terça-feira, 8 de setembro de 2026

"Quem são os verdadeiros heróis do Brasil?"

0 comentários

Uma nova série do GBN Defense revisita homens e mulheres que ajudaram a construir o Brasil e questiona o que estamos fazendo com a memória, os valores e os exemplos que deixaremos para as próximas gerações.

Em algum momento, quase sem percebermos, a palavra “herói” começou a perder parte de seu significado. Durante séculos, o conceito esteve associado à coragem diante do perigo, ao sacrifício, ao serviço, à liderança, à capacidade de enfrentar adversidades e, sobretudo, à disposição de colocar algo maior do que a própria existência acima dos interesses individuais. Hoje, porém, o termo é utilizado com uma facilidade que merece ser questionada. Pessoas que alcançam enorme popularidade, vencem competições, acumulam seguidores, aparecem constantemente na televisão, em reality shows e nas redes sociais ou constroem carreiras de sucesso são, não raramente, apresentadas como referências quase naturais para toda uma sociedade. A fama deixou de ser apenas consequência da notoriedade e passou a funcionar, em muitos casos, como uma espécie de certificado de importância. Mas será que ser conhecido significa, necessariamente, ser admirável? Ter milhões de seguidores é suficiente para transformar alguém em exemplo?

Essa transformação revela uma alteração na maneira como escolhemos nossos referenciais. Não há qualquer problema em admirar um atleta de alto rendimento, reconhecer o talento de um artista ou celebrar alguém que alcançou excelência em sua profissão. O esporte produz histórias de disciplina e perseverança; a arte é capaz de transformar a cultura e atravessar gerações; o entretenimento também possui seu espaço legítimo na vida social. O problema aparece quando o êxito profissional é automaticamente convertido em grandeza humana e quando a visibilidade passa a ser confundida com mérito. Uma pessoa pode ser excepcional em determinado campo e ainda assim não representar aquilo que uma sociedade deveria necessariamente apresentar como exemplo às suas crianças e aos seus jovens. Quando admiramos alguém, estamos admirando apenas aquilo que essa pessoa conquistou para si mesma ou também aquilo que foi capaz de fazer pelos outros?

Vivemos uma época em que a atenção se tornou uma das formas mais valiosas de capital. O que aparece mais é percebido como mais relevante; quem possui milhões de seguidores adquire uma autoridade que muitas vezes não está relacionada à sua competência; quem domina o espaço público passa a ter sua opinião considerada importante simplesmente porque é conhecido. O problema dessa lógica é que o algoritmo mede aquilo que consegue prender nossa atenção, não aquilo que necessariamente contribui para melhorar uma sociedade. Ele não sabe quantas vidas um pesquisador poderá transformar depois de vinte anos de trabalho, quantas gerações serão influenciadas por um professor, quantas pessoas foram protegidas por um militar ou quantos conflitos foram evitados por um diplomata. Mede cliques, visualizações, compartilhamentos e permanência. Se aquilo que recebe mais atenção não é necessariamente aquilo que possui maior valor, por que estamos permitindo que a lógica da audiência determine quem merece nossa admiração?

É nesse ambiente que o GBN Defense propõe uma pergunta que parece simples, mas talvez seja uma das mais necessárias para o Brasil contemporâneo: Quem são os verdadeiros heróis do Brasil?

A pergunta não pretende produzir um ranking de brasileiros ilustres nem estabelecer uma lista definitiva de personagens que deveriam ocupar o topo de um suposto panteão nacional. O Brasil é grande demais, sua história é complexa demais e suas conquistas foram numerosas demais para caber em uma seleção fechada. A proposta é investigar o próprio conceito de heroísmo e, a partir dele, revisitar homens e mulheres que, em diferentes épocas e circunstâncias, fizeram algo que ultrapassou os limites de suas próprias vidas. Mas o que significa ultrapassar esses limites? É deixar um nome conhecido? Acumular riqueza? Ser lembrado por milhões? Ou construir alguma coisa que continue beneficiando outras pessoas mesmo quando ninguém mais se lembrar do rosto de quem a criou?

Isso significa olhar para esses personagens sem a necessidade de transformá-los em santos. A História não precisa de personagens perfeitos para produzir exemplos importantes. Homens e mulheres são produtos de seu tempo, carregam as limitações de suas sociedades, tomam decisões acertadas e equivocadas e muitas vezes precisam agir em circunstâncias nas quais as alternativas são imperfeitas. Compreender um personagem histórico exige reconhecer seus feitos sem apagar suas contradições, analisar suas decisões dentro das circunstâncias em que foram tomadas e compreender suas consequências. Se um personagem histórico cometeu erros, isso deve apagar tudo aquilo que construiu? Ou compreender também suas limitações nos permite entender melhor a dimensão de suas escolhas?

Retirar esses personagens das estátuas e devolvê-los à História talvez seja uma das melhores maneiras de preservá-los. Quando uma sociedade coloca o nome de alguém em uma escola, uma avenida, um hospital, um navio, uma praça, uma instituição científica ou uma unidade militar, não está apenas homenageando uma pessoa. Está transmitindo às gerações seguintes a mensagem de que aquela trajetória possui algo que merece permanecer. A memória, nesse sentido, também é uma escolha de valores e uma forma de educação. Quando uma criança passa todos os dias diante de um nome gravado em uma placa, alguém deveria ser capaz de explicar quem aquela pessoa foi e por que merece estar ali. Estamos fazendo isso? Quantos brasileiros sabem por que determinadas ruas, escolas, navios e instituições carregam os nomes que carregam?

Durante muito tempo, a memória nacional foi povoada por personagens cujas trajetórias estavam diretamente relacionadas à formação do Estado, à defesa do território, à consolidação das instituições, à ciência, à educação, à diplomacia, à integração nacional e à capacidade de enfrentar desafios que pareciam maiores do que os próprios indivíduos. Muitos desses nomes permanecem presentes em monumentos e denominações oficiais, mas seus feitos são cada vez menos conhecidos por uma parcela significativa da população. O nome continua visível, mas a história que justificou sua permanência começa, pouco a pouco, a desaparecer. Que sentido existe em conservar uma homenagem se esquecemos o motivo pelo qual ela foi criada?

O Duque de Caxias é um dos exemplos mais importantes dessa tradição. Luís Alves de Lima e Silva viveu em um Brasil ainda jovem, marcado por profundas disputas políticas, revoltas e ameaças à unidade territorial. Sua trajetória não pode ser compreendida apenas pela imagem institucional do “Pacificador”, construída posteriormente pela memória militar e nacional. É necessário observar o ambiente político do Império, a fragilidade das instituições, os conflitos que ameaçavam a unidade do Brasil e o papel atribuído às Forças Armadas na preservação daquela estrutura estatal.

É justamente nesse contexto que Caxias se torna relevante para a discussão sobre heroísmo. Sua importância não está apenas nas batalhas que comandou, mas na responsabilidade assumida em momentos nos quais a fragmentação política e territorial poderia ter consequências profundas para o futuro brasileiro. Estudar sua trajetória significa discutir liderança, disciplina, autoridade e serviço ao Estado, mas também compreender que a construção de uma nação frequentemente acontece em períodos de crise, quando decisões difíceis precisam ser tomadas por pessoas que carregam responsabilidades muito maiores do que suas próprias vidas. Quando olhamos para Caxias, estamos apenas diante de um militar do século XIX ou diante de uma discussão sobre o preço da responsabilidade pública em momentos de ruptura?

A trajetória do Almirante Tamandaré permite observar uma dimensão diferente dessa construção nacional. Joaquim Marques Lisboa pertenceu a uma geração que ajudou a formar e consolidar a Marinha do Brasil em um período no qual o país ainda precisava transformar sua independência política em capacidade efetiva de defesa. Uma nação com uma costa extensa, interesses comerciais ligados ao mar e vastos espaços marítimos precisava possuir meios para proteger suas comunicações, sua economia e sua soberania. A construção do poder naval, portanto, não era uma questão meramente militar: fazia parte da própria construção do Estado brasileiro.

Tamandaré representa o profissional que dedicou sua vida a essa tarefa. Sua trajetória permite lembrar que soberania não é apenas uma palavra inscrita em documentos ou mapas. Ela depende da capacidade de um país proteger seu território, seus recursos, suas linhas de comunicação e seus interesses. Para o Brasil, essa dimensão permanece particularmente relevante em razão de sua extensão territorial e marítima. Se hoje consideramos natural que o país possua uma Marinha capaz de patrulhar e defender seus espaços marítimos, quantos conseguem perceber o esforço de gerações que tornaram isso possível?

O Almirante Barroso acrescenta a essa discussão o elemento da decisão sob pressão. Francisco Manuel Barroso da Silva tornou-se uma das figuras centrais da memória naval brasileira em razão de sua atuação na Batalha Naval do Riachuelo, durante a Guerra da Tríplice Aliança. Entretanto, transformar sua história em uma simples celebração da vitória seria desperdiçar justamente aquilo que ela pode ensinar. Em situações de combate, decisões tomadas em minutos podem alterar o destino de operações inteiras. Liderança deixa de ser uma palavra abstrata e passa a significar responsabilidade concreta sobre vidas humanas e sobre o resultado de uma missão.

É nesse tipo de circunstância que o heroísmo assume uma de suas formas mais tradicionais: a capacidade de permanecer diante do perigo e tomar decisões quando medo, incerteza e risco fazem parte da realidade. Mas a coragem diante do fogo inimigo é apenas uma das manifestações possíveis de uma qualidade que também pode aparecer na ciência, na diplomacia, na educação ou em uma emergência cotidiana. O que fazemos com uma sociedade que reconhece coragem diante de uma batalha, mas tem dificuldade para perceber a coragem de quem passa décadas enfrentando problemas que não produzem manchetes?

O Barão do Rio Branco demonstra isso de maneira particularmente clara. José Maria da Silva Paranhos Júnior não construiu seu principal legado por meio do comando de tropas ou da condução de batalhas. Sua principal ferramenta foi o conhecimento. História, geografia, direito, documentação e diplomacia foram utilizados na defesa dos interesses brasileiros em questões territoriais decisivas. Em um período no qual disputas de fronteira poderiam facilmente transformar-se em conflitos armados, sua capacidade de argumentação e negociação ajudou a consolidar posições brasileiras sem que a guerra fosse o instrumento necessário para alcançar esses objetivos.

Há uma lição importante nessa trajetória: o poder de uma nação não se mede apenas pela capacidade de combater, mas também pela capacidade de compreender, negociar e defender seus interesses com inteligência. Conhecimento pode ser instrumento de soberania tanto quanto a força militar. Para um país de dimensões continentais e fronteiras extensas, essa capacidade continua sendo estratégica. Mas quantos jovens brasileiros são ensinados a enxergar o conhecimento dessa maneira? Quantos compreendem que um mapa, um documento histórico, uma pesquisa ou uma negociação diplomática também podem ser instrumentos de poder nacional?

Essa dimensão da construção nacional aparece novamente na trajetória do Marechal Rondon. Cândido Mariano da Silva Rondon dedicou parte fundamental de sua vida à expansão das comunicações e à integração de regiões remotas do território brasileiro. As expedições que liderou aconteceram em uma época na qual avançar pelo interior significava enfrentar isolamento, doenças, dificuldades logísticas e enormes obstáculos naturais. Levar linhas telegráficas a essas regiões não significava apenas instalar equipamentos. Significava abrir caminhos, estabelecer presença e conectar áreas que permaneciam distantes dos centros de decisão.

Hoje, quando uma mensagem pode atravessar o território brasileiro em segundos, é difícil dimensionar o esforço necessário para construir as primeiras redes de comunicação de longa distância. Rondon representa uma forma de contribuição que não depende de grandes espetáculos. Seu trabalho esteve ligado à construção silenciosa da presença nacional em um território que, pela própria dimensão, sempre impôs ao Brasil o desafio de integrar aquilo que a geografia separou. Quantas pessoas que utilizam hoje as estruturas de comunicação e integração do país conhecem aqueles que enfrentaram florestas, distâncias e condições extremas para começar a construí-las?

Quando deixamos o campo militar e entramos na ciência, a discussão sobre heroísmo se torna ainda mais reveladora. A ciência exige uma forma particular de coragem porque frequentemente trabalha no campo onde as respostas ainda não existem. Pesquisadores passam anos estudando problemas que podem não produzir resultados imediatos, convivem com hipóteses que fracassam e dependem de uma disciplina que raramente recebe reconhecimento proporcional ao impacto potencial de seu trabalho.

Oswaldo Cruz é um dos maiores exemplos brasileiros dessa realidade. Ao enfrentar epidemias e participar da construção de uma nova concepção de saúde pública, encontrou resistência social e política. Seu trabalho ocorreu em um Brasil no qual conhecimento científico e políticas sanitárias ainda precisavam disputar espaço com preconceitos, desinformação e interesses diversos. Sua trajetória demonstra que transformar conhecimento em política pública exige não apenas competência técnica, mas também disposição para enfrentar resistências. O que teria acontecido com a saúde pública brasileira se pesquisadores como ele tivessem desistido diante da oposição que encontraram?

Carlos Chagas amplia essa história de maneira extraordinária. Sua investigação sobre a doença que posteriormente receberia seu nome constituiu uma realização científica de enorme importância. Chagas identificou o agente causador, reconheceu o vetor e descreveu manifestações clínicas, construindo uma compreensão abrangente de uma enfermidade que afetava populações brasileiras. Seu trabalho não foi apenas uma descoberta individual. Representou também a demonstração de que a ciência produzida no Brasil poderia realizar investigações originais e relevantes internacionalmente.

É impossível não confrontar esse legado com a maneira como distribuímos atenção atualmente. Quantos brasileiros conseguem explicar quem foi Carlos Chagas? Quantos conhecem a dimensão de sua contribuição para a medicina? Ao mesmo tempo, nomes de celebridades e personalidades do entretenimento são reconhecidos instantaneamente por milhões de pessoas. Isso não é, por si só, um problema. A questão está no desequilíbrio. Quando uma sociedade conhece profundamente aqueles que entretêm, mas quase nada sabe sobre aqueles que produzem conhecimento capaz de salvar vidas, existe uma questão cultural que merece ser enfrentada. Que mensagem estamos transmitindo quando uma criança sabe o nome, a vida e os hábitos de uma celebridade, mas nunca ouviu falar de um brasileiro responsável por uma descoberta que beneficiou milhões?

E essa questão começa na infância. Uma sociedade educa não apenas por meio de seus currículos, mas também por aquilo que celebra. Crianças e adolescentes observam quem recebe atenção, quem é apresentado como referência e quem ocupa capas, telas e conversas familiares. Aprendem, ainda que indiretamente, o que significa “dar certo” na vida. Se os modelos mais visíveis forem aqueles associados exclusivamente à fama, à riqueza e à exposição, existe o risco de que essas características sejam confundidas com o próprio conceito de realização. Que tipo de adulto estamos formando quando ensinamos uma criança a desejar ser famosa antes mesmo de ensiná-la a desejar ser competente?

É por isso que recuperar a memória de cientistas, médicos, professores, engenheiros, diplomatas, militares e outros construtores do Brasil não significa diminuir a importância da cultura popular. Significa ampliar o horizonte de referências disponível para uma geração. Uma sociedade não precisa escolher entre seus artistas e seus cientistas, entre seus atletas e seus militares, entre seus escritores e seus engenheiros. Precisa apenas compreender que talento e fama não são sinônimos de heroísmo e que diferentes formas de contribuição podem coexistir sem que uma precise apagar a outra.

Santos Dumont é um exemplo particularmente poderoso dessa necessidade. Sua trajetória pode ser apresentada simplesmente como a de um brasileiro associado aos primeiros capítulos da aviação, mas isso seria insuficiente. Dumont representa a combinação entre curiosidade, engenharia, experimentação e persistência. Seu trabalho foi construído por sucessivas tentativas, modificações, erros e aperfeiçoamentos em uma época na qual a possibilidade de controlar uma máquina voadora ainda parecia pertencer ao território da especulação.

Seu legado, portanto, não está apenas naquilo que conseguiu fazer voar. Está também na disposição de experimentar aquilo que ainda não havia sido plenamente realizado. Em uma época em que o Brasil precisa ampliar sua capacidade tecnológica e sua cultura de inovação, essa dimensão de sua história merece ser lembrada, especialmente porque desenvolvimento tecnológico não nasce apenas de recursos financeiros ou estruturas industriais, mas também de uma cultura que valoriza quem tenta resolver problemas difíceis. Será que ainda ensinamos nossos jovens a experimentar, construir e persistir como valores de realização, ou estamos ensinando que o objetivo principal é simplesmente alcançar reconhecimento?

Dom Pedro II também oferece uma oportunidade para escapar das simplificações. O imperador foi uma figura central do Segundo Reinado e esteve ligado a um período marcado por profundas transformações políticas, econômicas e sociais. Sua trajetória possui contradições e precisa ser analisada dentro das estruturas do Império, inclusive em relação aos problemas e desigualdades daquele período. Ao mesmo tempo, sua relação com a ciência, a cultura, a educação e o conhecimento constitui parte relevante de sua história e permite discutir o papel que essas áreas podem desempenhar na formação de uma nação.

Não se trata de transformar Dom Pedro II em um personagem idealizado, mas de reconhecer que figuras históricas podem ser simultaneamente complexas e importantes e que compreender sua contribuição exige mais do que repetir elogios ou condenações. O mesmo vale para José Bonifácio, Tiradentes, André Rebouças, Irineu Evangelista de Sousa, Vital Brazil, Adolfo Lutz, César Lattes e tantos outros brasileiros que ajudaram, cada um à sua maneira, a construir estruturas, conhecimentos e capacidades que continuam presentes no Brasil. Quantos desses nomes ainda são apresentados às novas gerações como referências de realização? E quantos foram simplesmente reduzidos a nomes de ruas, prédios e livros escolares sem que seus feitos sejam realmente conhecidos?

A diversidade dessas trajetórias é justamente o que torna inadequada qualquer tentativa de reduzir o heroísmo a uma única profissão ou campo de atuação. Alguns participaram diretamente da formação do Estado. Outros defenderam o território, transformaram a medicina, criaram infraestrutura, desenvolveram tecnologias, ampliaram o conhecimento científico ou ajudaram a integrar regiões isoladas.

E é nesse ponto que a série chega ao presente. Seria confortável imaginar que os grandes heróis pertencem ao passado, que foram aqueles cujos nomes foram gravados em bronze e colocados em praças. Mas o heroísmo não desapareceu. O que talvez tenha diminuído seja nossa capacidade de percebê-lo quando ele não vem acompanhado de fama. Ele pode estar em uma sala de aula, em um laboratório, em um hospital, em uma unidade militar, em uma embarcação, em uma comunidade isolada ou em uma situação de emergência.

A professora Heley de Abreu Silva Batista, que em outubro de 2017, após enfrentar um vigia que ateou fogo na creche Gente Inocente, em Janaúba, Minas Gerais, ajudou a salvar dezenas de crianças do incêndio e morreu em decorrência das graves queimaduras que sofreu, representa exatamente essa dimensão contemporânea. Sua história não precisa de fama anterior para adquirir significado. Diante de uma situação extrema, ela colocou a proteção de seus alunos acima da própria segurança. Naquele momento, não havia audiência, prêmio, contrato ou expectativa de recompensa, mas uma emergência e uma escolha humana diante dela. Quantas pessoas seriam capazes de fazer a mesma escolha? E quantas vezes passamos por atos de coragem semelhantes sem sequer perceber que estamos diante de um herói?

A ciência contemporânea apresenta outra dimensão desse mesmo compromisso com a sociedade. Pesquisadores dedicam anos ao desenvolvimento de tratamentos para doenças e condições incapacitantes, enfrentando limitações de recursos, fracassos e um longo processo de validação científica que raramente recebe atenção pública. Um exemplo brasileiro é a bióloga, professora e pesquisadora da UFRJ, Dra. Tatiana Sampaio, que lidera pesquisas com a polilaminina, uma molécula desenvolvida a partir de estudos sobre substâncias presentes na placenta humana e investigada como possível tratamento para lesões da medula espinhal. Resultados preliminares e aplicações experimentais em casos de emergência indicaram recuperação de movimentos em alguns pacientes, embora a terapia ainda esteja em processo de desenvolvimento e validação.

O trabalho de Tatiana recoloca uma pergunta fundamental desta série: quantos brasileiros conhecem o nome de uma pesquisadora cujo trabalho pode transformar a vida de pessoas com paralisia? Se a sociedade concede enorme visibilidade a quem consegue permanecer sob os holofotes, mas quase não conhece aqueles que trabalham silenciosamente para mudar vidas, não estamos confundindo fama com legado?

Essa distinção também impede que a série crie uma nova forma de idolatria. Militares não são heróis simplesmente por vestirem uma farda. Cientistas não são heróis apenas por possuírem títulos acadêmicos. Professores não são heróis automaticamente porque trabalham em uma escola. Médicos, políticos, empresários, artistas ou atletas tampouco recebem virtude por decreto em razão da profissão que escolheram. O que importa é o que cada pessoa faz com suas capacidades, responsabilidades e oportunidades. Não seria igualmente equivocado substituir a idolatria da fama por uma idolatria da profissão?

É possível existir heroísmo em uma trincheira e em um laboratório, em uma sala de aula e em uma negociação diplomática, em uma embarcação e diante de uma emergência cotidiana. O denominador comum não está na profissão, mas na relação entre a pessoa e aquilo que decide fazer quando suas escolhas podem beneficiar, proteger ou transformar a vida de outros.

Uma celebridade pode ser um exemplo. Um atleta pode ser um exemplo. Um artista pode ser um exemplo. Um militar pode ser um exemplo. Um cientista pode ser um exemplo. Mas nenhum deles deveria receber automaticamente o título de herói apenas por aquilo que é ou pelo tamanho de sua fama. O heroísmo está relacionado às ações, às circunstâncias em que foram realizadas, aos riscos assumidos e àquilo que permanece como consequência delas. Afinal, se todos podem ser chamados de heróis, o que a palavra ainda significa?

Quando olhamos dessa maneira, o Brasil revela um universo muito maior de pessoas dignas de serem lembradas. Não haverá “os dez maiores heróis” nem uma seleção encerrada depois de determinado número de personagens. A cada trajetória estudada surgirão outras, algumas conhecidas e outras esquecidas, que também poderão ajudar a responder à pergunta que dá nome a esta jornada.

Caxias nos permite discutir liderança e responsabilidade em tempos de crise; Tamandaré, a construção do poder naval e a soberania; Barroso, a decisão e o comando diante do risco; Rio Branco, a força do conhecimento e da diplomacia; Rondon, a integração de um território continental; Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, a ciência colocada a serviço da vida; Santos Dumont, a inovação e a persistência; Dom Pedro II, a relação entre Estado, cultura e conhecimento. Outros personagens revelarão novas dimensões dessa mesma questão e alguns talvez nos obriguem a rever ideias que durante muito tempo aceitamos sem questionamento.

Ao lado deles estarão pessoas que talvez nunca tenham ocupado um lugar importante nos livros de História, mas que fizeram algo extraordinário quando a situação exigiu. Um ato de coragem pode não alterar o destino de um país, mas alterar para sempre o destino de uma família. Uma descoberta pode não ganhar manchetes, mas oferecer uma nova possibilidade para milhares de pacientes. Um professor pode não se tornar famoso, mas mudar a trajetória de centenas de alunos. Um profissional pode passar décadas fazendo seu trabalho com excelência e responsabilidade sem jamais receber uma homenagem. Se é assim, por que ainda temos tanta dificuldade para reconhecer como heróis aqueles que nunca tiveram oportunidade de aparecer?

O impacto histórico de uma ação e o impacto humano de uma vida não são necessariamente proporcionais à fama de quem a realizou, e é justamente por isso que memória é uma responsabilidade. Quando esquecemos aqueles que construíram instituições, defenderam o território, produziram conhecimento, educaram gerações ou sacrificaram a própria segurança para proteger outras pessoas, não estamos apenas perdendo informações sobre o passado. Estamos perdendo referências sobre aquilo que uma sociedade considera valioso.

Quando esse espaço permanece vazio, a indústria da fama encontra terreno fértil para transformar notoriedade em autoridade e exposição em exemplo. Isso não acontece porque todas as pessoas famosas sejam indignas de admiração, mas porque uma sociedade que não conhece seus próprios construtores acaba tendo dificuldade para escolher conscientemente quem deseja admirar. O problema não está na existência de ídolos, mas na ausência de critérios capazes de separar o entretenimento do exemplo, o talento do caráter, o sucesso da contribuição e a popularidade do mérito. Será que estamos realmente escolhendo nossos exemplos ou simplesmente aceitando aqueles que os algoritmos escolhem colocar diante de nós?

Essa mudança de perspectiva também altera a maneira como olhamos para a própria ideia de sucesso. Existe valor na conquista individual, na ambição e na busca pela excelência. Mas uma sociedade não pode sobreviver apenas de indivíduos buscando chegar ao topo. Ela precisa também de pessoas dispostas a construir aquilo que permanecerá depois delas. O que significa vencer na vida se tudo aquilo que conquistamos desaparece junto conosco? E o que significa perder, se aquilo que construímos continua beneficiando outras pessoas?

É nesse ponto que o conceito de legado se torna fundamental. Um homem pode morrer e deixar dinheiro; outro pode deixar fama; outro, troféus; outro, obras de arte; outro, empresas. Há, porém, pessoas que deixam instituições, conhecimento, descobertas, vidas salvas, territórios protegidos, gerações educadas e caminhos abertos para aqueles que virão depois. São legados que não desaparecem necessariamente com a morte de seus autores porque passam a fazer parte da capacidade coletiva de uma sociedade.

Caxias não pode mais defender o Brasil porque pertence ao passado. Tamandaré não pode mais comandar um navio. Barroso não pode mais tomar uma decisão em combate. Rio Branco não pode mais sentar-se à mesa de negociação. Carlos Chagas não pode mais entrar em um laboratório. Santos Dumont não pode mais construir uma aeronave. Rondon não pode mais atravessar as regiões que percorreu. Todos eles, porém, continuam capazes de influenciar o presente por meio daquilo que deixaram. Esse é um dos maiores poderes da memória: permitir que pessoas que já morreram continuem participando da formação daqueles que ainda estão vivos.

Por isso, revisitar nossos heróis não é um exercício de nostalgia. É uma tentativa de recuperar uma conversa que talvez tenha sido abandonada: o que merece ser admirado? A resposta nunca será completamente objetiva. Sociedades diferentes valorizam coisas diferentes, e a própria interpretação histórica muda com o tempo. Mas isso não significa que todos os critérios tenham o mesmo peso ou que qualquer forma de notoriedade deva ser confundida com grandeza. Se a fama não é suficiente, então quais critérios devemos utilizar? Coragem? Sacrifício? Conhecimento? Serviço? Resultado? Caráter? Legado?

Uma sociedade precisa discutir seus valores e compreender por que homenageia alguém, quais histórias coloca diante de seus jovens e quais características deseja transformar em referência. Memória também é educação, e aquilo que uma geração escolhe preservar influencia a maneira como a seguinte compreenderá conceitos como coragem, responsabilidade, serviço, conhecimento, liderança, sacrifício e sucesso. Que valores estamos ensinando quando escolhemos quem merece uma estátua? Que mensagem transmitimos quando decidimos quais nomes serão lembrados?

Talvez os verdadeiros heróis do Brasil estejam justamente entre aqueles que fizeram coisas importantes quando ninguém estava olhando. Essa possibilidade nos obriga a ampliar o olhar para além dos grandes acontecimentos e dos nomes consagrados, alcançando também os que estudaram quando seria mais fácil desistir, pesquisaram quando o resultado parecia distante, ensinaram quando seus próprios esforços dificilmente seriam reconhecidos, defenderam o país quando o custo pessoal era alto, negociaram para evitar conflitos, abriram caminhos onde não havia estradas, cuidaram de doentes sem saber se seriam lembrados ou, diante do perigo, escolheram proteger outra pessoa.

É essa inquietação que orienta a série. Não procuraremos personagens perfeitos, porque pessoas perfeitas não existem. Procuraremos trajetórias que nos permitam pensar sobre coragem, responsabilidade, conhecimento, serviço, liderança, inovação, sacrifício, perseverança e compromisso com algo que ultrapasse o indivíduo. Alguns personagens serão conhecidos por praticamente todos os brasileiros; outros provavelmente serão descobertos por muitos leitores. Alguns estarão ligados às grandes decisões nacionais; outros aparecerão em histórias particulares que, justamente por sua dimensão humana, podem revelar ainda mais sobre o que significa ser um exemplo.

No fundo, a pergunta que dá nome à série talvez seja maior do que parece. Quem são os verdadeiros heróis do Brasil? Ela pergunta quem merece ser lembrado, mas também quem merece ser imitado. Pergunta quais vidas consideramos importantes e quais valores estamos transmitindo. E, principalmente, pergunta que tipo de sociedade estamos construindo quando permitimos que a fama determine quem deve ser admirado.

Talvez a resposta não esteja nos mais ricos, nos mais famosos, nos mais seguidos ou nos mais fotografados, mas naqueles cuja existência produziu algo que continuou beneficiando outras pessoas depois que eles próprios deixaram de estar presentes. Alguns defenderam o Brasil, outros o estudaram, ensinaram, curaram, conectaram ou representaram diante do mundo. Outros simplesmente salvaram alguém quando poderiam ter escolhido não fazê-lo. O que os aproxima não é a profissão, o uniforme, o cargo ou a fama, mas a dimensão do legado que suas ações foram capazes de produzir.

Toda geração escolhe seus exemplos, mesmo quando não percebe que está fazendo essa escolha. A nossa também está escolhendo, diariamente, por meio das pessoas que celebra, das histórias que conta e da atenção que distribui. Aquilo que colocarmos diante dos olhos das próximas gerações ajudará a determinar não apenas quem elas admirarão, mas também que tipo de grandeza aprenderão a reconhecer.

E é por isso que esta jornada começa agora. Não para entregar ao leitor uma lista pronta de heróis, mas para percorrer suas histórias e permitir que cada trajetória seja julgada pelo seu tempo, pelas suas escolhas, pelos seus feitos e pelo legado que deixou.

Porque talvez os verdadeiros heróis do Brasil não estejam reunidos em um único panteão. Eles estão espalhados pela nossa história, entre grandes acontecimentos e gestos anônimos, entre homens e mulheres que deixaram territórios protegidos, conhecimento produzido, instituições construídas, vidas salvas e exemplos capazes de atravessar gerações.

E antes de decidir quem merece esse nome, vale começar com uma pergunta ainda mais próxima de nós: quando nossos filhos perguntarem quem foram os grandes brasileiros de sua geração, quais nomes gostaríamos que eles soubessem responder, e por quê?


por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

Escudo das Américas: "O outro lado do tabuleiro - China, Rússia e a disputa estratégica pelo Hemisfério Ocidental"

0 comentários

 

A transformação da arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental não pode ser compreendida apenas a partir dos movimentos de Washington. Se os Estados Unidos procuram reorganizar sua presença política, econômica e militar nas Américas diante de um ambiente internacional cada vez mais competitivo, existe outro movimento acontecendo simultaneamente, mais silencioso e menos dependente da presença militar convencional: a expansão da influência chinesa sobre a América Latina e o Caribe, em menor escala a atuação estratégica da Rússia em pontos específicos da região.

É nesse outro lado do tabuleiro que se encontra uma das questões centrais para o futuro da segurança hemisférica. A disputa que se desenha não será necessariamente marcada pela instalação de grandes bases militares ou pela presença permanente de forças expedicionárias de potências externas. Em muitos casos, ela será definida pela capacidade de controlar ou influenciar fluxos comerciais, infraestrutura, energia, recursos naturais, tecnologia, dados, cadeias logísticas e posições estratégicas.

Essa mudança é fundamental para compreender o verdadeiro alcance do conceito do “Escudo das Américas”. Como discutimos no capítulo anterior, proteger o hemisfério no século XXI significa muito mais do que defender fronteiras e espaços aéreos ou marítimos. Significa também garantir que os sistemas econômicos, tecnológicos, energéticos, mercantes e digitais dos países americanos permaneçam resilientes diante de uma eventual crise. É justamente nesses espaços que a China avançou de maneira mais consistente nas últimas duas décadas.

A China já está dentro do hemisfério

A presença chinesa na América Latina e no Caribe não é uma possibilidade futura nem uma hipótese construída sobre projeções. Ela já constitui uma realidade econômica e estratégica profundamente incorporada à região.

Em 2024, o comércio entre a China e a América Latina e Caribe alcançou aproximadamente US$ 510 bilhões, quase o dobro do registrado uma década antes. A China tornou-se o segundo maior parceiro comercial da região e o maior credor soberano bilateral, enquanto mais da metade dos países latino-americanos e caribenhos aderiram à Iniciativa do Cinturão e Rota. Na América do Sul, Pequim já ocupa a posição de maior parceiro comercial desde 2015. Os números, entretanto, representam apenas uma parte da transformação.

A relação construída por Pequim não está limitada à compra de commodities e à venda de produtos manufaturados. A China vem ampliando sua participação em infraestrutura de transporte, energia, telecomunicações, logística, mineração, indústria, tecnologia digital, inteligência artificial e espaço. Essa combinação cria uma presença muito mais profunda do que aquela normalmente associada à diplomacia comercial tradicional.

O documento de política da China para a América Latina e o Caribe, publicado em janeiro de 2026, deixa isso particularmente claro. Pequim estabeleceu como áreas de cooperação infraestrutura, logística, energia, telecomunicações, infraestrutura digital, cidades inteligentes, manufatura, cadeias de suprimentos, inteligência artificial, espaço e recursos minerais, além de ampliar a cooperação financeira e militar. O documento também prevê maior participação de empresas e instituições financeiras chinesas no planejamento, construção e operação de infraestrutura regional.

Não se trata, portanto, apenas de aumentar o comércio. Trata-se de construir uma relação de longo prazo capaz de conectar mercados, infraestrutura, tecnologia, financiamento e recursos estratégicos. É essa característica que diferencia a presença chinesa de uma simples relação comercial.

O porto como instrumento de poder

Poucos exemplos representam melhor essa transformação do que o porto de Chancay, no Peru. Inaugurado em 2024, o empreendimento tornou-se um dos símbolos mais evidentes da expansão chinesa na infraestrutura estratégica latino-americana. Desenvolvido e operado por uma empresa estatal chinesa, o porto foi concebido para estabelecer uma ligação marítima mais direta entre a costa sul-americana do Pacífico e a China, reduzindo tempos de transporte e criando novas possibilidades para o fluxo de commodities entre os dois lados do Pacífico.

Caso alcance sua capacidade projetada de aproximadamente 3,5 milhões de TEUs, Chancay poderá se tornar um dos maiores portos da América Latina e o maior terminal da região controlado integralmente por uma empresa estatal chinesa. O empreendimento também possui potencial para alterar rotas comerciais e ampliar a utilização de canais logísticos vinculados à presença chinesa.

O significado estratégico de Chancay, porém, precisa ser analisado com cuidado. Não seria correto simplesmente classificar um porto comercial chinês como uma futura instalação militar de Pequim. A realidade é mais complexa e, justamente por isso, mais importante.

Infraestruturas comerciais de grande escala podem adquirir valor estratégico sem serem transformadas em bases militares. Um porto reúne localização geográfica, capacidade logística, sistemas digitais, equipamentos especializados, fluxos de dados, acesso a rotas marítimas e conexão com ferrovias, rodovias e cadeias industriais. Em situação de normalidade, tudo isso representa eficiência econômica. Enquanto diante de uma situação de crise, esses mesmos ativos podem adquirir outra dimensão.

É essa possibilidade de conversão do valor econômico em valor estratégico que vem despertando atenção crescente entre analistas norte-americanos. Estudos recentes identificaram dezenas de projetos portuários associados a empresas chinesas nas Américas e destacaram que a presença de Pequim não se limita ao terminal portuário propriamente dito, alcançando também ferrovias, geração de energia, equipamentos de segurança e guindastes de movimentação de cargas.

A questão, portanto, não é simplesmente quem possui um porto, a questão é quem possui capacidade de influenciar os sistemas que conectam esse porto ao restante da economia.

A infraestrutura como território estratégico

Essa mudança de perspectiva é fundamental para compreender a competição entre grandes potências. Durante grande parte do século XX, influência estratégica era associada principalmente à presença militar, às alianças políticas e à capacidade de projetar força. No século XXI, esses elementos continuam importantes, mas passaram a coexistir com instrumentos de poder que operam abaixo do limiar de um conflito convencional.

Uma empresa que participa da construção de uma ferrovia não está necessariamente realizando uma operação estratégica, assim como uma empresa que administra um terminal portuário também não está necessariamente desempenhando uma função militar. Uma companhia que fornece equipamentos de telecomunicações não representa, por si só, uma ameaça. O problema aparece quando esses elementos começam a se conectar em escala regional.

Portos conectados a ferrovias. Ferrovias conectadas a áreas produtoras. Sistemas digitais conectados a redes de telecomunicações. Infraestrutura energética conectada a cadeias industriais. Financiamento conectado a contratos de longo prazo. É nessa interdependência que nasce uma forma diferente de poder.

A China não precisa estabelecer uma rede de bases militares na América Latina para ampliar sua capacidade de influência. Ela pode construir relações de dependência econômica, tecnológica e logística que produzam efeitos estratégicos muito antes de qualquer confronto militar. Essa talvez seja uma das maiores dificuldades enfrentadas por Washington.

O Canal do Panamá e a disputa pelo acesso

O Canal do Panamá representa outro ponto importante dessa equação, permanecendo como um dos principais corredores marítimos do comércio mundial, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico, reduzindo significativamente as distâncias entre diferentes mercados.

Durante anos, empresas vinculadas a interesses chineses mantiveram participação em instalações portuárias associadas às proximidades do canal. Em janeiro de 2026, porém, a Suprema Corte panamenha declarou inconstitucionais duas concessões operadas pela CK Hutchison, produzindo um importante revés para a presença dessa empresa no país. Ainda assim, o debate sobre a influência chinesa na infraestrutura portuária regional não desapareceu.

O episódio demonstra justamente que a disputa não pode ser reduzida a uma questão binária de “controle chinês” ou “controle norte-americano”. Existe uma competição muito mais ampla pela capacidade de operar, financiar, conectar e influenciar os grandes corredores logísticos do hemisfério.

Para Washington, isso possui implicações econômicas e militares, já para Pequim, representa uma oportunidade de aprofundar sua conexão com os mercados americanos e garantir maior segurança para as cadeias de suprimentos das quais depende, e pelo ponto de vista dos países latino-americanos, representa uma oportunidade de obter investimentos e infraestrutura, mas também cria a necessidade de avaliar cuidadosamente os efeitos estratégicos de determinadas dependências.

A tecnologia é o novo campo de disputa

Se os portos representam a dimensão física dessa competição, a tecnologia representa sua dimensão invisível: Telecomunicações, computação em nuvem, inteligência artificial, sistemas de vigilância, satélites, centros de dados, redes de energia e infraestrutura digital estão se tornando componentes cada vez mais importantes da segurança nacional. Nesse campo, a vantagem chinesa não está apenas na capacidade de vender equipamentos. Está na possibilidade de participar da construção de ecossistemas tecnológicos inteiros.

O documento chinês de política para a América Latina publicado em 2026 prevê explicitamente cooperação em inteligência artificial, tecnologia da informação, novos materiais, energia, circuitos integrados, aviação e espaço, além de comunicação e sensoriamento por satélite. Também estabelece mecanismos de cooperação científica, centros de pesquisa e laboratórios conjuntos. Isso possui uma consequência estratégica importante.

Quanto maior a participação de uma potência externa na infraestrutura tecnológica de outro país, maior pode ser sua capacidade de influenciar padrões técnicos, cadeias de fornecimento, manutenção, atualização e interoperabilidade. Não significa que toda tecnologia chinesa seja uma ameaça ou que todo investimento produza dependência estratégica, significa que tecnologia deixou de ser apenas uma questão econômica, ela passou a fazer parte da soberania.

Recursos naturais e cadeias críticas

A relação sino-latino-americana também possui uma dimensão relacionada aos recursos estratégicos. Petróleo, gás, cobre, lítio, minério de ferro, alimentos e outros produtos básicos possuem importância crescente para a economia chinesa e para a transição energética global. Ao mesmo tempo, a América Latina necessita de investimentos, infraestrutura e acesso a mercados para transformar esses recursos em desenvolvimento econômico. É uma relação de interesses complementares, mas que também produz assimetrias.

A China possui escala industrial, capital, tecnologia e um gigantesco mercado consumidor, enquanto a América Latina possui recursos naturais, produção agrícola, energia e mercados em expansão. O resultado é uma relação economicamente racional para os dois lados. O desafio estratégico surge quando uma relação comercial necessária passa a produzir dependências difíceis de substituir.

Os dados mais recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostram a velocidade dessa transformação. No primeiro trimestre de 2026, as exportações latino-americanas para a China cresceram 25% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as importações provenientes da China avançaram 29%. Apesar disso, os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro comercial da região, demonstrando que o cenário não é de substituição simples de Washington por Pequim, mas de crescente competição entre centros de poder. É justamente essa característica que torna a situação latino-americana tão particular.

A região não está abandonando os Estados Unidos, e também não está simplesmente se tornando chinesa, ela está se tornando um espaço de competição entre diferentes centros de poder, enquanto seus próprios governos procuram extrair benefícios dessa disputa sem perder autonomia.

Onde entra a Rússia?

É nesse ponto que a Rússia aparece no tabuleiro, mas é importante não colocar Moscou e Pequim na mesma categoria. A capacidade econômica russa de penetração na América Latina é muito menor do que a chinesa. Moscou não possui a mesma escala de comércio, financiamento ou investimentos em infraestrutura. Seu instrumento de poder é diferente.

A Rússia concentra sua atuação em relações políticas e militares específicas, cooperação em defesa, energia, inteligência, diplomacia e demonstrações de capacidade estratégica.

Venezuela, Cuba e Nicarágua permanecem entre os principais pontos de interesse dessa presença. Moscou já utilizou exercícios, cooperação militar, visitas de navios e aeronaves e acordos de defesa para demonstrar que mantém capacidade de atuar no entorno estratégico dos Estados Unidos. Isso não significa que exista uma frente militar sino-russa organizada para desafiar os Estados Unidos em todo o continente, a realidade é mais sofisticada.

Enquanto a China constrói profundidade econômica, tecnológica e logística, a Rússia possui instrumentos capazes de explorar pontos de pressão específicos. Com uma potência ampliando sua presença estrutural, enquanto a outra preserva capacidade de "perturbação" estratégica. Essa diferença será importante para compreender os próximos movimentos.

O verdadeiro desafio para Washington

É nesse cenário que a proposta de uma nova arquitetura de segurança hemisférica ganha outra dimensão. Os Estados Unidos continuam possuindo uma vantagem militar, tecnológica, econômica e de inteligência incomparavelmente superior à de qualquer outro país individualmente considerado no Hemisfério Ocidental.

O problema é que superioridade militar não significa automaticamente controle estratégico sobre todos os fluxos econômicos, tecnológicos e logísticos da região. Washington pode possuir a maior capacidade naval do hemisfério, mas isso não determina quem fornece equipamentos para os portos. Pode possuir os sistemas de inteligência mais avançados, mas isso não determina quem participa da construção das redes de telecomunicações. Pode manter a principal capacidade militar do continente, mas isso não significa controlar as cadeias de fornecimento de minerais críticos, energia, alimentos ou componentes industriais, justamente nesse espaço entre poder militar e influência estrutural que a China avançou.

A questão para Washington, portanto, não é simplesmente impedir a presença chinesa na América Latina. Isso seria praticamente impossível sem provocar custos econômicos e políticos enormes para os próprios países americanos. O desafio é oferecer alternativas suficientemente competitivas para que os governos latino-americanos não precisem escolher entre desenvolvimento econômico e segurança estratégica. Talvez esse seja um dos pontos mais difíceis da nova arquitetura hemisférica.

A América Latina no meio da disputa

Para os países latino-americanos, a crescente competição entre Estados Unidos e China também representa uma oportunidade de ampliar suas alternativas econômicas e estratégicas. A presença de diferentes centros de poder permite acesso a novos mercados, fontes de financiamento, investimentos em infraestrutura e possibilidades de cooperação tecnológica que, algumas décadas atrás, eram muito mais limitadas. Para governos que historicamente enfrentaram restrições de capital e dificuldades para financiar grandes projetos de desenvolvimento, essa diversificação pode representar ganhos concretos e ampliar sua margem de negociação diante das grandes potências.

O problema surge quando essas oportunidades passam a produzir relações de dependência capazes de adquirir significado estratégico. Quanto maior a participação de uma potência estrangeira em setores considerados essenciais para o funcionamento de um país, maior é a possibilidade de que decisões originalmente econômicas passem a produzir consequências para sua segurança e sua autonomia. Um porto construído para ampliar o comércio pode se tornar um ativo relevante para a logística nacional; uma rede de telecomunicações pode assumir importância para a proteção de dados e das comunicações governamentais; investimentos em mineração podem integrar cadeias internacionais de recursos considerados críticos; e sistemas espaciais desenvolvidos para aplicações civis podem, dependendo de suas características, também ampliar capacidades de observação e inteligência.

Isso não significa que todo investimento estrangeiro deva ser tratado como ameaça ou que a participação chinesa, norte-americana ou de qualquer outra potência em projetos estratégicos represente automaticamente uma perda de soberania. O desafio está em estabelecer mecanismos capazes de distinguir uma relação econômica benéfica de uma dependência que possa limitar a liberdade de decisão do Estado em uma situação de crise.

Essa distinção será cada vez mais importante porque a competição entre grandes potências tende a tornar menos clara a separação entre os interesses econômicos e os interesses de segurança. Infraestrutura, tecnologia, energia, recursos naturais, logística e comunicações passaram a integrar uma mesma equação estratégica, fazendo com que escolhas relacionadas ao desenvolvimento nacional possam produzir efeitos que ultrapassam o campo econômico.

É justamente essa realidade que qualquer projeto de “Escudo das Américas” terá de considerar. Uma arquitetura de segurança hemisférica não poderá se limitar à coordenação entre forças armadas se parte das vulnerabilidades estratégicas da região estiver localizada fora do campo militar tradicional. Proteger o hemisfério também significa garantir que seus países mantenham capacidade de decisão sobre as infraestruturas, tecnologias e cadeias produtivas das quais dependem.

Para a América Latina, portanto, o desafio não está em escolher automaticamente entre Washington e Pequim, mas em utilizar a competição entre os grandes centros de poder para ampliar suas próprias capacidades sem transformar oportunidades econômicas em vulnerabilidades estratégicas. Essa será uma das condições para que a autonomia regional deixe de ser apenas um princípio diplomático e passe a possuir sustentação material.

O Brasil diante do novo tabuleiro

Para o Brasil, essa disputa possui uma dimensão ainda maior. O país mantém relações econômicas profundas tanto com a China quanto com os Estados Unidos, ocupa uma posição central na América do Sul, possui uma extensa costa atlântica, grandes reservas de recursos naturais, uma produção agrícola de escala global, uma Base Industrial de Defesa em desenvolvimento e interesses estratégicos que se estendem pelo Atlântico Sul, pela Amazônia e pelo espaço. Essa combinação coloca Brasília em uma posição singular diante da crescente competição entre os grandes centros de poder.

O Brasil não precisa transformar sua política externa em escolha entre Washington e Pequim, assim como não deveria permitir que a competição entre grandes potências determine automaticamente suas prioridades de defesa. A questão central é construir capacidade suficiente para que o país possa manter relações com diferentes centros de poder sem transformar dependências econômicas, tecnológicas ou militares em vulnerabilidades estratégicas.

Essa distinção entre relacionamento e dependência será cada vez mais importante. Autonomia estratégica não significa isolamento ou a tentativa de produzir internamente tudo aquilo de que o país necessita. Significa possuir alternativas suficientes para preservar a liberdade de decisão quando interesses externos entrarem em conflito com as prioridades nacionais. Isso envolve proteger infraestruturas críticas, dominar tecnologias essenciais, manter capacidade industrial, diversificar fornecedores, proteger dados sensíveis, preservar o controle sobre recursos estratégicos e garantir que o Estado tenha condições de continuar operando mesmo diante de uma crise internacional.

É nesse ponto que a discussão proposta pelo “Escudo das Américas” deixa de ser exclusivamente norte-americana. A segurança do hemisfério não pode ser analisada apenas a partir das decisões tomadas em Washington, porque as vulnerabilidades estratégicas da região também estão distribuídas pelos portos, pelas rotas marítimas, pelas redes digitais, pelos satélites, pelas cadeias de energia, pelos minerais críticos, pelas indústrias e pelas infraestruturas que conectam as economias americanas ao restante do mundo.

A China compreendeu essa transformação e vem construindo sua presença sobre essas estruturas há anos, utilizando comércio, investimentos, financiamento, infraestrutura, tecnologia e acesso a mercados como instrumentos de projeção de influência. A Rússia, com recursos econômicos e capacidade de inserção muito menores, procura preservar espaços específicos nos quais possa exercer pressão estratégica, sobretudo por meio da cooperação militar, diplomática, energética e de inteligência. Os Estados Unidos, por sua vez, enfrentam o desafio de recuperar centralidade em uma região na qual durante décadas exerceram predominância econômica, política e militar.

O resultado é uma nova competição pelo Hemisfério Ocidental. Isso não significa necessariamente o surgimento de uma nova Guerra Fria ou a formação de blocos rígidos semelhantes aos que marcaram o século XX. A disputa atual tende a ser mais difusa e multidimensional, combinando poder econômico, tecnologia, infraestrutura, recursos naturais, logística, influência política e capacidade militar na mesma equação estratégica.

Nesse ambiente, o Brasil não ocupa uma posição periférica. Sua dimensão territorial, sua economia, seus recursos naturais, sua posição no Atlântico Sul e sua capacidade industrial fazem do país um dos principais espaços onde essa competição poderá se manifestar. Ao mesmo tempo, essa posição cria uma exigência que ultrapassa a diplomacia: qualquer projeto de autonomia estratégica precisa estar apoiado em capacidade material suficiente para transformar decisões políticas em instrumentos concretos de soberania.

Isso significa que a liberdade de escolha do Brasil dependerá, em grande medida, da capacidade de proteger aquilo que considera estratégico e de reduzir vulnerabilidades que possam ser exploradas em momentos de crise. Sistemas de vigilância, navios, aeronaves, satélites, defesa antiaérea, infraestrutura logística, tecnologias críticas, estoques estratégicos, pessoal qualificado e uma indústria capaz de desenvolver, produzir e sustentar esses sistemas ao longo de décadas fazem parte da mesma equação.

Essa capacidade, porém, não pode ser construída apenas por meio de documentos de planejamento ou de decisões políticas. Ela exige investimentos contínuos, previsibilidade orçamentária, capacidade tecnológica, escala industrial e uma estratégia capaz de transformar recursos financeiros limitados em capacidades militares efetivas. Quanto mais ambiciosa for a arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental, maior será também a necessidade de discutir como seus custos serão distribuídos e quais países terão condições de sustentar, no longo prazo, as capacidades que essa nova realidade estratégica exigirá.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre segurança hemisférica encontra a economia política. Definir o que precisa ser protegido e identificar os atores que disputam influência sobre essas estruturas são apenas etapas iniciais. A etapa seguinte é determinar quem possui recursos para financiar essa proteção, quem dispõe de uma indústria capaz de produzir os meios necessários, quais tecnologias precisarão ser desenvolvidas ou adquiridas e como os países poderão dividir responsabilidades sem criar novas relações de dependência.

Para o Brasil, essa discussão é particularmente relevante porque sua posição estratégica exige capacidades proporcionais à dimensão de seus interesses, mas sua realidade fiscal impõe escolhas. Não será possível financiar simultaneamente todos os projetos desejáveis, manter programas estratégicos sem interrupções e responder a todas as novas ameaças apenas ampliando despesas. Será necessário estabelecer prioridades, buscar maior eficiência na aplicação dos recursos públicos e utilizar a Base Industrial de Defesa não apenas como fornecedora de equipamentos, mas como instrumento de geração de tecnologia, empregos qualificados, autonomia e capacidade de sustentação logística.

Entorno estratégico Brasileiro

A mesma lógica vale para o restante da América Latina. Uma arquitetura hemisférica realmente funcional não poderá depender exclusivamente da capacidade financeira e tecnológica dos Estados Unidos, mas também não poderá pressupor que todos os países da região tenham condições semelhantes de investimento em defesa. A diferença entre economias, estruturas industriais e capacidades militares exigirá uma divisão de responsabilidades baseada nas características e possibilidades de cada país.

É nesse cenário que surge a pergunta central para o próximo capítulo do “Escudo das Américas”: quem paga pela segurança do hemisfério?

A resposta determinará muito mais do que a dimensão dos orçamentos de defesa. Ela ajudará a definir quais países terão capacidade de participar efetivamente da nova arquitetura, quais setores industriais receberão investimentos, quais tecnologias serão consideradas estratégicas e até que ponto a região conseguirá construir uma estrutura de segurança capaz de permanecer operacional quando deixar de existir o ambiente de normalidade no qual foi planejada.

Porque uma arquitetura de segurança não se sustenta apenas sobre acordos, declarações políticas ou intenções diplomáticas. Ela precisa de recursos, indústria, tecnologia, infraestrutura e capacidade de manutenção. E, no próximo capítulo do “Escudo das Américas”, é justamente essa dimensão material da segurança hemisférica que estará no centro da análise.


por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

EDGE e Safran avançam em parceria com SIATT para desenvolver motores-foguete no Brasil

0 comentários

 

A Base Industrial de Defesa brasileira poderá ganhar novas capacidades em uma área considerada estratégica para o desenvolvimento de sistemas de mísseis. A SIATT, empresa brasileira da EDGE Group especializada em armas inteligentes, sistemas de mísseis e integração de sistemas, assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com a Safran Electronics & Defense para explorar oportunidades de cooperação tecnológica e industrial no Brasil.

O acordo anunciado nesta terça-feira (8), prevê a cooperação entre as empresas em áreas como sistemas de mísseis, loitering munitions, defesa costeira e outras tecnologias associadas. Entre as iniciativas previstas está o estabelecimento de capacidades para o desenvolvimento e a produção de motores-foguete de propelente sólido nas instalações da SIATT.

A iniciativa merece atenção pelo potencial impacto sobre a autonomia tecnológica brasileira. Os motores-foguete de propelente sólido constituem um dos principais componentes de sistemas de mísseis e foguetes, concentrando conhecimentos relacionados à propulsão, materiais, processos de fabricação e integração. O domínio dessas capacidades é particularmente relevante para países que buscam reduzir dependências externas em áreas sensíveis da defesa.

O Memorando de Entendimento também prevê a exploração conjunta de outras tecnologias críticas, incluindo sistemas de medição inercial e navegação, receptores GNSS, atuadores, miras optrônicas e sistemas de busca, conhecidos como seekers. Esses componentes estão diretamente relacionados à precisão, navegação, controle e capacidade de aquisição de alvos de diferentes sistemas de armas.

A combinação dessas áreas abre espaço para uma cooperação mais ampla do que o simples fornecimento de componentes. Caso as iniciativas avancem para programas concretos, a parceria poderá envolver o desenvolvimento e a integração de subsistemas capazes de atender futuros projetos de mísseis, munições guiadas, sistemas autônomos e soluções de defesa costeira.

Para a SIATT, o acordo ocorre em um momento de expansão de sua participação em programas estratégicos brasileiros. A empresa atua no desenvolvimento de sistemas de mísseis e armas inteligentes e também é responsável pela integração de sistemas no Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, o SisGAAz. A entrada em novas áreas de propulsão e sistemas embarcados poderá ampliar sua atuação dentro da cadeia brasileira de sistemas de defesa de maior complexidade.

A Safran Electronics & Defense, por sua vez, reúne competências em sistemas de navegação, optrônica, sensores, sistemas inerciais e tecnologias destinadas aos setores de defesa e aeroespacial. A possível associação dessas capacidades à estrutura industrial e aos programas desenvolvidos pela SIATT cria uma oportunidade para ampliar o conteúdo tecnológico realizado no Brasil.

O CEO do EDGE, Hamad Al Marar, destacou que o acordo amplia a rede de parcerias do grupo no Brasil e está alinhado à estratégia de desenvolvimento de capacidades soberanas de defesa. Segundo o executivo, a cooperação entre Safran e SIATT permitirá explorar o desenvolvimento de capacidades relacionadas aos motores-foguete de propelente sólido em território brasileiro.

Alexandre Ziegler, responsável pela unidade de negócios de Defesa da Safran Electronics & Defense, afirmou que a parceria reúne capacidades complementares das três empresas e poderá apoiar o desenvolvimento de novas soluções de defesa no Brasil e na região.

Por enquanto, o acordo estabelece uma estrutura para explorar oportunidades de cooperação e não representa, por si só, o lançamento de um programa específico ou a transferência imediata de tecnologias. O alcance efetivo da parceria dependerá dos projetos que surgirem a partir do Memorando de Entendimento e dos investimentos associados à implantação dessas capacidades.

Ainda assim, o anúncio coloca em discussão um ponto relevante para a indústria brasileira: a possibilidade de ampliar no País o domínio sobre tecnologias que normalmente permanecem concentradas em poucos fornecedores internacionais. Se a cooperação avançar para programas concretos, a SIATT poderá incorporar novas competências em propulsão, navegação, controle e guiagem, áreas fundamentais para o desenvolvimento da próxima geração de sistemas de mísseis e armas inteligentes produzidos no Brasil.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Proposta da Elbit prevê Avibras na montagem dos 36 ATMOS do Exército

0 comentários

 

A proposta apresentada pela Elbit Systems ao Comando Logístico do Exército (COLOG) para a aquisição de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 2000 de 155 mm prevê a participação da Avibras na montagem dos sistemas em Jacareí, São Paulo. A iniciativa pode incorporar uma importante participação da indústria brasileira ao programa de modernização da artilharia de campanha do Exército.

Segundo as informações mais recentes, a Avibras participaria da montagem dos dois exemplares destinados ao lote de avaliação e das 34 unidades de série. O programa está estimado em aproximadamente R$ 800 milhões. Até o momento, porém, não há contrato firmado entre o Exército e a empresa brasileira.

O ATMOS foi selecionado pelo Exército em 2024 como vencedor da concorrência para a Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado 155 mm Sobre Rodas (VBC OAP 155 mm SR). A configuração prevista utiliza o ATMOS 155 mm/52 sobre o chassi Tatra T-815 6x6.

O sistema combina uma peça de 155 mm, carregamento automatizado, navegação e pontaria digitais e integração com sistemas de comando e controle. A plataforma sobre rodas proporciona elevada mobilidade, permitindo reduzir o tempo de permanência em posições de tiro e aumentar a capacidade de deslocamento das unidades de artilharia.

A participação da Avibras tem relevância principalmente pelo conhecimento acumulado pela empresa na integração de sistemas militares sobre rodas e de artilharia. A companhia é responsável pelo desenvolvimento do sistema ASTROS e possui experiência com plataformas Tatra empregadas no programa.

A proposta, entretanto, não prevê a fabricação integral do ATMOS no Brasil. A participação conhecida está concentrada na montagem dos sistemas em Jacareí. O nível de nacionalização dependerá das atividades, componentes e processos que forem efetivamente transferidos ou realizados no País.

Para o Exército, a presença de uma empresa brasileira na montagem pode facilitar a criação de capacidade nacional de suporte e manutenção ao longo do ciclo de vida dos obuseiros. Para a Avibras, o programa representa uma oportunidade de utilizar sua estrutura industrial e preservar competências relacionadas à integração de sistemas de defesa.

A primeira etapa prevê dois ATMOS para avaliação pelo Exército. Após os testes e a verificação dos requisitos estabelecidos pela Força, poderão ser contratadas as 34 unidades restantes.

A expectativa divulgada é de que o contrato referente aos dois exemplares do lote de avaliação possa avançar ainda em 2026. O prosseguimento para as unidades de série dependerá dos resultados dessa avaliação.

Com valor estimado em R$ 800 milhões, o programa combina a renovação da capacidade de artilharia de 155 mm do Exército com uma possível participação da indústria brasileira na montagem dos sistemas. Caso a proposta avance, Jacareí poderá assumir novamente um papel relevante na integração de equipamentos destinados à Força Terrestre.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...
 

GBN Defense - A informação começa aqui Copyright © 2012 Template Designed by BTDesigner · Powered by Blogger