sábado, 7 de fevereiro de 2026

BAE Systems amplia contrato de US$ 195 milhões para veículos anfíbios ACV-30 do USMC

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A BAE Systems confirmou a ampliação do fornecimento de veículos anfíbios de combate ACV-30 ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), após a assinatura de um novo contrato avaliado em US$ 195 milhões. O anúncio, divulgado originalmente no início desta semana, reforça o processo de modernização das capacidades expedicionárias norte-americanas e amplia o número total de viaturas ACV-30 encomendadas para 150 unidades.

A variante ACV-30 representa um avanço significativo no programa Amphibious Combat Vehicle, sendo equipada com um canhão automático de 30 mm, que amplia o poder de fogo, a capacidade de engajamento de alvos a maiores distâncias e o apoio direto às tropas durante operações anfíbias e combates terrestres subsequentes.

Desenvolvido como uma plataforma de nova geração, o ACV foi projetado para aumentar a mobilidade em ambientes marítimos e litorâneos, elevar a proteção da tropa embarcada e garantir maior adaptabilidade em cenários operacionais complexos. O veículo atende aos requisitos atuais do USMC, que busca forças mais móveis, letais e capazes de operar em ambientes contestados.

Segundo a BAE Systems, o novo contrato mantém o programa alinhado às necessidades operacionais dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, garantindo continuidade no fornecimento de soluções tecnológicas avançadas. A empresa destacou que a parceria com o USMC reflete o compromisso em fornecer meios capazes de assegurar a prontidão e o sucesso das missões em diferentes cenários de emprego.

Além da versão ACV-30, o programa inclui outras variantes especializadas que ampliam a capacidade operacional das unidades anfíbias. O ACV-P é destinado ao transporte protegido de tropas, podendo transportar até 13 Fuzileiros Navais totalmente equipados, além de três tripulantes. Já o ACV-C atua como plataforma de comando e controle, incorporando estações de trabalho voltadas ao gerenciamento da consciência situacional no campo de batalha.

O programa também contempla a variante ACV-R, voltada para manutenção, recuperação e reparo de viaturas em nível de campo. A BAE Systems já produziu e entregou três unidades dessa configuração em modelo representativo de produção, incluindo a integração de guindaste realizada pelo governo dos Estados Unidos no Anniston Army Depot.

A produção das novas unidades ACV-30 será realizada nas instalações da empresa em Johnstown e York, na Pensilvânia, enquanto a unidade de Charleston, na Carolina do Sul, será responsável pela integração da torre desenvolvida pela KONGSBERG sob supervisão do governo norte-americano.

A ampliação do programa ACV ocorre em um contexto estratégico marcado pela necessidade de manter superioridade em operações anfíbias e projeção de poder em regiões litorâneas sensíveis. A modernização das viaturas reforça a transformação doutrinária do USMC, que vem priorizando forças expedicionárias mais ágeis, distribuídas e preparadas para conflitos multidomínio do século XXI.


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Coreia do Sul avança no programa LTA-II com primeiro C-390 Millennium em fase final de montagem

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A Embraer anunciou, durante o Singapore Airshow, realizado em 3 de fevereiro, que a primeira aeronave C-390 Millennium destinada à Força Aérea da República da Coreia (ROKAF) entrou na fase final de montagem. O anúncio representa um marco relevante no programa sul-coreano Large Transport Aircraft II (LTA-II) e reforça a crescente presença do cargueiro brasileiro no mercado asiático. A divulgação ganha ainda mais relevância ao ser publicada neste sábado (7), momento em que o programa segue avançando dentro do cronograma previsto.

De acordo com a fabricante brasileira, a aeronave agora avançará para a fase de voos de produção, etapa fundamental para validação operacional antes da integração dos sistemas específicos solicitados pela Força Aérea sul-coreana.

A escolha do C-390 pela República da Coreia representa um movimento estratégico dentro do processo de modernização das capacidades logísticas e de projeção de poder do país, além de consolidar a Embraer como um importante parceiro industrial e tecnológico no setor de defesa asiático. A Coreia do Sul tornou-se o primeiro operador do Millennium na Ásia, ampliando a projeção internacional da aeronave.

Segundo Bosco da Costa Jr., presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, o avanço da montagem evidencia a maturidade da linha de produção da empresa e a solidez da cooperação estabelecida com a Administração de Programas de Aquisição de Defesa da Coreia do Sul (DAPA), com a ROKAF e com a indústria local. O executivo destacou ainda que a cooperação industrial com fornecedores sul-coreanos vem fortalecendo a cadeia global de suprimentos do programa, contribuindo para o aumento do ritmo de produção do C-390 diante da crescente demanda internacional.

Projetado sob conceitos operacionais contemporâneos, o KC-390 Millennium é atualmente considerado a aeronave de transporte militar mais moderna de sua categoria. O modelo possui capacidade de carga útil de até 26 toneladas, superando diversos concorrentes diretos, além de apresentar maior velocidade operacional, alcançando aproximadamente 470 nós, e ampliado alcance estratégico.

A aeronave foi concebida para executar múltiplos perfis de missão, incluindo transporte e lançamento de tropas e cargas, evacuação aeromédica, operações de busca e salvamento, combate a incêndios florestais e apoio a ações humanitárias. Outro diferencial relevante é sua capacidade de operar em pistas semipreparadas ou não pavimentadas, característica que amplia significativamente sua flexibilidade operacional em cenários de crise, conflito ou desastres naturais.

O Millennium também se destaca pela versatilidade no reabastecimento em voo, podendo atuar tanto como aeronave reabastecedora quanto como receptora, por meio de sistemas de instalação rápida. A plataforma apresenta ainda total interoperabilidade com os padrões operacionais da OTAN e atende aos requisitos do conceito de Emprego Ágil de Combate (ACE), cada vez mais valorizado em cenários estratégicos modernos que exigem mobilidade, dispersão e rapidez de resposta.

A entrada da Coreia do Sul no programa reforça o crescimento consistente da carteira internacional do C-390 Millennium. Atualmente, além da ROKAF, a aeronave já foi selecionada pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia, Uzbequistão, Eslováquia e Lituânia, consolidando o cargueiro brasileiro como uma das principais soluções globais no segmento de transporte militar tático e estratégico.

O avanço do programa LTA-II demonstra não apenas a confiança de uma das mais avançadas forças aéreas da Ásia na plataforma brasileira, mas também evidencia o fortalecimento da indústria nacional de defesa no cenário internacional, ampliando a inserção tecnológica do Brasil em projetos de alta complexidade e relevância estratégica.


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Uzbequistão é confirmado como novo operador do C-390 Millennium da Embraer

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A Embraer confirmou, durante o Singapore Airshow, que a República do Uzbequistão é o cliente anteriormente não divulgado de um pedido para a aeronave de transporte militar C-390 Millennium. O anúncio foi feito na terça-feira, 3 de fevereiro, consolidando a expansão global da plataforma brasileira e marcando a entrada do modelo na Ásia Central.

De acordo com a fabricante, a Força Aérea do Uzbequistão empregará a aeronave principalmente em missões humanitárias e transporte logístico, ampliando significativamente suas capacidades operacionais. Com a decisão, o país se torna a primeira nação da Ásia Central a operar o C-390, aeronave que vem ganhando espaço no competitivo segmento de transporte militar de médio porte.

Segundo Bosco da Costa Júnior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, a escolha representa um importante marco para o programa. O executivo destacou que a empresa trabalhará em estreita cooperação com a Força Aérea uzbeque para garantir a plena operação da aeronave e apoiar o processo de modernização de suas capacidades de transporte estratégico.

Projetado e desenvolvido já dentro dos conceitos operacionais do século XXI, o KC-390 Millennium é considerado atualmente o cargueiro militar mais moderno de sua categoria. A aeronave possui capacidade para transportar até 26 toneladas de carga, superando diversos concorrentes diretos, além de apresentar maior velocidade operacional, podendo atingir cerca de 470 nós, e maior alcance.

O modelo é capaz de executar uma ampla gama de missões, incluindo transporte e lançamento de tropas e cargas, evacuação aeromédica, busca e salvamento, combate a incêndios florestais e apoio a operações humanitárias. Outra característica relevante é sua capacidade de operar em pistas semipreparadas ou não pavimentadas, ampliando sua flexibilidade operacional em cenários de crise ou desastres naturais.

O Millennium também pode ser configurado rapidamente para missões de reabastecimento em voo, atuando tanto como aeronave reabastecedora quanto como receptora. A plataforma ainda possui plena interoperabilidade com os padrões da OTAN, além de ser especialmente adaptada para operações dentro do conceito de Emprego de Combate Ágil (ACE), que exige mobilidade, rapidez de resposta e flexibilidade logística.

Com a adesão do Uzbequistão, o C-390 Millennium amplia sua carteira internacional de operadores. Atualmente, a aeronave já foi selecionada pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia, Eslováquia e Lituânia, consolidando sua posição como uma das principais soluções de transporte militar disponíveis no mercado global.

O avanço das vendas internacionais reforça o protagonismo da indústria aeronáutica brasileira no setor de defesa e evidencia a crescente aceitação do C-390 como uma plataforma versátil, moderna e alinhada às exigências operacionais contemporâneas.


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REVISIONISMO HISTÓRICO E VULNERABILIDADE ESTRATÉGICA: O BRASIL FORA DO COMPASSO GEOPOLÍTICO

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Em um sistema internacional cada vez mais competitivo, instável e marcado pela erosão de antigas certezas, a forma como um país trata suas Forças Armadas diz muito sobre como ele se enxerga no tabuleiro global. No caso brasileiro, chama atenção o contraste entre a realidade estratégica do século XXI e a permanência de um discurso interno fortemente ancorado em revisionismos do passado, em especial na leitura ideológica que parte da esquerda ainda faz do 31 de março de 1964, mais de seis décadas depois.

Enquanto grandes democracias lidam com seus passados autoritários sem renunciar a capacidades militares robustas, o Brasil insiste em manter a Defesa sob suspeição permanente. O resultado é um paradoxo: um país continental, com vastas fronteiras, riquezas naturais estratégicas e crescente relevância geopolítica, mas que hesita em reconhecer a centralidade do poder militar como instrumento legítimo do Estado. 

No cenário internacional contemporâneo, o poder não se manifesta apenas por meio de guerras convencionais. Ele se expressa na capacidade de dissuasão, na autonomia tecnológica, na resiliência cibernética, no controle de espaços estratégicos e na credibilidade de resposta a crises. Estados que não demonstram essas capacidades tornam-se alvos de coerção indireta, pressão econômica, espionagem sistemática e interferência política. A ausência de conflito aberto não significa segurança; muitas vezes significa apenas submissão silenciosa. 

O contraste com outras democracias é evidente. Países que viveram regimes autoritários, guerras civis ou ocupações estrangeiras compreenderam que memória histórica e defesa nacional não são conceitos antagônicos. Pelo contrário, fortalecer instituições militares sob controle civil, com profissionalismo e planejamento de longo prazo, foi parte essencial de sua reinserção soberana no sistema internacional. Nessas nações, a defesa é tratada como política de Estado, não como herança incômoda a ser contida por inanição orçamentária. 

No Brasil, o discurso revisionista frequentemente associa fortalecimento militar a risco democrático, ignorando que a fragilidade estratégica também gera instabilidade. Estados fracos do ponto de vista da defesa tendem a perder autonomia decisória, ficando mais suscetíveis a agendas externas, dependência tecnológica e pressões assimétricas. Em um mundo onde cadeias de suprimento, energia, dados e comunicações se tornaram instrumentos de poder, renunciar a capacidades próprias não é neutralidade, é vulnerabilidade. 

Essa lógica se torna ainda mais preocupante quando observada sob a ótica regional e global. O Brasil ocupa posição singular na América do Sul, no Atlântico Sul e no debate sobre recursos estratégicos. Sua postura defensiva não afeta apenas sua segurança interna, mas também o equilíbrio regional e a percepção externa sobre sua capacidade de liderar, mediar e proteger interesses próprios e de parceiros. Países que aspiram protagonismo não terceirizam sua segurança nem tratam suas forças armadas como problema político doméstico. 

O impacto humano dessa visão também é subestimado. O militar profissional brasileiro é treinado para operar em ambientes complexos, cumprir missões de alto risco e responder a emergências nacionais e internacionais. Quando esse profissional é sistematicamente deslegitimado por narrativas ideológicas que o associam a um passado distante, o efeito não é apenas simbólico. Afeta moral, retenção de talentos e a própria eficácia operacional, enfraquecendo um dos poucos instrumentos do Estado capazes de responder rapidamente a crises de grande escala. 

Há ainda uma dimensão tecnológica frequentemente ignorada no debate político. A defesa moderna é um dos principais vetores de inovação em áreas críticas como software embarcado, sensores, comunicações seguras, inteligência artificial e integração de sistemas complexos. Países que abandonam projetos estratégicos ou mantêm suas forças armadas em estado de permanente contenção acabam por ampliar sua dependência externa, perdendo autonomia decisória justamente nos domínios mais sensíveis da soberania contemporânea. 

A experiência internacional demonstra que democracias sólidas não enfraquecem suas forças armadas para proteger o regime, elas as profissionalizam, submetem a controle civil e as integram a uma estratégia nacional clara. O erro brasileiro está em confundir vigilância democrática com desconfiança estrutural, e memória histórica com imobilismo estratégico. 

Sessenta anos após 1964, insistir em um discurso revisionista permanente não projeta maturidade política nem compromisso democrático. Projeta insegurança estratégica. Em um mundo que voltou a falar a linguagem do poder, da dissuasão e da competição entre Estados, o Brasil corre o risco de permanecer preso a debates do passado enquanto o ambiente internacional avança e cobra seu preço.


por Mauro Beirão - formado em engenharia mecânica e  35 anos de experiência na indústria de defesa e aeroespacial

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A Guerra Entre Rússia e Ucrânia: UM ALERTA ESTRATÉGICO À DEFESA BRASILEIRA

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MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGICA: DRONES, IA E GUERRA CIBERNÉTICA 

Uma das lições mais evidentes é o papel central das tecnologias acessíveis e assimétricas. Na Ucrânia, drones comerciais adaptados, como os Bayraktar da Turquia e modelos iranianos Shahed, foram usados em enxames para saturar defesas aéreas, destruir blindados e realizar ataques kamikaze. Esses dispositivos, baratos e de fácil produção, mudaram o equilíbrio de forças, permitindo que uma nação menor resistisse a um invasor superior em número.   A inteligência artificial (IA) também se destacou, com ferramentas como as da Palantir² integrando dados de sensores para rastrear tropas em tempo real, melhorando a precisão de artilharia e reduzindo perdas humanas. 

A ofensiva no ambiente digital, embora tenha produzido efeitos mais limitados do que muitos analistas previam, com ações russas resultando sobretudo em perturbações pontuais, evidenciou a vulnerabilidade de sistemas essenciais, como os de energia e do setor financeiro. No caso brasileiro, a baixa prontidão diante de ameaças virtuais decorre, em grande parte, devido à dependência da importação de sistemas com esse tipo de tecnologia e da insuficiência de recursos destinados à inovação tecnológica e P&D, o que torna estratégico investir em capacidades próprias de proteção para garantir a continuidade de serviços vitais em situações de instabilidade. Isso implica em, investir em capacidades anti-drones e em sistemas de IA para monitoramento de fronteiras e para a vigilância da Amazônia, onde o terreno difícil favorece táticas assimétricas e mais recentemente o crime organizado, por exemplo, o Ministério da Defesa brasileiro, poderia investir na adaptação de ARPs³  de categoria 4, os mesmos já incorporados pela Força Aérea Brasileira.  


LOGÍSTICA, ESTOQUES E DESCENTRALIZAÇÃO DO COMANDO 

A logística tem se revelado um elemento decisivo no conflito entre Rússia e Ucrânia, expondo vulnerabilidades iniciais e evoluções estratégicas ao longo do tempo. Em 2022, a Rússia enfrentou graves problemas decorrentes de corrupção, planejamento inadequado e linhas de suprimento excessivamente longas, o que deixou colunas de veículos expostas a emboscadas ucranianas provocando escassez crítica de combustível e munições. Esses fatores resultaram em perdas substanciais e forçaram uma mudança para uma guerra de desgaste prolongado. 

Entre 2025 e 2026, Moscou implementou adaptações significativas, como o uso de drones para proteger comboios, a descentralização parcial de comandos para maior agilidade e o aumento da produção interna de materiais, reduzindo assim dependências externas. Apesar desses avanços, persistem desafios, incluindo ataques ucranianos constantes a rotas de abastecimento e depósitos, além de pressões econômicas que comprometem a sustentabilidade de longo prazo. 

Do lado ucraniano, a dependência de aliados ocidentais para 80-90% dos suprimentos gera gargalos em escala global. Desde dezembro de 2025, os bombardeios russos aos portos do Mar Negro obrigam o uso de rotas alternativas via Polônia e Romênia. Kiev recorre a estratégias assimétricas, como drones navais e inteligência artificial (IA) para otimizar fluxos logísticos, mas ainda continua enfrentando interrupções frequentes por meio de ataques cibernéticos e sabotagens.  

No contexto brasileiro, onde as Forças Armadas operam em áreas remotas muito extensas, isso sugere a necessidade de ampliar estoques de munições e equipamentos, reduzindo a dependência externa. Documentos do Exército Brasileiro já discutem lições para operações de convergência até 2040, enfatizando preparo para conflitos prolongados.  Descentralizar o comando poderia melhorar respostas a ameaças híbridas, como invasões em áreas fronteiriças ou disputas marítimas no Atlântico Sul. 

SISTEMAS DE DEFESA ANTIAÉREA E COSTEIRA 

A Ucrânia destacou a eficácia de sistemas antiaéreos avançados, como o Patriot americano, que interceptou mísseis e drones russos, restringindo o controle aéreo inimigo e permitindo operações terrestres mais seguras. Esse sucesso sublinha a necessidade de defesas em camadas, combinando radares de longo alcance, mísseis superfície-ar e contramedidas eletrônicas para neutralizar ameaças assimétricas, como enxames de drones. No Mar Negro, drones navais ucranianos, como os Sea Baby, afundaram navios russos, expondo fraquezas em defesas costeiras e demonstrando como tecnologias de baixo custo podem desafiar frotas convencionais. Para o Brasil, com seus 7.500 km de litoral e recursos offshore como o Pré-sal, essas lições impõem a urgência de fortalecer capacidades antinavio e antiaérea. Artigos da Escola Superior de Guerra (ESG) e análises militares brasileiras exploram como o míssil Neptune ucraniano, um sistema antinavio de precisão, poderia inspirar desenvolvimentos nacionais, como o MANSUP ou adaptações de mísseis costeiros para proteger plataformas de petróleo e rotas marítimas. Além disso, o conflito revela a importância de integrar IA e sensores para detecção precoce, sugerindo que o Brasil invista em radares over-the-Horizon e baterias móveis para defender a Amazônia Azul. Sem isso, vulnerabilidades a incursões híbridas, como pirataria ou disputas territoriais, poderiam comprometer a soberania, exigindo parcerias tecnológicas com aliados como Israel ou Suécia para modernizar o arsenal e treinar forças em cenários de guerra assimétrica. 

EVITAR AUTOLIMITAÇÕES ESTRATÉGICAS E CONSTRUIR DISSUASÃO 

Debates no Brasil identificam erros passados, como a renúncia a mísseis de longo alcance em 1995 e a adesão ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que, embora promovam a imagem pacifista, limitam opções de dissuasão em um mundo multipolar. A Ucrânia, que abdicou de seu arsenal nuclear pós-soviético em troca de garantias de segurança (Memorando de Budapeste, 1994), tornou-se vulnerável à invasão russa, ilustrando como tratados podem falhar sem poder dissuasório autônomo. Para o Brasil, isso significa revisar políticas para preservar capacidades tecnológicas, como o programa nuclear pacífico (submarinos nucleares via PROSUB), sem violar compromissos internacionais, mas garantindo independência estratégica. Lições adicionais incluem o desenvolvimento de armas não-nucleares estratégicas, como hipersônicas ou de precisão, para criar “dissuasão por negação”, ou seja, tornando invasões custosas demais. O conflito também alerta para riscos pós-guerra: o influxo de armas ocidentais para o crime organizado, com relatos de equipamentos da Ucrânia chegando a facções brasileiras via mercado negro, e o retorno de mercenários nacionais com expertise em drones, potencializando ameaças internas como o narcotráfico na Amazônia. Assim, o Brasil deve priorizar inteligência e controle de fronteiras, para proteger seus 17.000 quilômetros de fronteira seca, além de investir em doutrina de dissuasão integrada, inspirada em estudos recentes, para evitar dependências que minem a soberania em cenários de crise global. 

GEOPOLÍTICA: Sanções, Propaganda e Alianças 

As sanções ocidentais contra a Rússia tiveram efeitos limitados, graças a alianças com China, Índia e Irã, que forneceram rotas alternativas para comércio e tecnologia, demonstrando a resiliência de economias diversificadas. A propaganda russa, ao subestimar a resistência ucraniana e promover narrativas internas, levou a erros operacionais e perda de apoio global. Para o Brasil, que manteve neutralidade no conflito, condenando a invasão sem aderir a sanções, isso reforça a estratégia de diversificar parcerias para mitigar impactos em cenários hipotéticos, como disputas no Atlântico Sul ou pressões por recursos amazônicos. A posição prudente reflete lições de autonomia, mas exige preparo para coerções externas, como boicotes econômicos, via fortalecimento de blocos como BRICS e Mercosul. Além disso, os Acordos de Minsk falhados destacam os perigos de negociações apressadas ou assimétricas, alertando o Brasil para abordagens cautelosas em disputas regionais, como com a Venezuela ou na Antártica, priorizando diplomacia respaldada por poder militar. Estudos brasileiros enfatizam a necessidade de contrapor narrativas estrangeiras com comunicação estratégica e inteligência cibernética, evitando que a desinformação corroa a coesão nacional em tempos de tensão geopolítica. Em suma, o conflito ensina que a geopolítica moderna demanda equilíbrio entre neutralidade e prontidão, posicionando o Brasil como ator global resiliente. 

CONCLUSÃO: Recomendações para a Defesa Brasileira 

A guerra Rússia-Ucrânia ensina que soberania depende de preparo autônomo: um país como o Brasil, deve estar preparado militarmente de forma independente, sem depender excessivamente de alianças externas ou tratados internacionais. Isso inclui investimentos em tecnologia, estoques e treinamento próprios, garantindo soberania e resiliência em cenários de conflito. Em essência, “pedaços de papel” (acordos) não substituem força real para deter ameaças. 

A vantagem tecnológica e operacional vem da integração de sensores, fogo de precisão, drones, EW e logística resiliente, não apenas do número bruto de blindados ou aeronaves.  O Brasil deve revisar sua Política Nacional de Defesa, investindo em modernização, estoques e dissuasão, como sugerido em estudos da ESG.  Com recursos naturais abundantes, o país não pode depender de aliados externos, como visto na Ucrânia.  Priorizar orçamento militar, parcerias tecnológicas e treinamento híbrido garantiria resiliência. Em um mundo multipolar, essas lições não são opcionais, são essenciais para preservar a paz pela força. 


por: Mauro Beirão - formado em engenharia mecânica e 35 anos de experiência na indústria de defesa e aeroespacial. 


² Palantir Technologies – Empresa norte-americana de software especializada em Inteligência Artificial 

³ Aeronaves Remotamente Pilotadas 

Fontes de Consulta: 

➢ Repositório Escola Superior de Guerra; 

➢ Portal de Periódicos da Marinha; 

➢ Revista GEO – Revista Interdisciplinar; 

➢ CEBRI Revista – Centro Brasileiro de Relações Internacionais. 

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Operadores Não Atribuíveis: Os Homens que Oficialmente Não Existem

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Na guerra contemporânea, o poder raramente se manifesta apenas por divisões blindadas, frotas navais ou esquadrilhas de caça. Cada vez mais, os conflitos decisivos ocorrem abaixo do limiar formal da guerra, em zonas cinzentas onde atribuição, responsabilidade e até a própria existência dos atores são deliberadamente nebulosas. É nesse espaço que surge uma das figuras mais sensíveis e estratégicas do sistema internacional: o operador especial não atribuível.

Trata-se de um homem preparado por estruturas estatais, geralmente oriundo de forças especiais ou de comunidades de inteligência, com formação aprofundada em operações psicológicas, guerra narrativa, infiltração, contrainteligência, sabotagem e emprego preciso da força. A singularidade desse ativo, contudo, não está apenas no nível de treinamento, mas na condição política de seu emprego: ele não é oficialmente reconhecido, não figura em inventários públicos e não pode ser juridicamente atribuído ao Estado que o formou ou emprega.

Essa “inexistência” não é um detalhe administrativo. É, na verdade, o núcleo do seu valor estratégico.

A lógica do ativo não atribuível

No pensamento estratégico moderno, a capacidade de agir sem assumir publicamente a autoria é tão relevante quanto a capacidade de agir com força aberta. Estados que operam em ambientes de competição permanente, mas que buscam evitar escaladas formais, recorrem a ativos não atribuíveis para influenciar cenários, moldar percepções e criar fatos consumados sem cruzar linhas vermelhas explícitas.

Diferentemente de forças regulares, esses operadores não existem para ocupar território ou travar batalhas convencionais. Seu papel é operar na interseção entre política, informação, inteligência e coerção limitada. Eles são instrumentos de ambiguidade estratégica, concebidos para permitir a chamada negação plausível: a possibilidade de um Estado negar, com razoável credibilidade, qualquer vínculo com a ação executada.

Importância geopolítica no século XXI

O uso desse tipo de ativo se intensificou à medida que o sistema internacional se tornou mais fragmentado e competitivo. Conflitos recentes demonstram que a disputa entre potências ocorre de forma contínua, mesmo em tempos de aparente paz. Influenciar processos políticos, desorganizar cadeias críticas, testar defesas adversárias, apoiar aliados informais ou desestimular ações hostis são tarefas frequentemente conduzidas fora do campo militar tradicional.

Nesse contexto, o operador não atribuível cumpre funções que forças convencionais não podem exercer sem gerar crises diplomáticas imediatas. Ele permite ao Estado ampliar sua margem de manobra estratégica, agir em profundidade e manter pressão constante sobre adversários, tudo isso sem a necessidade de mobilizações ostensivas ou declarações formais de conflito.

Além disso, esses ativos são centrais na chamada guerra narrativa. Em um ambiente em que a percepção pública, a legitimidade e o controle da informação são decisivos, a capacidade de influenciar discursos, desorganizar narrativas adversárias e proteger a própria imagem internacional tornou-se um vetor essencial do poder nacional.

Emprego: princípios, não procedimentos

O emprego de operadores não atribuíveis obedece a princípios claros, ainda que envoltos em sigilo. O primeiro deles é o controle político rigoroso. Ao contrário de forças regulares, esses ativos operam sob cadeias decisórias extremamente restritas, com autorização em níveis elevados do Estado.

O segundo princípio é a integração interagências. Seu uso raramente é isolado. Ele ocorre em coordenação com instrumentos diplomáticos, econômicos, informacionais e de inteligência, compondo uma ação estratégica mais ampla.

O terceiro princípio é a limitação deliberada. Essas operações não visam vitórias espetaculares, mas efeitos específicos, mensuráveis e politicamente controláveis. O sucesso está menos no impacto imediato e mais na capacidade de moldar o ambiente estratégico ao longo do tempo.

Por fim, há o princípio do silêncio institucional. Mesmo quando suas ações produzem efeitos evidentes, o Estado preserva a ambiguidade. Não há medalhas públicas, registros históricos oficiais ou reconhecimento formal. O ativo cumpre sua missão e retorna à sombra.

Riscos e dilemas

O uso desse tipo de homem não é isento de riscos. A exposição involuntária pode gerar crises diplomáticas severas, sanções e perda de credibilidade internacional. Há também dilemas éticos e jurídicos relevantes, especialmente quando operações ocorrem em ambientes civis ou em Estados formalmente em paz.

Por isso, países que recorrem a esses ativos investem não apenas em treinamento técnico, mas em seleção rigorosa, disciplina psicológica e mecanismos internos de controle. O operador não atribuível não é um aventureiro, mas um instrumento de Estado, cuja atuação exige maturidade institucional.

Uma ferramenta invisível, mas decisiva

Na prática, o operador especial não atribuível representa uma adaptação do poder militar às realidades do século XXI. Ele não substitui forças convencionais, mas as complementa em um ambiente onde a guerra raramente é declarada e quase sempre disputada nas margens.

Ignorar a existência desse tipo de ativo é ignorar uma parte essencial da dinâmica geopolítica contemporânea. Compreendê-lo não é glorificar a guerra, mas reconhecer que, no mundo atual, o conflito é tão político e informacional quanto militar — e que, muitas vezes, os movimentos mais decisivos são feitos por aqueles que oficialmente não existem.

Zona cinzenta e tipologias de agentes não atribuíveis

A chamada zona cinzenta descreve o espaço entre a paz formal e a guerra declarada. Nesse ambiente, Estados competem de forma contínua, empregando instrumentos que produzem efeitos estratégicos sem ultrapassar, de maneira inequívoca, os limiares jurídicos e políticos que acionariam respostas abertas. Os operadores não atribuíveis são peças centrais dessa lógica, mas não atuam sozinhos nem de forma homogênea. Há classes distintas de agentes, definidas menos por nacionalidade e mais pela função estratégica que cumprem.

Uma primeira classe é a dos operadores estatais diretos não atribuíveis: indivíduos formados por estruturas militares ou de inteligência e empregados sob negação plausível. Eles operam em missões sensíveis, de curto ou médio prazo, com objetivos delimitados e forte controle político. Sua principal característica é a integração fina com a estratégia nacional do Estado patrocinador.

Uma segunda classe envolve intermediários estatais ou paraestatais. Aqui entram estruturas que mantêm vínculos funcionais com o Estado, mas operam com graus adicionais de separação institucional. Essa camada adiciona amortecimento político, reduzindo riscos de atribuição direta e ampliando a flexibilidade de emprego em ambientes particularmente sensíveis.

Uma terceira classe, cada vez mais relevante, é a de operadores de terceiros países. Nesses casos, Estados recorrem a indivíduos ou células de outra nacionalidade, selecionados por afinidade cultural, acesso geográfico, histórico operacional ou simples conveniência política. O valor estratégico dessa opção está na multiplicação das camadas de negação: mesmo em caso de exposição, a cadeia de responsabilidade torna-se difusa, complexa e difícil de comprovar.

A lógica do emprego indireto

O recurso a operadores não atribuíveis de outras nacionalidades não decorre apenas de oportunismo, mas de cálculo estratégico. Em cenários delicados, especialmente quando o custo diplomático de uma ligação direta seria elevado, a externalização do vetor humano permite ao Estado agir sem se tornar o foco imediato da retaliação política, econômica ou militar.

Essa prática é observada sobretudo em disputas assimétricas, rivalidades regionais prolongadas e conflitos de baixa intensidade, nos quais a escalada aberta não interessa a nenhuma das partes. O objetivo não é a demonstração de força, mas a gestão do ambiente estratégico: desorganizar lideranças, reduzir capacidades adversárias, gerar dissuasão silenciosa ou alterar correlações de poder de forma incremental.

É importante destacar que, do ponto de vista analítico, essas ações não devem ser entendidas como improviso ou terceirização irresponsável da força. Ao contrário, envolvem planejamento sofisticado, avaliação de riscos e um entendimento claro de que o principal ativo protegido não é o operador em si, mas a plausibilidade da negação estatal.

Importância estratégica e limites

Na arquitetura contemporânea de poder, a zona cinzenta tornou-se permanente. Estados que ignoram esse domínio tendem a operar em desvantagem, reagindo apenas quando os efeitos já se consolidaram. Por isso, a capacidade de empregar, coordenar ou neutralizar agentes não atribuíveis, próprios ou de terceiros, passou a ser um indicador relevante de maturidade estratégica.

Ao mesmo tempo, o uso desse instrumento impõe limites claros. Quanto mais difusa a atribuição, maior a dificuldade de controle político fino e maior o risco de efeitos colaterais indesejados. Estados eficazes nesse domínio são aqueles que combinam ambiguidade externa com disciplina interna, evitando que a lógica da zona cinzenta degrade em descontrole ou erosão de legitimidade.

Em síntese, a atuação de agentes e operadores na zona cinzenta não é uma anomalia do sistema internacional, mas uma de suas engrenagens centrais. Compreendê-la é essencial para entender como o poder realmente se exerce no século XXI, não apenas nos campos de batalha visíveis, mas nos espaços onde a guerra não é declarada e, justamente por isso, nunca deixa de acontecer.



por Angelo Nicolaci


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Xmobots, Petrobras e Marinha do Brasil avançam na integração de SARP para defesa naval e monitoramento ambiental

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A Marinha do Brasil dá mais um passo consistente rumo à consolidação do emprego de sistemas autônomos no ambiente marítimo ao avançar em cooperação com a brasileira Xmobots para testes operacionais de Sistemas Aéreos Remotamente Pilotados (SARP) voltados a missões navais e offshore. Mais do que um acordo pontual, o movimento revela uma engrenagem estratégica em formação, unindo defesa, indústria e setor energético em torno de um mesmo eixo: autonomia tecnológica e presença inteligente no mar.

Os testes serão realizados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, e também a bordo de embarcações da Marinha, onde serão avaliados requisitos técnicos e operacionais para o uso contínuo dos SARP em cenários reais. Trata-se de um estágio decisivo, pois operar no ambiente naval exige robustez estrutural, resistência à salinidade, ventos e instabilidade de convés, além de integração segura com sistemas de comando, controle e comunicações já consolidados na Força.

Entre as plataformas envolvidas estão o Nauru 1000C e o Nauru 500C, dois vetores que simbolizam a maturidade crescente da indústria nacional de aeronaves não tripuladas. O Nauru 1000C, com autonomia de até dez horas, já acumula experiência em missões de monitoramento de fronteiras com o Exército Brasileiro, demonstrando capacidade de vigilância prolongada e cobertura de amplas áreas. Já o Nauru 500C carrega um marco relevante: é o primeiro eVTOL brasileiro certificado pela ANAC para voos BVLOS, característica que o torna especialmente atrativo para operações embarcadas, onde a decolagem e o pouso vertical eliminam a dependência de pistas e ampliam a flexibilidade tática.

A adaptação dessas aeronaves ao contexto naval amplia o horizonte de missões que vão desde patrulha marítima e monitoramento ambiental até inspeção de plataformas e proteção de rotas estratégicas. Em um momento em que a Amazônia Azul assume papel cada vez mais central na equação econômica e geopolítica brasileira, a adoção de SARP de origem nacional representa simultaneamente ganho operacional e fortalecimento da Base Industrial de Defesa, reduzindo vulnerabilidades externas e agregando valor tecnológico interno.

A sinergia entre Xmobots, Marinha do Brasil e Petrobras sinaliza algo maior do que a simples introdução de novos equipamentos. O que se desenha é uma mudança estrutural na forma como o país encara tecnologias críticas, conectando defesa, energia e inovação em uma mesma arquitetura estratégica. Ao combinar recursos, conhecimento técnico e demanda operacional real, o Brasil avança na construção de capacidades próprias em sistemas autônomos de monitoramento, ampliando sua margem de independência e sua capacidade de resposta.

Não se trata apenas de aeronaves sobrevoando o mar. Trata-se de consciência situacional ampliada, de presença persistente e de inteligência aplicada ao espaço marítimo. Sistemas autônomos passam a atuar como multiplicadores de força, estendendo os olhos e os ouvidos da Esquadra muito além do horizonte visível. É tecnologia a serviço da soberania, inovação alinhada à estratégia e, sobretudo, um indicativo claro de que o domínio do futuro passa, inevitavelmente, pelo domínio dos sistemas que operam sem piloto, mas nunca sem propósito.


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MBT e MMBT no século XXI: escolhas estratégicas, poder blindado e a construção de uma força terrestre adequada à realidade brasileira

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O debate contemporâneo sobre carros de combate blindados precisa ser compreendido menos como uma disputa entre plataformas e mais como uma reflexão sobre escolhas estratégicas de Estado. A evolução do campo de batalha, a crescente letalidade dos meios anticarro, a centralidade da informação e as limitações orçamentárias impostas às forças armadas modernas deslocaram o foco da discussão: a questão central deixou de ser qual é o melhor tanque e passou a ser qual combinação de meios melhor atende aos objetivos estratégicos nacionais.

Nesse contexto, a distinção entre Main Battle Tanks (MBT) e Medium ou Modern Main Battle Tanks (MMBT) não é apenas técnica, mas conceitual. Ela reflete diferentes filosofias de emprego, diferentes exigências logísticas e diferentes expectativas quanto ao papel do poder blindado em operações futuras. Para o Exército Brasileiro, cuja missão fundamental é a defesa de um território continental, diverso e com infraestrutura desigual, essa reflexão assume contornos particularmente relevantes.

O MBT tradicional permanece como o instrumento máximo do poder blindado. Concebido para o combate decisivo entre forças equivalentes, ele concentra o maior poder de fogo direto disponível no campo terrestre, associado a níveis elevados de proteção passiva e ativa. Em termos doutrinários clássicos, o MBT é o elemento central das operações de ruptura, exploração e choque, capaz de impor decisões táticas e, em determinados contextos, influenciar diretamente o resultado operacional de uma campanha.

Entretanto, a experiência recente em conflitos de alta intensidade, notadamente na Ucrânia, revelou de forma inequívoca que esse poder vem acompanhado de custos e vulnerabilidades estruturais. MBTs modernos exigem cadeias logísticas extensas, consumo elevado de combustível, manutenção altamente especializada e infraestrutura compatível com seu peso e dimensões. Além disso, sua sobrevivência passou a depender cada vez mais da integração com infantaria, defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e proteção contra drones, o que reforça a ideia de que o tanque pesado, isoladamente, deixou de ser um instrumento autossuficiente.

A guerra na Ucrânia demonstrou que MBTs continuam sendo extremamente eficazes quando empregados de forma combinada, mas também evidenciou que sua presença no campo de batalha é cada vez mais previsível e rastreável. Drones de vigilância persistente, loitering munitions e sistemas anticarro portáteis impõem um ambiente no qual a concentração excessiva de meios pesados se transforma rapidamente em vulnerabilidade. Isso não invalida o MBT, mas o reposiciona como um meio de emprego mais seletivo, associado a missões específicas e a contextos operacionais bem definidos.

É nesse espaço conceitual que surge o MMBT como uma resposta estratégica às transformações do campo de batalha. Diferentemente do tanque pesado clássico, o MMBT não busca supremacia absoluta em proteção ou poder de fogo, mas sim um equilíbrio deliberado entre capacidades. Trata-se de um meio projetado para operar em um ambiente onde mobilidade, flexibilidade e sustentabilidade são tão decisivas quanto a blindagem frontal.

Plataformas como o Kaplan MT, o Tulpar em configurações de combate direto e as variantes de apoio pesado da família CV90 ilustram bem essa lógica. Esses blindados combinam armamento capaz de engajar uma ampla gama de alvos, incluindo carros de combate pesados em determinadas circunstâncias, com peso reduzido, arquitetura digital avançada e maior facilidade de transporte e manutenção. Em termos operacionais, oferecem maior liberdade de manobra, menor dependência logística e melhor adaptação a cenários urbanos, florestais e de infraestrutura limitada.

A experiência ucraniana reforça esse ponto. Embora o conflito tenha envolvido extensivamente MBTs de diversas origens, foram justamente os veículos blindados mais móveis, integrados em rede e capazes de operar de forma distribuída que apresentaram melhores taxas de sobrevivência e maior flexibilidade tática. O sucesso operacional de plataformas como o CV90, amplamente elogiado por tropas ucranianas, não decorreu de invulnerabilidade, mas da combinação de mobilidade, proteção adequada, consciência situacional e integração com infantaria e fogos de apoio. Esses atributos estão muito mais alinhados ao conceito de MMBT do que ao paradigma clássico do tanque pesado isolado.

Ao transpor essa análise para o contexto brasileiro, torna-se evidente que a simples adoção de um modelo pesado, concebido para guerras de manobra em teatros altamente industrializados, não responde plenamente às necessidades nacionais. O Brasil precisa de meios capazes de cobrir grandes extensões territoriais, deslocar-se rapidamente entre regiões, operar em ambientes com infraestrutura limitada e manter-se sustentáveis ao longo do tempo. Além disso, a lógica estratégica brasileira privilegia a dissuasão defensiva e a prontidão regional, e não a projeção de força pesada em cenários externos.

Nesse sentido, o MMBT apresenta-se como uma solução particularmente adequada. Ele permite ampliar a presença blindada do Exército com menor custo unitário, reduz a pressão logística sobre as forças e oferece flexibilidade para uma ampla gama de missões, desde a defesa de fronteiras até operações de manobra em profundidade. Sua arquitetura modular e digital também facilita atualizações ao longo do ciclo de vida, aspecto crucial para uma força que precisa permanecer relevante sem depender de substituições completas e onerosas de frota.

Ainda assim, uma análise honesta de nível Estado-Maior não pode ignorar que o MBT mantém um papel fundamental. Em determinados cenários, especialmente aqueles que envolvem a necessidade de choque frontal, dissuasão explícita ou enfrentamento de forças blindadas equivalentes, o carro de combate pesado continua sendo insubstituível. Sua presença exerce um efeito psicológico e operacional que nenhum meio mais leve consegue replicar integralmente.

Dessa forma, a solução estrategicamente mais coerente para o Brasil não reside na escolha excludente entre MBT ou MMBT, mas na construção de uma força blindada mista, equilibrada e complementar. Um núcleo limitado de MBTs pode ser empregado como elemento de decisão e dissuasão, enquanto uma força mais numerosa de MMBTs amplia a capacidade de presença, mobilidade e sustentação operacional em todo o território nacional. Essa combinação permite ao Exército Brasileiro adaptar-se a diferentes cenários, reduzir vulnerabilidades logísticas e maximizar o retorno estratégico do investimento realizado.

Mais do que uma decisão técnica, essa é uma escolha de Estado. Ela envolve doutrina, indústria, orçamento e visão de longo prazo. Ao optar por um mix equilibrado de MBTs e MMBTs, o Brasil não apenas moderniza sua força blindada, mas alinha seus meios às realidades do século XXI, preservando capacidade dissuasória, ampliando flexibilidade operacional e garantindo sustentabilidade estratégica no tempo.


por Angelo Nicolaci


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A Türkiye como parceiro estratégico do Brasil: indústria de defesa, soberania decisória e a lógica do mundo multipolar

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O debate sobre a autonomia estratégica brasileira no campo da defesa frequentemente permanece aprisionado a um falso dilema entre dependência tecnológica dos Estados Unidos e cooperação industrial com países europeus. Essa leitura, além de limitada, ignora transformações profundas no sistema internacional e, sobretudo, desconsidera experiências concretas de países que conseguiram romper esse ciclo fora do eixo euro‑atlântico tradicional. Entre esses casos, a trajetória da indústria de defesa da Türkiye se impõe como uma das mais relevantes, e mais subestimadas, referências para o Brasil.

Desde 2019, o GBN Defense acompanha de forma sistemática e direta a evolução da base industrial de defesa da Türkiye. Esse acompanhamento não se deu apenas no plano analítico ou jornalístico, mas por meio de interlocução institucional contínua, presença em agendas diplomáticas, visitas à Embaixada da Türkiye no Brasil e diálogos recorrentes com representantes do governo turco e executivos da indústria de defesa daquele país. Ao longo desse período, o GBN tem trazido ao debate estratégico brasileiro uma constatação elementar, mas frequentemente ignorada: a necessidade de o Brasil estabelecer uma parceria mais firme, estruturada e de longo prazo com a indústria de defesa da Türkiye, não como alternativa ideológica, mas como escolha pragmática de política de Estado.

A Türkiye não emergiu como potência industrial de defesa por acaso, tampouco por alinhamento automático a qualquer bloco geopolítico. Ancara fez uma escolha estratégica deliberada: reduzir vulnerabilidades externas, eliminar dependências críticas e construir uma base industrial capaz de sustentar autonomia operacional, liberdade de exportação e capacidade de evolução tecnológica contínua. Esse tripé, autonomia decisória, domínio industrial e escala produtiva, é exatamente o que o Brasil afirma buscar há décadas, mas raramente consegue materializar de forma consistente.

O caso turco é particularmente instrutivo porque demonstra que soberania não nasce de discursos, mas de políticas industriais persistentes, continuidade estratégica e aceitação do risco inerente ao desenvolvimento tecnológico. Ao longo de mais de vinte anos, a Türkiye investiu de forma sistemática na substituição de importações em áreas sensíveis, no fortalecimento de empresas privadas nacionais com forte apoio estatal e na criação de escala por meio de exportações. O resultado é tangível: hoje, a indústria de defesa da Türkiye projeta capacidade tecnológica e industrial nos domínios terrestre, aéreo, naval, espacial e cibernético.

No domínio aeroespacial, a Türkiye construiu um dos ecossistemas mais completos fora do eixo tradicional ocidental. Empresas como a Baykar consolidaram o país como referência global em sistemas de aeronaves remotamente pilotadas, com plataformas testadas em combate real, arquitetura flexível e, sobretudo, concebidas fora das amarras de regimes restritivos como ITAR e BAFA. Essa liberdade de emprego, integração e exportação confere um diferencial estratégico central, especialmente relevante para países que necessitam preservar autonomia decisória ao longo do ciclo de vida do sistema.

Nesse mesmo domínio, a Turkish Aerospace Industries (TAI) desenvolveu capacidades que vão além dos drones. O helicóptero de ataque ATAK representa um exemplo concreto de integração de sensores, armamentos e sistemas de missão em uma plataforma nacional, com potencial de adaptação a requisitos específicos do operador. Já o Hürjet surge como uma solução particularmente interessante para o Brasil: uma aeronave LIFT capaz de cumprir missões de treinamento avançado, apoio aéreo aproximado, ataque leve e, em determinados cenários, funções de caça leve. Em um contexto de restrições orçamentárias e necessidade de versatilidade operacional, o Hürjet representa uma alternativa coerente para complementar a aviação de combate brasileira, preservando doutrina, treinamento e capacidade de transição para vetores mais complexos.

Complementando esse ecossistema, empresas como a Aselsan e a Roketsan posicionaram a Türkiye como um ator relevante em sistemas de defesa aérea, sensores, guerra eletrônica e munições guiadas. Trata-se de um conjunto integrado de capacidades que permite não apenas a aquisição de plataformas, mas o desenvolvimento de uma arquitetura de defesa aérea e de ataque em profundidade, com potencial real de integração a sistemas nacionais brasileiros.

No domínio terrestre, a maturidade da indústria da Türkiye é igualmente evidente e particularmente relevante para as necessidades brasileiras. Empresas como a Otokar dominam todo o ciclo de projeto, engenharia, testes e produção de viaturas blindadas modernas e modulares, com histórico comprovado de produção em escala e exportação para dezenas de países. O interesse brasileiro em plataformas como o Tulpar não se explica apenas por suas características técnicas, mas pela possibilidade concreta de cooperação industrial profunda, integração de sistemas nacionais e produção local.

Nesse mesmo espectro, o FNSS Kaplan MT se destaca como um carro de combate médio equilibrado, concebido para operar em ambientes urbanos, fronteiriços e de alta complexidade geográfica, oferecendo uma solução coerente entre mobilidade, proteção e poder de fogo, características que dialogam diretamente com o cenário operacional brasileiro. Já o FNSS ZAHA representa uma alternativa moderna para substituir ou complementar o atual CLAnf, incorporando conceitos contemporâneos de mobilidade anfíbia, proteção modular e integração de sistemas, alinhados às exigências atuais do combate expedicionário.

A experiência turca no desenvolvimento do carro de combate Altay completa esse quadro. Embora a produção esteja atualmente sob responsabilidade da BMC, o núcleo tecnológico do projeto foi concebido pela Otokar, acumulando conhecimento crítico em arquitetura veicular, integração de sistemas, blindagem e gestão de grandes programas industriais. Esse tipo de aprendizado é precisamente o que falta ao Brasil em seus programas de sistemas de combate pesado e que dificilmente será adquirido por meio de aquisições prontas ou transferências tecnológicas limitadas.

No domínio naval, a Türkiye também construiu uma indústria robusta e diversificada, capaz de projetar, fabricar e integrar plataformas modernas para patrulha costeira, proteção da zona econômica exclusiva e projeção de poder regional. Estaleiros como a STM e a Sedef demonstram competências avançadas em corvetas, fragatas, navios de assalto, embarcações rápidas e sistemas de combate integrados. As soluções navais turcas privilegiam modularidade, arquitetura aberta e integração de sensores e armamentos, oferecendo ao parceiro estratégico liberdade de adaptação tecnológica e transferência real de know‑how.

Para o Brasil, cuja Marinha enfrenta o desafio simultâneo de renovar meios, preservar capacidade industrial e garantir autonomia operacional, essas plataformas representam oportunidades concretas de codesenvolvimento e integração com sistemas nacionais, fortalecendo a base industrial de defesa e reduzindo dependências externas ao longo do ciclo de vida.

O ponto central, contudo, vai além de plataformas específicas. O verdadeiro diferencial estratégico da Türkiye reside no modelo de cooperação que oferece. Diferentemente de parcerias marcadas por transferências tecnológicas simbólicas ou condicionadas, a indústria turca opera sob a lógica do codesenvolvimento, da produção local e da integração plena de sistemas nacionais do parceiro. Trata‑se de pragmatismo industrial: o próprio sucesso da Türkiye depende da construção de redes internacionais que ampliem escala, reduzam custos e consolidem sua posição no mercado global.

Para o Brasil, isso é decisivo. Autonomia em defesa não significa produzir tudo internamente, mas preservar liberdade de decisão após a aquisição. Significa poder integrar sistemas de diferentes origens, modernizar plataformas sem autorizações externas, exportar produtos desenvolvidos em parceria e evitar que decisões políticas de terceiros se transformem em gargalos operacionais.

Nada disso implica romper ou substituir relações com Estados Unidos ou Europa. A lógica não é de exclusão, mas de diversificação estratégica. Em defesa, diversificar parceiros é reduzir riscos. Apostar em um único eixo é aceitar vulnerabilidades sistêmicas. A indústria de defesa da Türkiye não é um substituto automático, mas um complemento de altíssimo valor estratégico, especialmente em um mundo cada vez mais multipolar, no qual autonomia relativa deixou de ser luxo e passou a ser condição de sobrevivência.

Ignorar essa oportunidade por inércia diplomática ou apego a paradigmas ultrapassados seria um erro estratégico. O mundo já mudou, a indústria de defesa global já se reorganizou e a Türkiye é uma das evidências mais claras dessa transformação. Cabe ao Brasil decidir se continuará como comprador recorrente de soluções prontas ou se construirá poder industrial, tecnológico e militar com parceiros dispostos a compartilhar risco, conhecimento e futuro.

No fim, poder militar duradouro não se adquire por catálogo. Ele é construído ao longo do tempo, com escolhas estratégicas coerentes, parceiros adequados e visão de Estado. A Türkiye oferece exatamente isso: uma oportunidade concreta de transformar discurso em capacidade.


por Angelo Nicolaci


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Embraer e Adani unem forças para estruturar a aviação regional na Índia e ampliar cooperação industrial Brasil–Índia

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A Embraer e a Adani Defence & Aerospace deram um passo relevante na consolidação da aviação regional indiana ao anunciarem a assinatura de um Memorando de Entendimento voltado ao desenvolvimento de um ecossistema integrado de jatos regionais no país. Mais do que uma parceria comercial, o acordo sinaliza uma convergência estratégica entre duas potências emergentes, combinando capacidade industrial, transferência de conhecimento e alinhamento a políticas nacionais de desenvolvimento.

O entendimento prevê cooperação em toda a cadeia de valor da aviação regional, abrangendo a fabricação de aeronaves, a construção de uma cadeia local de suprimentos, serviços de manutenção e pós-venda, além de treinamento de pilotos. No centro da iniciativa está a intenção de instalar uma unidade de produção de aeronaves na Índia, com ampliação gradual do conteúdo local, em sintonia com o programa indiano de Aeronaves de Transporte Regional (RTA) e com a política Aatmanirbhar Bharat, que busca reduzir a dependência externa e fortalecer a base industrial nacional.

A parceria também dialoga diretamente com o programa UDAN, voltado à ampliação da conectividade aérea regional, um dos pilares da estratégia indiana para integrar economicamente regiões periféricas e cidades médias ao eixo de crescimento do país. Nesse sentido, a aviação regional é tratada não apenas como um segmento de mercado, mas como instrumento de política pública, desenvolvimento territorial e inclusão econômica.

Para a Embraer, a iniciativa reforça uma estratégia já consolidada de atuação em mercados emergentes com forte demanda por soluções eficientes, confiáveis e adaptadas à realidade local. A empresa brasileira traz para a parceria sua ampla experiência em engenharia, certificação e produção seriada de jatos regionais, além de um histórico consistente de operação dessas aeronaves em ambientes diversos, tanto na aviação civil quanto em aplicações governamentais e de defesa.

A presença da Embraer na Índia não é recente. Atualmente, cerca de 50 aeronaves da companhia operam no país em diferentes segmentos, incluindo aviação comercial, executiva e militar. Na Força Aérea Indiana, plataformas como o Legacy 600 e o sistema Netra AEW&C, baseado no ERJ145, desempenham papel relevante em missões estratégicas. No mercado civil, companhias como a Star Air operam jatos E175 e ERJ145 em rotas regionais, reforçando a aderência do portfólio da Embraer às necessidades do país.

Do lado indiano, a Adani Defence & Aerospace aporta um diferencial decisivo: sua presença transversal na cadeia de valor da aviação. O grupo atua desde a infraestrutura aeroportuária até a produção aeroespacial, passando por serviços de MRO, treinamento de pilotos e desenvolvimento de plataformas tripuladas e não tripuladas. Essa integração permite não apenas absorver tecnologia, mas estruturar um ecossistema industrial sustentável, capaz de gerar empregos qualificados e manter capacidades no longo prazo.

Executivos das duas companhias destacaram que o objetivo central da parceria é avaliar, de forma conjunta, as soluções mais eficientes e viáveis para apoiar o desenvolvimento do programa RTA, criando as bases para uma indústria de aviação regional robusta na Índia. A expectativa é atender à demanda doméstica crescente e, ao mesmo tempo, posicionar o país como um polo relevante no cenário aeroespacial global.

Sob uma perspectiva estratégica mais ampla, o acordo também reforça as relações entre Brasil e Índia, dois países que compartilham interesses convergentes em temas como autonomia industrial, diversificação de parcerias e fortalecimento de cadeias produtivas fora dos tradicionais eixos euro-atlânticos. A cooperação entre Embraer e Adani exemplifica um modelo de parceria Sul-Sul baseado em complementaridade de capacidades, e não apenas em relações cliente-fornecedor.

Além do impacto industrial direto, a iniciativa tem potencial para gerar efeitos estruturantes. A criação de empregos nas áreas de engenharia, manufatura, logística e suporte técnico contribui para a formação de capital humano, enquanto a ampliação da conectividade aérea regional favorece o crescimento econômico descentralizado, reduz desigualdades regionais e fortalece o mercado interno indiano.

Ao apostar na aviação regional como vetor de desenvolvimento e na produção local como eixo estratégico, Embraer e Adani posicionam a parceria como um projeto de longo prazo, alinhado às transformações em curso no setor aeroespacial global. Trata-se de um movimento que vai além da venda de aeronaves e se insere em uma lógica mais ampla de soberania industrial, integração econômica e projeção estratégica.


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

T4 Taurus e a modernização do armamento individual do Corpo de Fuzileiros Navais: análise técnica, doutrinária e estratégica

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O Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN) mantém historicamente o fuzil calibre 5,56×45 mm M16A2 como armamento individual padrão da maior parte de sua tropa. Trata-se de uma plataforma consagrada, robusta e amplamente difundida internacionalmente, mas concebida dentro de uma lógica operacional dos anos 1980, em um período em que fatores como modularidade, integração com sistemas optrônicos avançados e capacidade de operação em ambientes confinados não eram prioritários.

Mais recentemente, com o objetivo de recompor estoques e atender demandas específicas, a Marinha adquiriu 140 fuzis M4 da Colt. Essa carabina representa uma evolução direta do M16 A2, com cano mais curto, coronha retrátil e maior adequação a operações embarcadas, urbanas e anfíbias. A quantidade limitada adquirida evidencia que não se trata de um processo de padronização plena, mas de uma solução pontual dentro de um inventário que permanece heterogêneo.

Esse cenário abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre o futuro do armamento individual do Corpo de Fuzileiros Navais, especialmente considerando que forças anfíbias modernas demandam flexibilidade, integração tecnológica, logística simplificada e interoperabilidade plena, elementos decisivos para a eficiência operacional.

O fuzil T4, desenvolvido pela Taurus, merece atenção técnica e estratégica nesse contexto. O T4 é baseado na plataforma AR, a mesma família de projeto que originou os fuzis M16 e as carabinas M4, hoje constituindo o núcleo do armamento individual empregado pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. O USMC utiliza predominantemente sistemas derivados da plataforma AR, como o M4 e o M27 Infantry Automatic Rifle, compartilhando princípios mecânicos, ergonomia, modularidade e compatibilidade logística. Trata-se de uma plataforma validada em operações anfíbias, expedicionárias e de alta intensidade, exatamente o espectro de missões que caracteriza fuzileiros navais.

Do ponto de vista técnico, a adoção de um fuzil nacional baseado na plataforma AR proporciona integração completa com sistemas modernos de mira óptica, dispositivos de visão noturna, miras termais, apontadores laser e lanternas táticas, além de permitir a instalação de acessórios modulares essenciais ao combate contemporâneo. A ergonomia da plataforma, já conhecida por tropas treinadas no M16A2 e no M4, reduz significativamente a curva de adaptação, simplificando treinamento e transição operacional.

Embora o T4 ainda não tenha sido oficialmente escolhido ou incorporado pelo Corpo de Fuzileiros Navais, a Taurus realizou visitas ao Comando-Geral para apresentar a plataforma e suas capacidades. Seu uso consolidado por forças policiais brasileiras, inclusive em unidades especializadas, e sua exportação para outros países demonstram que não se trata de um projeto experimental. O T4 já passou por ciclos reais de emprego, manutenção e aperfeiçoamento, acumulando experiência operacional relevante.

Para uma força anfíbia, fatores como resistência à corrosão, confiabilidade em ambientes salinos, facilidade de manutenção embarcada e disponibilidade de peças de reposição são tão importantes quanto o desempenho balístico. A produção nacional do T4 representa uma vantagem estratégica significativa: garante suporte técnico em território brasileiro, reduz dependência de cadeias logísticas externas e aumenta a previsibilidade no fornecimento de componentes, impactando diretamente a prontidão da tropa.

Do ponto de vista doutrinário, o T4 deve ser analisado como uma evolução natural dentro da mesma família de sistemas já utilizada pelo CFN. Sua arquitetura permite padronização progressiva, interoperabilidade com aliados e compatibilidade com doutrinas consolidadas em operações anfíbias, seguindo referências históricas e operacionais do USMC, reconhecido internacionalmente como modelo de força expedicionária de fuzileiros navais.

Sob a perspectiva estratégica, a avaliação do T4 transcende a escolha de um fuzil específico. Trata-se de uma decisão que dialoga diretamente com a autonomia logística, o fortalecimento da Base Industrial de Defesa e a sustentabilidade de longo prazo dos meios empregados pela Força. Em cenários de restrição orçamentária, instabilidade internacional ou limitações de fornecimento externo, a capacidade de contar com soluções nacionais maduras se torna um multiplicador de poder.

Considerando o emprego ainda predominante do M16A2, a aquisição pontual de 140 fuzis M4 da Colt e a necessidade de pensar o futuro do armamento individual de forma integrada, o T4 se apresenta como uma alternativa que merece avaliação técnica aprofundada. Não se trata de uma substituição imediata, mas de um processo racional de análise, testes e eventual incorporação, alinhado às melhores práticas internacionais e às exigências operacionais específicas de uma força anfíbia moderna.

A discussão sobre o T4, portanto, não é apenas sobre um fuzil, mas sobre como o Corpo de Fuzileiros Navais pode evoluir mantendo coerência doutrinária, eficiência logística e compromisso com a soberania industrial brasileira. O T4 Taurus emerge como uma solução nacional madura, estratégica e plenamente compatível com a doutrina e os desafios da tropa expedicionária brasileira.


por Angelo Nicolaci


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Indo-Pacífico: o verdadeiro centro de gravidade do século XXI

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Durante grande parte do século XX, o eixo central da política internacional esteve ancorado no Atlântico Norte. Europa Ocidental e Estados Unidos concentravam poder econômico, militar e normativo, enquanto o restante do mundo orbitava esse centro decisório. No século XXI, essa lógica se rompeu. O coração da geopolítica global deslocou-se de forma inequívoca para o Indo-Pacífico, região que hoje concentra as principais disputas de poder, as maiores economias emergentes, os fluxos comerciais mais relevantes e, sobretudo, os riscos mais elevados de conflito entre grandes potências.

É no Indo-Pacífico que se encontram os principais vetores estratégicos do sistema internacional contemporâneo: a ascensão da China como potência, a centralidade de Taiwan na cadeia global de semicondutores, o crescimento acelerado da Índia como ator no cenário de defesa e econômico, a ressignificação do papel do Japão e a presença contínua, embora cada vez mais desafiada, dos Estados Unidos como potência garantidora da ordem regional.

A China é o elemento estruturante dessa equação. Pequim deixou de ser apenas uma potência econômica para se tornar um ator no âmbito militar plenamente consciente de seus interesses estratégicos. O Exército de Libertação Popular passou por uma transformação profunda, com investimentos maciços em mísseis balísticos e de cruzeiro, capacidades navais de águas azuis, guerra cibernética, espacial e integração de sensores e cadeia sofisticada de comando e controle. O objetivo é claro: reduzir, e eventualmente neutralizar, a capacidade de intervenção dos Estados Unidos em seu entorno imediato, especialmente no Mar do Sul da China e no Estreito de Taiwan.

Taiwan, por sua vez, não é apenas uma questão identitária ou política para Pequim. A ilha ocupa uma posição absolutamente crítica na economia global por concentrar parte significativa da produção mundial de semicondutores avançados. Qualquer instabilidade no Estreito de Taiwan teria impactos imediatos sobre cadeias industriais, sistemas militares, setores de alta tecnologia e mercados financeiros em escala planetária. Trata-se de um dos poucos pontos do globo onde um conflito regional pode rapidamente se transformar em uma crise sistêmica global.

A Índia surge como um contraponto cada vez mais relevante à China. Com uma população que já supera a chinesa, crescimento econômico sustentado e um processo gradual de modernização militar, Nova Délhi busca consolidar-se como potência regional e ator global. Sua postura é pragmática: cooperação seletiva com os Estados Unidos e parceiros do Indo-Pacífico, manutenção de autonomia estratégica e contenção direta da China em áreas sensíveis como o Himalaia e o Oceano Índico. Diferentemente da Europa, a Índia pensa sua defesa a partir de ameaças concretas e geograficamente próximas.

O Japão, por décadas limitado por restrições constitucionais e uma cultura estratégica defensiva, passa por uma inflexão histórica. Tóquio ampliou seu orçamento de defesa, revisou diretrizes estratégicas e investe em capacidades de ataque de longo alcance, defesa antimísseis e interoperabilidade com forças norte-americanas. A percepção japonesa é simples: o ambiente regional tornou-se mais hostil, e depender exclusivamente do guarda-chuva de Washington é um risco que não pode mais ser ignorado.

Os Estados Unidos continuam sendo o principal ator no cenário do Indo-Pacífico, mas sua posição já não é de supremacia incontestável. Washington mantém uma vasta rede de alianças, bases e acordos de defesa, incluindo Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Austrália, além de iniciativas como o AUKUS. Ainda assim, o custo de projetar poder na região cresce, enquanto a China opera cada vez mais próxima de seu território, com vantagens geográficas e logísticas evidentes.

Nesse contexto, a Europa surge como um ator progressivamente irrelevante do ponto de vista militar fora de seu entorno imediato. Apesar do discurso político ambicioso, a realidade é que as capacidades europeias de projeção de poder são limitadas, fragmentadas e dependentes dos Estados Unidos. A guerra na Ucrânia expôs de forma contundente as fragilidades industriais, logísticas e operacionais do continente, que luta para sustentar um conflito de grande intensidade mesmo em sua vizinhança direta.

No Indo-Pacífico, a presença europeia é essencialmente simbólica. Envio ocasional de navios, exercícios pontuais e declarações diplomáticas não alteram o equilíbrio de poder regional. França e Reino Unido, apesar de possuírem capacidades mais robustas que seus parceiros continentais, operam no limite de seus meios. A União Europeia como bloco, carece de vontade política, coesão estratégica e instrumentos militares compatíveis com suas ambições declaradas.

Para o Brasil, a compreensão do Indo-Pacífico como centro de gravidade do século XXI é mais do que um exercício acadêmico. Trata-se de um imperativo estratégico. O país depende do comércio marítimo, tem a China como principal parceiro comercial, importa tecnologias críticas e opera no sistema internacional cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências. Ignorar essa dinâmica é aceitar uma posição periférica no mundo que está sendo redefinido longe do Atlântico Sul.

O Indo-Pacífico não é apenas uma região distante. É o espaço onde se decide o futuro da ordem internacional, das cadeias produtivas, da tecnologia e do equilíbrio militar global. Entender esse tabuleiro com profundidade e realismo, é condição básica para qualquer país que aspire a ter voz, autonomia e relevância no século XXI.


por Angelo Nicolaci


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