quinta-feira, 4 de junho de 2026

Canadá reavalia programa F-35 e Gripen E surge como alternativa estratégica; movimento pode abrir oportunidades para a indústria brasileira

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As crescentes tensões entre Ottawa e Washington começam a produzir efeitos concretos em um dos setores mais sensíveis da segurança nacional canadense: a defesa. O que inicialmente parecia ser apenas mais um atrito comercial entre dois parceiros históricos evoluiu para uma discussão estratégica sobre soberania industrial, autonomia tecnológica e independência operacional. Nesse contexto, o governo canadense avalia uma profunda revisão de seu programa de renovação da aviação de caça, abrindo espaço para o Saab Gripen E como alternativa ao Lockheed Martin F-35A.

De acordo com informações divulgadas pelo jornal canadense La Presse, o Canadá estuda abandonar a aquisição integral de 88 caças F-35A aprovada em 2023 e substituí-la por uma frota mista. A proposta em análise prevê a manutenção de cerca de 30 aeronaves F-35A para missões estratégicas vinculadas aos compromissos do país junto ao NORAD e à OTAN, enquanto aproximadamente 60 aeronaves Gripen E assumiriam a maior parte das missões de defesa aérea e policiamento do espaço aéreo canadense.

A mudança de rumo não ocorre por razões puramente militares. Ela está diretamente ligada ao agravamento das relações entre o governo canadense e a administração liderada por Donald Trump. A imposição de tarifas de 25% sobre produtos canadenses e as ameaças de medidas ainda mais severas contra setores estratégicos, incluindo a indústria aeronáutica, acenderam um alerta em Ottawa sobre os riscos de uma dependência excessiva de fornecedores americanos em áreas consideradas críticas para a segurança nacional.

Embora o Canadá tenha realizado pagamentos relacionados a componentes de longo ciclo de produção do F-35, a situação contratual oferece margem de manobra ao governo do primeiro-ministro Mark Carney. Na prática, apenas as primeiras 16 aeronaves encontram-se plenamente vinculadas a contratos de produção já assinados, enquanto as demais unidades ainda podem ser reduzidas ou canceladas sem que isso represente custos proibitivos para o país.

Os sinais de uma mudança de orientação estratégica já haviam surgido em maio deste ano. Em uma decisão que surpreendeu parte do setor de defesa, Ottawa descartou propostas americanas para sua futura capacidade de Alerta Aéreo Antecipado e Controle Aerotransportado (AEW&C), iniciando negociações exclusivas com a Saab para a aquisição do sistema GlobalEye.

A escolha não foi apenas técnica. O GlobalEye utiliza a aeronave Bombardier Global 6500 como plataforma, preservando empregos e fortalecendo a indústria aeroespacial canadense. A decisão foi interpretada como um indicativo claro de que a prioridade do governo passou a ser a geração de capacidade industrial doméstica, mesmo quando isso significa abrir mão de soluções tradicionalmente fornecidas pelos Estados Unidos.

Essa visão foi formalizada na nova Estratégia Industrial de Defesa do Canadá, lançada em fevereiro de 2026. O documento estabelece investimentos estimados em 500 bilhões de dólares canadenses ao longo da próxima década e prevê a elevação gradual dos gastos de defesa para 5% do PIB até 2035. Mais importante, a estratégia busca corrigir uma realidade histórica na qual aproximadamente 75% dos recursos destinados à defesa acabavam direcionados para fornecedores americanos.

A nova política estabelece que pelo menos 70% do valor agregado dos grandes contratos de defesa permaneça dentro do território canadense. Nesse cenário, a proposta da Saab ganhou força ao oferecer algo que a concorrência americana não conseguiu igualar: transferência de tecnologia, produção local, participação da indústria nacional e controle soberano sobre futuras modernizações de software e sistemas de missão.

O Gripen E também apresenta características operacionais particularmente interessantes para o ambiente canadense. Desenvolvido para operar em condições severas e a partir de bases dispersas, o caça sueco possui elevada disponibilidade operacional, requisitos logísticos reduzidos e capacidade de operar em pistas improvisadas de aproximadamente 800 metros de comprimento. Em um país com vastas áreas remotas e desafios geográficos significativos, essas características representam vantagens importantes.

Outro fator que pesa na análise canadense é o custo operacional. Enquanto o F-35 continua enfrentando questionamentos relacionados ao custo de operação ao longo de sua vida útil, estimado em valores significativamente superiores aos de aeronaves de geração anterior, o Gripen E apresenta um custo por hora de voo substancialmente menor. Isso permite manter um número maior de aeronaves disponíveis para emprego operacional, treinamento e prontidão, reduzindo a pressão sobre o orçamento de defesa.

Sob a ótica estratégica, a combinação entre F-35 e Gripen E cria uma solução considerada equilibrada. O F-35 manteria as capacidades furtivas e a integração plena com as redes de combate da OTAN e do NORAD, enquanto o Gripen assumiria grande parte das missões de defesa aérea, interceptação e policiamento do espaço aéreo, oferecendo custos operacionais mais baixos e maior flexibilidade de emprego.

A Saab ainda adicionou um componente geopolítico à proposta ao sugerir que futuras aeronaves destinadas à reconstrução das capacidades militares da Ucrânia possam ser produzidas em instalações canadenses. A iniciativa cria perspectivas de geração de empregos, expansão da base industrial local e acesso a futuras linhas de financiamento internacionais ligadas à reconstrução da capacidade de defesa ucraniana.

Embora nenhuma decisão definitiva tenha sido anunciada até o momento, analistas apontam que qualquer confirmação deverá ocorrer somente após as eleições legislativas parciais americanas previstas para novembro de 2026, evitando ampliar as tensões diplomáticas já existentes entre os dois países.

Uma oportunidade que pode interessar diretamente à Base Industrial de Defesa do Brasil

Caso o Gripen E seja efetivamente selecionado para compor a futura frota canadense, os reflexos poderão ultrapassar as fronteiras da América do Norte e alcançar diretamente a Base Industrial de Defesa brasileira.

Diferentemente de muitos programas internacionais de defesa nos quais o Brasil atua apenas como cliente, o programa Gripen criou no país competências industriais estratégicas que hoje fazem parte da cadeia global de fornecimento da Saab. Ao longo da última década, empresas brasileiras absorveram conhecimento, desenvolveram processos produtivos avançados e passaram a participar de atividades de engenharia, integração e fabricação de componentes aeronáuticos de alta complexidade.

Um dos principais exemplos é a AEL Sistemas. A empresa tornou-se responsável por importantes elementos da aviônica do Gripen, incluindo sistemas de interface homem-máquina e componentes eletrônicos que hoje equipam a aeronave, como o Wide Area Display (WAD). O amadurecimento dessa capacidade transformou a empresa em um fornecedor estratégico dentro do programa.

Caso a produção do Gripen seja ampliada para atender um pedido canadense de dezenas de aeronaves, a demanda por equipamentos eletrônicos, integração de sistemas e desenvolvimento de software embarcado poderá crescer significativamente, criando oportunidades para ampliar a participação da indústria brasileira.

Outro aspecto relevante está relacionado à produção de aeroestruturas. O programa Gripen permitiu que fosse instalada no Brasil a capacidade para fabricar componentes estruturais complexos, empregando tecnologias avançadas de manufatura aeronáutica. Essa infraestrutura já existe, está certificada e opera dentro dos padrões exigidos pela indústria aeroespacial internacional.

Dessa forma, uma eventual expansão da produção global do Gripen poderia encontrar no Brasil uma capacidade industrial pronta para absorver parte da demanda, reduzindo riscos, acelerando cronogramas e aumentando a competitividade do programa. Em vez de uma simples transferência de produção para o Canadá, a Saab poderia estruturar uma cadeia multinacional envolvendo Suécia, Brasil e Canadá, distribuindo atividades conforme as competências já existentes em cada país.

Para a Base Industrial de Defesa brasileira, trata-se de uma perspectiva particularmente interessante. Além de gerar novas oportunidades de negócios, um eventual programa canadense fortaleceria toda a cadeia de fornecedores construída ao redor do Gripen, ampliando economias de escala, reduzindo custos e aumentando a sustentabilidade de longo prazo dos investimentos realizados no Brasil.

Mais do que uma possível venda de caças para o Canadá, a disputa entre Gripen e F-35 pode representar um novo capítulo na consolidação de uma rede industrial internacional em torno da aeronave sueca. E, nesse cenário, o Brasil tem condições concretas de deixar de ser apenas um operador do Gripen para se consolidar como um dos principais polos industriais e tecnológicos do programa em nível global.


por Angelo Nicolaci


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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Da Tempestade no Deserto à Guerra dos 12 Dias: o paradigma militar de 1991 chegou ao seu limite?

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Quando os primeiros mísseis de cruzeiro atingiram Bagdá em janeiro de 1991, o mundo testemunhou muito mais do que o início da Operação Desert Storm. Naquele momento nascia um novo paradigma militar que moldaria o pensamento estratégico global pelas três décadas seguintes. A Guerra do Golfo demonstrou de forma inequívoca que a combinação entre superioridade aérea, inteligência em tempo real, guerra eletrônica, munições guiadas de precisão e sistemas avançados de comando e controle poderia derrotar um adversário numericamente expressivo em questão de semanas. A imagem das bombas atingindo alvos específicos transmitida ao vivo pela televisão marcou não apenas uma vitória militar norte-americana, mas o surgimento de uma nova forma de fazer guerra.

Nas décadas seguintes, praticamente todas as forças armadas do mundo passaram a estudar aquele modelo. Algumas buscaram reproduzi-lo. Outras procuraram encontrar formas de neutralizá-lo. O fato é que a Guerra do Golfo não apenas derrotou o Iraque de Saddam Hussein; ela redefiniu o pensamento militar contemporâneo. Kosovo, Afeganistão, Iraque em 2003, Líbia e Síria pareciam confirmar a mesma lógica. Quem dominasse o espaço aéreo, a informação e a capacidade de atingir alvos com precisão dominaria o campo de batalha.

Mas os acontecimentos recentes no Oriente Médio levantam uma questão que hoje ocupa estrategistas, militares e governos ao redor do mundo: o modelo de guerra que emergiu em 1991 continua suficiente para explicar e vencer os conflitos do século XXI?

A resposta não é simples. A Guerra dos 12 Dias demonstrou que os fundamentos daquele paradigma continuam relevantes, mas também revelou suas limitações. O conflito não marcou o surgimento de uma nova revolução militar, como muitos sugerem. Na realidade, ele representou a consolidação de uma transformação que vinha sendo construída há anos, passando pelos campos de batalha do Cáucaso e pelas planícies da Ucrânia, até emergir de forma incontestável no Oriente Médio. Mais do que analisar quem venceu ou perdeu os recentes confrontos entre Israel, Irã e Estados Unidos, talvez seja mais importante compreender o que esses eventos revelam sobre a evolução da guerra moderna e sobre os desafios que moldarão os conflitos das próximas décadas.

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados acumulavam experiências em conflitos assimétricos contra adversários significativamente inferiores em capacidade militar convencional, outras nações observavam atentamente as vulnerabilidades daquele modelo. Rússia, China, Irã e Coreia do Norte compreenderam que competir diretamente com Washington em porta-aviões, bombardeiros estratégicos ou caças furtivos seria economicamente inviável e operacionalmente desvantajoso. Em vez disso, passaram a investir em sistemas capazes de negar ou dificultar a exploração dessas vantagens. Mísseis balísticos e de cruzeiro de longo alcance, sistemas integrados de defesa aérea, guerra eletrônica avançada, capacidades cibernéticas e, posteriormente, drones de diferentes categorias tornaram-se instrumentos centrais de uma estratégia destinada não necessariamente a derrotar os Estados Unidos em um confronto direto, mas a aumentar substancialmente os custos de qualquer intervenção militar.

Foi nesse contexto que começaram a surgir os primeiros sinais de que o paradigma criado em 1991 talvez não fosse tão absoluto quanto parecia. Curiosamente, esses sinais não apareceram em um confronto entre grandes potências, mas em um conflito regional frequentemente negligenciado pelos grandes centros de análise estratégica. A guerra entre Armênia e Azerbaijão em Nagorno-Karabakh, em 2020, representou um dos momentos mais importantes da evolução militar contemporânea. Embora tenha recebido atenção relativamente limitada da imprensa internacional, o conflito revelou transformações profundas que mais tarde seriam observadas em escala muito maior na Ucrânia e, posteriormente, no Oriente Médio.

A campanha conduzida pelo Azerbaijão demonstrou de forma inequívoca o potencial da integração entre drones armados, munições vagantes, inteligência em tempo real e sistemas avançados de reconhecimento. Os drones Bayraktar TB2 de origem turca e as munições vagantes Harop produzidas por Israel tornaram-se símbolos de uma nova realidade operacional. Pela primeira vez, formações blindadas, posições fortificadas, sistemas de defesa aérea e unidades de artilharia passaram a ser constantemente observados e engajados por meios relativamente baratos quando comparados aos sistemas que estavam sendo destruídos. Mais importante do que os equipamentos perdidos foi a constatação de que a tradicional capacidade de ocultação no campo de batalha estava sendo drasticamente reduzida. O avanço dos sensores, das comunicações e dos sistemas não tripulados estava tornando o campo de batalha cada vez mais transparente.

A principal lição de Nagorno-Karabakh não estava relacionada apenas aos drones. O conflito revelou uma mudança muito mais profunda na relação entre custo e poder de combate. Durante décadas, o desenvolvimento militar foi impulsionado pela busca de plataformas cada vez mais sofisticadas, protegidas e tecnologicamente avançadas. Contudo, a guerra no Cáucaso demonstrou que sistemas relativamente simples, quando integrados em uma arquitetura eficiente de reconhecimento e ataque, poderiam neutralizar equipamentos avaliados em milhões de dólares. Pela primeira vez desde a ascensão dos blindados como protagonistas das operações terrestres, observava-se uma inversão preocupante na lógica econômica do combate. O que estava sendo questionado não era apenas a sobrevivência dos blindados ou dos sistemas antiaéreos tradicionais, mas a própria sustentabilidade financeira de um modelo baseado em plataformas cada vez mais caras enfrentando ameaças progressivamente mais acessíveis.

Se Nagorno-Karabakh representou o primeiro alerta, a guerra na Ucrânia destruiu definitivamente qualquer dúvida remanescente. O conflito iniciado em fevereiro de 2022 transformou-se rapidamente em um laboratório militar sem precedentes, onde praticamente todas as tecnologias emergentes passaram a ser empregadas simultaneamente. Drones comerciais adaptados para uso militar coexistiram com satélites comerciais de alta resolução, inteligência artificial, sistemas avançados de guerra eletrônica, munições vagantes, armamentos hipersônicos e redes digitais de compartilhamento de dados. O resultado foi a criação de um ambiente operacional permanentemente monitorado, no qual a identificação de uma posição podia resultar em um ataque poucos minutos depois. A tradicional separação entre reconhecimento, decisão e engajamento começou a desaparecer, substituída por ciclos operacionais cada vez mais rápidos e letais.

A Ucrânia também revelou algo que poucos estrategistas haviam previsto em sua real dimensão: a democratização da consciência situacional. Durante décadas, apenas grandes potências possuíam acesso a imagens de satélite, vigilância persistente e sistemas avançados de inteligência. Hoje, imagens comerciais, drones produzidos em larga escala e sistemas digitais relativamente acessíveis permitem que forças muito menores tenham acesso a capacidades que antes estavam restritas a um número reduzido de países. O monopólio da informação, um dos pilares da superioridade militar ocidental após a Guerra Fria, começou a ser corroído por uma combinação de inovação tecnológica, redução de custos e ampla disponibilidade de sistemas comerciais adaptados para uso militar.

Mas talvez a principal contribuição da guerra na Ucrânia tenha sido demonstrar que a tecnologia, por si só, não resolve os desafios fundamentais da guerra. Apesar da presença de sistemas altamente sofisticados, o conflito trouxe de volta ao centro do debate fatores que muitos acreditavam superados pelas transformações tecnológicas das últimas décadas. Logística, produção industrial, capacidade de reposição de perdas, estoques de munição e resiliência econômica voltaram a desempenhar um papel decisivo. A guerra demonstrou que o futuro não pertence exclusivamente às forças mais tecnologicamente avançadas, mas àquelas capazes de combinar inovação, capacidade industrial e adaptação contínua. Em outras palavras, a tecnologia transformou profundamente a guerra, mas não eliminou seus fundamentos históricos.

Foi justamente nesse cenário de transformação acelerada que surgiu a chamada Guerra dos 12 Dias. Diferentemente do que muitos analistas sugerem, o conflito entre Israel e Irã não inaugurou uma revolução militar. Essa revolução já estava em curso havia anos. O que tornou esse confronto particularmente relevante foi o fato de reunir simultaneamente praticamente todas as tendências observadas nos conflitos anteriores. Pela primeira vez, inteligência artificial, operações cibernéticas, sistemas antimísseis multicamadas, guerra eletrônica, drones de longo alcance, mísseis balísticos de precisão, sensores distribuídos e capacidades espaciais atuaram de forma integrada dentro de um mesmo ambiente operacional, revelando um nível de complexidade sem precedentes na história recente dos conflitos armados.

Mais importante, o conflito revelou algo que poucos planejadores militares estavam dispostos a admitir. Nenhuma das partes conseguiu impor uma condição de invulnerabilidade. Israel demonstrou uma impressionante capacidade de integração entre inteligência, poder aéreo, defesa antimísseis e guerra eletrônica, alcançando resultados operacionais notáveis contra alvos iranianos. O Irã, por sua vez, demonstrou que décadas de investimentos em mísseis balísticos, drones, instalações subterrâneas e dispersão de capacidades estratégicas foram capazes de gerar custos reais para um adversário tecnologicamente superior. Os Estados Unidos reafirmaram sua extraordinária capacidade de projeção de poder, mas também perceberam que mesmo a mais poderosa força militar da história opera em um ambiente onde ameaças relativamente acessíveis podem desafiar sistemas avaliados em bilhões de dólares.

Talvez resida aí a principal diferença entre o paradigma militar consolidado após 1991 e a realidade estratégica de 2026. Durante décadas acreditou-se que a superioridade tecnológica permitiria criar verdadeiros santuários estratégicos, protegendo bases, centros de comando, instalações industriais e infraestruturas críticas. Os conflitos recentes demonstram justamente o contrário. A proliferação de drones, mísseis de precisão, sistemas de guerra eletrônica, capacidades cibernéticas e sensores avançados está tornando cada vez mais difícil garantir proteção absoluta a qualquer ativo estratégico. O campo de batalha expandiu-se para muito além das linhas de frente tradicionais.

A própria noção de retaguarda começa a perder significado. Durante grande parte da história militar, a distância representava proteção. Bases localizadas centenas de quilômetros atrás da frente de combate eram consideradas relativamente seguras. Hoje, uma refinaria pode ser atingida por drones lançados a milhares de quilômetros de distância. Um centro de comando pode ser localizado por sensores espaciais e atacado em questão de minutos. Uma rede elétrica pode ser degradada por meios cibernéticos sem que um único soldado atravesse uma fronteira. A profundidade estratégica, um dos pilares do pensamento geopolítico clássico, está sendo progressivamente erodida por tecnologias que reduzem o valor da distância como fator de proteção.

Esse fenômeno também ajuda a explicar por que a Guerra dos 12 Dias produziu efeitos muito além dos países diretamente envolvidos. Mesmo após os anúncios de cessar-fogo, a situação no Oriente Médio permanece longe de uma normalização plena. O Estreito de Ormuz continua operando sob um ambiente de incerteza estratégica, e isso possui implicações globais. Aproximadamente um quinto do petróleo comercializado mundialmente atravessa essa estreita passagem marítima, além de volumes significativos de gás natural liquefeito, fertilizantes, amônia, ureia e diversos produtos petroquímicos essenciais para a economia global. Quando a estabilidade de Ormuz é colocada em dúvida, os efeitos são sentidos muito além do Golfo Pérsico.

O agricultor brasileiro que depende de fertilizantes importados, a indústria europeia dependente de energia, os mercados financeiros asiáticos e as cadeias globais de transporte marítimo tornam-se, de alguma forma, participantes indiretos do conflito. A guerra moderna já não afeta apenas os exércitos envolvidos. Ela afeta cadeias logísticas globais, sistemas financeiros, mercados energéticos e a estabilidade econômica internacional. O campo de batalha do século XXI não termina nas fronteiras nacionais; ele se estende por toda a arquitetura econômica que sustenta a globalização contemporânea.

Ao observar a trajetória que conecta a Desert Storm, Nagorno-Karabakh, Ucrânia e a Guerra dos 12 Dias, torna-se evidente que não estamos assistindo ao colapso do paradigma militar criado em 1991, mas à sua evolução. A superioridade aérea continua fundamental. A inteligência permanece decisiva. As armas de precisão seguem desempenhando papel central. Contudo, nenhuma dessas capacidades, isoladamente, é capaz de garantir a vitória ou assegurar a invulnerabilidade. A principal característica da guerra contemporânea não é a supremacia absoluta de uma tecnologia específica, mas a crescente interdependência entre capacidades militares, industriais, econômicas e tecnológicas.

Estamos ingressando em uma era marcada pela resiliência estratégica integrada. Em um ambiente onde a proteção absoluta se torna cada vez mais difícil, a vantagem competitiva tende a pertencer não necessariamente ao ator capaz de destruir mais alvos, mas àquele que consegue continuar operando mesmo após sofrer ataques significativos. Energia, comunicações, logística, indústria, infraestrutura digital e capacidade de adaptação tornam-se tão importantes quanto caças, navios ou blindados. A guerra moderna deixou de ser uma disputa entre exércitos para se tornar uma disputa entre sistemas nacionais complexos.

O agricultor brasileiro que depende de fertilizantes importados, a indústria europeia dependente de energia, os mercados financeiros asiáticos e as cadeias globais de transporte marítimo tornam-se, de alguma forma, participantes indiretos do conflito. A guerra moderna já não afeta apenas os exércitos envolvidos. Ela afeta cadeias logísticas globais, sistemas financeiros, mercados energéticos e a estabilidade econômica internacional. O campo de batalha do século XXI não termina nas fronteiras nacionais; ele se estende por toda a arquitetura econômica que sustenta a globalização contemporânea.

Outro aspecto frequentemente negligenciado nas análises sobre os conflitos recentes é a consolidação definitiva do conceito de "sistema de sistemas". Durante décadas, plataformas individuais dominaram o imaginário militar. Caças, navios, blindados e sistemas de defesa aérea eram frequentemente avaliados por suas características isoladas, como alcance, velocidade, poder de fogo ou proteção. Contudo, os conflitos das últimas décadas demonstraram que o verdadeiro diferencial não está mais na plataforma individual, mas na capacidade de integrar sensores, armamentos, comunicações, inteligência, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle em uma arquitetura única e dinâmica. O poder de combate moderno deixou de ser resultado da simples soma de capacidades individuais para tornar-se produto da integração entre múltiplos sistemas operando simultaneamente em todos os domínios do conflito. O sucesso operacional passa cada vez mais pela velocidade com que informações são coletadas, processadas, distribuídas e convertidas em decisões e ações. Nesse novo ambiente, a plataforma mais avançada do mundo pode tornar-se limitada se estiver desconectada da rede, enquanto sistemas aparentemente mais simples, quando integrados de forma eficiente, podem produzir efeitos estratégicos desproporcionais. A Guerra dos 12 Dias evidenciou precisamente essa realidade, mostrando que o fator decisivo não foi apenas a qualidade dos armamentos empregados, mas a capacidade de integrar sensores espaciais, inteligência artificial, sistemas de guerra eletrônica, defesa antimísseis, plataformas tripuladas e não tripuladas em um ecossistema operacional único.

Essa transformação possui implicações particularmente importantes para o Brasil. Historicamente, o país concentrou grande parte de seus esforços na aquisição e operação de plataformas individuais de elevado desempenho, muitas vezes sem a mesma ênfase na integração plena entre os diversos sistemas das Forças Armadas. Programas estratégicos como o F-39E Gripen, as Fragatas Classe Tamandaré, o SISFRON, o KC-390 Millennium, os satélites nacionais e os modernos sistemas de comando e controle representam avanços expressivos e fundamentais para a defesa nacional. Entretanto, as lições observadas em Nagorno-Karabakh, na Ucrânia e mais recentemente no Oriente Médio indicam que o verdadeiro salto de capacidade não será proporcionado apenas pela incorporação de novas plataformas, mas pela construção de uma arquitetura integrada capaz de conectar sensores, decisores e vetores de emprego em tempo real. A guerra do século XXI é cada vez menos uma disputa entre equipamentos isolados e cada vez mais um confronto entre redes, ecossistemas operacionais e sistemas de sistemas. Para o Brasil, isso significa que conceitos como interoperabilidade, consciência situacional compartilhada, integração multidomínio, guerra centrada em redes e resiliência cibernética precisam deixar de ser apenas objetivos doutrinários para tornarem-se capacidades efetivamente consolidadas. Em um cenário internacional marcado por crescente instabilidade e rápidas transformações tecnológicas, a capacidade de integrar mar, terra, ar, espaço e ciberespaço em uma única arquitetura operacional poderá ser tão importante quanto a aquisição de qualquer novo sistema de armas.

Ao observar a trajetória que conecta a Desert Storm, Nagorno-Karabakh, Ucrânia e a Guerra dos 12 Dias, torna-se evidente que não estamos assistindo ao colapso do paradigma militar criado em 1991, mas à sua evolução. A superioridade aérea continua fundamental. A inteligência permanece decisiva. As armas de precisão seguem desempenhando papel central. Contudo, nenhuma dessas capacidades, isoladamente, é capaz de garantir a vitória ou assegurar a invulnerabilidade. A principal característica da guerra contemporânea não é a supremacia absoluta de uma tecnologia específica, mas a crescente interdependência entre capacidades militares, industriais, econômicas e tecnológicas.

Estamos ingressando em uma era marcada pela resiliência estratégica integrada. Em um ambiente onde a proteção absoluta se torna cada vez mais difícil, a vantagem competitiva tende a pertencer não necessariamente ao ator capaz de destruir mais alvos, mas àquele que consegue continuar operando mesmo após sofrer ataques significativos. Energia, comunicações, logística, indústria, infraestrutura digital e capacidade de adaptação tornam-se tão importantes quanto caças, navios ou blindados. A guerra moderna deixou de ser uma disputa entre exércitos para se tornar uma disputa entre sistemas nacionais complexos.

Se a Guerra do Golfo ensinou ao mundo como a superioridade tecnológica poderia revolucionar a arte da guerra, os conflitos das últimas décadas estão ensinando uma lição igualmente importante. Nenhuma tecnologia é capaz de eliminar completamente a incerteza, a vulnerabilidade ou a necessidade de adaptação. Talvez essa seja a principal mensagem deixada pela Guerra dos 12 Dias. No século XXI, a vitória não pertencerá necessariamente à nação que atacar melhor, mas àquela capaz de resistir, adaptar-se e continuar funcionando quando todos os demais sistemas ao seu redor começarem a falhar. Essa é a verdadeira transformação estratégica em curso e, muito provavelmente, o principal desafio que moldará o pensamento militar, a geopolítica e os investimentos em defesa nas próximas décadas.

Se a Guerra do Golfo ensinou ao mundo como a superioridade tecnológica poderia revolucionar a arte da guerra, os conflitos das últimas décadas estão ensinando uma lição igualmente importante. Nenhuma tecnologia é capaz de eliminar completamente a incerteza, a vulnerabilidade ou a necessidade de adaptação. Talvez essa seja a principal mensagem deixada pela Guerra dos 12 Dias. No século XXI, a vitória não pertencerá necessariamente à nação que atacar melhor, mas àquela capaz de resistir, adaptar-se e continuar funcionando quando todos os demais sistemas ao seu redor começarem a falhar. Essa é a verdadeira transformação estratégica em curso e, muito provavelmente, o principal desafio que moldará o pensamento militar, a geopolítica e os investimentos em defesa nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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O “Sistema de Sistemas”: Uma Visão para a Defesa Multidomínio da Amazônia Azul

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A defesa da Amazônia Azul é um dos maiores desafios estratégicos do Brasil no século XXI. Mais do que uma vasta área marítima sob jurisdição nacional, ela representa um patrimônio econômico, energético e geopolítico vital para o país. Segundo dados da Marinha do Brasil, cerca de 95% do comércio exterior brasileiro é transportado por via marítima, enquanto a maior parte da produção nacional de petróleo e gás natural provém de campos offshore localizados na plataforma continental.

A Amazônia Azul compreende aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados quando consideradas a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira e as áreas de extensão da Plataforma Continental reconhecidas ou pleiteadas pelo Brasil junto às Nações Unidas. Trata-se de uma área comparável à própria Amazônia continental e que concentra recursos estratégicos essenciais para a segurança e o desenvolvimento nacional.

Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul vem se tornando um ambiente cada vez mais complexo. A expansão da pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (IUU Fishing), o emprego de rotas marítimas por organizações criminosas transnacionais, a crescente presença de frotas extrarregionais e a evolução tecnológica dos meios militares impõem novos desafios à vigilância e à proteção desse imenso espaço marítimo.

Nesse cenário, surge uma reflexão cada vez mais presente nos debates estratégicos internacionais: a era das plataformas isoladas está cedendo espaço para a era dos sistemas integrados. Em vez de concentrar poder em um único navio, aeronave ou submarino, as forças armadas mais avançadas do mundo buscam construir verdadeiros “Sistemas de Sistemas”, nos quais sensores, plataformas, centros de comando e armamentos operam de forma integrada e compartilhada.

Essa transformação já pode ser observada em iniciativas nacionais como o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), os avanços do programa Link-BR2, o desenvolvimento de sistemas nacionais de comando e controle e os investimentos em capacidades espaciais. Embora ainda existam importantes desafios tecnológicos e orçamentários, esses projetos apontam para uma futura arquitetura multidomínio genuinamente brasileira.

A Teia de Sensores e a Nova Consciência Situacional

Em uma arquitetura moderna de defesa marítima, a consciência situacional passa a ser construída por uma rede distribuída de sensores. Satélites equipados com radar de abertura sintética (SAR), aeronaves de patrulha marítima, radares costeiros, sistemas eletro-ópticos, submarinos e plataformas não tripuladas atuariam de forma complementar para monitorar permanentemente a Amazônia Azul.

Nesse contexto, tecnologias como os radares Over-The-Horizon (OTH) merecem atenção especial. Já empregadas por diversas potências militares, essas soluções permitem ampliar significativamente o alcance da vigilância marítima além da linha convencional do horizonte. Em um cenário futuro, sistemas dessa natureza poderiam integrar a arquitetura brasileira de monitoramento oceânico, complementando os sensores já existentes.

A geografia nacional também oferece vantagens raramente exploradas no debate estratégico. Cadeias montanhosas como a Serra do Mar, por exemplo, poderiam desempenhar um papel relevante na proteção de centros de comando, bases logísticas e infraestruturas críticas, aumentando a resiliência operacional em cenários de alta intensidade.

O Papel dos Meios Não Tripulados

A evolução dos conflitos recentes demonstrou que drones deixaram de ser ferramentas auxiliares para se tornarem elementos centrais da arquitetura militar contemporânea. Plataformas aéreas não tripuladas de longa permanência poderiam futuramente assumir missões permanentes de vigilância oceânica, complementando o trabalho realizado por meios tripulados.

Soluções internacionais como o Akinci e o Anka-S, desenvolvidos pela Türkiye, ou sistemas sul-coreanos de longa autonomia, ilustram o tipo de capacidade que poderá influenciar futuros programas brasileiros. Mais importante do que a origem da plataforma, porém, é a capacidade de integrá-la a redes nacionais de comando e controle.

Essa abordagem permitiria ampliar significativamente a persistência sobre áreas críticas da ZEE, reduzindo custos operacionais e aumentando a capacidade de resposta diante de ameaças emergentes.

O Equilíbrio entre Presença e Dissuasão

Uma das contribuições conceituais mais interessantes para o debate sobre a defesa da Amazônia Azul é a distinção entre capacidades voltadas ao policiamento cotidiano e aquelas destinadas à guerra de alta intensidade.

Em termos conceituais, poderíamos chamar essas capacidades de “dentes de leite” e “dentes de sabre”.

Os “dentes de leite” representariam os meios empregados diariamente em missões de fiscalização, patrulha e aplicação da lei no mar. Incluem sensores, drones, embarcações de patrulha, helicópteros, armamentos de precisão de menor porte e sistemas capazes de neutralizar ameaças assimétricas de forma proporcional.

Já os “dentes de sabre” corresponderiam às capacidades de combate de alta intensidade destinadas à dissuasão e à defesa contra ameaças estatais. Nesse contexto, destacam-se programas como os submarinos da Classe Riachuelo, as futuras Fragatas Classe Tamandaré, os caças F-39 Gripen e os mísseis antinavio MANSUP atualmente em desenvolvimento nacional.

A coexistência dessas duas camadas de capacidade é essencial para evitar o emprego de meios estratégicos em situações que exigem apenas resposta policial ou fiscalização marítima.

O Multiplicador Estratégico do KC-30

Outro elemento fundamental de uma futura arquitetura multidomínio é a capacidade de projeção de poder. Nesse aspecto, a incorporação do KC-30 pela Força Aérea Brasileira representa um dos mais importantes multiplicadores estratégicos da atualidade.

O reabastecimento em voo amplia significativamente o alcance operacional dos caças F-39 Gripen e permite que aeronaves de combate permaneçam por mais tempo sobre áreas de interesse estratégico no Atlântico Sul. Em um ambiente operacional centrado em redes, a capacidade de projetar meios a grandes distâncias torna-se tão importante quanto o próprio armamento transportado.

Da mesma forma, aeronaves como o C-105 Amazonas continuam desempenhando papel relevante em missões de busca e salvamento, vigilância marítima e apoio logístico, compondo a camada de sustentação operacional da força.

Dissuasão por Resiliência

Talvez a principal lição da guerra moderna seja que a sobrevivência não depende mais da invulnerabilidade de uma plataforma específica, mas da capacidade de toda a rede continuar operando mesmo sob ataque.

Essa lógica dá origem ao conceito de “Dissuasão por Resiliência”. Em vez de concentrar capacidades críticas em poucos ativos de alto valor, uma arquitetura distribuída permite que sensores, plataformas e centros de comando compartilhem informações continuamente, reduzindo vulnerabilidades e aumentando a capacidade de reação.

Nesse modelo, a Amazônia Azul deixa de ser protegida apenas por navios ou aeronaves individuais e passa a ser defendida por uma verdadeira teia de sensores, enlaces de dados, sistemas de armas e centros de decisão conectados entre si.

Conclusão

A defesa da Amazônia Azul exigirá muito mais do que a aquisição de novas plataformas. O verdadeiro desafio será construir uma arquitetura multidomínio capaz de integrar satélites, radares, navios, submarinos, aeronaves, drones e sistemas de comando e controle em uma única rede operacional.

Programas como o SisGAAz, o Link-BR2, o PROSUB, as Fragatas Classe Tamandaré, o Gripen e o MANSUP já representam importantes blocos dessa construção. O próximo passo será conectá-los em uma estrutura capaz de transformar informação em poder de combate.

Se essa visão for concretizada nas próximas décadas, a defesa da Amazônia Azul deixará de depender de plataformas isoladas e passará a repousar sobre algo muito mais poderoso: uma rede inteligente, resiliente e nacionalmente controlada, capaz de garantir a soberania brasileira sobre o Atlântico Sul em um ambiente estratégico cada vez mais complexo.


Renato Henrique Marçal de Oliveira é químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os 10 anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel)


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MBDA reforça parceria estratégica com o Brasil durante visita oficial de seu CEO Eric Béranger

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A importância crescente do Brasil no cenário internacional de Defesa e Segurança voltou a ser evidenciada nesta semana com a visita oficial de Eric Béranger, CEO da MBDA, um dos maiores grupos de defesa do mundo e líder global no desenvolvimento de sistemas de armas complexos. A agenda, realizada nos dias 1º e 2 de junho, reuniu autoridades militares brasileiras, representantes diplomáticos de países parceiros e executivos da companhia, consolidando uma relação construída ao longo de décadas de cooperação com as Forças Armadas brasileiras.

A delegação da MBDA contou ainda com a participação de Florent Duleux, Vice-Presidente Sênior de Vendas para Exportação; Ricardo Mantovani, Vice-Presidente de Vendas para as Américas; e Pierre Marquis, Diretor-Geral e representante da empresa no Brasil. Durante a visita, os executivos mantiveram reuniões estratégicas com o Comandante da Marinha do Brasil, Almirante Marcos Sampaio Olsen; com o Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo; e com o Subchefe do Estado-Maior do Exército, General Eduardo Tavares Martins.

A agenda também contemplou encontros com importantes representantes diplomáticos, entre eles o Embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese; o Embaixador da França, Emmanuel Lenain; e o Vice-Embaixador do Reino Unido, Tony Kay. Os encontros reforçaram o caráter internacional das parcerias estratégicas ligadas aos programas de defesa que unem o Brasil às principais nações europeias do setor.

A presença da MBDA no Brasil está diretamente associada a alguns dos mais relevantes programas estratégicos das Forças Armadas. A empresa fornece sistemas de armas empregados nos caças F-39E Gripen da Força Aérea Brasileira, nas Fragatas Classe Tamandaré da Marinha do Brasil, nos submarinos da Classe Riachuelo (Scorpène BR) e nos helicópteros H225M utilizados pelas três Forças. Essa participação consolidou a companhia como um dos principais parceiros tecnológicos do país no segmento de sistemas de mísseis.

Durante a visita, Eric Béranger destacou que o Brasil ocupa hoje uma posição central na estratégia da MBDA para a América Latina. Segundo o executivo, a seleção do sistema EMADS pelo Exército Brasileiro para o programa de Defesa Antiaérea de Média Distância representa mais um passo importante na ampliação da cooperação entre a empresa e o país. A solução já é empregada por países como Itália, Reino Unido e Polônia e poderá representar um salto significativo nas capacidades de defesa aérea brasileiras.

Outro tema abordado foi o sucesso da Operação BVR-X, que marcou o lançamento do míssil ar-ar METEOR pela Força Aérea Brasileira a partir do caça F-39E Gripen. Considerado um dos mais avançados mísseis de combate além do alcance visual atualmente em operação no mundo, o METEOR demonstrou durante os testes o elevado grau de integração entre a plataforma sueca e os sistemas desenvolvidos pela MBDA, reforçando a capacidade operacional da aviação de caça brasileira.

Além dos programas militares em andamento, a MBDA reiterou seu compromisso com o fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira. A empresa destacou iniciativas voltadas à ampliação da cooperação tecnológica, à transferência de conhecimento e à integração de empresas nacionais em sua cadeia global de fornecimento. Entre essas ações está a realização do primeiro Supplier's Day da MBDA no Brasil, promovido recentemente no Rio de Janeiro com apoio do Ministério da Defesa, da ABIMDE e da FINEP, reunindo empresas brasileiras e equipes globais de compras do grupo.

Os números recentes da companhia demonstram a dimensão de sua expansão global. Em 2025, a MBDA registrou receita de € 5,8 bilhões, recebeu € 13,2 bilhões em novos pedidos e alcançou uma carteira de encomendas de € 44,4 bilhões. Após dobrar sua produção de mísseis entre 2023 e 2025, a empresa projeta um crescimento adicional de 40% neste ano, apoiado por um plano de investimentos superior a € 5 bilhões para o período de 2026 a 2030.

A visita de Eric Béranger ao Brasil reforça não apenas a solidez da parceria histórica entre a MBDA e as Forças Armadas brasileiras, mas também evidencia o potencial do país como polo estratégico para o desenvolvimento de capacidades de defesa avançadas na América Latina. Em um cenário internacional cada vez mais desafiador, iniciativas voltadas à cooperação industrial, transferência de tecnologia e fortalecimento da Base Industrial de Defesa tornam-se elementos fundamentais para garantir autonomia, inovação e capacidade operacional às futuras gerações de sistemas estratégicos brasileiros.


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Corte bilionário na Defesa expõe ciclo de instabilidade e fragiliza previsibilidade estratégica no Brasil

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O decreto assinado pelo governo federal ampliando o bloqueio de gastos no Orçamento de 2026 para R$ 23,7 bilhões volta a colocar o Ministério da Defesa no centro do ajuste fiscal, com impacto direto de R$ 4,4 bilhões sobre Exército, Marinha e Força Aérea. Trata-se do maior corte individual entre os ministérios, repetindo um padrão já conhecido na administração pública brasileira: a Defesa como variável recorrente de compensação fiscal.

A justificativa oficial está novamente vinculada à necessidade de acomodação de despesas obrigatórias em expansão, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a Previdência Social. Ainda que o contexto fiscal seja real e pressionado, o efeito prático é a perpetuação de um modelo em que o planejamento estratégico de defesa colide diretamente com a rigidez do orçamento anual.

O problema central não está apenas no corte em si, mas na previsibilidade inexistente ou, no máximo, intermitente. Programas de defesa não operam sob lógica de curto prazo. São estruturas de Estado que exigem continuidade, estabilidade contratual e visão plurianual. Quando esse ciclo é interrompido por contingenciamentos sucessivos, o impacto transcende a contabilidade e atinge diretamente a capacidade industrial, tecnológica e operacional das Forças Armadas.

Esse cenário se torna ainda mais sensível quando observado à luz de compromissos já anunciados pelo próprio governo no sentido de recomposição gradual do orçamento da Defesa. Em iniciativas anteriores, foi sinalizada a intenção de reforço orçamentário na ordem de aproximadamente R$ 30 bilhões, distribuídos em parcelas anuais de cerca de R$ 5 bilhões, com o objetivo de mitigar o histórico de subfinanciamento e dar maior previsibilidade aos programas estratégicos das Forças Armadas.

Na prática, no entanto, o que se observa até o momento é que tal mecanismo permanece mais próximo do campo declaratório do que de uma política efetiva de execução contínua. Sem incorporação consistente à programação orçamentária e sem blindagem contra bloqueios recorrentes, a recomposição anunciada perde força antes mesmo de produzir efeitos estruturantes, reforçando um padrão histórico de descontinuidade.

É nesse ponto que a contradição se torna mais evidente. O Brasil sustenta simultaneamente uma carteira de programas estratégicos de alta complexidade, como o programa Gripen E/F, desenvolvido em parceria com a Saab, o Programa de Fragatas Classe Tamandaré, conduzido pela Marinha do Brasil, além de iniciativas como o programa de submarinos convencionais e de propulsão nuclear (PROSUB) e projetos de modernização do Exército, todos dependentes de fluxo orçamentário contínuo e previsível.

No caso do Gripen, por exemplo, trata-se de um programa estruturante de transferência de tecnologia e desenvolvimento industrial que envolve produção local, capacitação de engenharia nacional e integração à cadeia global de defesa. Já o Programa Tamandaré representa um dos principais esforços recentes de revitalização da capacidade naval de superfície do Brasil, com forte participação da indústria nacional, e teve assinado recentemente um MoU para o segun de o lote de mais quatro fragatas da classe. Ambos, no entanto, compartilham uma mesma vulnerabilidade: a dependência direta da regularidade orçamentária para manter cronogramas industriais e operacionais.

A recorrência de bloqueios e contingenciamentos cria, assim, um efeito cumulativo silencioso. Não se trata apenas de atrasos pontuais, mas da erosão gradual da previsibilidade necessária para sustentar programas que operam em ciclos de 10, 20 ou até 30 anos. No setor onde credibilidade contratual e continuidade são ativos estratégicos, a instabilidade fiscal passa a ter impacto equivalente ao de restrições tecnológicas.

O resultado é um paradoxo estrutural cada vez mais evidente: o Brasil assume compromissos industriais e tecnológicos de padrão internacional, mas mantém um modelo de financiamento que não acompanha essa ambição. O país participa de programas complexos, atrai parceiros estratégicos e busca ampliar sua Base Industrial de Defesa, mas convive com uma arquitetura orçamentária sujeita a interrupções frequentes e decisões de curto prazo.

Mais grave ainda é a percepção externa que esse cenário projeta. Em programas multinacionais e parcerias de longo prazo, como o próprio Gripen ou projetos navais estratégicos, previsibilidade não é um detalhe administrativo, é parte central da confiabilidade do parceiro estatal. A instabilidade orçamentária, quando recorrente, deixa de ser um problema interno e passa a ser um fator de risco percebido na cadeia internacional de defesa.

Na leitura do GBN Defense, o corte bilionário não deve ser analisado como um evento isolado, mas como mais um capítulo de uma estrutura que ainda não conseguiu consolidar a Defesa como política de Estado verdadeiramente protegida de ciclos fiscais anuais. Enquanto isso não ocorrer, o país continuará preso a uma dinâmica em que grandes projetos avançam não por estabilidade institucional, mas por resiliência operacional, uma condição que, embora funcional no curto prazo, cobra um preço elevado em eficiência, autonomia e previsibilidade estratégica no longo prazo.


Por Angelo Nicolaci


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Saab apresenta Gripen F e aprofunda presença industrial no Brasil com novo centro de pesquisa

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A Saab apresentou oficialmente o primeiro Gripen F destinado à Força Aérea Brasileira (FAB), em cerimônia realizada em Linköping, na Suécia, no dia 2 de junho. O evento contou com a presença do Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, e do chefe da área de negócios Aeronautics da Saab, Lars Tossman, marcando mais um avanço dentro do programa Gripen, considerado um dos mais amplos projetos de transferência de tecnologia da história da aviação militar brasileira.

O Gripen F é a versão biposto da família Gripen E e foi desenvolvido para combinar treinamento avançado e capacidade plena de combate em uma única plataforma. A aeronave mantém a mesma arquitetura de sensores, sistemas de missão e guerra centrada em rede do Gripen E, mas adiciona um segundo cockpit totalmente funcional, permitindo a divisão de tarefas entre piloto e instrutor ou entre tripulantes em missões de alta complexidade. Essa configuração reduz o tempo de formação operacional e aumenta a eficiência em cenários de combate onde a gestão simultânea de sensores, armas e consciência situacional é crítica.

O programa brasileiro Gripen foi formalizado em 2014, com a assinatura do contrato entre o governo brasileiro e a Saab para a aquisição de 36 aeronaves, sendo 28 Gripen E e 8 Gripen F. O valor estimado do contrato é de aproximadamente 39,3 bilhões de coroas suecas, equivalente a cerca de 4,5 bilhões de dólares à época da assinatura, envolvendo não apenas a entrega das aeronaves, mas também um amplo pacote de transferência de tecnologia e participação industrial brasileira.

O Brasil ocupa posição central no desenvolvimento do Gripen F, atuando como cliente lançador da versão biposto e participando diretamente do processo de codesenvolvimento. Centenas de engenheiros e técnicos brasileiros foram capacitados ao longo do programa, com atuação em áreas como integração de sistemas, desenvolvimento de software embarcado e engenharia aeronáutica. Parte da produção do Gripen também ocorre no Brasil, no complexo industrial de Gavião Peixoto (SP), onde a linha de montagem nacional foi inaugurada em 2023, consolidando o país como parte integrante da cadeia global de produção da aeronave.

Segundo a Saab, o desenvolvimento conjunto do Gripen F reforça a maturidade da parceria com o Brasil, que deixou de ser apenas um cliente para se tornar participante ativo no desenvolvimento de uma aeronave de combate de última geração. O contrato também prevê suporte logístico, manutenção e evolução contínua da frota ao longo de décadas.

Além da apresentação do novo caça, o evento também trouxe uma sinalização estratégica de longo prazo para a cooperação bilateral. O CEO da Saab, Micael Johansson, afirmou que a empresa estuda, em conjunto com o governo brasileiro, a criação de um centro de pesquisa e inovação em São José dos Campos (SP), próximo ao ecossistema do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA).

A iniciativa ainda está em fase de estudos e deverá ser estruturada por meio de um memorando de entendimento entre as partes. O objetivo é aprofundar o desenvolvimento de tecnologias associadas ao Gripen e fortalecer capacidades brasileiras em áreas como integração de sistemas, suporte ao ciclo de vida da aeronave e desenvolvimento de soluções avançadas de combate aéreo.

Nesse contexto, chama atenção o contraste entre o discurso recorrente de “transparência”, “parceria de longo prazo” e “fortalecimento do ecossistema de defesa” e a prática bastante seletiva na hora de definir quem, de fato, tem acesso aos marcos mais relevantes do programa. A apresentação do primeiro Gripen F ao Brasil, um evento de alta relevância estratégica e simbólica, contou com cobertura restrita e critérios de convite que não necessariamente refletem a relevância técnica ou a trajetória de acompanhamento da imprensa especializada ao programa.

Mais do que uma simples decisão logística de comunicação, esse tipo de escolha revela uma leitura ainda bastante míope sobre a relevância do trabalho de algumas das principais mídias especializadas, onde a retórica de parceria ampla convive, na prática, com filtros bastante estreitos sobre quem pode ou não participar da construção narrativa de um programa que, em tese, é multinacional, estruturante e de interesse público para a base industrial de defesa brasileira e América Latina. Em outras palavras, a sofisticação do Gripen avança em ritmo muito mais acelerado do que a sofisticação da sua política de relacionamento institucional com a imprensa.

O episódio, embora pontual, acaba funcionando como um indicador sutil de como ainda existem desalinhamentos entre o discurso estratégico e a prática comunicacional dentro de programas de defesa de alta complexidade. E, nesse tipo de ambiente, a percepção de abertura é tão estratégica quanto a própria tecnologia embarcada nas aeronaves.

A proposta surge dentro de um contexto de expansão industrial do programa Gripen, que já posiciona o Brasil como o primeiro país fora da Suécia a produzir um caça supersônico desenvolvido pela Saab. O modelo de produção compartilhada envolve unidades industriais no Brasil e na Suécia, com expectativa de atender tanto a demanda da FAB quanto potenciais clientes de exportação.

A apresentação do Gripen F, portanto, não representa apenas a introdução de uma nova variante operacional, mas a consolidação de um programa estratégico que já ultrapassa a simples aquisição de aeronaves. O projeto se estrutura como um vetor de desenvolvimento tecnológico e industrial, com impactos diretos na formação de mão de obra especializada, no fortalecimento da base industrial de defesa e na inserção do Brasil em um seleto grupo de países com capacidade de participar do desenvolvimento de caças de quinta geração e derivados avançados.

Na leitura do GBN Defense, o avanço do Gripen F e a discussão sobre um centro de pesquisa no Brasil indicam um movimento mais profundo do que a evolução natural de um contrato de defesa. Trata-se da consolidação de um ecossistema aeroespacial binacional, no qual o Brasil deixa de ocupar uma posição periférica na cadeia global de desenvolvimento e passa a integrar o núcleo de criação de conhecimento e tecnologia aplicada em aviação de combate. Ao mesmo tempo, esse modelo reforça uma tendência internacional de programas de defesa baseados não apenas na compra de plataformas, mas na construção compartilhada de capacidades industriais e tecnológicas de longo prazo, um ativo estratégico que tende a influenciar diretamente a autonomia operacional e a projeção de poder aéreo nas próximas décadas.


Por Angelo Nicolaci


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Embraer esclarece voo do KC-390 sul-coreano e evidencia a importância do jornalismo especializado responsável

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A nota divulgada pela Embraer nesta semana esclarecendo o recente voo realizado por um KC-390 Millennium destinado à Força Aérea da República da Coreia (ROKAF) acabou confirmando aquilo que o GBN Defense já havia apontado desde o início: a aeronave não havia sido entregue à Coreia do Sul e permanecia vinculada ao processo de customização e certificação previsto em contrato.

No último dia 22 de maio, parte da mídia especializada repercutiu informações indicando que a aeronave teria sido oficialmente entregue ao cliente sul-coreano após sua passagem por Portugal. A interpretação acabou gerando uma série de publicações que davam como concluído um processo que, na realidade, ainda se encontrava em andamento.

Na ocasião, o GBN Defense optou por não seguir a onda de especulações e manteve sua linha editorial baseada na verificação criteriosa dos fatos e na análise das informações disponíveis. Nossa avaliação era de que o deslocamento da aeronave para Portugal estava relacionado a atividades técnicas e operacionais específicas, não representando necessariamente sua entrega formal à ROKAF.

A posição agora foi corroborada pela própria Embraer. Em comunicado oficial, a fabricante brasileira esclareceu que o voo para Portugal teve como finalidade a realização de testes necessários ao atendimento de requisitos contratuais que não poderiam ser executados em território brasileiro. Segundo a empresa, a atividade integra o processo normal de modificação e personalização da aeronave, sendo seguida pelo retorno do KC-390 ao Brasil para continuidade dos trabalhos antes da entrega definitiva ao cliente.

A nota também reafirma que a aeronave será entregue em data futura, conforme os compromissos assumidos junto à Defense Acquisition Program Administration (DAPA) e à Força Aérea da República da Coreia.

O episódio serve como um importante lembrete sobre os desafios da cobertura jornalística no setor de defesa. Trata-se de uma área onde cronogramas industriais, fases de certificação, campanhas de ensaio e requisitos operacionais frequentemente são confundidos com marcos contratuais e entregas oficiais. Em um ambiente cada vez mais competitivo e acelerado pela busca de audiência imediata, a tentação de publicar primeiro nem sempre caminha ao lado da obrigação de publicar corretamente.

No GBN Defense, seguimos acreditando que credibilidade é construída pela precisão da informação e pelo compromisso com a apuração responsável. Nem sempre seremos os primeiros a divulgar uma notícia, mas nosso objetivo permanente é garantir que ela seja publicada com contexto, responsabilidade e rigor técnico.

A confirmação trazida pela Embraer reforça a importância desse compromisso e demonstra que, em defesa, a análise cuidadosa dos fatos continua sendo a melhor ferramenta para separar informação de especulação.


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Saab apresenta primeiro Gripen F e marca nova etapa da parceria estratégica com o Brasil

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A Saab apresentou oficialmente nesta terça-feira (2) o primeiro caça Gripen F destinado à Força Aérea Brasileira (FAB), um marco que vai além da simples entrega de uma nova aeronave. O evento, realizado nas instalações da fabricante sueca em Linköping, simboliza mais de uma década de cooperação estratégica entre Brasil e Suécia e evidencia os resultados concretos de um dos mais abrangentes programas de transferência de tecnologia já implementados na história da indústria de defesa nacional.

A cerimônia contou com a presença do Comandante da Força Aérea Brasileira, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, e de Lars Tossman, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab. O momento marca a apresentação da versão biposto do Gripen, desenvolvida em estreita colaboração com o Brasil para atender às necessidades de treinamento avançado, conversão operacional e emprego em missões de combate.

Diferentemente de aeronaves de treinamento dedicadas, o Gripen F foi concebido para operar como uma plataforma de combate plenamente funcional. A inclusão de um segundo cockpit independente permite que instrutores e pilotos atuem simultaneamente em cenários operacionais reais, reduzindo significativamente o tempo necessário para a formação de novos pilotos de caça e aumentando a eficiência durante missões complexas.

O desenvolvimento do Gripen F representa um dos mais visíveis resultados do papel desempenhado pelo Brasil como cliente lançador da variante de dois assentos. Desde a assinatura do contrato em 2014, a participação brasileira ultrapassou a condição tradicional de comprador, envolvendo diretamente engenheiros, técnicos e empresas nacionais em diversas etapas do projeto.

Esse modelo de cooperação permitiu a capacitação de centenas de profissionais brasileiros em áreas críticas de engenharia aeronáutica, integração de sistemas e desenvolvimento de software embarcado, fortalecendo competências estratégicas que permanecerão disponíveis para a Base Industrial de Defesa brasileira por décadas.

Segundo Lars Tossman, a apresentação do Gripen F é resultado direto da confiança construída entre a Saab, a indústria nacional e a Força Aérea Brasileira ao longo dos últimos anos.

“A apresentação do Gripen F representa uma conquista compartilhada entre a Saab, a indústria brasileira e a FAB, refletindo a profunda confiança que construímos juntos ao longo de muitos anos. O desenvolvimento dessa aeronave em conjunto demonstra a maturidade dessa colaboração”, afirmou.

A nova aeronave mantém todas as características que colocam o Gripen entre os caças mais avançados de sua categoria. O modelo incorpora sensores de última geração, elevada consciência situacional, arquitetura digital aberta e capacidade de rápida integração de novos sistemas, características consideradas fundamentais em um cenário operacional cada vez mais dinâmico e conectado.

A configuração de dois lugares, entretanto, amplia ainda mais as possibilidades de emprego. Além de acelerar o processo de formação de pilotos, o Gripen F permite uma divisão mais eficiente das tarefas em missões de alta complexidade, onde um tripulante pode concentrar-se na condução da aeronave enquanto o outro atua no gerenciamento tático da missão, sensores e sistemas de armas.

Essa capacidade torna a aeronave especialmente relevante para operações modernas, marcadas pelo intenso fluxo de informações e pela crescente necessidade de integração entre diferentes plataformas aéreas, terrestres, navais e espaciais.

Antes de sua entrega definitiva à Força Aérea Brasileira, o primeiro Gripen F passará por uma extensa campanha de ensaios conduzida pelo Centro de Testes em Voo da Saab, na Suécia. O objetivo é validar todos os sistemas da aeronave e certificar seu desempenho operacional antes da incorporação à frota brasileira.

O Programa Gripen segue avançando conforme o cronograma estabelecido. O contrato firmado entre Brasil e Saab prevê a produção de 36 aeronaves, sendo 28 exemplares da versão Gripen E e oito da versão Gripen F. Desde o início das entregas, em 2020, onze aeronaves já foram incorporadas pela FAB, consolidando gradualmente a transição para uma nova geração de capacidades de combate aéreo.

O interesse internacional pela versão biposto também reforça o sucesso do projeto. Além do Brasil, a Saab já recebeu encomendas do Gripen F por parte da Tailândia e da Colômbia, ampliando a presença global da aeronave e fortalecendo sua posição no competitivo mercado internacional de defesa.

Para o Brasil, entretanto, o significado do Gripen F transcende a aquisição de uma plataforma militar moderna. O programa tornou-se um importante vetor de desenvolvimento tecnológico, industrial e científico, contribuindo para a formação de mão de obra altamente especializada e para a ampliação das capacidades nacionais em setores considerados estratégicos.

Mais do que um novo caça, a apresentação do primeiro Gripen F evidencia o amadurecimento de uma parceria que transformou o Brasil de simples operador em participante ativo do desenvolvimento de uma das mais avançadas aeronaves de combate atualmente em produção no mundo.


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terça-feira, 2 de junho de 2026

PCC, Comando Vermelho e o Narcoterrorismo: Quando o Crime Organizado Desafia os Fundamentos da República

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- Uma análise constitucional, estratégica e institucional sobre as ameaças híbridas que desafiam a soberania nacional no século XXI

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou um intenso debate no Brasil. Como era esperado, a discussão rapidamente se concentrou em uma questão aparentemente simples: PCC e Comando Vermelho podem ou não ser considerados organizações terroristas?

Entretanto, talvez essa seja a pergunta errada.

A verdadeira questão não está na terminologia utilizada por Washington nem na interpretação isolada de dispositivos legais atualmente vigentes. O ponto central é muito mais profundo e relevante para o futuro do país.

O Brasil continua analisando um fenômeno do século XXI utilizando conceitos jurídicos e institucionais concebidos para enfrentar ameaças do século XX?

Essa pergunta pode parecer meramente acadêmica, mas possui implicações diretas para a segurança nacional, para a estabilidade institucional e para a própria capacidade do Estado brasileiro de exercer plenamente sua soberania.

Durante séculos, os Estados preocuparam-se principalmente com ameaças externas. Exércitos cruzavam fronteiras, ocupavam territórios e buscavam impor sua vontade pela força. A defesa nacional era concebida, essencialmente, para enfrentar outros Estados.

Foi nesse contexto histórico que se desenvolveram grande parte das teorias clássicas sobre soberania, segurança e defesa.

Entretanto, os conflitos do século XXI transformaram profundamente esse cenário.

Hoje, os Estados enfrentam desafios muito mais complexos.

Além das ameaças convencionais, surgiram atores não estatais capazes de acumular poder econômico, influência política, presença territorial e capacidade coercitiva suficientes para desafiar a autoridade estatal sem necessariamente buscar a tomada formal do poder.

É justamente nesse contexto que deve ser analisado o fenômeno representado por organizações como PCC e Comando Vermelho.

A Constituição Federal de 1988 estabelece, logo em seu artigo 1º, que a soberania constitui um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

Frequentemente associamos soberania à proteção das fronteiras nacionais ou à independência perante outros países. Contudo, do ponto de vista constitucional e político, soberania significa algo muito mais amplo.

Significa a capacidade efetiva do Estado de exercer autoridade sobre todo o seu território.

Significa a capacidade de fazer cumprir suas leis.

Significa garantir que nenhuma outra estrutura de poder dispute suas atribuições essenciais.

Em outras palavras, soberania não é apenas uma questão geográfica. É uma questão de autoridade, e é justamente por isso que a análise sobre o crime organizado não pode ficar restrita à esfera policial.

Quando grupos criminosos acumulam recursos financeiros bilionários, estabelecem redes nacionais e internacionais, exercem controle territorial e desenvolvem mecanismos próprios de coerção e governança, o debate deixa de ser exclusivamente criminal.

Passa a ser institucional.

Passa a ser constitucional.

Passa a ser estratégico.

O sociólogo alemão Max Weber, uma das principais referências da teoria moderna do Estado, afirmava que a característica fundamental de um Estado é o monopólio legítimo da força.

Em termos simples, apenas o Estado possui legitimidade para criar leis, aplicar sanções, administrar conflitos e utilizar mecanismos coercitivos para garantir a ordem jurídica.

Toda a estrutura constitucional brasileira repousa sobre essa premissa.

Quando observamos determinadas áreas dominadas por organizações criminosas, torna-se inevitável questionar até que ponto esse monopólio permanece plenamente preservado.

Em diversas regiões do país, facções criminosas exercem influência significativa sobre a vida cotidiana da população: impõem regras, aplicam punições, determinam comportamentos, controlam atividades econômicas, influenciam a circulação de pessoas e resolvem conflitos locais por meio de mecanismos próprios. Não se trata de afirmar que essas organizações substituíram o Estado brasileiro, mas também não é possível ignorar que em determinadas localidades, elas passaram a exercer funções que deveriam pertencer exclusivamente às instituições republicanas. É justamente nesse ponto que surge o conceito de Estado paralelo.

Embora essa expressão não possua definição constitucional formal, ela descreve uma realidade que desafia diretamente a lógica do Estado Democrático de Direito.

Quando uma organização armada passa a exercer autoridade prática sobre uma população e sobre determinado território, cria-se uma situação de concorrência ao poder estatal.

Sob essa perspectiva, a discussão ultrapassa os limites da segurança pública e passa a envolver diretamente a soberania nacional. A própria Constituição oferece elementos relevantes para essa reflexão:

O artigo 144 estabelece que a segurança pública é dever do Estado.

O artigo 1º consagra a soberania como fundamento da República.

E o artigo 5º, inciso XLIV, determina que constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático de Direito.

Quando o constituinte elaborou esse dispositivo, tinha em mente ameaças clássicas à estabilidade institucional, como golpes de Estado, insurreições e movimentos armados de natureza política.

Mas a evolução das ameaças contemporâneas levanta uma questão que merece ser debatida.

O que ocorre quando grupos armados não buscam ocupar o Palácio do Planalto nem derrubar formalmente o governo, mas exercem controle territorial, desafiam sistematicamente a presença estatal e impõem estruturas paralelas de autoridade?

A Constituição não responde explicitamente a essa pergunta. E talvez seja justamente aí que resida uma das principais lacunas do debate atual.

O fenômeno torna-se ainda mais complexo quando analisamos sua dimensão econômica. O narcotráfico não deve ser compreendido apenas como uma atividade destinada ao lucro. Na prática, ele funciona como o principal mecanismo de financiamento dessas estruturas.

Os recursos provenientes dessa atividade financiam logística, recrutamento, corrupção, expansão territorial e mecanismos de controle social.

O dinheiro não é apenas um objetivo, é um instrumento de poder, é ele que permite a aquisição de influência, que sustenta estruturas paralelas e que financia a preservação do controle territorial.

Sob essa lógica, o território deixa de ser apenas um local de operação criminosa e passa a ser um ativo estratégico. O território protege atividades ilícitas, facilita o recrutamento, amplia a arrecadação, reduz a capacidade de intervenção estatal e fortalece a organização.

A experiência internacional demonstra que esse modelo não é novo.

Em diferentes partes do mundo, atividades ilícitas serviram como mecanismo de financiamento para organizações armadas capazes de desafiar governos e consolidar áreas sob sua influência. Embora os contextos sejam distintos, a lógica estratégica permanece semelhante.

No caso brasileiro, outro elemento amplia significativamente a complexidade da ameaça: a lavagem de dinheiro.

Nenhuma organização criminosa consegue sustentar operações dessa magnitude durante décadas sem inserir parte de seus recursos na economia formal. A lavagem de dinheiro transforma riqueza ilícita em influência econômica legítima. Transforma patrimônio clandestino em ativos aparentemente legais. Transforma recursos ilícitos em capacidade de investimento. Transforma capital criminoso em influência econômica.

E influência econômica frequentemente se converte em capacidade de corrupção e infiltração institucional. Forma-se, assim, um ciclo extremamente perigoso, o narcotráfico gera recursos.

A lavagem de dinheiro converte esses recursos em patrimônio. O patrimônio amplia a influência econômica, a influência econômica facilita a corrupção, a corrupção favorece a infiltração institucional e a infiltração institucional fortalece a capacidade de sobrevivência da organização. O resultado é uma ameaça que transcende a segurança pública e alcança diretamente a estabilidade institucional do país.

Outro aspecto frequentemente ignorado é a crescente sofisticação operacional observada em determinadas organizações criminosas.

Os confrontos registrados no Complexo da Penha durante 2025 chamaram a atenção de especialistas em segurança pública, defesa e inteligência justamente por evidenciarem um elevado grau de organização, coordenação e capacidade operacional.

As imagens amplamente divulgadas mostraram integrantes de organizações criminosas utilizando vestimentas camufladas, equipamentos táticos e estruturas organizadas de vigilância territorial.

Posteriormente, ganhou repercussão a informação de que uniformes camuflados e acessórios teriam sido removidos dos corpos de integrantes mortos antes da chegada das equipes responsáveis pela perícia, descaracterizando elementos que evidenciavam o grau de militarização observado naquele cenário.

Independentemente das interpretações específicas sobre aquele episódio, ele contribuiu para ampliar um debate que o país precisa enfrentar.

Até que ponto organizações criminosas que exercem controle territorial, possuem elevada capacidade de coordenação e desafiam diretamente a presença estatal podem continuar sendo analisadas exclusivamente sob a ótica da criminalidade convencional?

Essa reflexão torna-se ainda mais relevante quando observamos a evolução dos conflitos modernos.

Nas últimas décadas, especialistas em defesa passaram a utilizar o conceito de ameaças híbridas para descrever fenômenos que não se enquadram perfeitamente nas categorias tradicionais de guerra, insurgência, terrorismo ou criminalidade organizada.

São ameaças que combinam elementos de diferentes naturezas: Poder econômico, violência organizada, influência social em atuação transnacional, capacidade de corrupção, controle territorial, intimidação da população e infiltração institucional.

É justamente essa combinação que torna o fenômeno particularmente difícil de enfrentar utilizando instrumentos concebidos para ameaças tradicionais.

Sob essa perspectiva, a classificação norte-americana deve ser compreendida não apenas como uma decisão jurídica, mas como uma interpretação estratégica da natureza da ameaça.

Os Estados Unidos não observam apenas o tráfico de drogas. Observam a combinação entre narcotráfico, poder econômico, controle territorial, capacidade de intimidação, atuação transnacional e influência regional.

A dimensão internacional desempenha papel importante nesse contexto. Quando uma organização movimenta recursos além das fronteiras nacionais, estabelece redes logísticas internacionais, opera mecanismos transnacionais de lavagem de dinheiro e influencia a segurança de outros países, ela deixa de representar apenas um problema doméstico.

A transnacionalidade não é o fundamento principal da ameaça, ela é o elemento que internacionaliza o problema, é a cereja do bolo.

O núcleo da questão permanece sendo a capacidade dessas organizações de desafiar atributos fundamentais do Estado.

Talvez a principal contribuição desse debate não seja afirmar que PCC e Comando Vermelho já se enquadram, de forma inequívoca, nas definições jurídicas atualmente existentes de terrorismo.

A contribuição mais importante está em evidenciar uma possível distância entre a evolução das ameaças contemporâneas e os instrumentos constitucionais disponíveis ao Estado brasileiro.

A Constituição de 1988 foi concebida para enfrentar os desafios de sua época, enquanto o Brasil de 2026 enfrenta desafios diferentes.

Organizações criminosas armadas, financeiramente robustas, territorialmente influentes, institucionalmente infiltradas e internacionalmente conectadas representam um fenômeno cuja dimensão dificilmente poderia ser prevista pelo constituinte originário.

Diante dessa realidade, torna-se legítimo discutir não apenas reformas legislativas, mas também eventuais aperfeiçoamentos constitucionais capazes de reconhecer explicitamente organizações criminosas armadas que desafiam a soberania nacional, exercem controle territorial, estabelecem estruturas paralelas de autoridade e disputam atributos fundamentais do Estado brasileiro.

Não se trata de relativizar garantias constitucionais. Não se trata de flexibilizar direitos fundamentais. Trata-se de assegurar que a República disponha de instrumentos compatíveis com as ameaças híbridas que caracterizam o século XXI.

Porque quando grupos armados passam a disputar com o Estado o controle do território, a autoridade sobre a população e a capacidade de impor regras próprias, a discussão deixa de ser apenas sobre crime organizado.

Ela passa a ser, inevitavelmente, uma discussão sobre soberania nacional, sobre a preservação do Estado Democrático de Direito e sobre a capacidade da República de exercer plenamente a autoridade que a Constituição lhe atribuiu como fundamento de sua própria existência.


Por Angelo Nicolaci


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