quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Exército treina frações anticarro para emprego contra forças blindadas

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O 19º Batalhão de Infantaria Motorizado realizou, no segundo semestre de 2026, o Estágio de Pelotão Anticarro, reunindo 48 militares de organizações subordinadas à 8ª Brigada de Infantaria Motorizada. A capacitação concentrou-se no emprego técnico e tático das frações destinadas a enfrentar carros de combate e outros veículos blindados, incluindo procedimentos de preparação do material, tiro, deslocamento e emprego no terreno.

O programa combinou técnica de material, técnica de tiro, maneabilidade da peça e planejamento tático. A proposta não se limita à operação individual do armamento: uma fração anticarro precisa selecionar posições, organizar suas guarnições, definir setores de observação e tiro e coordenar o momento do engajamento de acordo com a situação tática.


Essa integração ganha importância em um cenário no qual blindados continuam sendo empregados em conjunto com infantaria, drones, artilharia e outros elementos de apoio. Para uma pequena fração anticarro, a eficácia depende não apenas da capacidade de penetração da munição, mas também da escolha da posição, da identificação do alvo e da disciplina de tiro para aproveitar a janela de engajamento.

O estágio terminou com um exercício tático no terreno baseado em uma emboscada anticarro. Nesse tipo de situação, a fração procura explorar terreno, cobertura e ocultação para reduzir a capacidade de reação do alvo e realizar o engajamento a partir de uma posição previamente selecionada. O exercício permitiu avaliar a execução coordenada dos procedimentos treinados durante a capacitação.

No Exército Brasileiro, a missão primária das frações anticarro é o combate a blindados inimigos. O emprego do armamento também pode ser direcionado contra casamatas, fortificações, viaturas, armas coletivas e outros alvos, ampliando sua utilidade além do enfrentamento direto de carros de combate.

A menor fração de um pelotão anticarro é a Peça de Míssil Anticarro, formada por um sargento, um cabo e um soldado. A estrutura permite distribuir equipes pelo terreno e empregar os sistemas de armas a partir de diferentes posições, conforme a missão e as características do campo de batalha.


O treinamento realizado em Santa Maria coloca o foco justamente nesse nível tático, no qual decisões tomadas em poucos segundos podem determinar a oportunidade de um engajamento. Preparação do material, distribuição das funções, escolha da posição, identificação do alvo e coordenação da ação precisam funcionar como uma sequência única para que o sistema anticarro produza o efeito esperado.

A atividade também evidencia a permanência da capacidade anticarro dentro da evolução da Força Terrestre. Mesmo com a disseminação de drones, sensores e munições guiadas, o combate a forças mecanizadas continua exigindo meios capazes de acompanhar as unidades de manobra e responder diretamente à presença de blindados no campo de batalha.

Nesse contexto, o treinamento das pequenas frações permanece associado à evolução da doutrina e à modernização dos meios previstos para a Força Terrestre. O Projeto Força 40 incorpora essa preparação dentro de uma transformação mais ampla do Exército, na qual pessoal, doutrina, sensores, armamentos e sistemas de comando e controle precisam operar de forma integrada.


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com Exército Brasileiro


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"Epic Fury" expõe o custo da guerra: ataques iranianos pressionam logística e capacidade militar dos EUA

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O balanço da Operação Epic Fury começa a revelar uma dimensão menos visível da campanha militar dos Estados Unidos contra o Irã: o custo de sustentar operações de alta intensidade diante de uma resposta capaz de atingir simultaneamente bases, aeronaves, infraestrutura e cadeias logísticas. Relatório do Inspetor-Geral do Departamento de Defesa registra centenas de estruturas militares danificadas ou destruídas, perdas de equipamentos e US$ 33,4 bilhões em despesas relacionadas à operação no período analisado.

Segundo o levantamento, forças norte-americanas e de países parceiros interceptaram mais de 6.000 drones e 1.500 mísseis balísticos lançados pelo Irã. A dimensão desse esforço demonstra a pressão exercida sobre a arquitetura de defesa aérea regional, que, apesar do elevado número de interceptações, não impediu que parte dos vetores atingisse instalações e forças norte-americanas.

Os danos alcançaram instalações militares em oito países: Kuwait, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Iraque, Omã e Jordânia. O volume de estruturas atingidas obrigou os Estados Unidos a reorganizar a distribuição de suas atividades de apoio, reduzindo a dependência de determinados pontos avançados do teatro de operações.

No Bahrein, onde os Estados Unidos mantêm uma infraestrutura fundamental para as operações da 5ª Frota, os danos afetaram a capacidade de apoio naval. Parte da estrutura logística precisou ser redistribuída para outros pontos, incluindo Diego Garcia, no Oceano Índico. A maior distância em relação ao Oriente Médio ampliou os ciclos de abastecimento, que em determinadas situações ultrapassaram duas semanas.

O efeito dessa mudança ultrapassa a simples questão do transporte. Para uma força naval empregada continuamente, combustível, munição, peças, manutenção e pessoal precisam chegar ao meio operacional dentro de uma janela compatível com o ritmo de combate. O alongamento desses ciclos reduz a margem disponível para manter navios em atividade contínua e aumenta a dependência de uma rede logística que precisa permanecer funcional mesmo sob ataque.

As perdas de aeronaves acrescentaram pressão sobre a disponibilidade operacional. O inventário apresentado no relatório inclui quatro F-15E, um A-10, quatro helicópteros AH-6, um AH-64 Apache, um MH-60 e um MQ-4C, além de até 30 MQ-9 Reaper. O levantamento reúne diferentes causas de perda, incluindo ação inimiga, acidentes e fogo amigo, não sendo correto atribuir todas as aeronaves destruídas diretamente aos ataques iranianos.

O caso dos F-15E ilustra essa diferença: quatro foram perdidos, mas somente um foi classificado como perda em ação contra o adversário; os demais envolveram fogo amigo. A distinção é relevante para dimensionar o resultado militar da campanha e evitar que perdas operacionais de naturezas distintas sejam tratadas como abates provocados pelo Irã.


No campo financeiro, o Departamento de Defesa calculou em US$ 33,4 bilhões os custos da operação no período considerado pelo relatório. Desse montante, US$ 22,3 bilhões corresponderam a munições e US$ 3,7 bilhões a equipamentos perdidos. O valor não representa a conta final da guerra, pois despesas futuras de reconstrução, reposição e manutenção da presença militar ainda dependem das decisões posteriores sobre o teatro de operações.

O consumo de munições constitui um dos pontos mais relevantes do levantamento. A intensidade da campanha produziu déficits estratégicos em determinados estoques e evidenciou limitações na capacidade de reposição industrial. O problema deixa de ser apenas financeiro: uma guerra prolongada exige que a indústria consiga reconstruir estoques na mesma escala em que armas de precisão, interceptadores e outros sistemas são consumidos.

Essa pressão também alcançou o orçamento regular do Pentágono. Na ausência de uma dotação específica inicialmente destinada à operação, recursos foram deslocados de outras prioridades, afetando verbas destinadas a treinamento, manutenção e atividades operacionais. O mecanismo permite financiar a campanha no curto prazo, mas transfere parte do custo para capacidades que precisam continuar sendo mantidas durante e depois do conflito.

A infraestrutura diplomática norte-americana também sofreu danos. O levantamento aponta aproximadamente US$ 184 milhões em prejuízos a instalações do Departamento de Estado em quatro países, acrescentando uma dimensão não militar à campanha de ataques iranianos contra a presença norte-americana na região.

Os dados de baixas também cresceram ao longo da campanha. Até o fim de agosto, os registros norte-americanos contabilizavam 18 militares mortos e 756 feridos, totalizando 774 baixas entre mortos e feridos. Para o período especificamente coberto pelo relatório sobre a Epic Fury, eram registrados 14 mortos e 417 feridos, enquanto os demais casos pertenciam às operações posteriores classificadas pelo Departamento de Defesa.

O conjunto dos dados não significa que a defesa norte-americana tenha deixado de funcionar ou que o Irã tenha neutralizado a capacidade militar dos Estados Unidos. As milhares de interceptações demonstram justamente a escala da resposta defensiva. O que o relatório evidencia é outra questão: mesmo uma força dotada de ampla superioridade tecnológica permanece dependente de infraestrutura, estoques, manutenção, transporte e capacidade industrial para transformar essa vantagem em poder de combate sustentado.

A Epic Fury expõe, assim, uma variável central da guerra contemporânea: a capacidade de reposição pode ser tão determinante quanto a capacidade de destruição. Uma campanha de alta intensidade consome rapidamente munições, equipamentos e infraestrutura, e a resistência de uma força passa a depender da velocidade com que consegue recuperar perdas, recompor estoques e manter aberta sua cadeia logística. É nesse intervalo entre o que uma força consegue empregar no campo de batalha e aquilo que sua indústria e infraestrutura conseguem repor que se encontra um dos principais custos estratégicos revelados pelo conflito.


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FQ-44 amplia conceito de CCA com armas ar-solo e reforça papel de ala não tripulado

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A Anduril apresentou novas imagens de seu FQ-44, desenvolvido para o programa Collaborative Combat Aircraft (CCA) da Força Aérea dos Estados Unidos, mostrando a aeronave equipada não apenas para missões ar-ar, mas também para emprego contra alvos terrestres. A configuração divulgada combina foguetes guiados a laser AGR-20 APKWS com bombas GBU-54 LJDAM de 500 libras, evidenciando a intenção de ampliar o conjunto de efeitos que o CCA poderá proporcionar em operações integradas com aeronaves tripuladas.

Nas imagens, o FQ-44 aparece equipado com dois lançadores de sete foguetes APKWS cada, além de duas bombas GBU-54. As armas são instaladas nos pontos de fixação sob as asas, com o emprego do suporte duplo BRU-57/A, sistema utilizado para permitir o transporte de duas armas compatíveis em um único ponto de fixação. A configuração demonstra uma arquitetura voltada à flexibilidade de emprego, permitindo combinar diferentes tipos de armamento de acordo com a missão.

O APKWS é um foguete de 70 mm equipado com sistema de orientação a laser, originalmente desenvolvido para transformar foguetes não guiados em munições de precisão contra alvos como veículos, posições e outros alvos de menor dimensão. Já a GBU-54 LJDAM combina orientação por GPS/INS com capacidade de guiagem a laser, permitindo engajar alvos previamente coordenados ou designados durante a fase terminal do ataque. A combinação dos dois sistemas oferece ao FQ-44 diferentes alternativas de emprego contra alvos terrestres.

A configuração divulgada também deve ser analisada dentro do conceito de emprego do CCA. O FQ-44 não está sendo desenvolvido simplesmente como um substituto não tripulado para um caça convencional, mas como uma plataforma capaz de transportar sensores e armamentos e operar integrada a aeronaves tripuladas. Nesse modelo, um caça pode atuar como elemento de comando e coordenação enquanto o CCA amplia a área de atuação, distribui sensores e aumenta o número de armas disponíveis na formação.

A Anduril já havia demonstrado a integração do FQ-44 ao emprego do AIM-120 AMRAAM, estabelecendo a dimensão ar-ar do projeto. A incorporação de armamentos ar-solo acrescenta uma segunda camada de emprego e permite que a mesma plataforma seja utilizada em missões distintas sem necessariamente exigir uma configuração estrutural completamente diferente.

A empresa também indica que a arquitetura de armamentos poderá receber outras munições e equipamentos. Entre as possibilidades estão bombas de pequeno diâmetro, como a GBU-39 e a GBU-53, além de mísseis de maior alcance e pods de designação de alvos. Nesse contexto, a família Barracuda, desenvolvida pela própria Anduril, aparece como uma possibilidade coerente com a proposta de ampliar o alcance e a autonomia de emprego do CCA, embora a configuração específica e a integração de cada armamento dependam de processos próprios de desenvolvimento e qualificação.

A opção por diferentes classes de armamento também está relacionada à filosofia do CCA Increment 1. Essas aeronaves foram concebidas para transportar sensores e armas destinados a ampliar as capacidades dos caças tripulados, mantendo uma arquitetura relativamente simples e orientada à redução do custo unitário. Isso permite empregar um número maior de plataformas e distribuir funções entre diferentes elementos de uma força aérea conectada.

Nesse conceito, o CCA pode transportar mísseis ar-ar para ampliar a capacidade de combate da formação, armas ar-solo para ataques contra alvos terrestres e sensores destinados à obtenção e distribuição de informações. A plataforma passa, portanto, a funcionar como um elemento modular dentro de uma arquitetura de combate, em vez de depender de uma única função operacional.

A evolução prevista para os incrementos posteriores aponta para uma mudança gradual nesse conceito. Enquanto o Increment 1 prioriza simplicidade, custo e capacidade de transporte de equipamentos para aeronaves tripuladas, projetos futuros poderão incorporar maior capacidade de sobrevivência, autonomia e independência para executar determinadas tarefas. A consequência será uma aproximação progressiva entre os CCAs e características tradicionalmente associadas às aeronaves de combate tripuladas.

Essa evolução é particularmente relevante porque modifica a relação entre massa, risco e poder de fogo dentro de uma formação aérea. Uma plataforma não tripulada pode receber armamentos e sensores que aumentam a capacidade da força sem colocar um piloto diretamente na aeronave enviada para determinadas áreas de maior ameaça. O ganho, contudo, depende da capacidade de manter comunicações, consciência situacional, navegação e coordenação com os demais elementos da força.

As imagens divulgadas pela Anduril, portanto, não representam apenas uma nova configuração de armamento do FQ-44. Elas mostram a expansão do conceito de emprego do CCA para além da função de vetor ar-ar, incorporando capacidade ar-solo e reforçando a ideia de que essas aeronaves serão componentes de uma arquitetura distribuída de combate. A demonstração também deve ser distinguida de uma capacidade operacional plenamente certificada: a integração física de armamentos e sua utilização em ensaios são etapas necessárias para chegar à qualificação, mas não significam, por si só, que todas essas configurações já estejam disponíveis para emprego operacional.


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HÜRJET testa radar AESA MURAD e trava outro protótipo durante ensaio em voo

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O segundo protótipo do HÜRJET (P2), realizou um teste em voo utilizando o radar AESA MURAD da ASELSAN, no qual detectou, acompanhou e travou o primeiro protótipo (P1). O ensaio demonstra uma função específica do sistema de radar integrada à aeronave, mas não representa, isoladamente, a obtenção de uma capacidade operacional de combate pelo HÜRJET.

Durante a atividade, o P2 utilizou o MURAD para adquirir e acompanhar o P1 como alvo aéreo e posteriormente realizar o travamento do alvo. O cenário permitiu avaliar em condições reais de voo a interação entre radar, aeronave e alvo, mas não envolveu lançamento de armamento nem demonstração de uma sequência completa de engajamento ar-ar.

A importância do teste está na integração do radar AESA à plataforma e na validação de uma etapa necessária para uma eventual configuração de combate. O HÜRJET foi originalmente desenvolvido como aeronave de treinamento avançado, e a incorporação de um radar dessa categoria amplia o caminho tecnológico disponível para futuras versões, mas não altera por si só a classificação operacional atual da aeronave.

A possibilidade de uma configuração de combate leve contempla a utilização do MURAD em conjunto com armamentos ar-ar, entre eles o GÖKDOĞAN, destinado a engajamentos além do alcance visual, e o BOZDOĞAN, voltado ao combate de menor alcance. Esses sistemas fazem parte do conceito de uma futura configuração armada e não foram empregados no ensaio realizado entre os dois protótipos.

A evolução para uma aeronave efetivamente empregável em combate exigirá a integração e qualificação de um conjunto muito mais amplo de sistemas, incluindo sensores, sistema de missão, enlaces de dados, armamentos, integração de tiro e procedimentos operacionais. O teste realizado com o P2 valida apenas uma etapa dessa cadeia.

O desenvolvimento do HÜRJET também contempla diferentes configurações e mercados. A Espanha selecionou a aeronave para sua futura plataforma de treinamento avançado, denominada Saeta II no programa espanhol. A eventual adoção de uma configuração de combate leve constitui uma questão distinta e não deve ser confundida com o programa espanhol de treinamento.

Outra derivação prevista é a versão naval do HÜRJET, destinada a operações a partir do futuro porta-aviões MUGEM. A configuração embarcada exigirá alterações específicas na estrutura e nos sistemas da aeronave, mas seu desenvolvimento permanece separado da capacidade demonstrada no atual teste do radar.

A tecnologia AESA empregada no HÜRJET também faz parte da expansão dos sensores desenvolvidos pela indústria turca para outras plataformas. A TUSAŞ prevê a integração do radar MURAD 100-A ao ANKA III, associada a uma configuração de maior capacidade de carga útil, autonomia ampliada e possibilidade de emprego de armamentos ar-ar.

O teste realizado pelo P2 representa, portanto, uma demonstração de integração e funcionamento do MURAD em uma situação real de voo, com detecção, acompanhamento e travamento de outro avião. A transformação dessa capacidade técnica em uma capacidade operacional de combate dependerá das etapas posteriores de desenvolvimento, integração, ensaios e qualificação da configuração correspondente.


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KAPLAN APC conclui primeiros testes e avança para produção na Indonésia

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A FNSS e a PT Pindad concluíram os primeiros testes de aceitação pré-entrega do KAPLAN APC, desenvolvido para atender ao requisito do Exército da Indonésia por um veículo blindado de transporte de pessoal sobre lagartas na classe de 30 toneladas. O primeiro exemplar foi produzido nas instalações da FNSS, na Türkiye, e submetido aos ensaios com participação da PT Pindad. Após o envio à Indonésia, o veículo passará pelos testes finais de aceitação junto ao usuário.

Enquanto o primeiro exemplar avança para essa etapa, a produção do segundo veículo prossegue nas instalações da PT Pindad, na Indonésia. O programa dá continuidade à cooperação estabelecida entre as duas empresas no KAPLAN MT, conhecido na Indonésia como HARIMAU, e mantém o modelo de transferência de tecnologia e produção local empregado anteriormente.

O KAPLAN APC integra a família de veículos blindados sobre lagartas KAPLAN e foi projetado para operar em diferentes terrenos e condições meteorológicas. Sua configuração prevê capacidade para 13 militares, incluindo motorista, comandante e atirador, enquanto o sistema de suspensão foi desenvolvido para reduzir as vibrações internas e melhorar a tração.

A arquitetura eletrônica aberta permite a integração de diferentes sistemas de missão. Entre os recursos previstos estão um Sistema de Gerenciamento do Campo de Batalha e um sistema de consciência situacional de 360 graus, com capacidade de visão diurna e noturna para a tripulação.

A proteção utiliza arquitetura modular contra ameaças balísticas e minas. De acordo com os requisitos do usuário, o veículo poderá receber um sistema de proteção ativa contra mísseis anticarro e granadas propelidas por foguete. Também estão previstos sistema automático de supressão de incêndio, ar-condicionado e sistema de proteção QBRN, com o interior mantido em ambiente selado para proteger os ocupantes em condições adversas.

O projeto também foi concebido para receber diferentes sistemas de armas. O KAPLAN APC poderá integrar torres tripuladas ou não tripuladas e armamentos de 30 ou 35 mm, morteiros de 120 mm e sistemas de mísseis anticarro. A arquitetura modular permite configurar a plataforma para missões de infantaria mecanizada, reconhecimento, comando e controle, proteção de força, evacuação médica, operações de resgate, engenharia de combate e apoio de fogo direto ou indireto.

A mobilidade combina um motor de elevada potência com transmissão automática, formando uma plataforma concebida para acompanhar operações de forças mecanizadas. A FNSS também prevê a utilização de componentes e subsistemas comuns entre o KAPLAN APC, o KAPLAN MT e outras configurações da família KAPLAN.

Parte dessa comunalidade também alcança o ZAHA, veículo blindado anfíbio de assalto empregado pelo Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha Turca. Segundo a FNSS, o compartilhamento de componentes e subsistemas já empregados em outras plataformas pode favorecer a confiabilidade, a integração logística e a manutenção, além de reduzir a necessidade de estruturas específicas para cada configuração.

O aspecto industrial constitui um dos elementos centrais do programa. A produção do segundo KAPLAN APC diretamente na Indonésia mantém a lógica de localização adotada na cooperação entre FNSS e PT Pindad e demonstra a aplicação de transferência de tecnologia e produção local no desenvolvimento de uma nova plataforma blindada.

O KAPLAN APC amplia ainda a possibilidade de utilização de uma arquitetura comum para diferentes configurações de veículos sobre lagartas. A mesma família tecnológica poderá atender funções distintas por meio da integração de diferentes sistemas de armas, sensores e equipamentos de missão, sem alterar a base da plataforma.

Com os testes de aceitação pré-entrega concluídos na Türkiye, o primeiro KAPLAN APC seguirá para a Indonésia, onde será submetido à avaliação final junto ao usuário. Paralelamente, o segundo veículo continua em produção nas instalações da PT Pindad, marcando a continuidade do programa de desenvolvimento e produção local entre as duas empresas.


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TESEO MK2/E avança para produção após validar alcance em novo teste para a Marinha Italiana

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A MBDA concluiu com sucesso um novo disparo de validação do sistema de mísseis antinavio TESEO MK2/E, desenvolvido para a Marinha Italiana. O ensaio, realizado no âmbito do programa plurianual de desenvolvimento, validou o alcance do míssil durante um voo de cruzeiro de aproximadamente 20 minutos. Segundo a empresa, o resultado confirma o projeto geral do novo sistema antinavio e abre caminho para a conclusão da fase de desenvolvimento e posterior entrada em produção, com a primeira entrega prevista para 2028.

O teste representa uma etapa importante do processo de qualificação e sucede ao disparo realizado em 2024, que validou o projeto dos novos componentes e a aerodinâmica do míssil. Com a nova campanha de ensaios, o programa avança para a etapa final de desenvolvimento antes da produção seriada.

O programa TESEO MK2/E foi lançado em 2021, a partir de um contrato firmado com a Direção Nacional de Armamentos Navais da Itália para o desenvolvimento, integração e qualificação do novo sistema. Em 29 de setembro de 2025, a MBDA assinou o contrato de produção, antecipando a transição para a fabricação das unidades destinadas à Marinha Italiana.

A MBDA classifica o TESEO MK2/E como um sistema de armas completamente novo, desenvolvido a partir da experiência da família TESEO, conhecida internacionalmente como OTOMAT. A arquitetura foi concebida para responder à evolução das ameaças e ampliar a capacidade de emprego a longa distância, combinando atuação contra alvos marítimos e terrestres.

Entre os principais avanços está a cabeça de busca multimodo, que combina um novo sensor de radiofrequência com tecnologia AESA e capacidade ECCM a um sensor eletro-óptico. O sistema também incorpora um planejador de missão avançado, concebido para operar em cenários complexos e permitir maior flexibilidade na execução do engajamento.

Outro diferencial está no enlace de dados bidirecional, que permite o controle do míssil durante o voo até o engajamento. A arquitetura possibilita atualizar informações do alvo, realizar sua eventual reatribuição e abortar a missão, enquanto os parâmetros planejados podem ser ajustados pelo operador de acordo com a situação tática em tempo real.

Em termos cinemáticos, a MBDA informa velocidade de cruzeiro subsônica elevada, navegação integrada INS/GPS, radioaltímetro e capacidade de voo rasante sobre o mar, além de trajetória adaptada para operações sobre terra. A empresa declara alcance efetivo superior a 350 quilômetros em perfil sea-skimming, além de elevada manobrabilidade terminal.

Essa combinação transforma o TESEO MK2/E em uma arma de emprego dual, capaz de atuar tanto no domínio marítimo quanto contra alvos terrestres em profundidade. A documentação da MBDA destaca ainda a capacidade de realizar ataques de precisão em longo alcance e de operar em diferentes condições meteorológicas e de iluminação.

Na Marinha Italiana, o novo sistema será empregado nos PPA, nos futuros destróieres do programa DDX e nas fragatas FREMM EVO. O TESEO MK2/E também complementará a versão anterior MK2/A, já empregada nas unidades das classes FREMM e Horizon. A MBDA afirma ainda que o sistema permanece adaptável aos requisitos de clientes internacionais.

A distribuição do novo armamento entre diferentes classes permite ampliar a capacidade de ataque de superfície da frota italiana enquanto incorpora uma capacidade de ataque terrestre de longo alcance à arquitetura de combate naval. Nos PPA, DDX e FREMM EVO, o TESEO MK2/E será integrado a plataformas com diferentes funções e gerações, mas dentro de uma mesma lógica de expansão do alcance e da flexibilidade de emprego.

Além do ganho operacional, o programa possui relevância para a base tecnológica italiana. O desenvolvimento do TESEO MK2/E mantém no país competências associadas à integração de sensores avançados, sistemas de missão, enlaces de dados e armamentos de longo alcance. A MBDA também apresenta a possibilidade de adaptação do sistema às necessidades de clientes estrangeiros, ampliando seu potencial de exportação.

Com o alcance validado no novo disparo e o contrato de produção já firmado, o TESEO MK2/E entra na etapa final de desenvolvimento e qualificação. A primeira entrega permanece prevista para 2028, quando a nova arma deverá começar a substituir progressivamente a atual arquitetura de mísseis antinavio italiana em determinadas plataformas e ampliar as opções de ataque de longo alcance da Marinha Italiana.


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FENRIS: O novo 6x6 de 105 mm une Arquus e John Cockerill

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A John Cockerill Defense em conjunto com a Arquus desenvolveu o FENRIS, uma nova plataforma blindada 6x6 de 26 toneladas concebida para missões de reconhecimento, apoio de fogo e emprego mecanizado. Com motor de 500 hp, suspensão ativa e canhão de 105 mm, o veículo combina mobilidade, proteção e poder de fogo em uma plataforma de peso intermediário. A fabricante posiciona o FENRIS como uma solução voltada a forças que necessitam de fogo direto sem recorrer a uma plataforma da categoria dos carros de combate pesados (MBT).

O projeto é também o primeiro resultado de maior visibilidade da integração entre a francesa Arquus e a belga John Cockerill. A empresa belga concluiu em 2024 a aquisição da fabricante francesa, anteriormente pertencente ao grupo Volvo. A operação passou a reunir sob a mesma estrutura a experiência da Arquus no desenvolvimento de veículos blindados sobre rodas e a especialização da John Cockerill em torres e sistemas de armas.

O FENRIS utiliza um chassi 6x6 desenvolvido pela Arquus, equipado com motor de 500 hp de elevado torque, transmissão automática, suspensão ativa e sistema centralizado de calibração dos pneus. A configuração pode utilizar pneus 14.00 R20 ou 16.00 R20, permitindo adequar o veículo às diferentes condições de terreno.

A suspensão ativa é um dos elementos de destaque da plataforma. O sistema permite controlar a altura e a atitude do veículo, contribuindo para a mobilidade fora de estrada e possibilitando adequar sua posição conforme as condições do terreno e a situação tática. Essa característica também pode favorecer a exposição reduzida da plataforma durante o emprego do armamento.

O armamento principal é a torre Cockerill 3105, equipada com canhão de 105 mm de alta pressão compatível com munições no padrão OTAN. O sistema possui estabilização em dois eixos, carregamento automático e sistema digital de controle de tiro, permitindo o emprego do armamento contra alvos terrestres inclusive com o veículo em movimento.

A torre concentra esse poder de fogo em uma plataforma de 26 toneladas, estabelecendo uma relação entre massa, mobilidade e armamento diferente daquela encontrada nos carros de combate pesados. O conceito é direcionado especialmente a missões nas quais a tropa necessita de capacidade de fogo direto acompanhando unidades móveis.

A configuração apresentada também incorpora o Hornet-S C-UAS, solução destinada à defesa contra sistemas aéreos não tripulados. A inclusão dessa capacidade demonstra a preocupação do projeto com uma ameaça que passou a ocupar espaço relevante no ambiente operacional contemporâneo, particularmente para veículos empregados em posições avançadas.

A proteção da plataforma foi concebida dentro do mesmo conceito de equilíbrio entre mobilidade e sobrevivência. A arquitetura permite diferentes configurações de proteção conforme os requisitos do usuário, enquanto o conjunto de suspensão, motorização e sistemas embarcados procura preservar a capacidade de deslocamento mesmo com a adição de equipamentos e blindagem.

A mobilidade estratégica também integra os requisitos do projeto. Segundo a fabricante, o FENRIS pode ser transportado por um Airbus A400M em configuração de transporte tático, característica que amplia as possibilidades de deslocamento da plataforma para operações realizadas a maiores distâncias.

A relação entre configuração 6x6, 26 toneladas e canhão de 105 mm coloca o FENRIS em uma categoria próxima à de veículos de combate sobre rodas destinados ao reconhecimento armado e apoio de fogo. Nesse aspecto, a comparação com o Centauro II brasileiro é pertinente, embora os dois projetos tenham configurações diferentes.

O Centauro II utiliza arquitetura 8x8, é equipado com canhão de 120 mm e foi definido pelo Exército Brasileiro como VBC Cav dentro do programa de modernização da Cavalaria. O FENRIS, por sua vez, adota uma plataforma 6x6 mais leve, armada com 105 mm, buscando combinar mobilidade e poder de fogo em uma configuração distinta.

Essa diferença não diminui a relevância da comparação. Os dois veículos representam respostas diferentes à necessidade de proporcionar às forças terrestres uma plataforma sobre rodas capaz de transportar armamento de maior calibre e acompanhar unidades mecanizadas. No caso brasileiro, entretanto, o Centauro II já possui seu lugar definido na estrutura de modernização da Cavalaria.

A dimensão industrial do FENRIS também merece atenção. A aquisição da Arquus permitiu à John Cockerill combinar a experiência francesa em plataformas terrestres com seus próprios sistemas de armas. O novo veículo materializa essa integração ao reunir o chassi e as competências de mobilidade da Arquus com a torre Cockerill 3105 e soluções complementares de proteção.

A velocidade de desenvolvimento também chama atenção. Os trabalhos conceituais começaram no primeiro trimestre de 2025, o desenvolvimento formal teve início em julho daquele ano e o primeiro protótipo funcional ficou pronto em maio de 2026. A utilização de tecnologias já desenvolvidas pelas duas empresas contribuiu para reduzir o ciclo entre o conceito e a apresentação da plataforma.

O FENRIS chega ao mercado, portanto, como uma solução interessante para forças terrestres que buscam aliar poder de fogo e mobilidade em uma plataforma intermediária. Sua combinação de arquitetura 6x6, motor de 500 hp, suspensão ativa, canhão de 105 mm, carregamento automático, controle de tiro digital e capacidade contra drones estabelece uma proposta própria dentro do atual mercado de veículos blindados sobre rodas.


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Exército testa drone com munição anticarro em campanha conduzida pelo CTEx

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O Exército Brasileiro realizou em 14 de setembro, uma campanha de testes com um drone equipado com munição anticarro, colocando em avaliação uma solução destinada ao emprego contra veículos blindados. A atividade foi conduzida pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em parceria com a empresa CSD, no Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

O projeto contempla um drone bombardeiro desenvolvido para transportar e lançar uma munição anticarro. A primeira etapa da campanha consistiu em um ensaio estático da cabeça de guerra equipada com carga oca HEAT (High Explosive Anti-Tank), no qual foi verificada a capacidade de perfuração contra placas de aço utilizadas como representação da estrutura de um blindado.

Na sequência, o sistema foi submetido a um lançamento cinético real da munição a partir da plataforma aérea. Segundo o CTEx, o vetor cumpriu a missão mesmo sob condições meteorológicas adversas, com presença de vento e precipitação, permitindo verificar seu comportamento durante a operação.

O ensaio avaliou parâmetros como estabilidade aerodinâmica, segurança do emprego e funcionamento da munição, além da integração entre os diferentes sistemas envolvidos. A realização do lançamento real representa uma etapa distinta dos ensaios laboratoriais, pois permite verificar o comportamento do conjunto em condições efetivas de operação.

O desenvolvimento ganha relevância diante de informações obtidas pelo GBN Defense no início deste ano. Na ocasião, fontes ligadas ao setor de Defesa informaram que o Exército Brasileiro buscava uma solução baseada em drones para ampliar sua capacidade anticarro, considerando inclusive possibilidades de emprego associadas ao EE-9 Cascavel e a outros veículos blindados.

A proposta identificada pelas fontes tinha como princípio acrescentar um vetor aéreo às capacidades já disponíveis nas unidades mecanizadas, sem substituir o armamento orgânico dos veículos. A utilização de um sistema desse tipo poderia proporcionar uma alternativa adicional para o engajamento de alvos blindados, dependendo do alcance, sensores, munição e conceito operacional definidos para a solução.

O Exército, entretanto, não informou que o sistema testado pelo CTEx será integrado ao Cascavel. Também não foram divulgados até o momento uma decisão de aquisição, configuração operacional definitiva ou cronograma para sua eventual incorporação às unidades. O dado oficialmente confirmado é o desenvolvimento e o teste de uma plataforma aérea destinada ao emprego de munição anticarro.

A escolha de uma cabeça de guerra HEAT direciona o projeto para uma função específica no campo de batalha. Esse tipo de carga utiliza o efeito de jato formado pela detonação para concentrar energia sobre uma área reduzida do alvo, sendo empregado historicamente em diferentes sistemas destinados ao combate de veículos blindados.

O projeto também se insere em um processo mais amplo de transformação da capacidade terrestre brasileira. Enquanto o Exército avança na incorporação do Centauro II e na modernização de diferentes segmentos de sua frota, como o EE-9  Cascavel NG, o desenvolvimento de sistemas não tripulados cria possibilidades para ampliar as capacidades das formações mecanizadas sem concentrar todas as funções de reconhecimento, aquisição de alvos e engajamento em uma única plataforma.

A dimensão tecnológica do programa também merece destaque. O trabalho conduzido pelo CTEx em parceria com a CSD, empresa da Base Industrial de Defesa, permite desenvolver e testar no Brasil uma solução que reúne plataforma aérea, sistema de lançamento e armamento. Para o Exército, esse domínio tecnológico está diretamente relacionado ao objetivo de ampliar a autonomia nacional em áreas consideradas estratégicas para a Defesa.

O teste realizado em setembro estabelece, portanto, uma conexão concreta com uma demanda que já havia sido identificada pelo GBN Defense meses antes. Naquele momento, as informações recebidas apontavam para a busca de uma solução aérea capaz de complementar a capacidade anticarro das tropas blindadas e mecanizadas. Agora, as evidências confirmam que o Exército Brasileiro trabalha no desenvolvimento de um drone equipado com munição específica para esse emprego e o sistema já foi submetido aos primeiros testes.

Ainda não está definido qual será o destino operacional dessa tecnologia, o prazo de conclusão de desenvolvimento ou se ela será incorporada às plataformas atualmente empregadas pela Força Terrestre. A campanha realizada pelo CTEx, contudo, representa uma etapa objetiva no desenvolvimento da capacidade que combina sistemas não tripulados e armamento anticarro, ampliando o conjunto de tecnologias que o Exército brasileiro avalia para o futuro do combate terrestre.


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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Do Chivunk ao Guarani: como o Exército Brasileiro está reconstruindo sua mobilidade terrestre

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A transformação da frota de veículos do Exército Brasileiro está produzindo uma mudança que vai muito além da substituição de modelos antigos. Ao incorporar diferentes plataformas, desde viaturas leves de emprego geral até veículos blindados sobre rodas com elevada capacidade de transporte, proteção e integração de sistemas, a Força Terrestre vem construindo uma arquitetura de mobilidade destinada a atender diferentes tipos de missão. Nesse processo, projetos como o VLEGA Chivunk, o LMV-BR Guaicurus e a família Guarani representam diferentes níveis de uma mesma transformação.

Na extremidade mais leve dessa estrutura está o VLEGA (Veículo Leve de Emprego Geral Aerotransportável) Chivunk, concebido para oferecer elevada mobilidade às tropas que necessitam de uma plataforma compacta, simples e compatível com operações aerotransportadas. O conceito atende especialmente às necessidades de forças leves, nas quais peso, dimensões, mobilidade e capacidade de deslocamento por meios aéreos são fatores determinantes para o planejamento operacional.

O Chivunk, portanto, não deve ser analisado como uma alternativa menor a um veículo blindado. Sua razão de existir está justamente em outra filosofia de emprego. Uma tropa paraquedista, aeromóvel ou de reconhecimento pode necessitar de uma viatura capaz de ser rapidamente transportada, desembarcada e empregada em áreas onde uma plataforma maior teria limitações logísticas. Nesse cenário, a simplicidade e a mobilidade podem ser mais importantes que a proteção proporcionada por uma viatura blindada.

Na camada logo acima do Chivunk aparece a família LMV, introduzida no Exército Brasileiro inicialmente por meio da aquisição de 16 exemplares do Lince K2 e posteriormente do LMV-BR. As primeiras 32 unidades do LMV-BR Guaicurus representaram a entrada da Força na categoria de viatura 4x4 protegida, concebida para combinar mobilidade, proteção e capacidade de receber diferentes configurações de equipamentos e armamentos.

A evolução desse programa levou ao LMV-BR 2, uma evolução da plataforma LMV, incorporando melhorias em relação à configuração inicialmente adquirida pelo Exército, também batizado de Guaicurus.

A segunda versão ganhou uma dimensão muito maior com o contrato para 420 LMV-BR2. Além de ampliar significativamente a frota protegida do Exército, o programa estabeleceu uma perspectiva de produção nacional em escala. A entrega 9 de setembro de 2026 do primeiro LMV-BR2 completamente produzido no Brasil representa um passo adicional na consolidação da capacidade industrial associada ao programa.

O Guaicurus ocupa, assim, uma posição intermediária importante. É mais protegido e especializado que uma viatura leve convencional, mas mantém dimensões e características de mobilidade que permitem seu emprego em uma ampla variedade de missões. Pode ser utilizado em funções de comando, patrulhamento, reconhecimento, transporte de pessoal e outras tarefas nas quais proteção balística e mobilidade tática sejam necessárias sem recorrer a uma plataforma de maior porte.

É, entretanto, na família Guarani que a transformação da mobilidade terrestre do Exército ganha outra dimensão. Desenvolvido dentro do programa estratégico de obtenção da capacidade operacional plena da Infantaria Mecanizada e da modernização da Cavalaria, o VBTP-MR Guarani foi concebido desde sua origem como uma família de veículos, e não como uma única viatura destinada a uma única função.

A configuração básica 6x6 estabelece a plataforma sobre a qual diferentes versões podem ser desenvolvidas. Essa arquitetura permite que o Exército empregue a mesma base tecnológica em missões distintas, reduzindo a diversidade logística e criando condições para que treinamento, manutenção, peças, ferramentas e conhecimentos técnicos sejam compartilhados entre diferentes variantes.

O VBTP-MR 6x6 é destinado principalmente ao transporte protegido de tropas, permitindo que a Infantaria Mecanizada acompanhe o ritmo das demais unidades e mantenha maior nível de proteção durante o deslocamento até a área de emprego. A viatura também dispõe de sistemas que permitem sua integração aos meios de comando e controle da Força Terrestre, transformando o veículo em parte de uma rede operacional e não apenas em um meio de transporte.

A partir dessa plataforma surgiram diferentes configurações destinadas a ampliar as capacidades da Infantaria e da Cavalaria. Entre elas estão versões de comando e controle, socorro e manutenção, ambulância e outras variantes especializadas de engenharia, permitindo que uma unidade mecanizada disponha de uma estrutura operacional baseada em uma mesma família de veículos.

A evolução mais significativa ocorre quando a plataforma passa a receber sistemas de armas e sensores destinados a funções de combate específicas. A versão equipada com torre UT30BR, por exemplo, transforma o Guarani em uma viatura de combate de infantaria (VBCI), agregando maior poder de fogo e capacidade de engajar alvos além do alcance proporcionado pelo armamento individual da tropa transportada.

Essa modularidade é um dos elementos mais importantes do programa. Em vez de desenvolver uma viatura completamente diferente para cada função, o conceito permite utilizar uma arquitetura comum e adaptá-la às necessidades de cada missão. Isso cria uma relação direta entre modernização operacional e racionalização logística, especialmente importante para uma força que precisa manter presença em um território continental.

A família também demonstra como a transformação do Exército ocorre de maneira progressiva. Nem todas as capacidades surgem simultaneamente, e algumas variantes dependem de desenvolvimento tecnológico, disponibilidade orçamentária, integração de sistemas e maturação industrial. Por isso, é necessário distinguir as versões já incorporadas daquelas em desenvolvimento ou previstas para o futuro.

Essa mesma lógica ajuda a compreender a relação entre o Guarani e o Centauro II. Enquanto as variantes de transporte e combate do Guarani ampliam a capacidade da Infantaria Mecanizada, o Centauro II acrescenta uma plataforma de maior poder de fogo e mobilidade para a Cavalaria, formando uma combinação na qual diferentes veículos desempenham funções complementares dentro de uma mesma estrutura de combate sobre rodas.

O resultado é uma arquitetura na qual não existe uma única viatura capaz de atender a todas as necessidades. O Chivunk atende ao requisito de mobilidade das tropas leves e aerotransportadas; o Guaicurus proporciona proteção e mobilidade para missões que exigem uma viatura 4x4 protegida; e a família Guarani amplia a capacidade de transporte protegido, combate, comando, engenharia, apoio e evacuação das unidades mecanizadas.

Essa diferenciação também possui implicações para a indústria de defesa brasileira. Programas como o Guarani e o Guaicurus deixam de ser simples contratos de aquisição quando atingem escala suficiente para sustentar linhas de produção, fornecedores, manutenção, treinamento e desenvolvimento tecnológico no país. A continuidade desses programas passa a influenciar diretamente a capacidade nacional de preservar conhecimento industrial e reduzir a dependência externa ao longo do ciclo de vida dos equipamentos.

O desafio, entretanto, não termina na aquisição. Uma frota moderna exige disponibilidade operacional, estoque de peças, infraestrutura, treinamento de motoristas e mecânicos, simuladores, munição, sistemas de comunicação e capacidade de manutenção distribuída. Quanto maior a sofisticação dos veículos, maior também é a necessidade de garantir que os recursos para sustentar a frota acompanhem os investimentos realizados na sua obtenção.

A experiência do Guarani demonstra justamente essa necessidade. A criação de uma família de veículos não significa apenas compartilhar componentes, mas construir uma cadeia de suporte capaz de acompanhar diferentes versões ao longo de décadas. O mesmo princípio vale para o Guaicurus e, em outra escala, para as viaturas leves destinadas às tropas que precisam manter elevada mobilidade.

A transformação da frota terrestre do Exército Brasileiro, portanto, deve ser observada como um processo de construção de capacidades complementares. Do Chivunk ao Guaicurus e deste à família Guarani, a Força Terrestre está estruturando diferentes níveis de mobilidade, proteção e poder de fogo para que suas unidades possam escolher a plataforma adequada à missão, em vez de tentar adaptar uma única solução a todos os cenários.

Mais do que substituir veículos antigos, esse processo representa uma mudança na própria concepção da mobilidade militar brasileira. Em um país de dimensões continentais, com ambientes operacionais que vão da Amazônia às áreas urbanas e às regiões de fronteira, a eficiência não está necessariamente em possuir a mesma plataforma em toda parte, mas em construir uma frota integrada, modular e sustentável, capaz de entregar a combinação adequada de mobilidade, proteção, poder de fogo e logística para cada missão.


por Angelo Nicolaci


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FAB treina recuperação de carga útil de foguete suborbital com H-36 Caracal

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A Força Aérea Brasileira (FAB) está realizando os preparativos finais para a Operação Potiguar Fase 2, que terá como uma de suas principais atividades o lançamento do veículo de sondagem VS-30 V16, a partir do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Parnamirim (RN). Entre os elementos que estão sendo qualificados está o sistema destinado à recuperação da Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM-R), cuja carga útil deverá retornar ao oceano após o voo.

O treinamento envolve o 1º Esquadrão do 8º Grupo de Aviação (1º/8º GAv) "Esquadrão Falcão", sediado na Base Aérea de Natal, e o Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento (PARA-SAR), de Campo Grande (MS). As duas unidades trabalham de forma coordenada empregando um helicóptero H-36 Caracal, preparando a tripulação e os especialistas em salvamento para uma operação que dependerá da localização precisa da carga e da rápida intervenção no mar.

A PSM-R terá massa estimada em 400 quilogramas e será lançada a bordo do VS-30 V16, veículo desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). Após cumprir sua trajetória suborbital, a plataforma retornará à atmosfera e descerá sustentada por paraquedas, exigindo que sua posição seja determinada para que a equipe de recuperação possa atuar.

Nesse cenário, o treinamento estabelece uma divisão clara de responsabilidades. A tripulação do H-36 é responsável pelo deslocamento e posicionamento da aeronave na área prevista, enquanto os militares do PARA-SAR executam os procedimentos de recuperação da carga no ambiente marítimo. A atividade exige coordenação entre voo, comunicações, localização do objeto e lançamento da equipe de salvamento.

O adestramento foi estruturado em duas etapas. A primeira, denominada fase seca, ocorre em solo e permite que os militares do PARA-SAR conheçam os procedimentos e as características da aeronave, além de ajustar dúvidas relacionadas à operação. A segunda, a fase molhada, envolve o emprego real do helicóptero e a execução dos procedimentos no ambiente marítimo, aproximando o treinamento das condições previstas para a missão.

A recuperação é particularmente relevante porque a Operação Potiguar Fase 2 representa uma evolução em relação à primeira fase, realizada em 2024. Na etapa atual, além da atividade de lançamento, será avaliado em voo o sistema destinado à recuperação da plataforma, criando condições para o aperfeiçoamento de futuras missões brasileiras de pesquisa em microgravidade.

A carga útil transportará quatro experimentos resultantes de parcerias entre a Agência Espacial Brasileira (AEB), instituições de pesquisa e empresas privadas. Entre eles está a Análise dos Efeitos da Microgravidade sobre Microrganismos (AEMM), coordenada pela Rede Space Farming Brasil, que reúne ITA, Embrapa, USP e INPE para estudar os efeitos da microgravidade sobre microrganismos.

Também será conduzido o experimento CTM-Sec, da R-CRIO, voltado à avaliação dos efeitos do voo suborbital sobre o secretoma de células-tronco mesenquimais. O conjunto inclui ainda o MundoTec, desenvolvido pelo SENAI CIMATEC em parceria com o Manual do Mundo, e um teste em condições reais de uma antena destinada a CubeSats, desenvolvida pela Tycho Space.

O próprio IAE também embarcará tecnologias no veículo. Entre elas estão o Sistema de Interface Pirotécnica (SIP), voltado à segurança das operações de lançamento, uma bateria de lítio de alta densidade energética produzida pelo Instituto e o transmissor RangeLoRa, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) para transmitir informações que auxiliem na localização da carga útil após a descida.

O VS-30 V16 é um veículo de sondagem suborbital de estágio único, equipado com propulsão sólida e lançado por trilho. O sistema utiliza estabilização aerodinâmica e por rotação e foi desenvolvido para transportar cargas úteis a altitudes superiores a 100 quilômetros, permitindo a realização de experimentos em condições de microgravidade durante parte do voo.

Programada para ocorrer entre 31 de agosto e 19 de setembro, no CLBI, a Operação Potiguar Fase 2 representa uma etapa de amadurecimento da capacidade brasileira de realizar pesquisas suborbitais com recuperação de cargas. A integração entre o sistema espacial e os meios da FAB empregados no resgate amplia a complexidade da missão e cria experiência operacional que poderá ser aproveitada em futuras campanhas científicas e tecnológicas.


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com FAB

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13ª Brigada testa emprego coordenado de armas coletivas em exercício de tiro no Mato Grosso

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A 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, "Brigada Barão de Melgaço", realizou, durante o mês de agosto, um Exercício de Tiro das Armas Coletivas (TAC) no Campo de Instrução do 18º Grupo de Artilharia de Campanha (18º GAC), no Mato Grosso. A atividade reuniu diferentes organizações militares da Brigada para avaliar procedimentos, coordenação e capacidade de emprego integrado dos sistemas de armas em um cenário de treinamento próximo às exigências de uma situação operacional.

Participaram do exercício 183 militares do Comando da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, do 14º Batalhão de Infantaria Motorizado, do 58º Batalhão de Infantaria Motorizado, do Comando de Fronteira Jauru/66º Batalhão de Infantaria Motorizado, do 18º Grupo de Artilharia de Campanha e da Companhia de Comando da Brigada.

O treinamento empregou obuseiros, morteiros e metralhadoras, permitindo verificar não apenas a execução do tiro, mas também a aplicação dos procedimentos necessários para o funcionamento coordenado das armas coletivas. Nesse tipo de atividade, a eficiência depende da capacidade das frações em cumprir suas tarefas dentro de uma sequência previamente estabelecida, reduzindo atrasos e assegurando que os diferentes elementos atuem de maneira sincronizada.

A presença de unidades de infantaria, artilharia e elementos de comando e apoio permitiu avaliar a interação entre diferentes capacidades dentro da estrutura da Brigada. A coordenação entre essas frações é particularmente relevante para o emprego das armas coletivas, uma vez que os efeitos obtidos dependem tanto da precisão do disparo quanto da correta transmissão de ordens, preparação dos meios e cumprimento dos procedimentos técnicos.

Além da avaliação do desempenho individual das equipes, o exercício serviu para identificar pontos que podem ser aperfeiçoados no ciclo de adestramento. A repetição controlada dos procedimentos permite consolidar técnicas e reduzir o tempo necessário para que as unidades estejam em condições de empregar seus armamentos de maneira eficaz.

Para uma Brigada de Infantaria Motorizada, esse tipo de treinamento também contribui para manter a capacidade de combinar diferentes meios de apoio ao combate dentro de uma mesma estrutura de comando. O emprego coordenado de armas coletivas amplia as opções disponíveis aos comandantes e exige que as unidades mantenham padrões comuns de comunicação, planejamento e execução.

Realizado no Campo de Instrução do 18º GAC, o exercício também reforça a importância das estruturas de treinamento destinadas a reproduzir, em ambiente controlado, as condições de emprego dos armamentos. A avaliação prática permite confrontar procedimentos previstos com a execução real e alimentar as etapas seguintes do preparo das tropas.

O TAC integrou, portanto, o ciclo de adestramento da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada e proporcionou uma avaliação conjunta das frações envolvidas. Mais do que uma atividade de tiro, o exercício verificou a capacidade das organizações militares de operar de forma coordenada, elemento fundamental para transformar o desempenho individual de cada unidade em uma capacidade operacional integrada.


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com Exército Brasileiro

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Oriente Médio à beira de um colapso: Houthis, Irã e a crise dos estreitos ameaçam fluxo do comércio global

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A crise no Oriente Médio entrou em nova fase, ultrapassando os limites dos conflitos militares regionais e criando riscos sistêmicos para a economia global. O avanço dos Houthis pelo litoral do Iêmen, a pressão sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, a crise no Estreito de Ormuz e a vulnerabilidade das rotas de exportação de petróleo da Arábia Saudita formam uma combinação capaz de afetar energia, transporte marítimo, cadeias de suprimentos e inflação. A simultaneidade dessas ameaças aumenta a possibilidade de que um conflito regional produza consequências muito além de suas fronteiras.

A ofensiva Houthi alterou a dimensão geográfica do problema. O grupo apoiado pelo Irã avançou sobre áreas costeiras estratégicas do Iêmen, incluindo Mokha e posições insulares próximas ao Bab el-Mandeb, ampliando sua capacidade de ameaçar uma das principais passagens entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho. A consolidação territorial acrescenta uma variável importante à ameaça já representada pelos ataques contra a navegação: os Houthis passam a dispor de posições próximas ao próprio corredor marítimo.

O impacto econômico não depende necessariamente da destruição de grande quantidade de navios. Para o transporte marítimo, a percepção de risco pode ser suficiente para alterar rotas, elevar seguros e aumentar os custos operacionais. Durante a crise anterior no Mar Vermelho, o desvio de embarcações pelo Cabo da Boa Esperança ampliou distâncias, consumo de combustível e tempo de viagem. Quando esse processo se prolonga, os efeitos chegam aos preços de mercadorias e aos estoques das empresas.

A situação ganha outra dimensão porque a instabilidade em Bab el-Mandeb ocorre simultaneamente à crise em Ormuz, corredor essencial para o transporte de petróleo e gás produzido no Golfo Pérsico. A existência de dois pontos estratégicos sob pressão reduz a capacidade de compensação do sistema. Se uma rota é interrompida, a alternativa disponível pode estar sujeita ao mesmo ambiente de risco, dificultando a reorganização do fluxo energético e comercial.

A vulnerabilidade também alcança a estratégia saudita de diversificação das rotas de exportação. O oleoduto Leste-Oeste permite transportar petróleo do interior do país até Yanbu, no Mar Vermelho, reduzindo a dependência de Ormuz. Entretanto, a expansão Houthi e os ataques contra infraestrutura energética colocam essa alternativa sob pressão. A interrupção do oleoduto chegou a ameaçar retirar do mercado até 4% da oferta mundial de petróleo, segundo estimativas divulgadas pela Reuters.

A decisão de Washington de não realizar ataques diretos contra os Houthis a pedido do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman acrescenta outra variável. Os Estados Unidos aceitaram ampliar o compartilhamento de inteligência e o apoio à identificação de alvos, mas evitaram abrir uma nova campanha militar no Iêmen enquanto permanecem envolvidos no confronto com o Irã. A opção demonstra a tentativa americana de impedir a abertura de uma frente adicional de grandes proporções, mas também aumenta a responsabilidade de Riad na contenção da ameaça.

Para os mercados, não é necessário que os dois estreitos sejam completamente fechados para produzir uma crise. Se armadores considerarem determinadas áreas suficientemente perigosas, poderão suspender operações, elevar prêmios de seguro ou optar por rotas mais longas. No petróleo, a reação tende a ser ainda mais rápida, pois os mercados incorporam expectativas de escassez antes que ela se materialize fisicamente. Nesta segunda-feira (14), o Brent superou US$ 107 por barril, enquanto as taxas de transporte de petroleiros alcançaram níveis recordes em meio ao aumento do risco marítimo.

Um primeiro cenário hipotético seria o de uma crise prolongada, mas parcialmente controlada. Ormuz permaneceria sujeito a interrupções, enquanto Bab el-Mandeb continuaria operacional sob restrições. O efeito seria a manutenção de preços elevados de energia, aumento dos fretes e seguros marítimos e pressão sobre combustíveis e produtos industriais. A Europa sofreria particularmente com os custos energéticos e os desvios em torno da África, enquanto os países asiáticos enfrentariam maior competição pela oferta disponível de petróleo e gás.

Um segundo cenário seria mais grave: uma interrupção prolongada em Ormuz combinada com uma ameaça efetiva à navegação em Bab el-Mandeb. Nesse caso, o problema passaria a atingir diretamente a capacidade física do comércio mundial. Parte significativa do tráfego entre Ásia e Europa poderia abandonar o eixo Mar Vermelho–Suez, enquanto cargas energéticas buscariam rotas alternativas. Distâncias maiores, menor disponibilidade de navios, aumento do consumo de combustível e seguros mais caros produziriam um choque logístico de alcance global.

O cenário mais preocupante envolveria ataques sistemáticos contra infraestrutura energética de países do Golfo. Oleodutos, terminais, portos, refinarias, navios-tanque e instalações de armazenamento poderiam transformar-se em alvos prioritários. A consequência seria diferente de uma simples valorização especulativa: haveria redução efetiva da oferta disponível no mercado internacional, pressionando estoques e ampliando a volatilidade dos preços.

Petróleo persistentemente caro funciona como um imposto global sobre a atividade econômica. Combustíveis mais caros elevam custos de transporte, indústria e alimentos, enquanto a inflação energética pode impedir bancos centrais de acelerar cortes de juros. O resultado seria uma combinação particularmente desfavorável de energia cara, inflação persistente e crédito restritivo, justamente quando empresas e consumidores começassem a sentir os efeitos da desaceleração.

Outro impacto ocorreria nas cadeias de suprimentos. Uma embarcação desviada do Suez não representa apenas alguns dias adicionais de viagem. O atraso altera estoques, contratos logísticos e planejamento industrial, obrigando empresas a manter mais capital imobilizado. Setores dependentes de componentes importados podem enfrentar interrupções de produção mesmo quando não existe escassez física do produto final.

É nesse cenário que o Brasil passa a ocupar uma posição estratégica. A expansão da produção offshore, particularmente no pré-sal, oferece ao país condições para ampliar o fornecimento de petróleo aos mercados ocidentais em um momento de maior preocupação com a segurança energética. Europa, Estados Unidos e outros compradores do Atlântico poderiam buscar fornecedores menos expostos aos principais gargalos do Oriente Médio. O Brasil não substituiria o Golfo Pérsico, cuja escala é muito superior, mas poderia se consolidar como fornecedor adicional relevante.

O aproveitamento dessa vantagem, porém, não deveria se limitar à exportação de petróleo cru. O Brasil ainda importa parcela significativa dos combustíveis que consome, especialmente diesel, o que revela uma contradição estratégica: o país possui grandes reservas e produção crescente, mas não captura todo o valor possível de cada barril. Cerca de 25% do diesel consumido no Brasil é importado, segundo dados reportados pela Reuters.

Essa vulnerabilidade reforça a necessidade de investir pesado na expansão e modernização do parque de refino, além de ampliar armazenamento, dutos, terminais e infraestrutura de distribuição. O objetivo não deve ser apenas reduzir a dependência externa, mas criar capacidade competitiva para produzir excedentes de diesel, gasolina, querosene de aviação, nafta e outros derivados destinados também à exportação.

A crise do Oriente Médio demonstra o valor dessa estratégia. Quando uma parcela relevante da oferta mundial fica ameaçada por conflitos em torno de corredores marítimos, fornecedores capazes de entregar energia com segurança ganham importância. A posição geográfica brasileira no Atlântico, distante dos principais teatros de conflito que ameaçam atualmente o fluxo energético entre o Golfo Pérsico, o Oceano Índico, o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, representa uma vantagem que pode ser convertida em contratos de longo prazo e novos mercados.

O salto estratégico estaria em transformar o petróleo produzido no pré-sal em maior valor econômico dentro do próprio país. Exportar óleo cru gera receita, mas refinar e comercializar derivados incorpora indústria, tecnologia, empregos, logística e margem adicional à cadeia produtiva. Em momentos de escassez internacional, essa capacidade poderia permitir ao Brasil atender simultaneamente sua demanda interna e conquistar mercados externos.

Para isso, o país precisa tratar produção, refino e logística como partes de uma mesma política energética. O crescimento da produção offshore deve ser acompanhado por investimentos de longo prazo em refinarias, unidades de processamento, terminais, armazenamento e transporte. Sem essa integração, o aumento da produção continuará representando uma oportunidade parcialmente aproveitada.

Existe também uma dimensão geopolítica. Um Brasil capaz de exportar petróleo e derivados em escala relevante teria maior peso nas negociações comerciais e energéticas, especialmente em períodos de instabilidade. A segurança do abastecimento deixaria de ser apenas uma questão econômica interna e passaria a integrar a própria projeção internacional brasileira.

Essa transformação exige previsibilidade e continuidade. Refinarias, terminais, dutos e grandes projetos de processamento demandam investimentos elevados e possuem maturação de décadas. Não podem depender exclusivamente de ciclos políticos ou de decisões de curto prazo. A política energética precisa ser tratada como política de Estado, com planejamento capaz de atravessar governos.

A mesma lógica vale para a segurança. Quanto maior a participação brasileira no mercado energético internacional, maior será a importância de proteger plataformas offshore, refinarias, terminais, portos, dutos, sistemas de comunicação e rotas marítimas. A experiência do Oriente Médio demonstra que infraestrutura energética pode se transformar em alvo militar e instrumento de coerção econômica.

Para o Brasil, portanto, a crise reúne riscos e uma oportunidade excepcional. O aumento dos preços internacionais, dos fretes e dos combustíveis pode pressionar a economia doméstica, enquanto a dependência parcial de derivados importados limita os benefícios de uma valorização do petróleo. Em contrapartida, a produção crescente do pré-sal oferece condições para ampliar exportações e acelerar uma transformação industrial que aumente o valor capturado pela economia nacional.

A questão central não é saber se o mundo entrará imediatamente em uma nova crise econômica. O alerta está na possibilidade de que a combinação entre a pressão sobre Ormuz, o avanço dos Houthis no Iêmen, a ameaça a Bab el-Mandeb e a vulnerabilidade das rotas energéticas do Golfo produza um choque simultâneo de oferta e logística. Isoladamente, cada problema pode ser administrado; combinados, podem atingir diretamente o crescimento econômico mundial.

O Brasil não tem condições de substituir o petróleo do Golfo Pérsico, mas possui escala suficiente para se tornar um fornecedor adicional importante em um mercado pressionado. O pré-sal pode, portanto, deixar de ser encarado apenas como fonte de receitas de exportação e assumir uma função estratégica na segurança energética brasileira e internacional. Para isso, será necessário avançar além da produção e construir capacidade industrial compatível com a dimensão dos recursos disponíveis.

O Oriente Médio demonstra que energia e rotas marítimas são instrumentos de poder. Se Ormuz e Bab el-Mandeb permanecerem sob pressão, o Brasil terá diante de si uma oportunidade rara de ampliar sua importância energética no Atlântico. Aproveitá-la dependerá de uma decisão estratégica: continuar exportando predominantemente uma commodity ou investir pesadamente para transformar o petróleo do pré-sal em combustível, indústria, mercados, empregos, receitas e maior influência internacional.


por Angelo Nicolaci


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