina na construção de submarinos: está em integrar esses meios a um sistema capaz de proteger seus interesses no Atlântico Sul e responder às ameaças que podem surgir tanto na superfície quanto nas profundezas da nossa "Amazônia Azul".


por Angelo Nicolaci


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Editorial - "Defesa Nacional: entre a ambição estratégica e a realidade orçamentária"

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A construção de capacidades de defesa exige planejamento de longo prazo, continuidade dos investimentos e compromisso com a indústria nacional. No cenário das disputas eleitorais e restrições fiscais, o desafio brasileiro é transformar objetivos estratégicos em poder efetivo, sem subordinar a soberania às prioridades de cada governo.

A discussão sobre Defesa Nacional precisa ir além da aquisição de equipamentos e dos números apresentados a cada ciclo orçamentário. O verdadeiro desafio está em construir capacidades de defesa que atendam às necessidades do Brasil, evoluam diante das mudanças tecnológicas e permaneçam operacionais ao longo de décadas. Isso exige planejamento, financiamento compatível com as ambições estratégicas e continuidade das decisões, independentemente de quem esteja à frente do governo.

O desenvolvimento de um submarino, por exemplo, não se resume à construção de um casco e à instalação de seus sistemas. Para ampliar sua contribuição à vigilância da "Amazônia Azul", é necessário considerar sensores, enlaces de comunicação, sistemas de comando e controle, manutenção e treinamento das tripulações. A integração desses recursos transforma uma plataforma naval em parte de uma estrutura mais ampla de monitoramento e resposta. O mesmo princípio se aplica a aeronaves, blindados, sistemas de defesa antiaérea e meios de vigilância terrestre: o valor militar está na capacidade entregue, não apenas no equipamento adquirido.

Essa perspectiva também evidencia a importância de uma base industrial capaz de desenvolver, produzir, integrar e sustentar tecnologias estratégicas. Empresas nacionais, centros de pesquisa e instituições militares formam um ecossistema que reúne engenharia, mão de obra especializada, conhecimento acumulado e capacidade de inovação. Os efeitos ultrapassam o campo de defesa, alcançando áreas como materiais avançados, eletrônica, comunicações, automação e sistemas de controle. Entretanto, esse potencial não se consolida apenas com anúncios de encomendas ou contratos assinados. Depende de demanda previsível, financiamento regular e perspectivas concretas de continuidade.

Quando os recursos previstos não chegam no momento necessário, as consequências alcançam toda a cadeia produtiva. Fornecedores precisam rever seus planos, equipes especializadas ficam expostas à desmobilização, etapas de desenvolvimento são adiadas e os cronogramas perdem confiabilidade. A retomada pode exigir novas negociações, recomposição de equipes e custos adicionais. Em programas de longa maturação, a interrupção não representa apenas um atraso administrativo: pode significar a perda de competências que levaram anos para serem construídas.

É nesse ponto que a discussão orçamentária deixa de ser uma questão restrita à administração pública e passa a integrar o próprio planejamento estratégico nacional. Não basta definir quais capacidades o Brasil deseja possuir; é necessário estabelecer como serão financiadas, em que prazos serão entregues e quais recursos permitirão mantê-las atualizadas. A distância entre a ambição declarada e o orçamento efetivamente executado pode comprometer tanto a prontidão das Forças Armadas quanto a credibilidade do país como contratante.

A proximidade de um novo ciclo político torna essa reflexão ainda mais necessária. Na disputa pelo poder, candidatos de diferentes correntes multiplicam promessas de benefícios e medidas de forte apelo popular, mas raramente dão o mesmo destaque à conta que essas iniciativas deixarão para o Estado. Quando a realidade fiscal se impõe, investimentos estratégicos acabam sacrificados para acomodar despesas e compromissos políticos, como se a modernização das Forças Armadas, a reposição de meios e o desenvolvimento de capacidades de defesa fossem despesas que pudessem esperar indefinidamente. Não são. São necessidades permanentes de um Estado que pretende proteger seu território, seus recursos, seus interesses e principalmente, seu povo. O problema é que, tratados como adiáveis a cada ajuste orçamentário, esses investimentos acumulam atrasos, restringem a capacidade operacional e ampliam vulnerabilidades que não desaparecem quando o dinheiro acaba. O paradoxo é conhecido: enquanto os recursos são disputados para sustentar promessas eleitorais, a Defesa perde prioridade; quando uma crise expõe a insuficiência de meios, tecnologia ou prontidão, cobra-se das Forças Armadas uma resposta que o próprio Estado deixou de financiar adequadamente. A soberania não pode ser lembrada apenas quando a crise chega, nem a Defesa pode continuar pagando a conta de promessas eleitorais assistencialistas cujas consequências recaem sobre a capacidade do Brasil de proteger a si mesmo.

Não se trata de atribuir à Defesa um orçamento ilimitado ou de colocá-la acima das demais necessidades nacionais. Educação, saúde, infraestrutura e proteção social são componentes essenciais do desenvolvimento brasileiro. A questão é assegurar que as decisões fiscais considerem a Defesa como uma função permanente do Estado, cujo planejamento não pode ser reconstruído a cada eleição. A compatibilização entre as diferentes prioridades exige escolhas transparentes, metas verificáveis e uma avaliação rigorosa dos resultados obtidos com o dinheiro público.

Isso significa, também, cobrar eficiência. Programas estratégicos precisam ter objetivos claros, cronogramas realistas, mecanismos de fiscalização e indicadores que permitam verificar a evolução das entregas. A previsibilidade orçamentária deve estar associada à capacidade de execução e à prestação de contas. Proteger um programa contra mudanças arbitrárias não significa eliminar o controle público, mas evitar que decisões de curto prazo comprometam investimentos cuja maturação depende de continuidade.

O Brasil precisa, portanto, alinhar sua visão de soberania aos meios necessários para sustentá-la. Se pretende ampliar a vigilância de seu espaço marítimo, fortalecer a proteção de infraestruturas críticas, modernizar suas Forças Armadas e consolidar uma indústria de defesa competitiva, deverá tratar essas iniciativas como compromissos de Estado, com prioridades definidas e recursos compatíveis com os objetivos estabelecidos.

A soberania não se materializa em discursos, intenções ou listas de equipamentos planejados. Ela depende de capacidades disponíveis, pessoal preparado, tecnologia dominada e estruturas capazes de operar e evoluir ao longo do tempo. Para isso, o Brasil precisa superar a lógica de anunciar grandes projetos sem assegurar as condições para concluí-los.

Governos passam, mas as necessidades estratégicas do Brasil permanecem. O desafio não é proteger programas por princípio, nem garantir recursos sem exigir resultados. É construir uma política de Defesa na qual planejamento, responsabilidade fiscal, continuidade dos investimentos e desenvolvimento industrial caminhem juntos. Afinal, a ambição estratégica de uma nação só se torna poder efetivo quando existe compromisso para financiá-la e capacidade para transformá-la em realidade.

por Angelo Nicolaci


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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Ucrânia realiza primeira evacuação aeromédica de ferido por drone na linha de frente

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Operação inédita, segundo os militares ucranianos, utilizou um hexacóptero pesado adaptado para retirar um soldado de uma posição inacessível por terra

As Forças Armadas da Ucrânia anunciaram a realização da primeira evacuação aeromédica de um militar ferido diretamente da linha de frente por um drone. A operação foi conduzida por especialistas da 92ª Brigada de Assalto Separada, em coordenação com a fabricante Gurzuf Defence e outras unidades ucranianas.

O militar, integrante da 30ª Brigada Mecanizada Separada, estava em uma posição onde a retirada por terra oferecia riscos elevados. A presença de minas e drones russos impedia uma aproximação segura, levando os ucranianos a recorrer a uma plataforma aérea não tripulada para realizar o resgate.

A aeronave utilizada foi um hexacóptero pesado originalmente empregado como plataforma de ataque. O equipamento foi adaptado para transportar uma pessoa, com modificações destinadas a manter a estabilidade durante o voo. A configuração passou por testes antes de ser utilizada na operação.

A missão contou com a participação de especialistas da brigada e da fabricante, enquanto um operador da 30ª Brigada Mecanizada pilotou o equipamento. Segundo as informações divulgadas pelos militares ucranianos, o ferido sobreviveu e segue em tratamento e reabilitação.

A localização e a data exata da operação não foram divulgadas. Também não foram apresentados detalhes técnicos completos sobre o sistema de fixação do paciente ou as condições do voo.

Uma nova etapa para a evacuação médica militar

A operação foi apresentada pelas forças ucranianas como a primeira do gênero realizada diretamente da linha de frente. Embora a alegação de pioneirismo mundial ainda careça de confirmação independente, o episódio representa um novo emprego operacional de drones pesados no atendimento a baixas em combate.

A utilização dessas aeronaves amplia as opções de resgate em áreas onde veículos terrestres e equipes médicas ficam expostos ao fogo inimigo. A experiência ucraniana também demonstra como plataformas originalmente destinadas a outras funções podem ser adaptadas para apoiar as tropas.

A aplicação, contudo, exige cuidados específicos. A estabilidade da aeronave, a segurança do paciente, a autonomia, as condições meteorológicas e a vulnerabilidade à guerra eletrônica influenciam a viabilidade desse tipo de operação.

O caso amplia o horizonte de emprego dos sistemas não tripulados no campo de batalha, incorporando a retirada de feridos às missões de ataque, reconhecimento e transporte logístico.


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ATMOS avança: Exército prevê assinar contrato do lote piloto em 27 de outubro

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O Exército Brasileiro prevê assinar em 27 de outubro o contrato para a aquisição de dois obuseiros autopropulsados ATMOS 2000, de 155 mm, fabricados pela israelense Elbit Systems. As duas unidades formarão o lote piloto de um programa que prevê a aquisição de 36 sistemas de artilharia.

O GBN Defense está buscando informações junto ao Exército Brasileiro e à AEL Sistemas informações sobre a assinatura, os termos da contratação e os próximos passos do programa.

A iniciativa também prevê a participação da Avibras Aeroco na montagem dos obuseiros no Brasil. Um memorando de entendimento firmado com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit no Brasil, estabelece as bases para a participação industrial da empresa de Jacareí (SP).

A montagem local poderá ampliar a atividade industrial da Avibras e abrir espaço para fornecedores brasileiros. O alcance da nacionalização, entretanto, dependerá dos contratos e da definição das atividades que serão efetivamente executadas no País.

O programa também contempla a possibilidade de participação da Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) na produção de munições de 155 mm. A iniciativa poderá fortalecer a cadeia nacional de suprimentos de artilharia e reduzir a dependência de fornecedores externos.

Escolhido pelo Exército em 2024, o ATMOS é um obuseiro autopropulsado sobre rodas, equipado com canhão de 155/52. O sistema combina mobilidade, direção de tiro computadorizada e capacidade de empregar munições de alcance estendido, conforme o tipo de projétil utilizado.

Após a avaliação das duas primeiras unidades, o Exército poderá avançar na aquisição das outras 34 viaturas previstas, conforme os resultados dos testes e as decisões contratuais.


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Caso Starshield expõe vulnerabilidade espacial do Brasil

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Restrições atribuídas à Casa Branca teriam afetado operações militares da Ucrânia com drones. No Brasil, limitações nas comunicações estratégicas e a ausência de capacidade nacional de lançamento orbital reforçam o desafio de ampliar a autonomia espacial.

A guerra na Ucrânia expõe uma vulnerabilidade que ultrapassa o campo de batalha: a dependência de tecnologias estrangeiras para manter capacidades militares essenciais. Segundo reportagem da Reuters, uma ordem atribuída a integrantes da Casa Branca para restringir o serviço Starshield da SpaceX, teria prejudicado operações ucranianas com drones. O episódio serve de alerta para o Brasil, que ainda enfrenta limitações na infraestrutura espacial necessária para atender às demandas de defesa e ampliar sua autonomia tecnológica.

De acordo com dois funcionários norte-americanos e um funcionário ocidental ouvidos pela Reuters, autoridades do Departamento de Defesa receberam uma orientação para limitar o serviço utilizado pelas forças ucranianas. As fontes não identificaram quem tomou a decisão nem quem ficou responsável por executá-la. Um alto funcionário ucraniano afirmou que Kiev foi informada de que a iniciativa partira da Casa Branca.

Um representante do governo norte-americano declarou, por sua vez, que o presidente Donald Trump não havia solicitado a restrição. A Casa Branca não esclareceu se outro integrante do governo determinou a medida.

A controvérsia surgiu em meio à deterioração das relações entre Washington e Kiev, marcada por divergências sobre os ataques ucranianos a refinarias russas e as negociações para encerrar a guerra. Nesse contexto, o acesso a um serviço de comunicação empregado em operações militares tornou-se parte de uma disputa política com consequências operacionais.

Restrições nas comunicações afetam drones ucranianos

Segundo autoridades ucranianas citadas pela Reuters, terminais de comunicação utilizados militarmente deixaram de funcionar quando instalados em plataformas que se deslocavam em alta velocidade. Posteriormente, uma fonte do Ministério da Defesa da Ucrânia informou que os receptores voltaram a operar em movimento, mas com um limite de 160 km/h.

As restrições teriam dificultado missões de ataque contra forças russas e alvos logísticos em territórios ocupados, além de prejudicar o emprego de drones interceptores utilizados contra aeronaves não tripuladas russas do tipo Shahed.

A conexão por satélite pode permitir a transmissão de comandos, o envio de informações e a coordenação entre operadores e unidades militares. Quando esse enlace é limitado, determinadas plataformas podem perder flexibilidade operacional ou precisar recorrer a meios alternativos.

O efeito, entretanto, varia conforme a arquitetura de cada sistema. Nem todos os drones dependem exclusivamente de uma conexão contínua: autonomia embarcada, navegação independente e outros enlaces podem permitir a continuidade de determinadas missões. A reportagem indica dificuldades operacionais, mas não estabelece que toda a frota ucraniana tenha ficado inutilizada.

O episódio demonstra, ainda assim, como uma alteração na disponibilidade de um serviço externo pode repercutir diretamente no emprego de sistemas militares.

Starshield: quem controla a infraestrutura?

Embora compartilhem uma base tecnológica, Starlink e Starshield são serviços distintos. O Starlink é a rede comercial de conectividade por satélite da SpaceX. O Starshield foi desenvolvido para atender a clientes governamentais e de segurança nacional, com aplicações específicas de defesa e inteligência, utilizando a constelação Starlink como infraestrutura de base.

Segundo a Reuters, o Pentágono investiu bilhões de dólares nos serviços Starlink e Starshield e adquiriu satélites dedicados a missões de comunicação e reconhecimento.

Elon Musk afirmou que os sistemas Starshield pertencem ao governo dos Estados Unidos e são controlados por ele. Segundo o empresário, eventuais restrições de velocidade ou utilização cabem aos militares norte-americanos ou ao presidente. A SpaceX não respondeu ao pedido de comentário da Reuters sobre a medida relatada.

A questão estratégica não está apenas na origem da tecnologia, mas nas condições de acesso a ela. Quando um país depende de uma infraestrutura cuja utilização pode ser limitada por decisões tomadas no exterior, parte de sua capacidade operacional fica sujeita a fatores que não controla.

Brasil: limitações nas comunicações estratégicas

A situação brasileira apresenta diferenças importantes em relação à ucraniana, mas revela um desafio semelhante: como garantir a continuidade das comunicações militares quando a infraestrutura disponível é insuficiente ou depende de capacidades externas?

Com dimensões continentais, extensas fronteiras terrestres, a Amazônia e uma vasta área marítima sob jurisdição nacional, o Brasil precisa de comunicações seguras e confiáveis mesmo em regiões remotas, onde as redes terrestres têm cobertura limitada.

O país dispõe do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), lançado em 2017. O equipamento oferece capacidade de comunicação em banda X, destinada às aplicações estratégicas de defesa, e em banda Ka, voltada aos serviços de telecomunicações. Sua existência representa um ativo importante, mas não elimina a necessidade de ampliar a capacidade disponível e estabelecer alternativas para situações de elevada demanda ou indisponibilidade.

A Agência Espacial Brasileira mantém registros de satélites nacionais em operação e de missões desenvolvidas em cooperação internacional. O Brasil, contudo, ainda depende de veículos lançadores estrangeiros para colocar satélites em órbita.

A limitação das comunicações militares foi explicitada em setembro de 2026 pelo brigadeiro do ar Sandro Bernardon, chefe do Centro de Operações Espaciais da Força Aérea Brasileira. Segundo o oficial, a capacidade de comunicações por satélite disponível é insuficiente para as necessidades da defesa. Durante a Operação Atlas, realizada na Amazônia em 2025, a utilização da banda X do SGDC-1 chegou a 97%, conforme as informações divulgadas sobre a operação.

Esse nível de utilização evidencia a pressão sobre um recurso estratégico. Em uma situação de crise, o aumento simultâneo da demanda por diferentes unidades pode exigir capacidade adicional para manter as comunicações e assegurar o fluxo de informações entre os escalões de comando.

O desafio, portanto, não é apenas possuir um satélite, mas contar com capacidade suficiente, redundância e alternativas para preservar as comunicações quando a demanda aumenta ou algum componente deixa de funcionar.

Desenvolvimento nacional e capacidade de lançamento

A experiência ucraniana reforça a importância de investimentos contínuos no Programa Espacial Brasileiro. A ampliação da autonomia exige desenvolver e operar novos satélites, fortalecer a indústria nacional, dominar tecnologias críticas e expandir a infraestrutura terrestre necessária ao controle e à utilização desses sistemas.

Outro componente estratégico é o acesso autônomo ao espaço. O Brasil dispõe de dois centros de lançamento: Alcântara no Maranhão, e Barreira do Inferno no Rio Grande do Norte. Embora o país desenvolva e opere satélites próprios, ainda não conta com um veículo lançador nacional operacional capaz de colocá-los em órbita. O desenvolvimento dessa capacidade permanece um desafio estratégico para ampliar a autonomia espacial brasileira.

Isso não significa que todos os satélites devam ser lançados exclusivamente por foguetes brasileiros. A contratação de serviços estrangeiros pode continuar sendo necessária e vantajosa. A questão é desenvolver uma alternativa nacional que amplie as opções de acesso ao espaço, reduza vulnerabilidades e permita maior controle sobre o planejamento e a reposição de ativos estratégicos.

A continuidade dos investimentos também é essencial para consolidar competências industriais, formar especialistas e garantir que projetos de longo prazo avancem até se transformarem em capacidades efetivamente disponíveis. Interrupções prolongadas podem comprometer a manutenção do conhecimento tecnológico e elevar a dependência de fornecedores externos.

O uso dual amplia o alcance do programa espacial

Os investimentos espaciais não precisam atender exclusivamente às Forças Armadas. Satélites de uso dual podem apoiar comunicações governamentais, monitoramento ambiental, vigilância de fronteiras, acompanhamento marítimo e resposta a desastres, além de cumprir requisitos específicos de defesa.

Essa integração amplia a utilidade dos recursos públicos e contribui para sustentar uma cadeia industrial nacional capaz de desenvolver equipamentos, componentes, sistemas de controle e aplicações. Para isso, os requisitos militares de segurança, disponibilidade e resistência a interferências precisam ser considerados desde a concepção dos projetos.

O objetivo não é eliminar toda dependência internacional, mas assegurar que o Brasil tenha alternativas para manter suas capacidades essenciais quando um fornecedor externo deixar de atender às necessidades nacionais.

Um alerta estratégico para Brasília

O caso ucraniano mostra que a dependência de serviços espaciais estrangeiros pode se transformar em vulnerabilidade operacional quando o acesso à infraestrutura é condicionado por decisões externas. Para o Brasil, as limitações identificadas nas comunicações estratégicas reforçam a importância de tratar o programa espacial como parte integrante da capacidade de defesa.

Ampliar os investimentos em satélites de uso dual, fortalecer a indústria nacional e desenvolver capacidade própria de lançamento orbital são medidas que podem reduzir essa exposição e ampliar a autonomia tecnológica brasileira. Isso exige planejamento de longo prazo, continuidade orçamentária e integração entre as necessidades civis e militares.

Para um país de dimensões continentais, dominar tecnologias espaciais críticas significa ampliar a capacidade de proteger seu território, sustentar operações e preservar a liberdade de ação em situações de crise.


por Angelo Nicolaci


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Exército recebe 13 sistemas DSET para treinamento com o Cascavel

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O Exército Brasileiro recebeu 13 conjuntos de Dispositivos de Simulação de Engajamento Tático (DSET) destinados ao preparo da tropa no emprego da Viatura Blindada de Reconhecimento EE-9 Cascavel. Os equipamentos foram entregues ao Centro de Adestramento-Sul (CA-Sul), em Santa Maria (RS), como parte de um processo coordenado pelo Comando de Operações Terrestres (COTER) para ampliar os recursos de simulação de combate da Força Terrestre.

A entrega incluiu a capacitação de pessoal para instalação e operação dos dispositivos. Durante os testes, os sistemas apresentaram resultados positivos tanto no canhão de 90 mm quanto na metralhadora coaxial do Cascavel, permitindo incorporar os dois armamentos aos exercícios de simulação.

Os DSET são empregados na chamada simulação viva, modalidade de treinamento em que militares e viaturas realizam manobras em terreno real, enquanto sensores, apontadores laser e outros instrumentos reproduzem os engajamentos. A tecnologia permite acompanhar o desempenho da tropa e dos equipamentos, registrando informações sobre a trajetória balística simulada e os impactos nos alvos.

Mais recursos para o adestramento

A utilização dos dispositivos permite repetir exercícios sem as limitações impostas pelo consumo de munição real em cada engajamento simulado. Os militares podem praticar procedimentos de emprego dos armamentos em diferentes situações táticas, enquanto os resultados registrados fornecem subsídios para avaliar o desempenho e identificar pontos que precisam ser aperfeiçoados.

A iniciativa no CA-Sul também abrangeu melhorias em outros recursos de simulação. Foram realizadas atualizações nos equipamentos de engajamento a laser para fuzis e metralhadoras, reparos nos dispositivos de munição simulada para o canhão sem recuo Carl Gustaf de 84 mm e configuração dos sensores e emissores dos carros de combate Leopard 1A5 BR.

As intervenções contemplam, assim, diferentes meios utilizados no adestramento, desde armamentos individuais até viaturas blindadas. A manutenção e a configuração desses equipamentos são importantes para assegurar sua utilização nos exercícios e ampliar as possibilidades de treinamento em diferentes níveis.

A incorporação dos 13 conjuntos DSET para o Cascavel integra o esforço do Exército Brasileiro para fortalecer os recursos de simulação disponíveis à preparação da tropa. Ao combinar manobras reais, representação eletrônica dos engajamentos e registro dos resultados, esses sistemas ampliam as ferramentas de avaliação do adestramento, complementando as atividades com emprego de munição real.


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com Exército Brasileiro

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HARPIA amplia consciência situacional durante exercício de artilharia do Exército em Santa Catarina

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A "Operação Setembrino de Carvalho 2026" levou para o campo, em Santa Catarina, unidades e meios do Exército Brasileiro envolvidos em uma série de atividades de artilharia. Em meio aos disparos, deslocamentos e ações de comando, o Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP) HARPIA, desenvolvido pela brasileira Advanced Technologies Security & Defense (ADTECH-SD), foi empregado para ampliar a consciência situacional das equipes responsáveis pela condução do exercício, transmitindo imagens em tempo real diretamente ao Centro de Comando, apoiando a identificação de alvos.

Realizada no Campo de Instrução Marechal Hermes (CIMH), em Três Barras - SC, a atividade reuniu unidades da 5ª Divisão de Exército em uma campanha voltada ao adestramento e à integração dos diferentes componentes envolvidos no emprego dos fogos. O cenário permitiu colocar à prova não apenas os meios de artilharia, mas também os sistemas responsáveis por fornecer ao comando uma visão mais precisa do que acontece no terreno.

Foi nesse ambiente que o SARP HARPIA entrou em operação. Todo o equipamento e a equipe foram transportados em uma viatura M113 e empregado como elemento de apoio ao centro de comando, transmitindo imagens em tempo real e contribuindo para a aquisição de alvos e para o trabalho do Observador Avançado.

A capacidade de levar a informação do terreno até quem precisa tomar a decisão é particularmente relevante em operações de artilharia. Quanto mais rápido o dado chega ao posto de comando, maior é a possibilidade de acompanhar a evolução da situação e alimentar o processo de planejamento e emprego dos meios.

Durante a "Operação Setembrino de Carvalho", o HARPIA foi utilizado dentro dessa lógica, atuando na obtenção e transmissão de informações sem substituir os demais elementos da cadeia de comando e controle. A solução também possui capacidade para apoiar a correção de tiro de artilharia.

A atividade envolveu diferentes unidades e meios da Artilharia Divisionária da 5ª Divisão de Exército, incluindo grupos de artilharia autopropulsados e de campanha, além de elementos de morteiro pesado e estruturas de comando, observação, direção de tiro, comunicações, topografia, meteorologia e logística.

A presença do HARPIA nesse ambiente mostra uma tendência cada vez mais evidente nas aplicações militares: o valor de um sistema de armas depende também da qualidade e da velocidade das informações que alimentam sua utilização. Sensores, comunicações e processamento de dados passaram a ter papel central na capacidade de transformar o que é observado no terreno em informação útil para o comando.

A atividade contou com a presença do Comandante da 5ª Divisão de Exército, General de Divisão Trovizzo; do Comandante da Artilharia Divisionária da 5ª DE, General de Brigada Assis; do Comandante da 5ª Região Militar, General de Exército Teixeira; do Comandante da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, General de Brigada Brandalise; e do Comandante da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada, General de Brigada Calderaro.

Também acompanharam a atividade comandantes de Organizações Militares do Paraná e de Santa Catarina, incluindo os Generais R/1 Prado, do COMDEFESA FIEP, Hermeson, da AEQ, e Paixão, da EPEX.

Para a ADTECH, o emprego do HARPIA durante a "Operação Setembrino de Carvalho" colocou a solução em um ambiente operacional no qual informação, tempo e consciência situacional estão diretamente relacionados à capacidade de comando. Mais do que apresentar uma tecnologia, a atividade permitiu demonstrar como um sistema nacional de observação e transmissão de dados pode se integrar à dinâmica de uma operação de artilharia e a capacidade da indústria nacional de prover uma solução ITAR-FREE e de excelente custo-benefício.

Sobre a ADTECH-SD

A Advanced Technologies Security & Defense (ADTECH-SD) é uma empresa brasileira reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), com atuação no desenvolvimento de tecnologias voltadas à segurança pública, defesa territorial, vigilância e monitoramento de áreas estratégicas.

Com sede em São José dos Campos (SP), a empresa reúne profissionais com ampla experiência nos setores aeronáutico e de defesa, desenvolvendo sistemas de aeronaves não tripuladas e soluções integradas de vigilância e inteligência. Seu portfólio combina autonomia, modularidade e capacidade de adaptação a diferentes perfis de missão, permitindo o emprego dos sistemas em ambientes operacionais complexos e em atividades que exigem persistência, mobilidade e elevada disponibilidade.

A experiência acumulada pela ADTECH-SD também se traduz na aplicação prática de suas tecnologias em missões de monitoramento e segurança, aproximando o desenvolvimento de seus sistemas das necessidades reais dos operadores. Essa integração entre engenharia, desenvolvimento tecnológico e emprego operacional constitui um dos diferenciais da empresa no mercado brasileiro de defesa e segurança.


Fonte ADTECH-SD via GBN Media Solutions

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Marinha inicia formação de pilotos navais com o novo helicóptero IH-18

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A transição entre duas gerações de helicópteros de instrução da Marinha do Brasil começou a ganhar forma concreta no dia 28 de setembro. Na região de São Pedro da Aldeia (RJ), o 1º Esquadrão de Helicópteros de Instrução (EsqdHI-1) realizou o primeiro voo de instrução com o IH-18, levando ao ar a primeira turma de Oficiais-Alunos a iniciar a formação no novo modelo.

A aeronave N-5104 foi empregada no voo A-1, conduzido pelo Capitão de Corveta Breno, como Instrutor de Pilotagem, e pelo 2º Tenente Wellington Pessoa, na condição de aluno. A atividade marca o início de uma mudança importante na formação dos futuros Aviadores Navais, que passarão a utilizar uma nova plataforma após décadas de emprego do IH-6 Jet Ranger III.

A mudança já havia sido antecipada pelo Contra-Almirante (FN) Alexandre Vasconcelos Tonini, Comandante da Força Aeronaval, em entrevista ao GBN Defense durante o Portões Abertos, realizado em 2 de agosto. Na ocasião, o almirante explicou que os IH-6 estavam formando sua última turma de pilotos e que, a partir de 2027, a instrução seria realizada exclusivamente com o IH-18.

O primeiro voo de setembro materializa essa transição, retirando-a do campo do planejamento para colocá-la na rotina de formação dos novos pilotos.

Uma nova etapa para a instrução naval

Baseado no Airbus H125, o IH-18 (H125M) integra o Projeto TH-X, iniciativa voltada à renovação dos helicópteros empregados na formação de pilotos militares. Sua incorporação exigiu a adaptação de instrutores, alunos e equipes de manutenção à nova aeronave, além da consolidação dos procedimentos necessários à operação.

A preparação começou antes dos primeiros voos com alunos. Em agosto de 2025, o EsqdHI-1 realizou uma atividade de treinamento em simulador MOST (Mission Oriented Simulator Training), voltada ao desenvolvimento de competências como tomada de decisão, comunicação, gerenciamento de riscos e resposta a situações anormais e emergências.

Com o início da instrução em voo, o IH-18 passa a ocupar seu lugar na etapa prática da formação. A substituição do IH-6 não representa apenas a troca de uma aeronave por outra: marca a passagem para uma nova plataforma de ensino, que deverá acompanhar a preparação dos futuros aviadores antes de sua distribuição aos esquadrões operativos.

Os veteranos IH-6 deixam, assim, o centro de uma atividade que sustentaram por décadas. Para a Aviação Naval, o desafio agora é conduzir a transição ampliando a qualidade da formação e garantindo que a nova geração de pilotos chegue aos esquadrões com a base técnica necessária para avançar para aeronaves e missões mais complexas.


por Angelo Nicolaci


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com Marinha do Brasil

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Elbit Systems fecha contrato de US$ 235 milhões para fornecer EXTRA-MR e PULS à cliente europeu

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A Elbit Systems anunciou em 19 de outubro a assinatura de um contrato de aproximadamente US$ 235 milhões para fornecer foguetes guiados EXTRA-MR e sistemas de artilharia de foguetes PULS a um país europeu não identificado. O acordo, estabelecido no modelo governo a governo (G2G), envolve os ministérios da Defesa de Israel e do país comprador, com execução prevista ao longo de três anos.

O contrato contempla o fornecimento do EXTRA-MR, variante de médio alcance da família de foguetes de artilharia da empresa israelense, além dos lançadores PULS, plataformas complementares e suporte logístico integrado. A contratação reúne, portanto, munições, meios de lançamento e serviços de apoio, componentes essenciais para estruturar e sustentar a capacidade operacional do sistema.

EXTRA-MR: precisão a até 80 quilômetros

O EXTRA-MR é uma munição guiada de precisão desenvolvida para engajar alvos de elevado valor em distâncias de até 80 quilômetros, segundo as especificações divulgadas pela fabricante. Com propulsão supersônica, o foguete foi concebido para cenários operacionais de médio alcance, oferecendo uma alternativa para ataques de precisão no âmbito da artilharia terrestre.

A combinação entre alcance e guiamento permite ampliar as possibilidades de emprego contra alvos selecionados, reduzindo a dependência de munições não guiadas em determinadas missões. O desempenho efetivo, contudo, depende das condições de emprego, dos dados de designação dos alvos e da integração com os sistemas de comando e controle disponíveis.

A Elbit informa que o EXTRA-MR é compatível com os lançadores PULS e com arquiteturas de comando, controle, comunicações, computadores e inteligência (C4I) existentes. Essa integração favorece sua incorporação a estruturas operacionais mais amplas, embora a empresa não tenha divulgado detalhes sobre a configuração contratada para o cliente europeu.

PULS: uma arquitetura integrada de fogos terrestres

O Precise and Universal Launching System (PULS) constitui o núcleo da solução contratada. A arquitetura foi concebida para empregar diferentes tipos de munições, permitindo adaptar o conjunto a distintas necessidades operacionais por meio de configurações compatíveis com cada missão.

A inclusão de plataformas complementares e suporte logístico integrado no contrato demonstra que o fornecimento não se limita aos lançadores e foguetes. A sustentação da capacidade ao longo do tempo também faz parte do pacote, embora não tenham sido divulgados os detalhes das plataformas adicionais, os quantitativos de equipamentos ou o volume de munições contratado.

O valor de US$ 235 milhões e o prazo de execução de três anos estabelecem as dimensões financeiras e temporais do acordo, mas a ausência de informações sobre quantidades impede calcular o custo unitário dos lançadores ou das munições.

Mercado europeu e expansão internacional

Para a Elbit Systems, o contrato reforça a presença internacional de suas soluções de artilharia de foguetes. O presidente e diretor-executivo da companhia, Bezhalel Machlis, afirmou que o acordo reflete a crescente demanda internacional por sistemas de lançamento e munições de precisão, destacando a adoção das soluções PULS por clientes europeus e integrantes da OTAN.

A identidade do país comprador não foi divulgada, tampouco foram informados os quantitativos contratados ou o cronograma detalhado das entregas. Assim, não é possível determinar a dimensão exata da nova capacidade que será incorporada pelo cliente.

O acordo evidencia, contudo, a importância atribuída a sistemas que combinam munições guiadas, lançadores e suporte logístico em uma solução integrada. Para as forças terrestres, a capacidade de empregar fogos de precisão a distâncias superiores às dos sistemas convencionais de menor alcance pode ampliar as opções de planejamento e engajamento, desde que acompanhada por sensores, inteligência e estruturas de comando e controle adequadas.

A contratação também reforça a competição internacional no segmento de artilharia de foguetes, no qual alcance, precisão, flexibilidade de emprego e capacidade de sustentação constituem fatores relevantes para a escolha de sistemas. Nesse mercado, o fornecimento de uma solução completa pode representar uma vantagem comercial, ao reunir os principais elementos necessários à operação em um único pacote contratual.

A Elbit Systems informou ainda que emprega mais de 21 mil pessoas em diversos países e registrou receita de US$ 2,287 bilhões no segundo trimestre de 2026. Em 30 de junho, sua carteira de pedidos alcançava US$ 32 bilhões, segundo os dados divulgados pela companhia.

O novo contrato amplia essa carteira e consolida mais um fornecimento internacional de sistemas de artilharia de foguetes, com entregas previstas ao longo dos próximos três anos.

Brasil: PULS e ATMOS nas negociações com a Avibras

O PULS também foi mencionado nas tratativas envolvendo o fornecimento do obuseiro ATMOS ao Exército Brasileiro e sua possível montagem pela Avibras. A associação dos dois sistemas poderia ampliar o pacote comercial da Elbit Systems e criar oportunidades para a retomada industrial da empresa brasileira.

Embora a inclusão do PULS tenha sido noticiada, não há confirmação pública de que tenha sido oferecido formalmente como contrapartida para viabilizar o ATMOS. A eventual negociação, contudo, pode representar uma oportunidade de ampliar a participação industrial nacional nos programas de artilharia do Exército.


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