sábado, 17 de janeiro de 2026

A escolha brasileira pelo EMADS e a busca por uma capacidade de defesa aérea moderna

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A decisão do Brasil de incorporar o sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions) à sua arquitetura de defesa aérea deve ser entendida como um movimento de consolidação estratégica, no qual critérios operacionais, industriais, políticos e doutrinários convergem. Trata-se de uma escolha que dialoga com a realidade do campo de batalha contemporâneo e ao mesmo tempo, com a necessidade de construir capacidades de defesa sustentáveis ao longo do tempo.

O Exército Brasileiro protege um território de dimensões continentais, com infraestrutura crítica distribuída, grandes vazios demográficos e múltiplos ambientes operacionais. Nesse cenário, a defesa aérea não pode ser pensada como um sistema fixo ou excessivamente especializado. Ela precisa acompanhar a manobra terrestre, proteger ativos estratégicos e manter capacidade de resposta diante de ameaças variadas e assimétricas. O EMADS foi concebido exatamente para esse tipo de desafio.

O ambiente de ameaças que moldou o desenvolvimento do EMADS é aquele observado nos conflitos mais recentes. O espaço aéreo de baixas e médias altitudes passou a ser permanentemente contestado por drones de diferentes classes, munições vagantes, mísseis de cruzeiro de perfil baixo e aeronaves operando fora dos envelopes tradicionais de detecção. A defesa aérea moderna não enfrenta alvos isolados, mas ataques coordenados, saturados e persistentes. Nesse contexto, resiliência, integração e velocidade decisória tornaram-se fatores críticos.

Do ponto de vista técnico, o EMADS é um sistema de defesa aérea de médio alcance baseado em uma arquitetura modular e distribuída. Ele integra sensores, centros de comando e controle e efetores de forma escalável, permitindo diferentes configurações conforme a missão. Essa modularidade não é apenas estrutural, mas funcional. O sistema pode ser empregado tanto na defesa de pontos sensíveis quanto na proteção de forças em movimento, mantendo coerência operacional em ambos os cenários.

No centro da solução está um sistema de comando e controle projetado para operar em ambiente de alta complexidade. A fusão de dados provenientes de múltiplos sensores permite a construção de uma imagem aérea integrada, atualizada em tempo quase real. Essa capacidade é essencial em cenários nos quais a distinção entre ameaça prioritária e alvo secundário define o sucesso da defesa. A redução do ciclo entre detecção, decisão e engajamento é um dos principais atributos do EMADS.

Os efetores associados ao sistema, em especial os mísseis da família CAMM, refletem essa lógica de emprego moderno. Com guiagem ativa por radar e capacidade de engajamento de múltiplos alvos simultaneamente, esses mísseis foram concebidos para operar em ambientes saturados, com elevada probabilidade de contramedidas e interferências. O lançamento vertical, associado à cobertura de 360 graus, elimina restrições de orientação e amplia a flexibilidade tática do sistema.

Outro aspecto relevante é a mobilidade. Os componentes do EMADS podem ser integrados a plataformas móveis, permitindo rápida implantação, reposicionamento e dispersão. Essa característica reduz a vulnerabilidade do sistema a ataques de precisão e amplia sua capacidade de sobrevivência em cenários de alta intensidade. Para um país com as dimensões do Brasil, essa mobilidade é um multiplicador de valor operacional.

Nesse contexto, o papel da MBDA no projeto é central. A empresa atua como integradora de uma solução concebida para operar em rede, com elevada interoperabilidade e capacidade de evolução. A experiência acumulada pela MBDA no desenvolvimento de sistemas de defesa aérea modernos se traduz em uma arquitetura pensada para enfrentar ameaças reais, e não cenários teóricos. O EMADS reflete décadas de aprendizado operacional incorporadas ao projeto.

A presença da MBDA Brasil adiciona uma dimensão estratégica fundamental. A subsidiária funciona como elo entre o sistema e o ecossistema industrial nacional, criando condições para cooperação técnica, capacitação de pessoal e transferência de tecnologia. Em um setor no qual a dependência externa pode comprometer a disponibilidade e a liberdade de emprego, a existência dessa ponte institucional é um ativo estratégico de longo prazo.

A transferência de tecnologia associada ao EMADS deve ser entendida como um processo, não como um evento. Ela envolve absorção de conhecimento, domínio de processos de manutenção, integração de sistemas e capacidade de evolução futura. Para o Brasil, isso é particularmente relevante. A defesa aérea não pode ser tratada como uma aquisição pontual, mas como uma capacidade que precisa ser mantida, atualizada e adaptada ao longo de décadas.

Outro pilar técnico do sistema é o radar Kronos, da Leonardo, responsável pela construção da consciência situacional aérea. Baseado em tecnologia AESA, o Kronos oferece capacidade de detecção, rastreamento e classificação simultânea de múltiplos alvos, incluindo aqueles de baixa assinatura radar. Sua arquitetura permite rápida varredura do espaço aéreo e elevada resistência a contramedidas eletrônicas, características essenciais em ambientes saturados.

O radar não atua isoladamente, mas como parte integrante do sistema de comando e controle. Ele alimenta o processo decisório em tempo real, permitindo priorização dinâmica de ameaças e alocação eficiente dos efetores disponíveis. Essa integração sensor-sistema é um dos elementos que diferenciam uma defesa aérea moderna de soluções baseadas apenas em alcance ou potência.

A escolha de um sistema tecnicamente maduro, já validado e em constante evolução, reduz riscos operacionais e facilita a construção de uma capacidade sustentável. No entanto, essa sustentabilidade depende diretamente de investimento continuado e previsibilidade orçamentária. Defesa aérea é uma capacidade que exige atualização permanente, treinamento constante e manutenção rigorosa. Sem planejamento de longo prazo, mesmo os sistemas mais avançados tendem à obsolescência.

Ao optar pelo EMADS, com participação ativa da MBDA e presença institucional da MBDA Brasil, o Brasil sinaliza uma compreensão mais ampla do conceito de soberania no século XXI. Não se trata apenas de possuir meios, mas de garantir a capacidade de decidir, empregar, manter e evoluir esses meios de acordo com seus próprios interesses estratégicos.

Essa escolha não resolve todos os desafios da defesa aérea brasileira, mas estabelece uma base coerente sobre a qual essa capacidade pode ser construída. Trata-se de uma decisão que combina realismo operacional, prudência política, integração industrial e visão de Estado. Em um ambiente internacional cada vez mais instável, investir de forma planejada, contínua e previsível deixou de ser uma opção. Tornou-se uma necessidade estratégica.


por Angelo Nicolaci


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Navio-hospital chinês no Rio expõe fragilidades na gestão de visitas navais estrangeiras e reacende alerta estratégico

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A recente passagem do navio-hospital chinês Ark Silk Road pelo porto do Rio de Janeiro trouxe à tona um debate sensível e necessário sobre segurança, soberania e transparência na autorização de meios navais estrangeiros em áreas estratégicas do Brasil. Oficialmente enquadrada como uma missão humanitária, a visita revelou lacunas informacionais, normativas e institucionais que acenderam alertas em círculos diplomáticos, militares e de inteligência.

O Ark Silk Road, pertencente à Marinha do Exército Popular de Libertação da China, permaneceu no Rio entre os dias 8 e 15 de janeiro. Apesar do caráter humanitário atribuído à missão, não houve qualquer atividade médica ou atendimento à população brasileira, o que, na prática, esvazia o principal argumento utilizado para justificar a presença da embarcação e reforça questionamentos sobre seus reais objetivos estratégicos.

Sob a ótica técnica e de inteligência naval, o navio apresenta características que extrapolam as de um hospital flutuante convencional. Sua estrutura externa abriga um conjunto significativo de antenas, sensores eletroeletrônicos e sistemas de radar, capazes de operar tanto em modo passivo quanto ativo. Esses sistemas permitem a coleta de dados sobre infraestrutura portuária, hidrografia costeira, padrões de tráfego marítimo, rotas de acesso, profundidades, além do mapeamento do ambiente eletromagnético local, informações de alto valor estratégico para planejamento naval e operações futuras.

A autorização para a atracação foi solicitada por via diplomática meses antes da visita, porém sem detalhamento claro dos objetivos operacionais da missão nem referência explícita à operação internacional à qual o navio estaria vinculado. Essa ausência de transparência inicial colocou a visita em uma zona cinzenta, limitando a capacidade das autoridades brasileiras de avaliar, de forma plena, os riscos associados à permanência de um meio naval militar estrangeiro em um dos portos mais relevantes do país.

Do ponto de vista doutrinário, é amplamente reconhecido que navios classificados como hospitalares, científicos ou de pesquisa frequentemente cumprem funções secundárias de reconhecimento e levantamento ambiental. Trata-se de uma prática recorrente entre potências navais que operam com o conceito de presença persistente e coleta de dados em tempo de paz, reduzindo incertezas e ampliando conhecimento sobre áreas estratégicas sem recorrer a meios ostensivamente militares.

O episódio ganha ainda maior relevância quando inserido no atual cenário geopolítico regional. A América Latina passou a ocupar posição crescente na disputa silenciosa entre grandes potências, seja pelo controle de rotas marítimas, pelo acesso a portos estratégicos, pela proximidade com o Atlântico Sul ou pela capacidade de influência política e econômica. A presença naval chinesa na região tem se intensificado de forma gradual e meticulosamente calibrada, utilizando missões diplomáticas, científicas e humanitárias como instrumentos de projeção de poder e construção de familiaridade operacional.

No Atlântico Sul, em particular, o interesse estratégico é evidente. A região concentra rotas críticas de comércio, áreas de exploração de recursos naturais, cabos submarinos de comunicação e zonas marítimas pouco monitoradas. Para uma potência extrarregional, o levantamento detalhado dessas áreas representa uma vantagem significativa em cenários de competição estratégica ou de crise internacional.

Outro ponto sensível diz respeito à inexistência de acordos bilaterais específicos entre Brasil e China que regulamentem, de forma clara, visitas navais com potencial de uso dual, ou seja, simultaneamente humanitário e militar. Essa lacuna normativa reduz a capacidade do Estado brasileiro de impor condicionantes técnicas mais rigorosas, limitar o uso de sensores, exigir desligamento de determinados sistemas ou estabelecer protocolos de verificação e acompanhamento mais intrusivos durante a permanência dessas embarcações.

Autoridades locais e operadores portuários classificaram a visita como estritamente diplomática, voltada ao estreitamento de laços entre os dois países. Ainda assim, a ausência de atividades humanitárias concretas e a natureza dos sistemas embarcados reforçam a percepção de que o valor estratégico da passagem do Ark Silk Road superou, em muito, seu valor simbólico oficialmente divulgado.

Para analistas de defesa e inteligência, o caso evidencia a necessidade urgente de o Brasil revisar seus procedimentos de autorização, monitoramento e fiscalização de navios estrangeiros, especialmente aqueles pertencentes a forças armadas de países com elevada capacidade tecnológica e estratégia clara de ampliação de presença global. Isso inclui maior integração entre Itamaraty, Ministério da Defesa, Marinha do Brasil e órgãos de inteligência, além do estabelecimento de critérios mais rigorosos para visitas em portos sensíveis.

A passagem do Ark Silk Road pelo Rio de Janeiro não deve ser tratada como um evento isolado ou meramente protocolar. Ela representa um sinal de alerta sobre a forma como o Brasil administra sua soberania marítima em um ambiente internacional cada vez mais marcado pela competição informacional, pela coleta sistemática de dados em tempo de paz e pela utilização de instrumentos aparentemente benignos como vetores de projeção estratégica. Em um cenário assim, a defesa do entorno marítimo nacional exige não apenas meios navais, mas visão estratégica, inteligência ativa e decisões alinhadas aos interesses permanentes do Estado brasileiro.


por Angelo Nicolaci


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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

DEFESA NACIONAL EM RISCO - QUANDO O IDEOLÓGICO SUPERA O ESTRATÉGICO

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A distinção entre Política de Estado e Política de Governo é central para compreender como decisões públicas são formuladas, mantidas ou alteradas ao longo do tempo. Trata-se de duas categorias analíticas distintas, porém frequentemente tensionadas, sobretudo em áreas sensíveis como a defesa nacional. 

A Política de Estado refere-se a diretrizes estruturais, estratégicas e de longo prazo, construídas a partir de consensos amplos entre forças políticas, econômicas e sociais. São políticas que transcendem ciclos eleitorais, governos e orientações partidárias, mantendo continuidade mesmo diante da alternância no poder. Clássicos exemplos incluem a preservação da soberania territorial, a integridade nacional e, de forma inequívoca, a defesa do Estado. 

Já a Política de Governo está intrinsecamente associada ao mandato de uma administração específica. Reflete prioridades conjunturais, valores ideológicos e visões de mundo do grupo político no poder, sendo naturalmente mais suscetível a revisões, rupturas e reorientações conforme o contexto político e econômico. 

No campo da defesa, o consenso predominante, tanto no debate acadêmico quanto na prática estratégica de democracias consolidadas, é que ela deve constituir, prioritariamente, uma Política de Estado. 

A razão é evidente: A defesa diz respeito à sobrevivência nacional, à soberania e à capacidade de dissuasão. Oscilações abruptas, descontinuidades ou rupturas estratégicas produzem vulnerabilidades reais, especialmente em um ambiente geopolítico cada vez mais instável, marcado pela competição entre grandes potências, pelas tensões no Atlântico Sul e pelas disputas em torno da Amazônia Azul. 

NA PRÁTICA, O FATOR IDEOLÓGICO PESA, E MUITO Apesar desse ideal normativo, a realidade mostra que a defesa não está imune à influência ideológica. A visão predominante do governo de turno tende a moldar decisões-chave, entre elas: 

✓ A definição do que constitui uma ameaça: Ênfase em ameaças externas clássicas vs. Foco em ameaças internas, terrorismo ou crime organizado transnacional; 

✓ A alocação de recursos escassos: Priorização da modernização e do treinamento das Forças Armadas, do investimento em capacidades cibernéticas e espaciais vs. A aquisição de meios voltados principalmente para operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO); 

✓ As parcerias estratégicas internacionais: Alinhamentos automáticos com potências ocidentais, busca por maior autonomia estratégica e multipolaridade vs. Maior aproximação com países do Sul Global (BRICS, África e América Latina); 

✓ A relação com a Base Industrial de Defesa (BID): Estímulo à autonomia tecnológica, à produção nacional e à transferência de tecnologia vs. Preferência por aquisições “off-the-shelf”, que privilegiam rapidez e custo imediato em detrimento da independência industrial; 

✓ O papel das Forças Armadas em missões não convencionais: Maior ou menor envolvimento em segurança interna, combate ao crime organizado, controle de fronteiras e apoio a órgãos civis. 


CAPACIDADE EXISTE, MAS O INVESTIMENTO NÃO ACOMPANHA 

O Brasil dispõe de uma Base Industrial de Defesa tecnicamente capacitada, com empresas aptas a desenvolver sistemas de C4I, sensores, guerra eletrônica, sistemas não tripulados, software crítico e integração de sistemas complexos. Ainda assim, o investimento das Forças Armadas nessas capacidades permanece aquém do necessário. Essa lacuna não decorre de um único fator, mas de um conjunto estrutural, político, orçamentário e cultural, que se manifesta de forma recorrente, são eles: 

1. RESTRIÇÃO ORÇAMENTÁRIA CRÔNICA E RIGIDEZ ESTRUTURAL

O orçamento da Defesa é fortemente comprometido com despesas obrigatórias, pessoal ativo, inativos e pensões, que em muitos exercícios, absorvem mais de 75% dos recursos disponíveis. O espaço para investimento em P&D, aquisição de sistemas avançados e modernização tecnológica torna-se residual. 

Como consequência, projetos estruturantes e de longo prazo, essenciais para a guerra do século XXI, são constantemente adiados, fragmentados ou descontinuados, minando previsibilidade financeira e não priorizando a inovação; 

2. AUSÊNCIA DE UMA POLÍTICA CONTÍNUA DE CAPACITAÇÃO MILITAR

O Brasil sofre com a descontinuidade estratégica. Programas iniciados sob uma administração frequentemente são interrompidos, redimensionados ou politizados pela seguinte. Embora documentos como a Estratégia Nacional de Defesa reconheçam a importância da autonomia tecnológica, falta uma execução consistente, com contratos plurianuais protegidos dos ciclos políticos; 

3. CULTURA DE AQUISIÇÃO CENTRADA NO “PRODUTO PRONTO”

A preferência por soluções prontas reduz riscos de curto prazo, mas desestimula o desenvolvimento nacional, sobretudo em áreas como software militar, inteligência artificial, integração de sistemas e guerra eletrônica, domínios que evoluem rapidamente e não se adaptam bem a modelos tradicionais de compra; 

4. BAIXA TOLERÂNCIA INSTITUCIONAL AO RISCO TECNOLÓGICO

O desenvolvimento de sistemas avançados envolve riscos técnicos, prazos mais longos e falhas intermediárias. No Brasil, a combinação entre orçamento limitado, cultura administrativa avessa ao risco e atuação rigorosa de órgãos de controle cria um ambiente no qual: 

✓ Optar por não desenvolver localmente é percebido como mais seguro; 

✓ Projetos disruptivos e complexos são evitados; 

✓ Soluções prontas produzidas fora do país, parecem menos arriscadas do ponto de vista administrativo. 

5. FRAGILIDADE DO MODELO DE “TRÍPLICE HÉLICE” 

A integração entre Forças Armadas, indústria e academia ainda é muito limitada. Embora existam alguns casos de sucesso, as iniciativas são pontuais, dependentes de indivíduos e não de estruturas permanentes. Em países líderes em inovação militar, esse ecossistema funciona de forma contínua e coordenada, algo que ainda não se consolidou no nosso país; 

6. PREDOMINÂNCIA DE UMA VISÃO CENTRADA EM MEIOS TRADICIONAIS 

Apesar da evolução doutrinária, o investimento brasileiro ainda privilegia “meios” em detrimento de “sistemas”.  No cenário contemporâneo, capacidades como ciberdefesa, guerra eletrônica, sistemas antidrone e operações multidomínio são centrais e não complementares, porém não são priorizadas; 

7. AMBIGUIDADE POLÍTICA QUANTO À AUTONOMIA ESTRATÉGICA 

Discursos recorrentes sobre soberania e autonomia contrastam com decisões que favorecem fornecedores sem presença industrial relevante no país, em detrimento de empresas nacionais já inseridas na BID. Isso fragiliza o domínio do ciclo de vida dos sistemas, o suporte logístico e a capacidade de adaptação rápida a novos cenários de ameaça, evidenciando que a BID ainda não é plenamente utilizada como instrumento de soberania. 

ATÉ QUE PONTO A IDEOLOGIA INTERFERE? 

O grau de interferência ideológica varia conforme o contexto: 

✓ Democracias com consenso estratégico consolidado → interferência de baixa a moderada (EUA e França mantêm linhas mestras mesmo com alternância política); 

✓ Países com alta polarização e instituições de defesa em consolidação → interferência de moderada a alta, como no caso brasileiro. 

ESSA INTERFERÊNCIA TENDE A SER MAIOR QUANDO: 

✓ Não há tradição de revisões periódicas e institucionais dos documentos estratégicos; 

✓ O orçamento de defesa é tratado como gasto ordinário, e não como investimento de Estado; 

✓ O meio político e a sociedade civil têm pouca ou nenhuma participação no debate sobre defesa. 

Idealmente, a defesa nacional deveria ser o campo de menor interferência ideológica possível, o núcleo duro da Política de Estado. Na prática, contudo, a ideologia sempre estará presente, pois são governos, e não abstrações, que definem prioridades, alocam recursos e interpretam o ambiente estratégico. 

O desafio não é eliminar essa interferência, mas conter seus efeitos nocivos, por meio da construção de consensos mínimos multipartidários em torno de objetivos centrais, tais como a autonomia tecnológica, a dissuasão crível, a previsibilidade orçamentária e a institucionalização de revisões periódicas e transparentes da Política Nacional de Defesa (PND) e da Estratégia Nacional de Defesa (END). 

Quando a ideologia se sobrepõe excessivamente à razão de Estado na área de defesa, o país incorre em fragilidade estratégica. No limite, a defesa não existe para proteger governos, ela existe para proteger o Estado e a nação.  Quanto mais “de Estado” e menos “de governo” ela for, maior será a segurança coletiva. 

Em um ambiente geopolítico cada vez mais instável, investir pouco em tecnologia de defesa não é economia: 

É vulnerabilidade estratégica! 


por Mauro Beirão - Formado em engenharia e mais de 30 anos de experiência na indústria de defesa e aeroespacial 


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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Indra Group e EDGE avançam na criação de nova empresa de defesa na Espanha focada em loitering munition

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A Indra Group e o EDGE Group deram um passo estratégico relevante para o fortalecimento da base industrial de defesa europeia ao firmarem um acordo para a criação de uma nova empresa de fabricação de defesa na Espanha. A iniciativa terá como foco o desenvolvimento, a produção e o suporte ao ciclo de vida de sistemas de loitering munition, além de armas inteligentes destinadas a programas de defesa espanhóis e europeus, com potencial de expansão para outras capacidades conforme a evolução das necessidades operacionais.

O anúncio foi feito em 13 de janeiro de 2026, em Abu Dhabi e Madri, e marca a ampliação da presença industrial do EDGE na Europa, ao mesmo tempo em que reforça a ambição da Indra de se consolidar como uma referência continental no segmento de sistemas não tripulados e munições inteligentes. A nova empresa contará com um pipeline de pedidos plurianual estimado em aproximadamente € 2 bilhões, evidenciando a crescente demanda europeia por esse tipo de capacidade.

A assinatura do acordo foi acompanhada por autoridades de alto nível, incluindo a Secretária de Estado da Defesa da Espanha, Amparo Valcárcel, o embaixador dos Emirados Árabes Unidos na Espanha, Saleh Ahmad Salem Al Suwaidi, e o Diretor Geral de Programas Industriais do Ministério da Indústria da Espanha, Alberto Ruiz Rodríguez. Também estiveram presentes o presidente do EDGE Group, Faisal Al Bannai, e o presidente executivo do Indra Group, Ángel Escribano. O documento foi formalmente assinado por Hamad Al Marar, diretor executivo e CEO do EDGE Group, e por José Vicente de Los Mozos, CEO do Indra Group.

Sujeita às aprovações finais dos conselhos das duas empresas, a nova companhia será estabelecida na Espanha como uma entidade dedicada à fabricação. A estrutura industrial se apoiará na experiência do EDGE no desenvolvimento de sistemas de loitering munition e armas inteligentes, enquanto a Indra aportará sua capacidade consolidada de fabricação, integração de sistemas e execução de programas em escala europeia.

A produção dos sistemas está prevista para a província de León, onde a Indra desenvolverá uma nova instalação industrial voltada à fabricação de drones e sistemas de loitering munition. O investimento estimado para a implantação da unidade varia entre € 15 e € 20 milhões. A opção pela produção local atende diretamente aos requisitos de soberania industrial europeia e busca garantir disponibilidade em larga escala para responder à rápida expansão do mercado de defesa no continente.

A iniciativa reflete uma tendência clara no cenário estratégico europeu, marcada pelo fortalecimento de capacidades industriais próprias, redução de dependências externas e aceleração de programas relacionados a sistemas não tripulados e munições inteligentes, hoje considerados elementos centrais das operações militares modernas.

Segundo Hamad Al Marar, CEO do EDGE Group, a joint venture representa um marco na estratégia de expansão do grupo na Europa. Para o executivo, o desenvolvimento de capacidades industriais de loitering munition em território espanhol permitirá responder com rapidez e escala às necessidades de defesa europeias, ao mesmo tempo em que constrói uma base industrial sustentável de longo prazo com um parceiro de confiança.

Já José Vicente de Los Mozos destacou que o acordo reforça a ambição da Indra de se tornar uma referência europeia na indústria de drones. De acordo com ele, o investimento em capacidades industriais nesse segmento permitirá à empresa responder de forma ágil às demandas de um mercado em forte crescimento e de elevado valor estratégico.

Para além do impacto industrial imediato, a parceria entre Indra e EDGE sinaliza um movimento mais amplo de integração entre empresas europeias e grupos internacionais de defesa, combinando tecnologia avançada, capacidade produtiva local e alinhamento com as prioridades estratégicas de soberania e prontidão operacional da Europa.


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Amazonas inicia treinamento dos Operadores do HARPIA”

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Teve início em 5 de janeiro, na sede da ADTECH em São José dos Campos (SP), o treinamento dos operadores dos sistemas HARPIA destinados ao Estado do Amazonas, dando sequência à integração dos SARPs às operações estratégicas do estado. O programa apoia diretamente a segurança pública, a defesa civil e o monitoramento ambiental, fortalecendo a atuação das autoridades locais. O Amazonas é o segundo estado do país a adotar o HARPIA em suas capacidades de vigilância.

Desenvolvido pela brasileira Advanced Technologies Security & Defense (ADTECH-SD), o HARPIA é um Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP) multimissão, projetado para missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR). O sistema se destaca pela autonomia estendida e alcance operacional de mais de 218 km, sensores de alta performance e operação simplificada, características essenciais em cenários de crise que exigem vigilância contínua, rapidez na tomada de decisão e coordenação eficiente entre diferentes órgãos.

Recentemente, o estado do Acre empregou o HARPIA em missões de monitoramento de áreas alagadas após fortes chuvas, demonstrando a versatilidade do sistema em situações adversas e sua capacidade de prover consciência situacional em tempo real. Durante a operação, o VANT forneceu imagens aéreas do Rio Acre, do Igarapé São Francisco e de outros pontos sensíveis, permitindo uma visão ampla e precisa da situação, essencial para ações de segurança e defesa civil.

Entre os principais diferenciais do HARPIA estão:

  • Autonomia de voo de até 12 horas, garantindo longos períodos de vigilância sem necessidade de pousos frequentes;

  • Baixo custo operacional, significativamente inferior ao de aeronaves tripuladas ou drones de decolagem vertical;

  • Simplicidade logística, possibilitando iniciar a operação em poucos minutos, com equipe reduzida e sem infraestrutura complexa;

  • Captação e transmissão de imagens em tempo real, integradas aos centros de comando e controle, ampliando o alcance da inteligência e a coordenação das ações em campo.

O treinamento, com duração de dois meses, inclui aulas teóricas sobre operação e regulamentação do sistema, além de horas práticas de voo, montagem e manutenção das aeronaves, operação de sensores embarcados e manuseio dos softwares que integram o HARPIA. Ao final do programa, os operadores estarão plenamente capacitados para atuar no monitoramento do território amazonense, garantindo eficiência, rapidez e segurança nas operações.

A capacitação representa um passo importante para o fortalecimento da atuação tecnológica do estado do Amazonas, preparando agentes públicos altamente qualificados e consolidando o papel da ADTECH como parceira na implementação de soluções de ponta em defesa, segurança e proteção ambiental.

 

Sobre a ADTECH


A Advanced Technologies Security & Defense (ADTECH-SD) é uma empresa brasileira reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), especializada em soluções tecnológicas de alta performance voltadas à segurança pública, defesa territorial e monitoramento estratégico. Com foco em inovação, confiabilidade e conformidade regulatória, a ADTECH consolida-se como uma referência nacional no desenvolvimento e na operação de aeronaves não tripuladas de última geração.



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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Avispas Negras em Caracas: A Queda da Elite Cubana diante das Forças Especiais dos EUA

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"Avispas Negras" (Vespas Negras) é o nome pelo qual ficaram conhecidos, fora de Cuba, os elementos mais qualificados do aparato de forças especiais e segurança estratégica do Estado cubano. Não se trata, oficialmente, de uma unidade com designação formal pública, brasão próprio ou ordem de batalha aberta, como ocorre com forças especiais ocidentais. O termo funciona mais como uma identificação operacional e simbólica, associada a militares e agentes selecionados das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e do Ministério do Interior, empregados em missões sensíveis, internas e externas, onde o regime considera que a falha não é aceitável.

A origem dessas forças remonta aos primeiros anos do regime revolucionário, quando Cuba passou a estruturar não apenas forças armadas convencionais, mas também um sistema robusto de segurança do Estado, voltado à preservação do poder político. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, com apoio doutrinário soviético e experiência adquirida em missões externas, especialmente na África, Cuba desenvolveu quadros especializados em infiltração, proteção de lideranças, contrainteligência e combate de curta distância. Desse caldo histórico surgem os homens que, mais tarde, seriam identificados como Avispas Negras.

O treinamento desses operadores ocorre dentro de um sistema fechado, fragmentado e altamente compartimentado. Diferentemente de forças especiais ocidentais, onde centros de instrução são relativamente conhecidos, o treinamento cubano privilegia o anonimato, a descentralização e a diluição das capacidades em estruturas maiores. O processo começa com a seleção de militares e agentes jovens, oriundos tanto das FAR quanto do MININT, com histórico de disciplina rígida, confiabilidade política absoluta e resistência psicológica elevada. A lealdade ideológica não é um critério secundário; ela é central.

Após a triagem inicial, os selecionados passam por ciclos de formação que incluem preparo físico intenso, técnicas de combate aproximado, tiro instintivo, progressão em ambientes confinados, segurança de autoridades, vigilância e contra-vigilância, além de forte ênfase em controle emocional sob estresse. Há também treinamento em ambientes urbanos densos, interrogatório, proteção de instalações sensíveis e reação imediata a tentativas de captura ou eliminação de figuras-chave do regime.

Relatos de dissidentes e analistas indicam que parte desses operadores recebe instrução complementar em doutrina estrangeira, principalmente russa, com foco em operações de segurança do Estado, proteção de alvos estratégicos e repressão a ameaças internas. Não se trata de uma força orientada para guerra expedicionária moderna nos moldes ocidentais, mas sim para controle, dissuasão e sobrevivência do núcleo de poder.

No plano internacional, Cuba empregou esse tipo de força de forma recorrente, ainda que discreta. Durante a Guerra Fria, operadores cubanos estiveram presentes em países africanos aliados, como Angola e Etiópia, atuando não apenas como instrutores, mas também em funções de proteção de lideranças e instalações críticas. Na América Latina, a presença sempre foi mais sensível e, por isso, mais negada. Ainda assim, há indícios consistentes de atuação em países alinhados politicamente, com destaque para a Venezuela a partir dos anos 2000.

Na Venezuela, a presença cubana evoluiu de assessoria política e de inteligência para algo mais profundo. Ao longo dos anos, militares e agentes cubanos passaram a integrar o sistema de segurança do Estado venezuelano, influenciando estruturas de inteligência, controle social e proteção do alto comando. Dentro desse arranjo, elementos associados aos Avispas Negras passaram a compor o anel mais interno de segurança de Nicolás Maduro. Sua função era clara: garantir a sobrevivência física do líder e impedir qualquer ação de captura ou eliminação.

Esse tipo de missão molda a mentalidade do operador. A doutrina é defensiva, reativa e centrada no terreno conhecido. O operador é treinado para reconhecer padrões de ameaça interna, antecipar movimentos previsíveis e reagir com violência controlada e imediata. O problema surge quando esse modelo entra em choque com uma força que opera fora desses padrões.

A operação norte-americana em Caracas expôs exatamente esse ponto de ruptura. As forças dos Estados Unidos não enfrentaram os Avispas Negras como uma tropa convencional nem como uma milícia desorganizada. Enfrentaram como um núcleo de segurança rígido, previsível em sua função e limitado em sua capacidade de adaptação frente a um adversário com domínio total do ambiente operacional.

A superioridade norte-americana não se manifestou apenas no momento do contato armado. Ela se construiu antes, no domínio da inteligência, na coleta persistente de informações, na modelagem do alvo, no mapeamento de rotinas, na identificação de padrões humanos e técnicos. Quando o contato ocorreu, os defensores já haviam perdido o principal ativo em operações especiais: a consciência situacional.

Os 32 cubanos mortos durante a operação estavam cumprindo exatamente o papel para o qual foram treinados. Permaneceram em posição, tentaram reagir localmente e resistiram até o limite de suas capacidades. O que não possuíam era margem de manobra. Sem comunicações eficazes, sem coordenação superior e sem capacidade de reforço, foram neutralizados de forma rápida e assimétrica.

Não houve falha individual relevante. Houve falha estrutural. A doutrina de proteção, baseada em presença física, controle de acesso e reação imediata, mostrou-se insuficiente diante de uma operação de captura de alto valor conduzida por uma força com integração plena entre inteligência, aviação, cibernética e operadores de ação direta.

A extração de Maduro em poucos minutos, sem baixas norte-americanas confirmadas, consolidou essa assimetria. A missão não exigia ocupação, nem combate prolongado, nem demonstração de força. Exigia velocidade, precisão e controle absoluto do tempo. Nesse tipo de cenário, a defesa perde antes mesmo de perceber que o ataque começou.

O episódio de Caracas não apaga décadas de atuação dos Avispas Negras nem invalida sua eficácia dentro do contexto para o qual foram concebidos. Ele, no entanto, deixa uma lição clara para qualquer força de segurança estatal: treinamento rígido, coragem e lealdade não compensam defasagens doutrinárias, isolamento tecnológico e ausência de integração sistêmica.

Quando se amplia a análise e se compara o desempenho e a concepção dos Avispas Negras com outras forças especiais consolidadas no cenário internacional, o episódio de Caracas ganha contornos ainda mais claros. A diferença fundamental não está apenas no nível individual do combatente, mas no ecossistema operacional no qual cada força está inserida.

Spetsnaz

As forças especiais russas, genericamente conhecidas como Spetsnaz, oferecem um bom ponto de comparação. Assim como os cubanos, os Spetsnaz nasceram de uma lógica estatal rígida, voltada à preservação do regime e à execução de missões sensíveis sob forte controle político. No entanto, ao longo das últimas décadas, especialmente após os conflitos na Chechênia, na Síria e na Ucrânia, essas unidades passaram por um processo contínuo de adaptação. Embora ainda carreguem traços de centralização e rigidez, os Spetsnaz modernos operam com maior integração entre inteligência, guerra eletrônica, drones, fogos de apoio e forças convencionais. A doutrina russa, ainda que distinta da ocidental, reconhece a necessidade de operar em ambientes complexos e contestados, com múltiplas camadas de apoio. Isso dá aos Spetsnaz uma flexibilidade que os Avispas Negras, pela própria natureza do sistema cubano, não desenvolveram plenamente.

No extremo oposto do espectro estão as forças especiais dos Estados Unidos. A Delta Force, oficialmente conhecida como 1st Special Forces Operational Detachment-Delta, representa um modelo no qual o operador é apenas uma parte de um sistema muito mais amplo. A seleção é brutal, o treinamento é contínuo e adaptativo, mas o verdadeiro diferencial está na integração total com inteligência estratégica, vigilância persistente, meios aéreos dedicados, capacidades cibernéticas e apoio logístico global. A Delta não atua isolada; ela opera como ponta de lança de um aparato que inclui satélites, plataformas aéreas tripuladas e não tripuladas, equipes de análise em tempo real e cadeias de comando extremamente curtas. Nesse modelo, o combate direto é apenas a fase final de um processo que começa muito antes do primeiro disparo.

Delta Force

O mesmo se aplica ao DEVGRU, a unidade de operações especiais navais dos Estados Unidos. Embora com foco marítimo, o DEVGRU desenvolveu ao longo dos anos uma capacidade híbrida, atuando com excelência em ambientes urbanos, costeiros e interiores. Assim como a Delta, o DEVGRU opera dentro de uma lógica de domínio total do ambiente operacional, onde surpresa, velocidade e assimetria são construídas por meio de inteligência e preparação extensiva. A diferença central em relação aos Avispas Negras está no fato de que, para essas unidades americanas, a missão não é defender um espaço ou resistir a um ataque, mas impor um colapso rápido ao sistema adversário.

No contexto brasileiro, forças como o GRUMEC, da Marinha do Brasil, e o COMANF, do Corpo de Fuzileiros Navais, ocupam uma posição intermediária interessante nessa comparação. São unidades altamente profissionais, com processos seletivos rigorosos, treinamento técnico sólido e forte cultura operacional. O GRUMEC, em particular, possui excelência reconhecida em operações marítimas especiais, mergulho de combate e ações de infiltração complexas. O COMANF, por sua vez, desenvolveu uma doutrina robusta de operações anfíbias e ações diretas, com crescente integração a meios modernos de comando e controle.

GRUMEC

A diferença fundamental entre essas forças brasileiras e os Avispas Negras não está na capacidade individual do combatente, mas na filosofia de emprego. Enquanto o modelo cubano prioriza controle, defesa do poder político e compartimentação extrema, as forças brasileiras vêm evoluindo dentro de uma lógica de interoperabilidade, treinamento conjunto e adaptação doutrinária, ainda que com limitações orçamentárias e estruturais conhecidas.

O comparativo deixa claro que o fracasso dos Avispas Negras em Caracas não deve ser interpretado como ausência de treinamento ou coragem, mas como resultado direto de um modelo operacional fechado, concebido para um tipo específico de ameaça e incapaz de responder a um adversário que opera de forma sistêmica, integrada e global.

Forças como Delta Force, DEVGRU e, em menor escala, unidades modernas dos Spetsnaz e forças especiais brasileiras, operam com a compreensão de que a guerra contemporânea não é vencida apenas no contato armado. Ela é vencida na coleta de dados, na análise, na antecipação, na quebra da consciência situacional do inimigo e no controle absoluto do tempo e do espaço.

Caracas demonstrou que, no confronto entre modelos, não basta ser elite. É preciso pertencer a um sistema que permita à elite operar no seu máximo potencial. E essa talvez seja a lição mais dura deixada pelo fim dos Avispas Negras naquela madrugada: no campo das operações especiais modernas, a excelência individual só sobrevive quando sustentada por uma estrutura capaz de evoluir junto com a guerra.

A guerra moderna, especialmente no campo das operações especiais, não perdoa modelos fechados em si mesmos. Quem não evolui, não se adapta e não enxerga o campo de batalha como um sistema integrado acaba derrotado não por falta de vontade, mas por excesso de previsibilidade.

Caracas foi menos um confronto entre homens armados e mais um choque entre épocas diferentes da guerra. E, nesse choque, os Avispas Negras representaram um modelo que já não responde plenamente às exigências do campo de batalha contemporâneo.


por Angelo Nicolaci


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Elbit Systems fecha contratos de US$ 275 milhões para sistemas avançados de guerra eletrônica na Ásia-Pacífico incluindo o DIRCM

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A Elbit Systems anunciou hoje (12) a assinatura de contratos que totalizam aproximadamente US$ 275 milhões para o fornecimento de um conjunto avançado de sistemas de guerra eletrônica (EW) voltados à autoproteção aérea, incluindo seu sistema de contramedida infravermelha direta (DIRCM), para um país da região Ásia-Pacífico. Os contratos serão executados ao longo de um período de cinco anos, reforçando a presença da empresa em um dos mercados estratégicos mais dinâmicos do setor de defesa global.

De acordo com os termos firmados, a Elbit Systems fornecerá um conjunto abrangente de soluções de guerra eletrônica projetadas para proteger plataformas de helicópteros contra ameaças modernas, especialmente mísseis guiados, aumentando significativamente a capacidade de sobrevivência da aeronave e a eficácia no cumprimento de missões em ambientes hostis. A solução integra sensores eletrônicos avançados, processamento de sinais de última geração e contramedidas automatizadas, permitindo alerta antecipado, identificação precisa de ameaças e resposta rápida e coordenada frente a um amplo espectro de riscos.

Entre os sistemas incluídos nos contratos está o Mini-MUSIC DIRCM, desenvolvido para a proteção de aeronaves de asa fixa e rotativa de pequeno e médio porte, incluindo helicópteros. O sistema utiliza tecnologias avançadas de laser e rastreamento para detectar, acompanhar e neutralizar mísseis infravermelhos, oferecendo uma camada crítica de defesa contra ameaças cada vez mais disseminadas no campo de batalha moderno. Construído com base em anos de experiência operacional comprovada e sustentado por centenas de milhares de horas de voo em ambientes militares reais, o Mini-MUSIC já demonstrou sua eficácia na proteção de aeronaves e de seus tripulantes em cenários de alta complexidade.

Os sistemas fornecidos serão adaptados especificamente à plataforma de helicóptero do cliente e às suas necessidades operacionais, garantindo integração plena com os demais sistemas da aeronave e desempenho otimizado em diferentes perfis de missão. Essa flexibilidade permite que as soluções ofereçam proteção robusta tanto em operações convencionais quanto em cenários assimétricos, onde ameaças portáteis e imprevisíveis representam um risco constante.

Esses novos contratos se somam a uma série de acordos firmados pela Elbit Systems nos últimos anos no segmento de autoproteção aérea, abrangendo diversos países e forças armadas, incluindo nações da OTAN e outros operadores europeus. O movimento reforça a posição da empresa como um dos principais fornecedores globais de soluções integradas de guerra eletrônica e proteção de plataformas aéreas.

Comentando sobre o anúncio, Bezhalel (Butzi) Machlis, Presidente e CEO da Elbit Systems, destacou que os contratos refletem a crescente confiança dos clientes da região Ásia-Pacífico nas soluções avançadas e comprovadas em combate desenvolvidas pela empresa. Segundo ele, os sistemas integrados de guerra eletrônica e contramedidas DIRCM da Elbit oferecem capacidades altamente sofisticadas de detecção e neutralização de ameaças, elevando a sobrevivência das aeronaves e a eficácia operacional em ambientes de missão cada vez mais complexos. Machlis ressaltou ainda o compromisso da empresa em fortalecer parcerias estratégicas e apoiar as necessidades em constante evolução de seus clientes em uma região considerada prioritária para a indústria de defesa.


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TERREMOTO NO HAITI - "A coragem é a primeira das qualidades humanas, porque é a qualidade que garante as demais."*

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Somos administradores do caos, os Batalhões de Paz Brasileiros no Haiti, eram preparados para um enorme fluxograma de situações, mas cerca de 300 mil mortos em um minuto e meio, em Porto Príncipe, não estava nos planejamentos. No meu primeiro dia de missão, como Oficial de Estado-Maior de Assuntos Civis (G-9), fiquei soterrado no QG da ONU em 12 de janeiro de 2010, onde mais de 130 almas desencarnaram e apenas 5 não estavam no manifesto, eu sou um deles.

Vi a morte chegar, pedi a Deus para não me acovardar, para cuidar da minha Família e agradeci a abundante existência, assim como faço até hoje. Lembro do meu Adjunto, Major Guimarães, correr à frente com a minha mochila e ser soterrado; ouvi o último suspiro de várias pessoas na cápsula de sobrevivência; tirei a corda da bandeira da ONU e, com a ajuda do Coronel Kersul, desescalei o prédio tombado à procura de sobreviventes. Embaixo, escutei o Tenente-Coronel Alexandre Santos pedindo socorro; entrei num túnel à sua procura e outros tremores ocorreram, foram quase 30 em 12 horas, período que lá fiquei. Falei pra ele: vou buscar ajuda! A Companhia da Bolívia estava chegando no local, os guiei até lá e com as mãos, depois de quase 6 horas, conseguimos retirá-lo numa maca.

Carreguei pessoas que morreram nos meus braços ao chegarem nas ambulâncias e em carros na MINUSTAH. Vi cenas surreais...Continuei procurando pessoas na estrutura, identifiquei Jude Brice, um Agrônomo haitiano formado no Brasil. Ouvi batidas na laje e respondi, 12 horas depois ele foi salvo.

O Coronel Soares, hoje General, então Subcomandante do BRABATT, ao ouvir o meu relato pelo rádio da viatura, pois os celulares não funcionavam, mandou me resgatar, uma das suas muitas decisões de líder naquele momento. Ele também me autorizou a voltar 48 horas depois para resgatar os corpos dos Irmãos tombados.

De G9, junto com a minha Equipe – Capitão de Fragata Marcio, Tenente-Coronel Spangenbeg, Major da Bolívia Adriazolla, Subtenentes Casemiro e Neves, e Sargentos Aijalon e Airton; fomos elevados às responsabilidades de Ajuda Humanitária. Coordenamos e participamos da distribuição de 10 mil toneladas de materiais, em 7 meses; auxiliamos mais de 300 instituições; produzimos projetos para ajudar aquele povo: reforma de escola, criação de praça poliesportiva, estruturação de colônia de pescadores na Ilha de La Gonave, limpeza dos canais e recuperação do meio ambiente. Atuamos nos locais dos mais necessitados e onde a tropa operava para pacificar.

Como conseguimos tudo isso? Ao projetar o Estado Brasileiro, nós militares o fazemos com VALORES, isto nos confere o lastro moral para a luta. Temos valores, o Exército Brasileiro tem valores: Patriotismo, Civismo, Fé na Missão, Amor à Profissão, Espírito de Corpo e Aprimoramento Técnico-Profissional. A Instituição é maior que seus homens e é perpétua! Desde 2010, ministrei, no Brasil e no exterior, palestras sobre a importância dos valores em situações de crise. Emocionante observar públicos tão diferentes com o mesmo resultado de estímulo emocional. Fazer o bem faz bem e contagia!  

Nestes 16 anos do Terremoto no Haiti, gostaria de reverenciar a memória da Doutora Zilda Arns, do Embaixador Luiz Carlos da Costa, do Tenente PMDF Cleiton e dos Heróis do Exército Brasileiro, responsáveis por manter um ambiente seguro e estável no Haiti e projetar o Brasil no mundo: Coronéis Emílio, Zanin e Cysneiros; os Majores Adolfo e Guimarães; o Tenente Bruno; o Subtenente Raniel Camargos; os Sargentos Souza Lima, Davi e Carvalho; os Cabos Seraphin, Pedrotti e Arí; e os Soldados Felipe, Anacleto, Detimermani, da Silva e Kleber. Solicito, um minuto de silêncio...

Foi uma honra estar em momento tão difícil no Haiti e cumprir a minha missão de Brasileiro!


Coronel Veterano do Exército Brasileiro Adriano AZEVEDO, 12 de janeiro de 2026.


Este testemunho foi escrito pelo Coronel Adriano de Souza Azevedo, veterano do Exército Brasileiro, um dos nossos heróis nacionais que serviu no Haiti durante a MINUSTAH, exatamente no período mais dramático e desafiador da missão brasileira sob a égide da ONU. Suas palavras não são apenas um relato pessoal, mas um registro histórico vivo do heroísmo, da coragem, da liderança e dos valores que norteiam as Forças Armadas do Brasil. Elas traduzem o espírito de sacrifício de homens e mulheres que, mesmo diante do caos absoluto instaurado naquele fatídico 12 de janeiro de 2010, escolheram salvar vidas, cumprir a missão e honrar a Pátria. Esta é também uma homenagem solene a todos os que tombaram naquele dia, aos que sobreviveram carregando marcas eternas na alma, e a cada militar, policial, civil e brasileiro que esteve no Haiti, projetando ao mundo o que o Brasil tem de mais nobre: humanidade, coragem, solidariedade e compromisso com a paz.



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*Winston Churchill


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Exército Brasileiro avança nas negociações para aquisição do sistema antiaéreo EMADS

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O Exército Brasileiro entrou na fase decisiva do processo que pode resultar na aquisição do sistema antiaéreo de média altura e médio alcance EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), desenvolvido pela MBDA. A negociação, conduzida no formato governo a governo, ganhou ritmo nas últimas semanas e já envolve a discussão de termos técnicos, logísticos e financeiros, indicando que a decisão deixou o campo dos estudos preliminares e avançou para um estágio mais concreto.

A possível incorporação do EMADS representa um movimento estratégico relevante, especialmente diante das limitações históricas da defesa antiaérea terrestre brasileira. Atualmente, o país dispõe majoritariamente de sistemas de curto alcance, adequados à proteção pontual de tropas e instalações específicas, mas insuficientes para lidar com ameaças modernas que operam em médias altitudes e a maiores distâncias, como aeronaves de alta performance, mísseis de cruzeiro e veículos aéreos não tripulados de longo alcance.

Essa lacuna operacional tornou-se ainda mais evidente nos últimos anos, à medida que conflitos recentes ao redor do mundo demonstraram o papel central da defesa aérea na proteção de infraestruturas críticas e na garantia da liberdade de ação das forças terrestres. Nesse contexto, o Exército Brasileiro passou a buscar uma solução capaz de elevar significativamente seu patamar tecnológico e operacional.

O EMADS surge como a alternativa que melhor atende a esses requisitos. Trata-se de um sistema modular, móvel e altamente interoperável, baseado nos mísseis da família CAMM e CAMM-ER, capazes de engajar múltiplos tipos de alvos com cobertura de 360 graus. Seu conceito de lançamento vertical, aliado a sensores modernos e sistemas avançados de comando e controle, permite rápida reação e integração com outras camadas da defesa aérea.

Um dos fatores que pesaram na escolha da solução italiana foi a sinergia com capacidades já existentes nas Forças Armadas brasileiras. A Marinha do Brasil, por exemplo, adotou os mísseis CAMM nas fragatas da Classe Tamandaré, o que abre caminho para ganhos logísticos, padronização de treinamentos e maior interoperabilidade entre as forças, reduzindo custos ao longo do ciclo de vida do sistema.

A formalização dessa preferência ocorreu com a publicação.no início de 2026 da diretriz do Estado-Maior do Exército, que estabelece os parâmetros para a obtenção de um sistema de artilharia antiaérea de média altura e médio alcance. O documento define não apenas o EMADS como referência principal do programa, mas também delineia etapas de implantação, capacitação de pessoal, infraestrutura de apoio e perspectivas de modernização futura.

Antes disso, o Brasil chegou a considerar outras alternativas, como o sistema indiano Akash. No entanto, divergências relacionadas à versão tecnológica oferecida e à capacidade de atender aos requisitos operacionais brasileiros levaram ao encerramento das negociações, abrindo espaço para uma solução europeia considerada mais alinhada às necessidades da Força Terrestre.

As negociações com a Itália avançam no momento em que o orçamento de defesa passa a refletir, ainda que de forma gradual, a compreensão da importância da defesa aérea. Estimativas indicam que os investimentos associados ao programa podem variar entre 3,4 e 5 bilhões de reais, dependendo da configuração final do sistema, do pacote logístico, do suporte técnico e das condições de financiamento acordadas entre os governos.

Além do ganho operacional imediato, o acordo em discussão também envolve expectativas de cooperação industrial e transferência de tecnologia. Esse aspecto é visto como fundamental para fortalecer a base industrial de defesa brasileira, ampliar a autonomia tecnológica do Brasil e criar condições para futuras evoluções do sistema em território nacional.

Do ponto de vista estratégico, a aquisição do EMADS representa mais do que a introdução de um novo sistema. Trata-se de um passo concreto rumo à construção de uma defesa aérea em camadas, conceito amplamente adotado por países que levam a sério a proteção de seu espaço aéreo. Ao integrar sistemas de curto, médio e, no futuro, longo alcance, o Brasil amplia sua capacidade de dissuasão e reduz vulnerabilidades críticas em um cenário internacional cada vez mais instável.

A experiência recente de conflitos modernos demonstra que a ausência de uma defesa aérea eficaz pode comprometer não apenas operações militares, mas também a segurança de centros urbanos, instalações industriais, portos, aeroportos e estruturas energéticas. Para um país de dimensões continentais como o Brasil, essa vulnerabilidade assume proporções ainda maiores.

Nossa análise é clara: o avanço nas negociações para a aquisição do EMADS sinaliza maturidade estratégica e compreensão do ambiente de ameaças do século XXI. Investir em defesa aérea não é um luxo nem gasto, mas uma necessidade básica da soberania. A continuidade desses investimentos, com planejamento de longo prazo e estabilidade orçamentária, será determinante para que o Brasil deixe de atuar de forma reativa e passe a ocupar uma posição mais consistente na proteção de seu território e de seus interesses estratégicos.


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domingo, 11 de janeiro de 2026

Análise - Irã em ponto de inflexão: crise interna, pressões externas e o risco de um erro de cálculo histórico

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O Irã atravessa um daqueles momentos raros em que variáveis internas e externas se alinham de forma perigosa, criando um ambiente estratégico altamente instável. Não se trata apenas de protestos recorrentes, de uma crise econômica cíclica ou de mais um capítulo da longa tensão entre Teerã e o Ocidente. O que se observa é um processo estrutural de desgaste do modelo de poder iraniano, somado a um ambiente internacional que embora evite discursos inflamados, se prepara silenciosamente para diferentes cenários.

Esses períodos de inflexão histórica costumam ser mal interpretados em tempo real. Governos tendem a superestimar sua capacidade de controle, enquanto atores externos, muitas vezes, subestimam a resiliência de regimes autoritários. O perigo não reside apenas na crise em si, mas na combinação entre convicções rígidas, leituras equivocadas e decisões tomadas sob pressão.

Desde 1979, a República Islâmica do Irã construiu sua sobrevivência a partir de uma lógica de segurança permanente. O regime nasceu sob a percepção de cerco externo e internalizou essa visão como doutrina de Estado. O controle social rígido, a repressão seletiva e a centralidade da Guarda Revolucionária não são desvios autoritários ocasionais, mas pilares estruturais de governança. A legitimidade do sistema não se baseia no consenso amplo, mas na capacidade de impor ordem, manter coesão interna e projetar força.

Esse modelo foi eficaz por décadas, sobretudo porque se apoiava em uma geração moldada pela revolução e pela guerra contra o Iraque. No entanto, a sociedade iraniana de hoje é profundamente diferente daquela que sustentou o regime em seus primeiros anos. A demografia mudou, os centros urbanos se expandiram, o nível educacional cresceu e a exposição ao mundo exterior tornou-se inevitável, mesmo sob censura.

A economia, que já foi instrumento de coesão nacional durante períodos de confronto, transformou-se em fator de erosão social. Sanções prolongadas, má gestão estrutural, corrupção endêmica e isolamento financeiro criaram um ambiente no qual expectativas de ascensão social praticamente desapareceram para grande parte da população jovem. O descompasso entre qualificação e oportunidades é um dos motores silenciosos da insatisfação.

Os protestos recentes expressam essa mudança qualitativa. Eles não surgem apenas como reação a medidas específicas, mas como manifestação de um esgotamento psicológico coletivo. Quando a contestação deixa de pedir reformas pontuais e passa a questionar o próprio sentido do presente e do futuro, o regime enfrenta um desafio mais profundo do que a simples restauração da ordem.

O aparato repressivo segue funcional. A Guarda Revolucionária mantém coesão, as forças de segurança permanecem leais e o sistema judicial continua alinhado ao núcleo do poder. Contudo, a história mostra que regimes não colapsam apenas quando perdem capacidade coercitiva, mas quando começam a sofrer fissuras internas, fadiga institucional e conflitos silenciosos entre elites políticas, militares e econômicas.

A posição regional do Irã amplifica cada tensão doméstica. Trata-se de um ator central no equilíbrio de poder do Oriente Médio, com influência direta no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. Qualquer sinal de instabilidade interna desperta atenção imediata de Israel, não por retórica ideológica, mas por cálculo estratégico. Países do Golfo observam com cautela, temendo tanto uma escalada militar quanto um colapso desordenado que gere instabilidade crônica.

O uso de atores não estatais aliados, como o Hezbollah, Hamas e Houthis permanece como instrumento de dissuasão e projeção indireta. Esse modelo permite ao Irã ampliar sua influência regional sem confrontação direta, mas também cria riscos de escaladas involuntárias, sobretudo em contextos de crise interna, quando governos recorrem a ameaças externas como mecanismo de coesão doméstica.

No plano internacional, os Estados Unidos adotam uma postura deliberadamente ambígua. Washington evita discursos maximalistas sobre mudança de regime, consciente do histórico de intervenções mal-sucedidas. Ao mesmo tempo, os sinais operacionais indicam que a crise iraniana é tratada como cenário de alta prioridade estratégica.

A movimentação de forças especiais americanas para o Reino Unido deve ser interpretada sob essa lógica. Não se trata de um prenúncio automático de intervenção, mas de preparação logística e operacional para resposta rápida. Bases britânicas oferecem capacidade estratégica, interoperabilidade com aliados da OTAN e acesso facilitado a múltiplos teatros. Esse tipo de posicionamento é típico de estratégias de dissuasão moderna: estar pronto sem anunciar intenção.

Exercícios conjuntos, reforço de capacidades de inteligência, vigilância ampliada e coordenação com aliados europeus indicam que Washington trabalha com cenários que vão desde uma escalada regional até um colapso parcial do Estado iraniano. A prioridade parece ser evitar surpresa estratégica, não provocar confronto direto.

A Europa adota uma postura ainda mais cautelosa, moldada por vulnerabilidades próprias. O continente teme impactos diretos sobre fluxos migratórios, estabilidade energética e segurança interna. Por isso, a resposta europeia se concentra em sanções direcionadas, condenações diplomáticas e esforços para manter canais de diálogo abertos. A leitura predominante é que qualquer colapso abrupto do Irã produziria efeitos sistêmicos difíceis de conter.

É nesse ponto que a inteligência comparativa se torna essencial. O Iraque de 2003 demonstrou como a remoção de um regime autoritário pode destruir o próprio Estado. A Síria desde 2011 ilustra como repressão prolongada combinada com fragmentação social gera guerras de duração indefinida. A Líbia evidencia os riscos do colapso institucional sem plano de reconstrução. A dissolução da União Soviética mostra que sistemas aparentemente sólidos podem implodir de forma lenta, silenciosa e inesperada. Assim como a Venezuela revela os limites da pressão externa direta e a resiliência de regimes isolados.

O Irã observa com atenção, assim como Washington e seus aliados.

Nesse contexto, a atuação do príncipe herdeiro Reza Pahlavi adiciona uma variável simbólica relevante. A partir dos Estados Unidos, ele tenta se apresentar como figura de unidade e alternativa de poder. Historicamente, líderes no exílio tendem a superestimar sua capacidade de mobilização interna e subestimar a complexidade sociopolítica do país que pretendem governar. Para o regime iraniano, sua presença é útil como instrumento narrativo, reforçando a ideia de conspiração estrangeira.

Até o momento, os Estados Unidos evitam endossar projetos personalistas de mudança de regime, conscientes de que a história demonstra os riscos de se apostar em soluções simplificadas para problemas profundamente estruturais.

Diante desse cenário, alguns desdobramentos permanecem plausíveis. Uma estabilização repressiva com concessões mínimas. Um processo gradual de acomodação interna. Uma fragmentação lenta e perigosa das estruturas de poder. Uma tentativa de desvio por meio de escalada regional. Ou, no pior cenário, um erro de cálculo interno ou externo que desencadeie uma crise de grandes proporções.

Nenhuma dessas trajetórias é inevitável, mas todas estão abertas.

O maior risco neste momento não é a mudança em si, mas a má leitura do tempo histórico. Estados raramente colapsam quando todos esperam. Eles colapsam quando acreditam demais em suas próprias narrativas ou quando seus adversários confundem prontidão com controle.

Os cenários que se desenham a partir da atual crise iraniana não apontam para uma única trajetória linear, mas para um campo de possibilidades onde variáveis internas e externas interagem de forma dinâmica. Um primeiro cenário, considerado por muitos analistas como o de menor atrito imediato, é o da sobrevivência adaptativa do regime. Nele, o sistema teocrático-islâmico consegue absorver o choque por meio de repressão seletiva, concessões econômicas pontuais e uma reorganização interna das elites, especialmente dentro do IRGC. Esse modelo já foi testado no passado, sobretudo após 2009, e se baseia na fragmentação da oposição, no cansaço social e na ausência de uma liderança interna capaz de unificar o descontentamento. A leitura de Washington e das capitais europeias é que esse cenário não representa estabilidade real, mas apenas posterga uma crise estrutural mais profunda, mantendo o Irã como um ator imprevisível, pressionado economicamente e cada vez mais dependente de alianças assimétricas com Rússia e China.

Um segundo cenário, mais instável e potencialmente explosivo, envolve uma escalada de protestos com fissuras reais dentro do aparato de segurança e do sistema político. Aqui, o ponto de inflexão não seria apenas a mobilização popular, mas a decisão de setores do IRGC, da polícia ou mesmo do clero de não sustentar integralmente a repressão. Esse tipo de dinâmica guarda paralelos perigosos com a Síria em 2011, quando manifestações inicialmente localizadas evoluíram para um conflito sistêmico ao se cruzarem com deserções e disputas internas pelo poder. No caso iraniano, o risco adicional reside na capacidade do regime de externalizar a crise, provocando tensões regionais no Golfo, no Iraque, no Líbano ou mesmo com Israel, como forma de recompor a coesão interna por meio do inimigo externo. É precisamente esse cenário que mantém forças especiais americanas em prontidão e justifica a concentração de meios no Reino Unido, ponto logístico-chave para projeção rápida no Oriente Médio.

Um terceiro cenário, observado com atenção crescente por círculos de inteligência ocidentais, é o da transição induzida externamente, ainda que sem uma invasão direta nos moldes do Iraque em 2003. Trata-se de uma combinação de pressão econômica máxima, isolamento diplomático, operações de informação, apoio indireto a grupos oposicionistas e estímulo a lideranças no exílio, entre elas Reza Pahlavi, que tem se posicionado de forma cada vez mais explícita como alternativa simbólica ao regime. Diferentemente do Iraque ou da Líbia, onde a remoção do poder ocorreu de forma abrupta e militarizada, esse modelo buscaria uma implosão controlada do sistema, embora a experiência histórica mostre que o controle raramente se mantém após o colapso das estruturas centrais. Para os europeus, esse é o cenário mais desconfortável: desejam mudanças, mas temem o vácuo de poder, a fragmentação territorial e uma nova onda de instabilidade regional com impactos diretos sobre energia, migração e segurança.

Por fim, existe um quarto cenário, menos discutido publicamente, mas presente nas análises mais profundas: o de uma transição caótica e prolongada, marcada por disputas entre múltiplos polos de poder, ao molde da lenta derrocada da extinta União Soviética, porém em um contexto muito mais volátil. Nesse quadro, o Irã não colapsa de uma vez, nem se reforma plenamente. Ele se fragmenta politicamente, com centros de poder concorrentes, economias paralelas, milícias regionais e crescente perda de controle do Estado central. Esse cenário seria extremamente perigoso para o equilíbrio estratégico do Oriente Médio, especialmente no que diz respeito ao programa nuclear, ao controle de mísseis balísticos e às redes de influência iranianas fora de suas fronteiras. É justamente para esse tipo de desfecho que os Estados Unidos mantêm uma postura de vigilância intensa, combinando dissuasão militar, coordenação com aliados europeus e sinais claros de que, assim como na Venezuela, não aceitam indefinidamente regimes considerados hostis quando estes entram em estado de colapso interno prolongado.

O Irã encontra-se, de fato, em um ponto de inflexão. A história ainda não definiu o desfecho. Mas uma lição permanece clara: o custo de errar agora será alto demais para todos os envolvidos, dentro e fora da região.

Quando os fatos finalmente se cristalizarem, quando os arquivos forem abertos, quando as decisões hoje tomadas em silêncio vierem à tona, ficará evidente que os sinais estavam todos ali, visíveis para quem soube observar com método, história e coragem intelectual. Esta análise não pretende prever o futuro com arrogância, mas registrar, com responsabilidade estratégica, o momento exato em que a história começou a mudar de direção. E é nesse ponto que o GBN Defense se posiciona: não como espectador dos acontecimentos, mas como intérprete atento do tempo em que eles ainda estavam sendo escritos.


por Angelo Nicolaci


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